Um aprendizado classe-média-sofre

Tem muita gente aproveitando a quarentena para fazer cursos online, para se aperfeiçoar, para assistir lives sobre temas edificantes.

Esses são os privilegiados. (Ou os mentirosos – ops, desculpaí o sincericídio.)

Eu estou como muitas pessoas que conheço, e o termo que melhor define é em inglês: overwhelmed. Fazendo coisas demais e mal dando conta do mínimo, do básico. Eu já trabalhava em casa, então meu dia não ganhou duas horas porque parei de me deslocar até o trabalho. E passei a acumular muitas rotinas da casa que eram responsabilidade de duas diaristas (uma para a faxina, outra para a comida, cada uma vindo uma vez por semana).

Muitas amigas mulheres têm me dito que se sentem da mesma forma. Que o dia se resume a uma alternância exaustiva entre trabalhar, fazer reuniões remotamente e cozinhar, lavar louça, lavar roupa, varrer a casa quando dá.

IDA - VAI TER LOUÇA QUADRO 22 CM X 22 CM - Tok Stok - M
O mantra do momento

Enquanto isso, ouvi de dois homens comentários um pouco diferentes. Ambos falaram sobre seus aprendizados durante a crise. Um disse que aprendeu a cozinhar feijão. O outro, que descobriu que existe um produto chamado Vidrex, usado para limpar os vidros da casa – é, este não é um trabalho dos elfos domésticos.

Eu aprendi, também, a cozinhar feijão – até cozinho bem, mas arroz e feijão são coisas que nunca consegui acertar muito bem. Vidrex eu já conhecia. Mas esses não são nem de perto os grandes aprendizados que vou tirar dessa crise.

O primeiro deles eu diria que é algo que sempre intuí: o dinheiro, em si, não vale nada. Lembro de falar sobre variações dessa ideia desde muito jovem: o importante não é o dinheiro, são as coisas que ele pode me dar. Parece óbvio, mas na prática as pessoas tendem a ser muito mais apegadas ao dinheiro em si do que aos bens que ele permite usufruir. E no fundo, quando somos confrontados com uma situação-limite como uma pandemia dessa proporção, o que vale mesmo é ter abrigo e comida. Coisa que os homens das cavernas tiveram durante séculos, sem precisar acumular essa coisa abstrata chamada capital.

Mas o maior aprendizado que extraio dessa experiência extrema é o valor do trabalho doméstico. Também é algo de que falo há muitos anos: que as “mulheres de antigamente” não cuidavam dos filhos sozinhas, pois havia sempre outras mulheres na casa ajudando (uma tia solteirona, uma avó viúva, vizinhas, babás). E que na verdade elas passavam era muito tempo cuidando da casa: entre preparar uma refeição, arrumar a mesa, lavar a louça, depois guardar, já estava na hora de começar tudo de novo, até a hora de dormir.

Estas semanas têm me proporcionado essa experiência na prática. E eu tenho máquinas que ajudam muito: aspirador de pó, lava roupas, lava louças, liquidificador, microondas… Fico imaginando as mulheres de antigamente e sua vida dura. Ou as mulheres de hoje mesmo, que não têm esse meu padrão de classe média bem de vida, e que cuidam da minha casa e da casa delas e ainda conseguem manter o bom humor. Elas já tinham todo o meu respeito. Agora têm minha empatia. Quando me sinto muito cansada, digo a mim mesma para deixar de lado o classe-média-sofrismo e seguir em frente.

Essa crise está trazendo, sim, muitos aprendizados. Me conta quais foram os seus.

-Monix-

Casas e vidas

Ainda estou me instalando na Casa do Cinquenta, esta mudança compulsória à qual resisto pero no mucho, porque a alternativa, como se sabe, é muito pior. Então, resignada, tento me acomodar nessa casa com o que tenho, criando meu próprio espaço, rejeitando o que é preestabelecido apenas por conveniência e hábito, tentando reconhecer e aceitar limitações reais. Nada fácil – mas ninguém disse que seria.

Alguns esqueletos te acompanham de casa em casa — ainda que os armários sejam trocados. Haja terapia para faxinar os porões, espantar fantasminhas e bichos papões, desarmar gambiarras e bombas de auto sabotagem.

