Menino de antigamente

tiradentes
Quando esse menino era desse tamaninho, a gente foi passear em Tiradentes com o vovô. Lá tem essa brincadeira de tirar foto vestido de gente de antigamente. Aí a gente estava se preparando, vestindo os figurinos, e era preciso entrar no personagem. Eu disse pra ele: naquela época os meninos tinham que ficar muito quietos e muito sérios para tirar retrato.
Ah, pra que?
Foi uma avalanche de perguntas! Mas porquê, mamãe? Por que não podia se mexer? Por que não podia rir?
Tentei explicar que a câmera era diferente, que se a gente se mexesse ou mudasse a posição do sorriso, com o longo de tempo de exposição do “filme” (filme? o que é isso, mamãe?), a foto sairia toda borrada.
Mas não era só isso. Toda a sociedade era mais rígida. As crianças eram ensinadas desde que nasciam a não questionar, a obedecer. “Respeitar os mais velhos” não tinha o significado empático e amoroso que damos hoje à palavra respeito. Respeitar os mais velhos significava, basicamente, temer os mais velhos e evitar aborrecê-los.
Era como se eu estivesse falando de outro planeta!
Não foi assim que ele – e, em grande medida, a sua geração – foi criado. Para ele o mundo é um lugar onde ele se sente à vontade para se expressar o tempo todo. Seja na inquietude de quem não consegue ficar cinco minutos sem batucar em qualquer superfície que se apresente, seja na necessidade de perguntar tudo sobre tudo (sim, gente, pensem numa pessoa perguntadeira – agora multipliquem por dois), seja na capacidade de formular todo tipo de teoria maluca sobre esse mundo imperfeito em que vivemos. E, principalmente, na ânsia de contribuir para transformá-lo em um lugar melhor. Para todos nós.
O menino já não é pequenininho – pelo contrário, é um moço feito, “de barba na cara”, para meu permanente espanto (nunca me acostumarei).
Para mim, ele sempre será esse menino inquieto, que tudo quer saber e que muito tem a dizer. Neste Dia das Crianças não tem presente. Só o desejo de que o mundo continue andando pra frente. O que já é bastante.
-Monix-
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Desejos

A gente é antiga e continua blogando, quando na verdade as coisas não acontecem mais nem no Facebook. O WhatsApp é a nova pracinha digital – o que me faz pensar numa analogia com uma praça de verdade, bem movimentada, tipo a Praça Saens Peña, que tem até metrô, muito comércio, malucos de todos os tipos, etc (esse é o Facebook) e uma pracinha do condomínio, fechada por grades e frequentada só por quem conhece algum morador, porém cheia de bullies e gente sem-noção (esse é o WhatsApp). But I digress.

O que eu queria dizer é que nosotras fazemos parte de um grupo muito alto nível no WhatsApp, só com os poucos e bons. Nosso grupo não é uma pracinha de condomínio, mas uma calçada de vila, daquelas em que as vizinhas de longa data comentam sobre as coisas do dia enquanto jogam baldes de água ou esguicham a mangueira e esperam as crianças voltarem da escola.

E foi lá nesse grupo que eu busquei inspiração para lançar um esguicho de desejos de felicidade e coisas boas para mi sócia.

Nosotras

Essa foto está na minha parede (somos do tempo em que se imprimiam fotos…)

Que os 15 meses que faltam para terminar o ano você consiga fazer muita coisa feliz. Inclusive nós! Que abundem sorrisos, gols do Flamengo (esse desejo eu transmito sob protesto), Idris e Haddad. Que haja mais tranquilidade na sua vida. Que a mansão seja sempre habitada (entendedores entenderão). Que nunca falte purpurina nem bom humor, viagens pra descobrir o mundo, as melhores companhias, saúde e grana pra desfrutar tudo isso. Que seu ano seja doce como a festa de Cosme e Damião, que você nunca perca a capacidade de ver as coisas com seu humor peculiar, que você tenha muitos carnavais pela frente e que suas fantasias se realizem.

Que #elenão! Apenas “Heleninha” (entendedores entenderão 2, a missão)…

Em suma, que sua vida seja uma eterna primavera. E que nós, sempre, façamos parte dela.

