Sabores da Maçã

Visitei o Metropolitan Museum, em Nova York, naquele momento da viagem em que faltam dias e sobram coisas a fazer. Ainda havia na lista o Guggenheim e o Withney – pra ficar só com os museus; acho que nunca haverá dias suficientes para tudo o que se tem pode fazer em NY. Mas acabei concluindo que o Met era obrigatório, e ainda bem: se eu soubesse que veria tantos Van Goghs numa única sala, incluindo um autorretrato, eu não teria pestanejado. E jamais me perdoaria se tivesse perdido essa oportunidade. Esse moço me comove até a raiz dos cabelos, chorei instantaneamente diante de todos os quadros dele que tive a graça de ver de perto.


Met - fachada Vincent

Mas o Met, como dizem os novaiorquinos, tem outros atrativos. Fica em uma belíssima construção encravada no Central Park, é claro, amplo e muito bem sinalizado (ao contrário do Museu de História Natural, tremenda decepção). Mais ou menos como no Louvre, qualquer virada de pescoço é lucro, tudo é lindo (menos, claro; o Louvre é imbatível). Museus podem ser intimidadores (Versailles), instigantes (Brooklin Museum), eficientes (MoMA). O Met tem uma atmosfera acolhedora, friendly: você percebe logo que não vai dar conta, mas tá tudo bem. Como se ele dissesse: “Eu estarei aqui quando você voltar – porque você voltará”. Sendo assim, fiquei o quanto pude e os meus pés deixaram, relaxada, aproveitando. Lembro da impressionante Sala de Armas e Armaduras, dos burgueses do Rodin com quem havia topado em Paris; estátuas magníficas, vestidos deslumbrantes na área dedicada à moda, um portão incrível que até hoje me pergunto como foi parar lá; séculos de arte e engenho.

portão vestido

Saindo do Metropolitan precisei ir à loja da Apple para uma amiga; uma vez lá, aproveitei para tentar consertar o Ipad da minha filha e meu Ipod, ambos com problemas de carregamento. Depois de longa espera, ouvi da jovem atendente que o Ipad não tinha conserto porque era antigo, tinha mais de cinco anos – “obsolete“, disse ela. Imaginei então que ela classificaria o Ipod como paleolítico, e foi quase. No caso dele, o problema era outro mas tão pouco havia conserto: era um modelo “vintage”, ela disse.

Agradeci e vim embora pensando na ironia de ouvir esses diagnósticos depois de ter passado o dia vendo obras de arte de cinco mil anos, de muito antes dela, de mim e da Apple, e cujo interesse e deslumbre permanecem. É para ver em primeira mão essa tecnologia que caduca em cinco anos que as pessoas dormem na fila? Que estranho. Fiquei pensando, por outro lado, que viver essas duas experiências no mesmo dia tem a cara de Nova York, essa metrópole em que convivem em harmonia a arte mais perene e a mais passageira novidade. Então constatei que já havia sido seduzida pela cidade, a ponto de identificar algo tipicamente novaiorquino na obsolescência programada da Apple e na relevância do Met – e gostar desse paradoxo.

geral

Reservatório Jakie Onassis, norte do Central Park

Helê

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Tears of joy

Não lembro exatamente quando, mas foi há muito tempo. Eu ainda ouvia rádio – porque havia estações de rádio para serem ouvidas (suspiro) – e amava aquela voz forte, límpida e amorosa, mas não sabia quem era. Cada vez que tocava eu ficava atenta para entender o nome da música ou da artista; custou mas cheguei a Tuck & Patti e “Tears of Joy” – o que ainda não era muito naqueles tempos sem Google (eu disse que foi há muito tempo). Perguntava em toda loja de discos em que entrava (sim, já existiram lojas de discos, seus incréus), mas ninguém conhecia. Até o dia em que, numa viagem a São Paulo, entrei numa loja especializada e achei o cd da dupla, a voz excepcional de Pat Cathcart e o violão inconfundível de Tuck Andress. Comprei na hora, apesar de ter causado um rombo no orçamento.
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Depois disso ainda encontrei um ou outro álbum deles, mas sempre nas seções de importados, fora do meu alcance$. Com a internet, no entanto, ficou mais fácil acompanhá-los e ouvi-los (“Contra burguês baixe mp3!”). Eles nunca estouraram, mantiveram uma carreira sólida e coerente sem chegar propriamente ao estrelato – o que, a meu ver, não tem absolutamente nada a ver com a qualidade excepcional do som que fazem.

