Educação, balbúrdia, vida

Eu não fui, nos anos da educação básica, uma aluna estudiosa. Fui, sim, interessada, participativa, curiosa. Mas não estudiosa.

Daí que quando me formei na graduação fiz uma pequena cerimônia de libertação, rasgando as folhas do fichário que usei na faculdade, os textos em xerox que já não seriam mais necessários, etc. E à la Scarlett O’Hara fiz uma promessa mais ou menos solene de que nunca mais passaria fom… ops, não era isso. A promessa era de que nunca mais na vida eu iria estudar.

Mas aos vinte e poucos anos a gente é mesmo besta, não é? E “nunca mais” lá é promessa que se faça?

Enfim. Veio a necessidade de me aperfeiçoar e fui fazer uma pós-graduação. A sensação de ser a “tia” da turma foi engraçada. Eu tinha a idade dos professores, estava pagando para estudar pela primeira vez na vida, para fazê-lo deixava meu filho pequeno em casa com uma babá… não estava lá só pra ter um certificado bonito. Eu queria aprender. E então me vi quebrando minha promessa solene. Estudei, e gostei.

Depois que terminei a pós, fui convidada a dar aulas. Ensinei, e gostei.

Nos últimos anos tem sido assim: às vezes eu estudo, às vezes eu ensino. Acabei de terminar o mestrado. Estudei muito, mais do que nunca na vida. Fui feliz.

Hoje dou a última aula de um curso de extensão na Uerj. Foram cinco (ou seis?) semanas em que frequentei, pela primeira vez, este heróico campus. Cheguei um pouco mais cedo e estou escrevendo este post sentada em um corredor por onde passam estudantes de todos os tipos e tamanhos: uma universidade é, sem falta, um ambiente efervescente, fervilhante, onde a energia da criação é tão intensa que quase pode ser tocada. A Uerj vive porque toda Universidade vive.

Tem balbúrdia, sim, seu ministro que não merece nem ser linkado. Porque a juventude é barulhenta, graças aos deuses. Barulhenta, colorida, entusiasmada, esperançosa e ligeiramente transgressora, como nós, do alto da nossa idade e experiência, muitas vezes não conseguimos mais ser.

Acho que foi isso que vim buscar quando quis voltar a esse lugar. E encontrei.

-Monix-

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Cenas dos próximos capítulos

Entramos hoje no mês do meu aniversário. É um momento em que inevitavelmente rola uma reavaliação, um “o que estou fazendo da minha vida”, uma olhada para trás e para frente pensando no que já foi e no que ainda vem, etc.

Nem com bola de cristal tá dando pra prever o futuro…
(Foto: Sindre Strøm no Pexels)

Daí que me dei conta que justo neste mês eu defendo minha dissertação de mestrado e dou mais um passo nesse longo processo de transição de carreira que começou, vejam só, em abril de 2015, quando pedi demissão de um emprego considerado bacana mas que já não me satisfazia. Fui atropelada por um cenário econômico apavorante, e os últimos anos têm sido bem mais difíceis do que eu previa em meu planejamento, mas continuo firme no meu propósito de construir minha terceira carreira.

A primeira foi de jornalista, principalmente na TV Manchete, com brevíssimas passagens por outras emissoras e uma produtora independente. A segunda foi na comunicação corporativa. Durou muitos anos e me fez aprender muito, inclusive algumas habilidades que são úteis para fazer jornalismo. Aqui no Brasil essas duas atividades são consideradas parte da mesma profissão (jornalista), mas eu acho que são coisas bem diferentes e deveriam ser tratadas como tal.

A terceira, para a qual venho me preparando nos últimos anos e que aos poucos começa a se desenhar melhor, deverá ser algo que mistura um pouco de professora, um pouco de consultora, talvez um pouco de alguma coisa que ainda não tem nome bem definido. Basicamente, quero dar aulas em universidades, quero capacitar professores e profissionais para entender as novas mídias e a vida digital, quero, em resumo, transmitir conhecimentos que acumulei ao longo de uma vida.