-Monix-

 

 

 

 

Pegadas digitais

Vocês me dão licença para um breve jabá?

Estou muito feliz e muito orgulhosa com um projeto novo de trabalho, que estou lançando (e ainda esperando render os primeiros frutos) junto com duas amigas, também jornalistas, uma delas também psicopedagoga. É um projeto que tem um nome sonoro: Ecoar Educação para Mídias. E esse nome tem um significado sonoro também, porque o que queremos é ressoar a informação de qualidade, nesse mundão da desinformação em que hoje precisamos aprender a navegar.

Convido vocês a seguirem nossa página no Medium; é lá que vamos postar nossas percepções sobre o que compõe esse chamado “ecossistema da desinformação”, e nossas ideias sobre o que cada um de nós pode fazer para, se não pudermos ajudar, pelo menos não atrapalhar.

código-fonte

Tudo o que fazemos na internet deixa rastros…

Hoje postei um texto sobre uma palestra que assisti na PUC aqui do Rio sobre como as nossas pegadas digitais – e o uso que é feito delas – podem estar modificando a forma como entendemos a democracia. Dá uma olhada. Posso dizer sem medo da imodéstia que está valendo a pena, porque, afinal, quem disse essas coisas sabidas não fui eu – foi a professora Caitlin Mulholland, do Departamento de Direito, que deu a palestra.

Confere lá que tá bacana.

-Monix-

Sem palavras, sem ação

O que dizer diante do fogo que destrói a memória de um país?

Nada. E tudo. Mas, ao fim e ao cabo, nada mesmo.

***

Desde domingo tenho pensado muito na Biblioteca Nacional. Enquanto muitas das minhas amigas compartilham memórias afetivas inesquecíveis do Museu Nacional, eu confesso que tenho uma relação menos emocional e mais intelectual com ele. Quando criança, não era a Quinta da Boa Vista meu programa de domingo – minhas brincadeiras eram no Parque da Cidade, no Parque Lage, no Jardim Botânico. Coisas de menina-zona-sul que fui (e sou). No entanto, depois de adulta, e principalmente depois de me (re)aproximar da vida acadêmica, só aumentou meu respeito pela instituição – muito mais que um museu, trata-se de um centro de produção de conhecimento de altíssimo gabarito. Sua importância vai muito, muito além das peças exibidas para os visitantes que por lá passavam.

Mas, enfim, o que a Biblioteca Nacional tem a ver com isso?

É que do mesmo jeito que minhas amigas têm essa relação afetiva com o Museu Nacional, eu me sinto ligada (de um jeito meio platônico, diga-se de passagem) à Biblioteca.

No início dos anos 1990, na esteira da extinção de várias empresas estatais durante o governo Collor, meu pai, que tinha sido funcionário público quase toda a sua vida profissional, se viu sem emprego. Mas, graças às voltas que o mundo dá, foi convidado a ser diretor administrativo-financeiro da BN. Já naquela época, falava-se em um projeto que tiraria o acervo de obras gerais da situação de armazenamento inadequada em que se encontrava (e ainda se encontra), concentrando a coleção em um equipamento mais moderno, maior, mais funcional, na zona portuária.

Na época, a região do Porto do Rio estava completamente decadente. Hoje, por conta do tal legado olímpico, bem ou mal a cidade ganhou uma área totalmente revitalizada. O projeto do edifício anexo (que inclusive já foi selecionado em concurso e tudo) ficaria incrível, se fosse executado. E resolveria de forma mais permanente a preocupação que todos temos com as condições de preservação de – simplesmente – tudo o que foi publicado no Brasil desde que o país existe até hoje – e além.

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Projeto de Vigliecca & Associados para o Edifício Anexo da Biblioteca Nacional.
Fonte da imagem: ArchDaily

Depois que papai saiu da BN, tive contato com algumas amigas e amigos que trabalham ou trabalharam lá. Eu mesma cheguei a cobrir alguns eventos, profissionalmente. Minha torcida pela Biblioteca só aumenta. Minha admiração pelas pessoas que lá trabalham, e que a ela dedicam sua vida, é imensa.

