Dia Nacional do Samba

Faz parte da cultura do samba um chororô permanente que, ainda que tenha raízes verdadeiras, sutenta certa vitimização que me incomoda um pouco. Sim, concordo com os baianos, o samba é filho da dor, mas me concentro na outra identidade, a de pai do prazer. No frigir dos ovos e no requebrar das cadeiras, eu fecho com Paulinho:

Há muito tempo eu escuto esse papo furado dizendo que o samba acabou

– só se foi quando o dia clareou!

Para me certificar, a cada vez que ouço falar do fim, não me resta alternativa a não ser sair pra sambar…

(Do Amador_a)

Eu canto samba
Por que só assim eu me sinto contente
Eu vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade
Se fico sozinho ele vem me socorrer

Eu canto samba, Paulinho da Viola

Helê

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Curiosidade

Tem uma samba antigo do Monarco (em parceria com Walter Rosa) que eu adoro, chama-se Tudo, menos amor. Acho uma delícia, e sua história me intriga desde o título – você há de concordar que ‘tudo menos amor’ suscita uma interrogação imediata. Como assim? Pois é o que diz o autor: ele dará carinho se houver necessidade, e vai até rezar pela felicidade da fulana, mas dar a ela seu amor, jamais. Então, quando você pensa que ele vai desenrolar a história, numa daquelas crônicas tão comuns no samba, ele despista, com evasivas: “coisas da vida, é mesmo assim”. Minha curiosidade só faz crescer alguns versos mais tarde, quando esse alguém, cuja vasta generosidade só exclui o amor, afirma que “nesse romance existem lances sensacionais”. Quais, meu deus?! Se ele não ama a mulher, não seria o caso de se afastar, simplesmente? Chega a ser cruel ficar negando amor repetidamente – ainda que ofereça tudo mais, talvez como compensação. Por fim, o danado ameaça novamente contar o babado completo ao falar em amor verdadeiro e naqueles ilusórios, e cutuca a curiosidade do ouvinte falando em uma “história de sinais sensíveis e reais”… apenas para, novamente,  dizer nananinanão, meu amor jamais.

Qualquer hora dessas eu esbarro no Monarco numa das muitas rodas aqui do Rio e se  o nível de sangue no meu álcool estiver suficientemente baixo, ele há de me contar essa história direitinho!

Helê

Dia Nacional do Samba

Hoje é dia nacional do samba, pretexto pra festa, cerveja e rodas de samba no meio da semana, subúrbio a fora. Uma das minhas teses não desenvolvidas –  e elas são muitas! – é que o samba é o gênero musical mais autorreferente de todos. Nenhum outro fala mais de si mesmo, de seus adeptos e seguidores, sua história. Pode ser ignorância minha – bem provável – mas não vejo o rock, o forró ou o blues falando de si, muito menos com a recorrência que acontece no samba. Ele pode falar na primeira pessoa

Eu sou o samba, sou natural daqui do Rio de Janeiro

Sou eu quem levo a alegria pra milhões de corações brasileiros

Há canções sobre quem samba

Há quem sambe muito bem/há quem sambe por gostar/há quem sambe pra ver os outros sambar

Sobre quem faz samba:

O samba é meu dom

Aprendi bater samba ao compasso do meu coração

De quadra, de enredo, de roda, na palma da mão

De breque, de partido alto e o samba canção

E assim podemos seguir quase que indefinidamente. Apenas pra terminar o post a tempo de sambar um pouquinho, eu deixo esses versos que eu acho simplesmente perfeitos, de rara beleza:

O samba é o pai do prazer, o samba é filho da dor, o grande prazer transformador

E embora eu seja ‘clínica geral’, como descreve um divertido samba do Molejo, deixem eu ilustrar esse post com essa minha imagem sambista, clicada por la Otra:

Não põe no meu

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Não põe corda no meu bloco

Nem vem com teu carro-chefe

Não dá ordem ao pessoal

Não traz lema nem divisa

que a gente não precisa

que organizem nosso carnaval

Plataforma, João Bosco e Aldir Blanc

Não tocou no domingo, mas esse delicioso samba de Bosco e Blanc encaixa-se perfeitamente aos propósitos da Bloqueata, uma passeata de blocos cariocas. Não os imensos como o Simpatia (é quase amor),  o Suvaco (do Cristo) ou o Monobloco, mas os pequenos, quase micro comparados aos irmãos mais velhos, que juntos formam a DesLiga de blocos. A Prefeitura estipulou que todas as agremiações tinham até o dia 31 de agosto para se cadastrarem para os desfiles de 201o; a Desliga argumenta que não é possível fazê-lo com tanta antecedência assim, e

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que isso mataria a espontaneidade que é justamente o charme desses pequenos grupos – que, diga-se de passagem, garantiram alguns dos melhores momentos do carnaval passado, exatamente porque, sem estarem plenamente institucionalizados, não sofreram com o excesso de foliões que deixa outros tantos blocos intransitáveis e incurtíveis. Os  organizadores não desafiam ou questionam a ordem, mas reivindicam dois pesos e duas medidas. E sobretudo pedem o diálogo, que a Prefeitura ouça e que todos se manifestem. O Dufas oferece então sua caixa de comentários à causa. Acho que eles têm razão, e o que se poderia fazer agora seria um esboço, um pré-roteiro a ser confirmado posteriormente. E você, o que acha?

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Evidentemente que as poucas centenas de pessoas que deixaram mais cedo a praia ou o almoço familiar para ir à deserta Praça XV queriam também, e muito, um bocadinho de carnaval, já que, como se sabe, uma vez por ano é sacanagem. Todo mundo queria protestar, claro, mas reivindicava também o direito a uma alegria fulgaz – afinal era um Bailão não pré, mas Pró-Carnaval. E o melhor dele, o humor carioca, esteve  presente, seja em alegorias e adereços, no próprio nome do evento, ou no coro puxado a certa altura: “Ô Belchior/cadê você?eu vim aqui só pra te ver!”

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E aí a Pssoua vai ali um instantinho fazer uma breve participação política e pimba!, acaba na página 2 de O Globo. Realmente, os papparazzi estão cada vez mais insuportáveis, humpf. 😉

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Para relembrar o samba:

Helê

As cabrochas

Fevereiro 15, 2007


Lembram delas, que desfilaram por aqui no ano passado? Quem quiser reler o texto ou conhecê-lo, passa lá no Chatô, na parte do nosso bestófi. Deixando pegadas, sempre.

Helê

De Bob Dylan a Bob Marley – um samba-provocação


Gilberto Gil

Quando Bob Dylan se tornou cristão
Fez um disco de reggae por compensação
Abandonava o povo de Israel
E a ele retornava pela contramão

Quando os povos d’África chegaram aqui
Não tinham liberdade de religião
Adotaram Senhor do Bonfim:
Tanto resistência, quanto rendição

Quando, hoje, alguns preferem condenar
O sincretismo e a miscigenação
Parece que o fazem por ignorar
Os modos caprichosos da paixão

Paixão, que habita o coração da natureza-mãe
E que desloca a história em suas mutações
Que explica o fato da Branca de Neve amar
Não a um, mas a todos os sete anões

Eu cá me ponho a meditar
Pela mania da compreensão
Ainda hoje andei tentando decifrar
Algo que li que estava escrito numa pichação
Que agora eu resolvi cantar
Neste samba em forma de refrão:

“Bob Marley morreu
Porque além de negro era judeu
Michael Jackson ainda resiste
Porque além de branco ficou triste”

Monix, ecumênica

Ouça aqui!

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