Essa mudança não foi um “Plano B” para enfrentar o desemprego. Foi uma escolha meio maluca, num momento péssimo, mas enfim, uma escolha. Terminar o mestrado com quase 50 anos de idade me parece loucura. O que vem depois? Mais quatro anos de doutorado? Deveria ter começado tudo isso muito mais cedo, penso frequentemente. Mas aí olho para trás (e para frente) e percebo que tudo o que aconteceu na minha vida me trouxe até aqui. Não poderia ter sido diferente. O frio na barriga é inevitável. Sigo em frente assim mesmo.

-Monix-

Histórias de presépios

Na tradição das nossas famílias hoje, Dia de Reis, é quando guardamos todas as decorações natalinas, árvore, guirlandas, sinos e presépios. Daí o mote para fecharmos o tema natalino, antes que a Leader avise que já é natal de novo.

A história da Helê

Eu sou a que tem sentimentos dúbios e oscilantes sobre o natal, a que gosta da tradição mas recusa a imposição. A que não gosta de peru nem de passas em comidas salgadas, mas ama rabanadas com fervor. A que oscila entre curtir e não ligar. Então quando La Otra me chamou para um pré-natal pensei: “Não basta um, ainda teremos pré?” Mas fui atraída pelo convite criativo (“uma festa para se preparar para as festas”) e pelo descompromisso: chegar sem hora certa, levar o que quisesse (ou não levar), participar ou não de uma troca de presentes que nem precisavam ser novos, enfim: um natal sem pressão me atraiu e animou minha filha (que precisa de quase nada pra se animar, verdade seja dita).

Foi uma noite muito agradável, em que pudemos conversar sem pressa, nos assustar com o crescimento dos filhos alheios, comer coisas maravilhosas preparadas pela Monix numa mesa linda (que teve também contribuições igualmente deliciosas, como um cheesecake memorável). Tudo leve como deveriam ser as festas familiares e similares. Já na despedida, elogiei o presépio e disse à sócia que é das coisas de natal que eu realmente gosto, muito mais que da árvore e dos pisca-pisca coloridos exagerados. A cena reproduzida, os personagens, figurinos e o propósito de nos lembrar para que, afinal, estamos reunidos, tudo isso me agrada nos presépios – embora eu mesma não tenha um, comentei de passagem. E Monix imediatamente reagiu ao comentário oferecendo o empréstimo de um dos cinco (!) que ela possui, cada um com sua história. Aceitei e levei para casa aquele que foi o primeiro de sua casa de adulta, feito de barro e com tipos bem brasileiros; seguindo os preceitos da família dela, só coloquei o menino Jesus na manjedoura no dia 25. Suspeito que esse empréstimo seja o início de uma tradição, além da afirmação dos nossos laços de partilha e pertencimento. Afinal, é disso que se trata o natal, não?

O presépio da Monix, que foi passar o Natal na casa da Helê

A história da Monix

Das coisas que gosto no Natal – e são muitas -, minha preferida são os presépios.

Minhas lembranças natalinas da infância são boas, o que provavelmente é um grande mérito da minha mãe, pois depois que cheguei à idade adulta me dei conta de que, desde sempre, as tretas reinaram nas festas da minha família*.

Mas, para mim, Natal era a alegria de montar uma árvore bonita, de comer uma ceia deliciosa (eu já fui magra, mas nunca não fui gulosa), e de admirar os lindos presépios que havia nas várias casas onde eu passava as festas. Uma tia do meu pai fazia uma gruta com papel-pedra. Lembro perfeitamente até hoje. O presépio da minha avó materna era (é) lindo – foi a herança do meu sobrinho, e hoje é um dos tais cinco presépios do “acervo” aqui de casa.

O presépio da vovó, que agora é a peça mais importante da nossa decoração natalina.

(Na verdade agora são quatro – um deles foi doado para uma família de refugiados venezuelanos.)

Uma das coisas que lamento na minha vida adulta é que não consegui transpor esse “espírito natalino” para meu filho. Há muitos, muitos anos não faço uma festa de Natal, nem aprontava uma decoração bonita na casa. Mas dos presépios, nunca abri mão.

Esse que foi passar o Natal com a Helê foi o primeiro que comprei, logo quando casei, em 1995. Quando se aproximou o mês de dezembro, lembro que liguei para minha avó e perguntei: “onde eu posso comprar um presépio?”. Eu nunca tinha pensado nisso, até então.