Mas, verdade seja dita, também carrego de moradas anteriores arcas repletas de amizades bordadas durante muitos anos, com fios preciosos de empatia, solidariedade, acolhimento. Decoro a Casa dos Cinquenta com peças valiosas: nas paredes e estantes há registros de momentos incríveis; pela sala espalho almofadas grandes e macias recheadas de abraços, luminárias de sorrisos; guardo potes de mantimentos com especiarias dos lugares por onde passei; tenho rede para sonhar e outras tantas coisas boas que fazem de uma casa um lar.

Uma coisa que reparei, nos últimos tempos, é que há uma mudança de perspectiva. Tenho experimentado certo estranhamento ao esbarrar em algumas lembranças que me parecem muito distantes, embora, em alguns casos, tenham acontecido poucos anos atrás. Passo por uma rua que costumava ser um itinerário frequente mas saiu da minha rota e tenho essa sensação que vivi ali uma outra vida. Porque não se trata apenas do lugar: também muito do que eu pensava, queria, esperava então difere de hoje; percebo a mudança de atmosfera, outro cenário, trilha sonora, todo um conjunto de elementos familiares que se tornaram apenas reconhecíveis, como uma cidade visitada há muito tempo. Outra vida.

Talvez não seja uma exclusividade felina ter várias.

Helê

De Libra

Há muitos librianos na minha vida, mas ela sem dúvida ocupa um lugar especial.

Adoro essa foto, não só porque ela registra um dia em que nos encontramos em Niterói no meio de compromissos profissionais e acadêmicos e conseguimos passear por um lugar lindo, o Solar do Jambeiro. Isso por si só seria digno de registro, porque representaria o tanto de coisas que eu não saberia, se não fosse ela.

Mas eu adoro também porque as cores da fotos são complementares – quase todas as nossas fotos se prestam a uma análise semiológica interessante, principalmente no começo da nossa amizade, em que temos vários registros com roupas quase idênticas, etc. Nessa há um jogo de beges e marrons que tem tudo a ver inclusive com a história do blogue, com as Duas Fridas que reúnem em uma só a saia vermelha e a anágua bege, ou vice-versa.

Então hoje é dia de celebrar essa Pessoa com P maiúsculo, minha sócia eterna, no matter what.

Helê: todo amor que houver nessa vida <3

-Monix-

Mão dupla

Sair da maternidade levando minha filha nos braços foi uma das muitas alegrias do nascimento. Porque a família havia vivido, poucos anos antes, o drama de um parto prematuro e do vazio abissal que sente um mãe que volta pra casa sem bebê. Então eu me lembro nitidamente de voltar pra casa muito feliz no banco de trás do carro, conversando com a Juju e mostrando as coisas pra ela no caminho: “Aqui é o Rio de Janeiro, minha filha, aquele ali é o Redentor, ali é a Marquês de Sapucaí onde tem o carnaval, você vai gostar….” Soube ali que essa seria uma das coisas bacanas de ser mãe, mostrar o mundo pra filhote. Ela só tinha olhos pra mim àquela altura, mas acho que aproveitou o tour.

Dezesseis anos depois eu estou com essa moça alegre e bonita ao meu lado, chamando atenção por onde passa nas ruas de Manhatan. Mostro a ela a Central Station, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a igreja de Saint Thomas; vamos da alucinação do Times Square ao silêncio respeitoso do World Trade Center Memorial. Juntas descobrimos e admiramos a Catedral de São Patrick – mas é no culto batista do Harlem que ficam nossos corações e mentes. Circunavegamos a ilha e subimos ao topo do Empire; compramos como nunca, sorvemos cultura em grandes goles; as perguntas brotando como lenços de uma caixa de papel: uma puxa outra que puxa outra, numa sequência sem fim. Ela agora só tem olhos para o mundo, mas ainda me ouve. Também me mostra e ensina coisas, e então a maternidade, essa mão dupla de amor, proporciona esse tour inesquecível em muitos sentidos. Estabelecemos com a cidade um forte laço afetivo; reforçamos de maneira singular o nosso próprio laço, que um dia foi cordão.