Corta para maio de 2014: eu no quarto de hotel em Nova York, lendo a Time Out como todo mundo me mandou fazer para ver o que estava rolando na cidade. Musicais para todos os gostos, meu futuro marido em cartaz numa peça (para quem estranhamente ainda não sabe: Denzel Washington será meu marido, nesta encadernação ou na próxima), mil opções. Folheio a parte de casas de jazz, gênero que eu gosto mais do que conheço. E dou de cara com um tijolinho que tenho que ler duas vezes pra ter certeza: Tuck & Patti no Blue Note, na semana seguinte. E eu ainda estaria na cidade. Era num bom horário. E cabia no orçamento. A pessoa pessimista pensou: “Mas vai ver não tem mais ingresso, vai lotar…” Falei com a concierge do hotel, que tentou ligar para fazer reserva mas ninguém atendeu. Ok, tento mais tarde, pensei, já achando que era muito bom pra ser verdade. Dias depois, andando pelas imediações da Washington Square dei de cara com o Blue Note. Assim, sem procurar, sem olhar no mapa, sem ter a noção de que estava tão perto. E a bilheteria estava aberta, então pude fazer a reserva.
No dia do show, cheguei cedo e por isso pude perambular pelos quarteirões próximos. Imperava um clima de celebração, várias turmas comemoravam o fim do curso universitário na festa de formatura mais legal que eu já vi: na rua, com barraquinhas, música, gente fantasiada, jovens de beca, pais sorridentes, um clima festivo de expectativa e esperança. Aguardando um sinal para atravessar a rua, reparo em uma mãe e o filho, negros, ela com um bottom enorme na lapela, distribuído pela organização do evento: “I’m a proud parent of a NYCU graduate”. Não resisti a lhe dizer: “Congratulations!”; ela agradeceu, ainda mais orgulhosa.

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Contei tudo isso só para explicar porque, quando Pat entrou no palco do Blue Note aquela noite e soltou a primeira nota, acompanhada pelo primeiro acorde do Tuck, eu não segurei as lágrimas, my tears of joy. Eu não apenas estava em Nova York – uma frase que pareceu improvável por muito tempo. Eu estava no célebre Blue Note assistindo ao show de Tuck & Patti. Foi um sonho que se realizou sem que eu sequer o tivesse sonhado. E foi melhor do que eu poderia antecipar. A voz de Pat ao vivo envolve, aquece e conduz você por onde ela quiser, nem tente resistir. Não bastasse isso, ela é uma intérprete carismática, divertida, presença a um só tempo doce e radiante. Tuck e seu violão fazem a moldura perfeita para ela, são coadjuvantes à altura da protagonista. A reserva estava ok, sentei em uma mesa próxima ao palco com duas israelenses simpáticas (uma delas apaixonada pelo Brasil que até arriscou umas palavras em português!); o táxi da volta foi eficiente e honesto, deu tudo rigorosamente certo. A night to remember, indeed.

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Helê

Em tempos de férias

Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”

Amyr Klink

Helê

Inveja

Nenhum orgulho em confessar, muito pelo contrário. Mas é fato: eu simplesmente não consigo ver programas de viagem. Nenhum. Os de mulé-modelo-gostosa que vai pra lugar paradisíaco então, nem pensar (era especialidade do Sportv) . Mas mesmo os mais bacanas como “O Brasil é aqui”, que tinha no GNT;  e despojados como o “Vai pra onde?” , do Multishow, eu fico igual a sua vó, incomodada. Vejo um episódio, um trecho e largo de mão.  Depois de muito matutar descobri o motivo : a mais pura e genuína inveja. Pronto, falei.com.br.

 

Helê

Diário d’além-mar – parte final

– O que mais dificulta a compreensão nem é o sotaque, é o vocabulário. Em Portugal fechado é encerrado, estacionamento é parque, pedágio é portada, cardápio é ementa, chope é imperial, celular é telemóvel. Isso sem falar nos indefectíveis eléctrico, autocarro, comboio.  Para treinar, só com muito José Saramago, Miguel de Souza Tavares, Inês Pedrosa e outros.

– Por falar em literatura, livros e CDs são caros. Só vale a pena comprar o que realmente não chegou ao Brasil, como o novo fado dos Deolinda ou os romances históricos da Maria Helena Ventura. DVDs não são compatíveis com a região do Brasil, portanto só compre se tiver um aparelho desbloqueado.