Estou pensando no que posso fazer para ajudar mais concretamente, em vez de ficar só resmungando nas mídias sociais. Se você acha que outros equipamentos culturais também merecem mobilização, faça o mesmo. Não tenho esperanças vãs – sei que em época de crise, a primeira coisa que dança são os orçamentos de educação, cultura, ciência e tecnologia. Mas não posso ficar quieta, vendo tudo em que mais acredito e tudo o que mais amo virar cinzas – em alguns casos, literalmente – sem fazer nada.

-Monix-

 

Minha turma, parte 2

Uma das minhas características mais marcantes é a introversão, e um dos meus muitos defeitos é a preguiça. Daí que quando uma amiga muito querida me convidou para comemorar seu aniversário a 34 quilômetros da minha casa, em uma festa onde eu não conhecia ninguém*, claro que meus motivos para não ir eram muito maiores que a vontade de ir.

Mas eu fui.

Quem é introvertido/a sabe que nosso problema não é “não gostar de outras pessoas”; é mais uma questão do esforço despendido para interações sociais, especialmente com pessoas não conhecidas. Deve parecer estranho para quem tem uma personalidade diferente dessa, mas é realmente extenuante para mim conversar com pessoas que não conheço ou conheço pouco. Eu gosto, mas fico exausta.

Enfim, tudo isso pra dizer que ontem eu fui a uma festa que por todos os motivos não deveria ter ido, e puxa, como é bom às vezes lutar contra minha natureza de lone ranger. Os amigos da minha amiga são pessoas incríveis, que tocam Mutantes na viola de gamba e Supertamp no  teclado, e cantam Renaissance a capella. As filhas da minha amiga cozinham coisas deliciosas e homenageiam a mãe de um jeito lindo, que me fez pensar que nós motherns provavelmente fizemos alguma coisa muito certa mesmo, porque – modéstia à parte – nossas crias são tudibom.

bolo naked cake de morango

Vai um pedaço?

Volto pra casa e entro no Facebook, no Twitter, sei lá, no WhatsApp, e  embora minhas redes sejam em geral limpinhas e educadinhas, não tem jeito, as interações nesses ambientes são meio que condicionadas ao conflito, ao binarismo próprio do I/O do mundo digital. Aí só resta pensar, e cada vez mais acredito nisso, que nossas festas são melhores, nossos afetos são mais quentinhos, e, aconteça o que acontecer, o melhor antídoto contra um mundo deprimente é encontrar a nossa turma e ficar junto dela. A música, a bebida e a comida da minha amiga D. são tão reais quanto a política de Brasília ou o topete do Trump. E são muito mais legais, vai dizer?

-Monix-

*Helê ia comigo, depois precisou desmarcar. E agora, José? Fui sozinha, ué.
Obs.: Esse post vai ficar arquivado na categoria “Ágora“, porque é sempre bom lembrar que beber e cantar também são atos políticos.

Como fui parar na cidade do Stephen King – e só descobri depois de ir embora

Como vocês já sabem, em junho deste ano eu participei de um congresso acadêmico nos Estados Unidos, experiência que por si só valeria vários posts e/ou muitas horas de conversa. Não só pela parte acadêmica, que, claro, foi importantíssima, mas também pela oportunidade que tive de ir a alguns lugares que jamais teria visitado como turista.

O congresso foi realizado na Universidade do Maine. O Maine é aquele estado que fica no extremo nordeste dos Estados Unidos, já entrando pelo Canadá. Para vocês terem uma ideia, a cidade de Orono, onde fica o campus, é mais setentrional que Toronto, e quase na mesma latitude que Montreal. Para chegar lá, foi preciso voar até Boston, em Massachussets, alugar um carro e dirigir 400 quilômetros rumo ao Norte.

Mapa do Maine

O Maine fica lá no alto dos Estados Unidos…

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Ao pesquisar as possíveis rotas para chegar na universidade, aprendi que a cidade mais próxima onde há um aeroporto (que acabei não conhecendo porque optamos por ir de carro) chama-se Bangor.

Bangor, Maine.

Se você é fã de Stephen King, provavelmente reconheceu este nome. Eu não sou, por isso cheguei lá completamente desavisada.