Então eu boto fora a amargura que me cobria ao questionar o que, afinal, conquistei em 50 anos, e escolho me enfeitar de orgulho e alegria para celebrar a trajetória que me trouxe até aqui, o tanto que neste meio século de vida eu construí. Não foi pouco – e ainda quero muito mais.

Helê

Equinócio, primavera

Ela chegou hoje, a Primavera que me faz sentir com mais intensidade e amor o mês de Setembro, justo quando ele começa a se despedir – não sem antes me carimbar uma nova idade, renovar minhas esperanças, rever meus desejos e me impulsionar para luz. Que é minha órbita natural mas há, como se sabe, tropeços, poeira cósmica, meteoros de tamanhos diversos, eclipses e muito imprevisto. Vez por outra, desvio da trajetória, permaneço na sombra mais do que o recomendável, mas é a luz que procuro, dela me alimento e me constituo.

Curiosamente, nesse equinócio eu me percebi entre duas emoções intensas, aquelas provocadas pela recente viagem à Nova York com minha filha (The 15/50ish Tour) e aquelas que projeto e anseio para o aniversário próximo, de 50 anos (and counting). Eu, que já gosto de comemorar, inventar nomes e modas em todo 27 de setembro, me sinto especialmente tocada pela celebração de meio século de vida, a mudança da Casa do Quarenta, a ampulheta do tempo, suas alegrias, alguns temores. Atenta, me percebo nesse hiato de alegrias, um tanto fora da rotina, mas muito presente.

Equinócio, equilíbrio. Libra, livre (como sempre quis), leve (como espero ser).

(Ah, gente, é só isso mesmo, uns pensamentos soltos, umas aliterações pseudo poéticas e nenhuma conclusão. Relevem e colaborem, que fazer 50 anos é potente e bonito, mas não fácil – depois ajudo todos vocês, prometo. )

Helê

PS: Sobre colaborar e inventar moda, eu criei uma playlist colaborativa (e comemorativa) no Spotify, chamada 50 músicas para Helê. Se tiver uma música que você acha que tem a ver comigo, de algum modo, adicione a essa playlist; receberei como um presente 😘)


Perdida em Copacabana

Minha casa está em obras e por conta disso vou passar as próximas semanas na casa do namorido, na sempre louca Copacabana. (Não é a primeira vez que passo um tempo aqui, mas antes a situação era meio caótica e não valeu como experiência de “moradora do bairro”).

É engraçado como cada bairro tem sua cultura. Aqui tudo funciona em outro ritmo. Em geral, mais acelerado.

Mas aí no sábado resolvi fazer a unha. Fui procurar um salão aqui perto (há vários) que tivesse hora disponível, pois sábado é o dia mundial de fazer mão, pé e cabelo, certo? Bem. Um salão fechado. O segundo, idem. Mais outro. Continuei andando. Atravessei a rua, agora vai! Fechado também. Quase chegando no Leme, encontro finalmente um salão aberto, franquia de uma marca conhecida. Consegui a manicure, ótimo. Conversa vai, conversa vem, comentei: vem cá, as mulheres de Copacabana não frequentam salão aos sábados não? Até chegar aqui passei por vários, todos fechados! E a manicure, sem querer afrontar a cliente, lembrou sutilmente: será que não é porque hoje é feriado? FUÉM FUÉN FUÉN…

É isso que dá ser a louca do feriadão.

***

Saindo do salão, fui pegar um ônibus, meio perdida, como sempre. (Para quem não é do Rio, explico: nosso prefeito anterior fez várias mudanças na numeração das linhas, extinguiu algumas, criou outras. Além disso, distribuiu as paradas de ônibus em pontos específicos. Tudo isso dificultou muito o processo de saber que ônibus vai para onde quando não se está no dia a dia de determinado lugar e tudo o que resta são as lembranças de números de linhas que não existem mais.) Minha cara de ponto de interrogação deve ter chamado a atenção do pessoal à minha volta, porque um rapaz se ofereceu para me ajudar a decidir que ônibus pegar.