Vovó sabia das coisas, e respondeu na hora: “No Apostolado Litúrgico“. Eu nunca tinha ouvido falar nesse lugar! Mas era pertinho do meu trabalho. Dei uma passada lá, no horário de almoço, e bem na vitrine tinha esse de cerâmica, tão lindo, com um jeitinho tão brasileiro, completamente diferente do que havia na casa dela. Mas muito com a cara que eu estava dando para a minha casa.

É um presépio que eu adoro, até hoje. Há alguns anos ele tem sido preterido por outros, por motivos vários, e fiquei tão feliz por ele ter ganhado um lugar de honra na casa da minha sócia. Afinal, nada pode significar melhor “partilhar o espírito de Natal”… do que compartilhar um presépio.

* Nesse Natal de 2018, diante de tantas agruras que vivemos ao longo do ano, e de tantas outras que nos aguardam a seguir, decidi resgatar essa alegria natalina, das luzes coloridas, das bolas douradas, das músicas que só tocam nessa época. E, principalmente, resgatar os afetos. Minha família de origem é enorme, mas hoje está dispersa pelo mundo. Com a família próxima – pai e irmãos – eu celebro no dia 25. Com a família escolhida – namorido, cunhada, sobrinhos, sogro e sogra, primas – passo o dia 24. E de repente me dei conta que uma parte muito importante do que eu considero família, meus amigos mais chegados, estava longe de mim no Natal. Por isso tive a ideia de fazer essa festa que chamei de “Abraço Pré-Natal”, e que tem tudo para ser tornar mais uma das nossas tradições recentes.

Dentro do coração

I’ll be there for you / ‘Cause you’re there for me too. 
The Rembrandts

Lá pelo final dos anos 1990 (e início dos 2000), a gente parava toda semana* – talvez às quintas-feiras? – para assistir Friends, uma série que, como o nome já diz, contava as aventuras e desventuras de seis amigos naquele momento da vida em que a faculdade já terminou mas sua “vida de adulto” ainda não começou. (Ao longo das dez temporadas isso foi evoluindo, claro, mas enfim. Quem lê esse blogue tem idade suficiente para ter assistido à série na época, eu acho.) 

Lembro de ter lido, em algum momento dos muitos anos em que acompanhei a série, um artigo que tentava explicar seu sucesso. E era alguma coisa que tinha a ver com o fato de aqueles personagens retratarem uma característica típica da (nossa) geração: a importância que damos aos amigos e amigas.

Devem haver outras explicações, mas gosto muito dessa. Não sei quais são as causas sociológicas para isso, mas tenho mesmo essa sensação de que a relação que tenho com meus amigos é muito diferente da que meus pais tiveram, ou, sei lá, meus avós. Não é que eles não tivessem grandes amizades que atravessaram décadas – eles as tiveram. Mas não posso imaginar minha mãe chegando na casa de uma amiga e abrindo a geladeira para pegar uma água. Talvez seja uma coisa de classe e não de geração. Mas o ponto é que minha casa sempre foi aberta a amigos/amigas. Foi o lugar onde a turma dormia quando ficava tarde demais para pegar o ônibus, onde a gente se reunia para jogar e beber cerveja quando a grana ficava curta, onde a gente assistia filmes (saudoso Cinemonix) quando as crianças eram pequenas, e por aí vai. Da mesma forma, sempre me senti à vontade na casa deles/delas. Aquele entra-e-sai dos apartamentos das “meninas” e dos “meninos” na série é uma bela metáfora para essa relação confortável que temos com os espaços uns dos outros.

E não é só nas casas da gente que essas coisas acontecem. Nas nossas vidas, também existe esse entra-e-sai de amigos/amigas. Eu conto com eles, eles contam contam comigo. Perdi a conta de quantas mudanças ajudei a desencaixotar – e, claro de quantas pessoas me ajudaram a desencaixotar as minhas mudanças. Tudo o que não sei e preciso saber, pergunto a um amigo/amiga. Quando meu filho era pequeno, a gente ria disso – ele fazia perguntas doidas sobre o espaço sideral ou sobre tubarões, e eu dizia: não sei, mas tenho uma amiga que sabe. 🙂

Um dos planos mirabolantes que tenho com minhas amigas é o do asilo grandmothern, um lugar meio utópico em que nos reuniremos quando formos velhinhas, para cuidar umas das outras, reclamar dos filhos, babar os netos e paquerar os enfermeiros. Só não pode faltar o wi-fi, o resto a gente resolve.