Eu e minhas roommates passamos por Bangor duas ou três vezes durante os dias que ficamos na universidade. Já na chegada, fizemos uma primeira parada para um lanche (jantar “comida de verdade” nos Estados Unidos é sempre um desafio), depois de praticamente um dia inteiro de viagem – fizemos algumas paradas no caminho para conhecer a encantadora Nova Inglaterra. Nos dias que se seguiram, fomos à cidade comprar comida ou de passagem, em direção a outros lugares.

Bangor, Orono e outras cidades pelas quais passamos são muito parecidas. Há a indefectível Main Street, que no caso da Bangor é uma avenida larga, com várias pistas de cada lado, extensa, cheia de cruzamentos. Há o também indefectível McDonald’s, o Subway, a Wendy’s, a Best Buy, o Walmart, ou seja, todas as cadeias que nas décadas recentes vêm sendo acusadas, não sem razão, de destruir o comércio local nos Estados Unidos, criando grandes monopólios em seus segmentos. Nas ruas transversais, há casas e mais casas, em centro de terreno, com um gramado na frente e um backyard, sem cerca nem portão. Nada de comércio, nada de calçadas, nem iluminação pública. A impressão que dá é que é impossível fazer qualquer coisa sem pegar o carro. E em algum ponto da cidade, há, na beira da rua, sem aviso prévio, as woods. Sabe quando você vê nos filmes ou séries de TV (ou lê nos livros) que alguma coisa sinistra aconteceu numa mata ou floresta? Eu sempre ficava me perguntando – mas gente, que mata é essa? As pessoas estavam na cidade, de repente apareceu uma floresta na beira de um rio ou de um lago, do nada? Pois é. Do nada. É assim mesmo que são as cidades americanas, pelo menos as que conheci lá no extremo norte.

E tem mais: mesmo no verão, quando anoitece surge uma neblina fraca, uma névoazinha que basicamente só serve para dar aquele clima de filme de terror. Fico pensando que no outono e no inverno esses lugares devem exemplificar muito perfeitamente o adjetivo “lúgubre”.

Fonte: AA Roads

Chegando a Bangor, uma cidade como outra qualquer. Foto: AA Roads

Enfim, Bangor não era meu destino final, nem meu ponto de partida, e foi basicamente uma cidade por onde passei algumas vezes para resolver questões práticas, como comer ou chegar a algum lugar.

Foi só quando já tinha saído do Maine, de volta a Boston para pegar meu voo para o Brasil,  que vi no Instagram de um colega que foi ao mesmo congresso a foto:

casa do stephen king

Foto: Rafael Sobreira

Hã? Como assim?!?

Só então fui pesquisar e descobri que sim, Bangor, no Maine, é a cidade onde mora Stephen King, autor de tantos best-sellers, nenhum dos quais eu li, e muitos dos quais foram adaptados para grandes sucesso do cinema (alguns eu vi).

O que, claro, explica muita coisa. Aquela neblina de verão que me causou arrepios quando eu dirigia por uma estrada mal iluminada, cercada de woods por todos os lados, não apenas parecia um cenário de uma história de terror.

Era o próprio.

-Monix-

 

A princesa-memória

Esses dias eu estava pesquisando sobre inteligência artificial para um artigo acadêmico e me deparei com um autor chamado Heinz von Foerster, que, em 1984, já questionava o uso de metáforas “antropomórficas” para falar das máquinas:

Por exemplo, a perpétua referência à “memória”: mas os computadores não têm memória! Nunca teremos uma máquina capaz de escrever suas Memórias! Os computadores têm sim elementos de armazenagem que lhes permitem conservar números ou programas. Existe uma enorme diferença entre uma “memória” e um “sistema de armazenamento”: este último só pode reproduzir o que foi nele colocado, ao passo que a memória é um processo de transformação. (Grifo meu; a citação é desse livro aqui.)

(A propósito, e isso não tem nada a ver com o tema deste post – se é que este post tem um tema-, eu também já escrevi sobre minha implicância com essa história de “inteligência” artificial.)

