Viagens possíveis

É domingo de manhã e caminho pelas ruas do Porto sentada no meu sofá, sentindo saudades desse lugar que ainda não visitei mas surge familiar na imagem em 4K (e onde me espera um amigo que talvez eu tivesse encontrado neste ano, se 2020 não tivesse virado essa fenda no tempo que sequestrou nossos planos e expectativas. Beijo, Pedro!).

 

 

Essa é uma das minhas manias-pandemia, assistir vídeo em 4K na tevê esperta. Não costumo parar para assistir, em geral ligo enquanto trabalho ou faço outra coisa – é a tv companhia.

Já elegi minhas preferências: vídeo gravados a pé, as walk tours, sem música, só o som ambiente e informações adicionas em legendas. Nessa linha eu já passeei pelo Coliseu e pelas pirâmides de Gizé, ótimas viagens. Para Nova Iorque e Paris fui várias vezes: atravessei de novo a ponte do Brooklin para Manhattan, andei por NY em dia de chuva, zanzei por Paris ao entardecer, subi a Torre. Uma das manhãs mais proveitosas da infinitena foi um sábado em que subi até a Basílica de Sacre-Coeur saboreando as ruazinhas de Montmartre. Também já fui parar numa cidadezinha na Bósnia, em outra na Toscana e em Pompeia, quando o vídeo que assistia acabou sem que eu percebesse e o YouTube seguiu me levando por aí.

O Coliseu por dentro – tão ou mais impactante quanto por fora

De vez em quando recorro à natureza: deserto do Saara, cachoeiras, e fundo do mar são os favoritos, mas o problema é que a maioria desses vídeos têm musicas chatíssimas de fundo. Música instrumental colocada com o indisfarçável propósito de relaxar invariavelmente me irrita, é a maneira musical de dizer ‘fique calmo’ — o que, como se sabe, nunca funciona.

This Minimalist Filmmaker Lives Out of a Single Backpack - ValdourNessa onda descobri e virei fã do Kraig Adams, um youtuber andarilho que faz vídeos ótimos e não muito longos das suas caminhadas, quase sempre sozinho, som ambiente. A maneira como ele filma te coloca na trilha junto com ele; às vezes ao final ele dá detalhes de logística da viagem, mas durante é só você e ele caminhando por aí.

A quarentena aqui de casa pode ser narrada pelas muitas fases televisivas pelas quais passamos. Essa eu suspeito que tenha virado um hábito, até porque deve ser a única possibilidade de viajar nos próximos meses ou anos. Às vezes mata as saudades, muitas outras dá mais saudade ainda. T., que deixou o coração no Sena, não consegue voltar à Paris assim, sem poder abraçar. E eu entendo. Mas gosto dessa ilusão de voltar onde já estive, e também de desbravar novos lugares. Também me agrada lembrar como era estar na rua sem medo, como era A.C., quando a gente flanava despreocupado e não contabilizando quem está ou não de máscara. Eu adoro em especial o alarido civilizado dos pontos turísticos, onde a gente ouve uma miscelânea de idiomas, sotaques, empolgações, brigas, cansaços e até silêncios.

E assim seguimos, lidando com as ilusões desejadas, as saudades incontornáveis e as frustrações inevitáveis, esperando encontrar a saída desta fenda no tempo resgatando sonhos e planos.

Helê, dia 252 da quarentena chamada 2020

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