Há um tempo atrás a atriz Jennifer Aniston, que interpretava Rachel, brincou dizendo que se Friends fosse feita hoje, a série seria um fracasso, pois os seis ficariam sentados no sofá olhando para seus iPhones. Talvez. Prefiro pensar que não.

Fim de ano é época de festas de família. Mas eu queria dizer aos meus amigos e amigas (vocês sabem quem são): vocês também são família para mim.

-Monix-

*  Naquela época, tínhamos que esperar longos sete dias para assistir 22 minutos de um episódio. 

Desistir/insistir

Tenho dificuldade em deixar coisas pelo caminho, unfinished business me assombram. Essa característica, na maioria das vezes positiva, tem um lado desagradável, que é me manter presa ao que não me dá prazer. Oscilo entre a curiosidade sobre onde aquilo vai dar e a obrigação muitas vezes auto imposta de ir até o fim. Há situações em que pagar pra ver vale a pena; em outras o preço pode ser alto.

Foi o caso da última temporada de House of Cards, por exemplo, oito episódios de desperdício de dinheiro e bons atores. Na verdade, a série já tinha perdido a mão lá pela 3ª ou 4ª temporada, e o Kevin Spacey dificultou a vida dos roteiristas sendo um cretino em sua própria. Então essa 6ª temporada foi como certos relacionamentos: tinha tudo pra dar errado — e deu. Insisti porque tinha a sensação de que perderia algo se não fosse até o fim. Acabei perdendo: meu tempo. 

Minha amiga C. abalou minha conduta ao advogar exatamente contra a perda de tempo. Ela diz que larga um livro sem piedade quando ele não diz logo a que veio (eu tenho pressa e tanta coisa me interessa toca na Rádio Cabeça).  C. me disse isso justo quando eu estava lendo um livro que não estava agradando. Pensei em parar mas quando vi que estava na metade, decidi ir adiante. E que decisão acertada!

A história de Okonkwo, guerreiro de uma sociedade africana pré-colonial, patriarcal e religiosa era apenas interessante, não conseguia me envolver. Até a chegada do homem branco. De uma maneira sorrateira e rápida, tendo a religião como instrumento, acontece uma transformação profunda e definitiva naquela sociedade. Nunca um título foi tão adequado quanto esse “O mundo se despedaça”. E só no contraste produzido pelo choque entre as culturas percebi a riqueza dessa história que se passa na África antes de ser África — essa invenção de invasores –, e do ponto de vista de quem já estava lá. Nesse caso, ir até o fim foi necessário e recompensador, a narrativa só se revela plenamente ao final.

(Aí na semana passada, quando li a notícia sobre o suposto missionário que foi morto a flechadas ao tentar fazer contato com um povo que há séculos vive isolado, só pude sentir simpatia pelos nativos.)

***

Diante desses episódios recentes, sigo librianamente indecisa sobre ir adiante com o que não parece promissor. Should I stay or should I go?

Helê 

Minas

  • La Otra já contou* que andei pelas Minas Gerais, então vou fazer este post mistura de ‘pastilhas’ e ‘diarice’, porque é o que temos no momento. Está sendo difícil retomar o rumo, o prumo e a escrita depois dessa eleição inimaginable (nas palavras de uma francesa atenta e querida). Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim (Chico Buarque®).

 

  • Essa foi uma viagem programada muito antes das eleições e de seu desfecho infeliz. Eu e meu amigo J. nos encontramos no dia 30 de outubro, ambos com o hematoma da desilusão grande e recente em nós. Poderíamos ter desistido, mas seguir adiante foi nosso primeiro ato de resistência – se não à ditadura, pelo menos ao desânimo (o que, convenhamos, não é pouco).

  • Conheci Ouro Preto em outro século, durante um carnaval – eu ainda era universitária e magra, veja você. Outra vida. Voltei décadas depois e encontrei uma cidade encantadora, acolhedora, altiva,  surpreendente. Desta vez visitei igrejas e museus, entrei numa mina desativada, conheci o Teatro Municipal, mergulhei em arte e história. Devo ter comido o equivalente a um pequeno leitão em forma de torresmo e provei muitas cachaças e cervejas, porque eu entendo cultura e arte num sentido beeeem amplo e saboroso. 