***

Comecei falando sobre a memória ser um processo de transformação, e não foi à toa. Isso porque meu filho fez aniversário e eu, em um momento #maedecasarea, comprei para ele um livro que na verdade era eu que queria ler: A Princesa Prometida, de William Goldman. A obra foi (re?)lançada no Brasil, e uma breve folheada nas primeiras páginas já me fez entrar em um túnel do tempo e resgatar uma memória afetiva que eu sinceramente não sei se aconteceu ou não.

The-Princess-Bride

Reconhece essa mocinha? Não?

Lembrava perfeitamente de ter visto o filme A Princesa Prometida, o qual eu nem sabia que era baseado nesse livro delicioso, no cinema. Lembrava de ter gostado muito, muito, do jeito cômico com que o filme retrata o gênero capa-e-espada, tipo “mocinho vive altas aventuras para salvar mocinha em nome do amor verdadeiro”. Lembrava de diálogos que já nasceram memes, antes de sabermos que memes existiam, como o inesquecível “My name is Inigo Montoya. You killed my father. Prepare to die.” Por fim, lembrava que vi este filme em uma tarde de um dia de semana, provavelmente em férias escolares, quase com certeza no cinema Paissandu, e aí é que minha memória se turva: lembrava de sair do cinema com minha avó, rindo atrasada das cenas hilárias e curtindo a surpresa de constatar que todo o romantismo daquela mulher do início do século não tinha resistido ao cinismo satírico do fim do século (e essa interpretação é feita totalmente a posteriori, pela versão de mim que já está muito mais próxima da idade que minha avó tinha naquela época que da Mônica que viveu a cena).

Só que, embora eu traga bem nítida a lembrança de ter visto esse filme com minha avó, não sei por que motivo sempre que penso nisso, desconfio. Tenho uma sensação difusa de que talvez esteja confundindo duas situações e que não vi o filme com ela, talvez sozinha, ou com outra pessoa.

Por sorte, eu mantive um hábito, durante muitos anos, de registrar o que fazia em agendas/diários, como muitas mulheres da minha geração (e de outras). Então resolvi investigar. O filme foi produzido em 1987, portanto separei as agendas daquele ano e do seguinte, pois na época os filmes demoravam a ser lançados no Brasil. Mergulhei em anotações de estudante (ler capítulo tal, estudar para a prova de tal coisa), bilhetes de amigas (algumas de que nem me lembro mais), lembretes de aniversários, registros de brigas com o namorado, ingressos de shows, e muitas, muitas notas sobre filmes, peças de teatro e espetáculos que assisti quando adolescente.

Depois de um ano e meio de reminiscências, finalmente encontrei a anotação sobre A Princesa Prometida:

Casa da Fulana.

“A Princesa Prometida”.

Parque Recreio.

Assim, sem nenhuma explicação. Sem menção a quem estava comigo. Na grande maioria das minhas anotações eu registrava vários detalhes, como o cinema, as companhias, o que fiz depois, se gostei do filme. Neste, nada.

Minha memória acertou uma coisa: vi o filme em uma quarta-feira, dia 27 de julho de 1988, no meio das férias. Muito provavelmente acertou outra: o restaurante Parque Recreio ficava no Flamengo, pertinho do cinema Paissandu, então é certo que vi o filme lá. Assim, desconfio que minha companhia deve mesmo ter sido minha querida avó. Ao revisitar essas duas agendas, de quando eu tinha 17 e 18 anos, percebi que mesmo no auge da minha adolescência era muito frequente visitar a vovó ou passear com ela – e isso me deixou feliz, porque nos últimos anos de sua vida, por motivos diversos, alguns deles de ordem prática, outros de fundo emocional, não tive muitos momentos compartilhados com ela. Visitava, aceitava as deliciosas sopas e bolos que nunca faltaram em sua casa, ouvia histórias e reminiscências, mas a frequência era pouca.

Ainda bem que, como aprendi com minha amiga Maria João, a memória é uma velha louca, que joga comida fora e guarda trapos coloridos. Esse retalho amarelado pelo tempo me trouxe, nesta tarde de inverno, exatos 30 anos depois, uma lembrança que, na verdade, não importa que tenha (ou não) acontecido. Ao contrário do que creem os defensores da singularidade tecnológica, a gente lembra não é com o cérebro: é com o coração.

-Monix-

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