Juju faz 15

Quinze anos minha filha faz hoje. Quinze anos. Um susto – porque afinal passou depressa (como tudo tem que passar, diz o Gil).

No início não era o verbo, era só presença, em geral calma, e logo, alegre. Não lembro direito quando sentou ou engatinhou, mas sei que sorriu aos dois meses – e não parou mais. E então fez-se a luz.

Uma aventura sem fim, essa de tornar-se mãe, pouco a pouco mas profundamente, como se ao invés de trocar de pele fossem crescendo outras camadas internas. Com ela virei adulta definitivamente (ainda que com recaídas).

Um espanto: como foi que surgiu essa pessoa, onde foi que acertei, o que vem de mim e o que não me cabe nem me diz respeito? É certo que esbarramos no pacote de autoestima na preparação e derramamos demais, mas acertamos em outras medidas. Ou tudo é alquimia e mistério? Jamais saberei, nunca desistirei de descobrir.

Uma graça que eu não canso de agradecer. Uma surpresa recheada de surpresas sucessivas que eu gosto de admirar crescendo e virando quem ela deve ser.

A Vera ontem lembrou um trecho do “Grande Sertão: Veredas”: “O menino nasceu e o mundo tornou a recomeçar”. O meu mundo recomeça cada vez que ela sorri pra mim. Há quinze anos.

Pensando bem, no início o verbo era amar, filha – e para você sempre será.

 

 

Que sejam felizes todos os próximos anos da sua vida.

Helê

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Estados Civis Reloaded

Casamento não é para fracos.

Nada pessoal, sem ofensas – apenas uma frase de efeito para sublinhar a complexidade da condição de casado. Sou até a favor do casamento –  de tantos quanto forem necessários, como dizia uma amiga.  Para mim bastou um, obrigada, tô satisfeita.

Um alerta para os incautos que ainda acreditam em felizes para sempre. Você nunca vai ser feliz para sempre, baby: nem quando casar, nem quando tiver filho, nem quando tiver um casal, nem quando separar, nem mesmo, suspeito eu, quando acertar na loteria sozinho. Essa é outra lenda urbana, igual  fucking zona de conforto. Quanto antes você compreender isso, mais chances tem de ser feliz. Mas nunca para sempre, ciliga.

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Já a solteirice cai bem nos jovens, claro (o que lhes cai mal?) e nos que se mantêm no mercado, digamos assim. Porque independente do seu grau de interessância, a Lei Geral da Física Sexual (e a demografia)  estabelece que a quantidade de opções decai com o passar do tempo, salvo raríssimas exceções. E há dificuldades específicas para quem volta a ser solteiro depois de um tempo fora de combate. Equivale a voltar para uma festa que estava ótima e perceber que tudo mudou enquanto você esteve fora: a decoração, os convidados, o DJ e até (ou sobretudo) você. Que começa, inclusive, a questionar se a festa estava tão boa assim quando você saiu.

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Mas eu suspeito que, no frigir dos ovos (uia, alerta de velhice essa expressão, hein?), a pessoa é para o que nasce. Só, somente só. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser. O que salva é que pra sempre não é todo dia.

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E esse é um post reescrito ou reciclado porque o Carlos me lembrou dele e porque you know the drill: calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu. E porque eu quis postar essa imagem do perfil que mais tem me divertido nos últimos tempos, o Pensador Sincero:

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Helê

Trégua

Saí à rua e surpreendi uma temperatura mais baixa do que esperava. Não lamento, aproveito esses dias poucos e raros. Já, já chegam meus favoritos, os de luz e calor, meu habitat natural, quando a tristeza não orna. Reparo nas árvores da escola antiga que me encantam, trocando de folhas e flores sempre, mas mantendo inexplicavelmente um tom de sépia e saudade que me acolhe e acalma os sentidos dos erros (você sabe o resto). As pequenas aflições, as faltas atávicas, o estado do Rio, as perdas frequentes; as amizades surpreendentes, o poder da minha palavra, as delícias da maternidade, as lembranças recentes, o desejo latente. Os bons e a bad, alegrias e decepções, tudo tanto que embaralha a minha cabeça e acelera o carrossel do meu coração. Exausta, peço tempo e trégua, e conto com setembro para aquietar a mente e, principalmente, o coração. Porque no fim das contas, na peleja entre razão e emoção, é a segunda que me debilita: eu sinto muito.