 

  • Um destaque? Os guias. Pode ser que a gente tenha tido sorte (em alguma coisa havemos de ter, oras!). Mas o fato é que não esbarramos em meninos engraçadinhos recitando datas e textos decorados. Encontramos guias turísticos bem preparados, com narrativas que fugiam dos discursos chapa branca. Mais que isso: que destacavam o protagonismo dos negros na trajetória da cidade e, por extensão, do país. Ouvi várias vezes a correta expressão  “africanos escravizados”. E aprendi coisas incríveis sobre o aproveitamento do conhecimento prévio de arquitetura, logística e mineração desses trabalhadores. 

  • Em São João del Rey encontramos a melhor cervejaria da viagem,  Ovelha Negra, a melhor anfitriã de AirB&B e vivemos uma experiência inacreditável para um paulista e uma carioca: dormimos de janela aberta numa casa de rua, sem muro. Mind blowing.

 

  • São João conservou (e bem) seu centro histórico e continuou a ser cidade em volta dele. Já Tiradentes parece toda ela uma cidadezinha de boneca, toda lindinha, conservada e…cara. Colada em uma serra imponente, deve ter trilhas e passeios interessantes que não tive tempo de fazer. A Maria Fumaça que liga as duas cidades só fez  aumentar a minha vontade de viajar num trem de verdade.

  • Em Belo Horizonte, a saudade e o cansaço já pesavam na mala. Mas aí, laralá, lirili, encontrei com amigas geniais que tornaram tudo leve e amoroso. Compartilhamos angústias e desilusões – além de gargalhadas e cervejas. Nesse momento de incertezas variadas e medos difusos, reafirmar afetos foi restaurador. Como já disse em outro lugar, as minas mais preciosas estão em BH. 

 

  • No mais, colocar uma mochila nas costas e viajar pelo interior do país aos quase 50 anos pode fazer muito bem para sua autoestima. A minha voltou mais robusta. 😉 

 

Helê

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Menino de antigamente

tiradentes
Quando esse menino era desse tamaninho, a gente foi passear em Tiradentes com o vovô. Lá tem essa brincadeira de tirar foto vestido de gente de antigamente. Aí a gente estava se preparando, vestindo os figurinos, e era preciso entrar no personagem. Eu disse pra ele: naquela época os meninos tinham que ficar muito quietos e muito sérios para tirar retrato.
Ah, pra que?
Foi uma avalanche de perguntas! Mas porquê, mamãe? Por que não podia se mexer? Por que não podia rir?
Tentei explicar que a câmera era diferente, que se a gente se mexesse ou mudasse a posição do sorriso, com o longo de tempo de exposição do “filme” (filme? o que é isso, mamãe?), a foto sairia toda borrada.
Mas não era só isso. Toda a sociedade era mais rígida. As crianças eram ensinadas desde que nasciam a não questionar, a obedecer. “Respeitar os mais velhos” não tinha o significado empático e amoroso que damos hoje à palavra respeito. Respeitar os mais velhos significava, basicamente, temer os mais velhos e evitar aborrecê-los.
Era como se eu estivesse falando de outro planeta!
Não foi assim que ele – e, em grande medida, a sua geração – foi criado. Para ele o mundo é um lugar onde ele se sente à vontade para se expressar o tempo todo. Seja na inquietude de quem não consegue ficar cinco minutos sem batucar em qualquer superfície que se apresente, seja na necessidade de perguntar tudo sobre tudo (sim, gente, pensem numa pessoa perguntadeira – agora multipliquem por dois), seja na capacidade de formular todo tipo de teoria maluca sobre esse mundo imperfeito em que vivemos. E, principalmente, na ânsia de contribuir para transformá-lo em um lugar melhor. Para todos nós.
O menino já não é pequenininho – pelo contrário, é um moço feito, “de barba na cara”, para meu permanente espanto (nunca me acostumarei).
Para mim, ele sempre será esse menino inquieto, que tudo quer saber e que muito tem a dizer. Neste Dia das Crianças não tem presente. Só o desejo de que o mundo continue andando pra frente. O que já é bastante.
-Monix-
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