Nada mesmo?

A frase é tão comum que virou clichê: “não me arrependo de nada que fiz, só do que não fiz”. Besteira, né? Como eu mesma já disse isso (eu era jovem, se é que faz diferença), devo começar me arrependendo disso.

Quem em sã consciência pode dizer que não se arrepende de nada do que fez? Peloamor. Parafraseando Fernando Pessoa, eu tantas vezes fui racista, elitista, egoísta, materialista e tantos outros “istas”. Vocês não?

E quantas vezes gastei dinheiro à toa, gritei com quem não merecia, deixei passar uma oportunidade legal, fui a um lugar que não queria, não fui a um lugar que queria? Vocês nunca?

Olha, pra mim tem dois tipos de pessoas que podem dizer que não se arrepende de nada: as muito esquecidas ou os condutopatas.

-Monix-

Sete anos sem Cláudia da Silva Ferreira

Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração

mas não choramos à toa

Arnaldo Antunes

Este blogue sempre fez questão de não esquecer de Cláudia, uma das incontáveis vítimas da Polícia Militar do Rio de Janeiro, arrastada por vários metros caída de um camburão onde nem deveria estar. Este crime completa hoje sete anos, com os indiciados ainda aguardando julgamento, todos em liberdade. Um deles quase foi nomeado superintendente de combate a crimes ambientais do estado do Rio. A divulgação do fato na imprensa e a imediata reação de entidades feministas fez com que a a secretaria voltasse atrás e desistisse da nomeação.

 

O marido de Claudia, os quatro filhos e os sobrinhos que ela também cuidava.

 

Como eu disse, não quero esquecer de Cláudia e de sua morte pavorosa em todos os aspectos na esperança desesperançada de que a justiça seja feita. Nos últimos anos, esse crime acabou ofuscado em meio à revolta pelo assassinato brutal de Marielle Franco, em 14 de março de 2018. De lá pra cá, nesta semana de março as atenções se voltam para homenagear a vereadora abatida numa via pública da cidade e para cobrar as razões e mandantes dessa selvageria.

 

 

Assim nós vivemos aqui no purgatório da beleza e do caos: acumulando perdas, colecionando dores. Cláudia, Amarildo, os rapazes de Costa Barros, Marielle, Eduardo,  Ágata, Evaldo dos Santos, Emily e Rebeca. Uma dor vai dando um passinho para o lado para caber outra, e seguimos empilhando corpos e tragédias, acumulando camadas de injustiça e impunidade. 

É sobre essa violência basilar cotidiana que se soma a violência governamental genocida que, atleticamente, quebra recordes mortais todos os dias.

Helê 

Atualizado em 18/3 (eu sabia que faltava um final, que só veio na newsletter de ontem).

8M 2021 – pandemia ano 1

Pesquisa da SOF – Sempre Viva Organização Feminista – indica que metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém durante a pandemia.

No ano passado, 230 mil novas vagas foram ocupadas por homens, enquanto as mulheres perderam 87 mil postos.

8,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho no 3º semestre de 2020 de acordo com a PNAD contínua. (Folha)

Um estudo da FGV com profissionais da saúde mostra que a pandemia afetou a rotina e o bem-estar de todos, mas, entre as pessoas consultadas, as mulheres negras são as que mais sentem impactos negativos decorrentes da crise. (Nexo

A Universidade Federal da Paraíba afirma que a Covid-19 terá impacto mais duradouro para mulheres negras. (UFPB)  

Parabéns por quê?

Tô propondo que ao invés de parabéns efusivos, os homens passem a dizer “Desculpa” no dia de hoje, todos os anos. Acho bem mais apropriado. Ou não percam a oportunidade de ficarem calados.

Termino com esse tuíte lapidar que é uma fotografia bem nítida desses tempos pandêmicos:

Júlia Rocha@juliarochasim

Semana 1: consulto homem de 46 anos, feliz, promovido, aprovado no doutorado, sente-se bem nesse contexto de pandemia.

Semana 2: consulto mulher de 43 anos, em home office,cuidando da casa e de 2 filhos, chorosa, cheia de sintomas, tomando antidepressivo.

Semana 3: descubro q/são casados

Helê

 

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