(“Love” by Otto D’Ambra – salvo de curiousdukegallery.com)

Helê

Festa na favela  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

Anotações para uma biografia musical

Quando eu nasci, há dez mil anos atrás, veio um anjo safado que decretou que eu tava predestinada a ser errada assim. Deus, que é um cara gozador e adora brincadeira, pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro, mas sou natural daqui Rio de Janeiro, sou em quem levo a alegria. Nascida no subúrbio nos melhores dias. Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca. Seemed that life was so beautiful, magical. Quando fui ferida, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Yesterday came suddenly. Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar. A cada  mil lágrimas sai um milágre. Eu sei, serei feliz de novo. Ah, se eu fosse marinheiro, seria doce o meu mar. I’m all about the bass. Em matéria de guarida, espero ainda a minha vez. My friends all drive Porshes, I must make amends. Tenho desejos maiores, eu quero beijos intermináveis. I told you I was trouble. As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Helê

Exposta

A canção que me comove intensamente diz “Eu fiquei sozinho até achar que estar sozinho é estar com alguém“. De uma maneira racionalmente estúpida, eu quero voltar pra esse alguém, que nunca vai me decepcionar. Para aceitar estar tão só por tanto tempo eu tentei me convencer de que o amor – por sorte, azar ou destino – não era pra mim. Acho que consegui. Agora sinto-me inadequada, inábil, tremendo para desarmar uma bomba: sabendo que preciso cortar o fio certo, mas pensando que o errado talvez resolva tudo de uma vez. “O chão sumiu a cada passo que eu dei”, diz a música em outro trecho. O abismo, fascínio e terror. Amar é muito precário. (Amar é complexo, aprendemos aqui no Rio de Janeiro.) Muita bagagem para ser leve, vivida demais para me sentir tão frágil, mais vulnerável do que consigo suportar. O amor é uma habilidade – aprendi num filme, mas desaprendi na vida; não exercitei e perdi a forma, a flexibilidade, o tônus – a manha, talvez. Acho que não dou conta. Certas coisas têm prazo de validade: acampar, usar franja, amar sem temor. Tenho quase 50 anos, talvez não possa mais correr certos riscos.

Helê

Ponto de virada

 

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Em geral eles surgem sem placa ou indicação; às vezes leva algum tempo para perceber que passamos por eles. Mas, com o tempo, a gente olha pra trás e vê claramente os pontos em que a nossa história mudou de um jeito inesperado, repentino ou radical (ou todos juntos).

Tenho pelo menos dois momentos definidores na minha vida, aqueles em que ações ou eventos mudam tudo, redirecionam sua rota, alteram as coordenadas da existência. O primeiro deles, um verdadeiro twist plot, aconteceu quando eu terminei o ensino fundamental e ia para uma escola técnica. Não tinha o menor desejo de cursar eletrotécnica – que eu até hoje não sei no que consiste -, mas eu passei na prova sem dificuldade, era um colégio púbico e um particular estava fora de que$tão. Mas uma professora de Estudos Sociais, D. Braguez (de quem eu nem era próxima), considerou que seria um desperdício porque eu era muito inteligente, a escola era fraca e eu ia para lá apenas por falta de opção. Então ela foi ao melhor colégio do bairro, onde os filhos dela estudaram, pediu e conseguiu uma bolsa de estudos integral pra mim. Assim, fui estudar no Pentágono, e minha vida tomou um novo rumo por causa disso. Além do ensino de qualidade, eu descobri que o mundo era muito maior que Vila Valqueire; aquela escola ampliou meus horizontes de um modo que nenhum outro ambiente conseguiu. Fiquei tão deslumbrada que, depois de um primeiro ano excepcional, levei bomba no segundo e perdi a bolsa (e por isso me sinto até hoje em falta com a D. Braguez). Tento me desculpar lembrando que eu era uma adolescente querendo conquistar o mundo e beber a vida em grandes goles (e alguns tragos).

O segundo momento talvez seja melhor definido como um turning point – que eu entendo como ligeiramente menos radical que a virada de enredo, mas também impactante na narrativa, de maneira irremediável. Aconteceu em 2003, quando acessei um blog chamado Mothern e deixei um comentário no Livro de Visitas. Voltei – a convite da Fernanda Castro, que por isso virou minha comadre –, e muito do que aconteceu depois na minha vida deriva desse conjunto de ações. Sem o Mothern você não estaria lendo esse post agora, por exemplo. Eu teria seguido um curso diferente na minha vida se não tivesse entrado nessa trilha, que me levou a caminhos inesperados, me trouxe as melhores paisagens e as mais incríveis companhias. Um tanto de acaso, bocado de curiosidade, e muita sorte de estar no lugar certo na hora exata.

E você, consegue identificar momentos de virada na sua vida? Qual foi o seu turning point (ou quais foram)?

 

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Helê

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