– Quem tiver tempo de pegar a estrada rumo ao norte do país pode anotar duas dicas preciosas. A primeira são as ruínas de Conímbriga, muito interessantes por mostrarem uma cidade romana com toda sua dinâmica urbana: casas, termas, o fórum, o anfiteatro… Tudo muito bem preservado e acompanhado por um museu cujo acervo inclui apenas objetos encontrados no sítio arqueológico. A outra é a aldeia de Gondramaz, na região das Aldeias de Xisto. Uma preciosidade encarapitada na serra da Lousã, com casas e ruas de pedra e, principalmente, muita paz e tranqüilidade. No final da aldeia há um restaurante que oferece hospedagem em esquema de turismo rural. Vale a pena fazer um rápido desvio caso se esteja indo a Coimbra, para um almoço numa típica aldeia portuguesa. Ou até um pernoite em plena serra. Mas não vá sem reserva, pois as instalações são pequenas, o esquema é bem caseiro e o atendimento é limitado a alguns dias da semana.

– Por fim, uma informação importante e útil para quem vai à Europa: os países membros do Espaço Schengen, com o qual o Brasil tem acordo, não exigem visto prévio, mas é necessário provar que tem meios de subsistência por um período máximo de três meses, além de seguro saúde por todo o período da viagem. A má notícia é que como não há análise prévia, o viajante pode ser recusado na entrada do país e ter que voltar para casa (mas quem cumpre esses requisitos geralmente é aceito). A boa notícia é que uma vez concedido o visto, é possível circular livremente pelos outros países, quase como se estivesse fazendo uma viagem doméstica.

Tô de volta, pessoas. Agora prometo que mudo de assunto. (Ou não!)

-Monix-

Dicas d’além-mar parte 3

– Em Portugal, muitos museus e atrações turísticas têm entrada gratuita aos domingos pela manhã – alguns até meio-dia, outros até as duas da tarde. Vale a pena se informar e aproveitar. Por outro lado, segunda-feira é dia de museus fechados. Mas nem todos. Há alguns que fecham às terças, como por exemplo o Palácio Nacional de Sintra. É importante dar uma olhada em um guia de viagens atualizado ou pesquisar na internet, ou, ainda, perguntar nos centros de apoio ao turista, para não dar com a cara na porta. Os horários de abertura e fechamento também variam, é bom ficar atento. (Em Coimbra perdemos o Convento de Santa Clara por 10 minutos!)

– Algumas atrações oferecem ingressos combinados. Para conhecer os conventos de Alcobaça, Batalha e Tomar (os três são próximos e todos valem a visita, cada um com suas características próprias), é possível comprar um bilhete único, com prazo de alguns dias para utilização, por 12 euros. Em Sintra, é possível escolher dentre as principais atrações (Parque e Palácio da Pena, Monserrate, Castelo dos Mouros, Mosteiro dos Capuchos) e comprar bilhetes combinados com prazo de dois dias.

– Aliás, Sintra vale uma visita mais demorada, talvez até passando a noite por lá. Uma dica preciosa: o circuito da Pena, que fica numa encosta, é atendido por uma linha de ônibus (434), o que evita a longa caminhada ladeira acima.

– Momento “Dufas Também é Cultura”: você sabe a difenrença entre castelo e palácio?

-Monix-

Diário d’além-mar parte 2

– Há cantos de Portugal que só se pode conhecer de carro. Quem tiver tempo para isso, deve reservar uns dias para a estrada. Mas antes planeje bem o itinerário (ou se perca, que também é coisa boa de se fazer viajando). As estradas têm uma sinalização bastante irregular, e de repente o motorista se vê sem saber bem para que lado seguir. À parte isso, são rodovias bem cuidadas, mesmo as vias secundárias – e provavelmente por causa disso mesmo, as portagens (pedágios) são caras. Funciona assim: na entrada da rodovia há uma cabine para retirar o bilhete, emitido por uma maquineta (cuidado para não entrar nas cabines sinalizadas de verde, estas são para portadores de passes especiais). Na saída da rodovia, há cabines com funcionários, onde é calculado o valor devido em função da distância percorrida. Um sistema justo, mas dependendo do quanto o cidadão rodar, pode sair caro.

– Muito cuidado com os caminhoneiros. Nós que estamos acostumados com os amigos de fé irmãos camaradas, que dão passagem sinalizam e ajudam a enfrentar as dificuldades das estradas brasileiras, não estamos preparados para os motoristas de caminhão de Portugal.

– A rede de comboios (trens) atende boa parte da Grande Lisboa e é bem eficiente. Mas aqui, definitivamente, não é a Inglaterra. Os trens atrasam.

Depois conto mais.

-Monix-

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