Agradeci, nem prestei muita atenção (antipatia mode on).

Daí o moço me pergunta: você está de preto por acaso ou é aquilo que estou pensando?

Era.

Só aí observei a figura: carregava dois violões e estava com uma camiseta colante, obviamente também preta.

Foi gancho para uma conversa meio sem pé nem cabeça que envolveu teorias da conspiração sobre a facada e menções a Edir Macedo que até agora não sei se eram contra, a favor ou muito pelo contrário.

Pena que o ônibus chegou e com isso estou até agora sem entender contra o que meu companheiro manifestante protestava.

***

Copacabana é isso aí. Cá estarei pelas próximas semanas.

-Monix-

Selfie

Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser ter tudo o que quer. Ou cansa, mas segue querendo, mesmo cansado.

Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos, ou viro doida ou santa, disse a Adélia aos 42. Aos quase 50, já no segundo tempo da vida, estou bem no meio do desespero, entre grata e carente, entre confiante e amedrontada, surpresa e culpada: como foi que cheguei aqui? Era aqui mesmo que eu queria estar?

Muitas perguntas ainda; talvez sempre. Mas a certeza de que sou quem eu gostaria de ser.

Quanto a isso, nenhuma dúvida.

 

Helê, a um mês de completar 50 anos

 

Na rádio Cabeça a jovem Alanis Morrissete canta “Hands in my pocket”.

 

Imagem do site Africanart

Leão ❤

O sol deixa Leão hoje mas eu não poderia deixar de fazer esse carinho nas leoninas e leoninos fiéis ou aleatórios aqui do blogue. Afinal, eu sou a auto-intitulada Guardiã das Tradições Recentes. Um beijo para cada um; vamos juntos passar por Virgo aguardando chegada de Setembro, da Primavera e do meu aniversário! :-D

Helê, of claro

As voltas que o mundo dá

Mais ou menos 20 anos atrás eu estava nesse saguão coberto de mármores, naquele que foi talvez o momento mais surreal da minha vida (no quesito profissional, com certeza foi): a Assembleia que decidiu pela derradeira greve de funcionários da Rede Manchete, minha escola de jornalismo na prática, experiência que me marcou para sempre, para o bem ou para o mal. (Eu conto meus altos e baixos na profissão nesse post do Medium. É divertido, e ao mesmo tempo meio nostálgico.)

Ontem voltei naquele emblemático prédio da Bloch / Rede Manchete, em outras circunstâncias. O prédio é outro, eu também. 

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O grande “M” que reinou sobre a paisagem da Praia do Flamengo durante tantos anos…

Quem passava pela Zona Sul do Rio nos anos 1980/1990 há de se lembrar do grande “M” metálico que destacava o prédio da Rua do Russel, com suas elegantes linhas modernistas traçadas por Oscar Niemeyer (depois de conhecer por dentro os apartamentos da Asa Sul de Brasília e de trabalhar por quatro anos nesse prédio lindo e infernal, que nos obrigava a pegar elevador e escada para ir do 4º ao 3º andar, não me peçam para idolatrar esse gênio maluco que construía lindas esculturas para a gente viver dentro, mas isso é outra história).

A vida é engraçada.

Quando a gente é jovem, tudo parece urgente demais. Mas o tempo passa e aquilo que era tão dramático na época de repente vira só uma dobra de esquina no longo caminho que é nossa vida. 

Não tem “moral da história” nem nada não. Só queria dividir esse momento emocionante com vocês.

-Monix-

Divagações sobre o divã

A terapia segue desengavetando potências, rearrumando expectativas, tentando botar fora o que não me cabe mais, examinando crenças rotas, cerzindo o que ainda pode ser usado.

Uma espécie de Marie Kondo da cabeça.

Tenho a sensação clara que mudei de posição, saí de um lugar. Às vezes eu me sinto mesmo toda remexida por dentro, e as peças ficam em movimento constante. De vez em quando duas ou mais se encaixam e eu ‘Nuooossa, agora entendi!’

Mas é um processo de ritmo irregular, ainda que contínuo. Percebo que, muito lentamente, começo a gostar mais de mim.

Travis Bedel

Helê

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