Trégua

Saí à rua e surpreendi uma temperatura mais baixa do que esperava. Não lamento, aproveito esses dias poucos e raros. Já, já chegam meus favoritos, os de luz e calor, meu habitat natural, quando a tristeza não orna. Reparo nas árvores da escola antiga que me encantam, trocando de folhas e flores sempre, mas mantendo inexplicavelmente um tom de sépia e saudade que me acolhe e acalma os sentidos dos erros (você sabe o resto). As pequenas aflições, as faltas atávicas, o estado do Rio, as perdas frequentes; as amizades surpreendentes, o poder da minha palavra, as delícias da maternidade, as lembranças recentes, o desejo latente. Os bons e a bad, alegrias e decepções, tudo tanto que embaralha a minha cabeça e acelera o carrossel do meu coração. Exausta, peço tempo e trégua, e conto com setembro para aquietar a mente e, principalmente, o coração. Porque no fim das contas, na peleja entre razão e emoção, é a segunda que me debilita: eu sinto muito.

(“Love” by Otto D’Ambra – salvo de curiousdukegallery.com)

Helê

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Festa na favela  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

Anotações para uma biografia musical

Quando eu nasci, há dez mil anos atrás, veio um anjo safado que decretou que eu tava predestinada a ser errada assim. Deus, que é um cara gozador e adora brincadeira, pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro, mas sou natural daqui Rio de Janeiro, sou em quem levo a alegria. Nascida no subúrbio nos melhores dias. Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca. Seemed that life was so beautiful, magical. Quando fui ferida, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Yesterday came suddenly. Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar. A cada  mil lágrimas sai um milágre. Eu sei, serei feliz de novo. Ah, se eu fosse marinheiro, seria doce o meu mar. I’m all about the bass. Em matéria de guarida, espero ainda a minha vez. My friends all drive Porshes, I must make amends. Tenho desejos maiores, eu quero beijos intermináveis. I told you I was trouble. As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Helê

Exposta

A canção que me comove intensamente diz “Eu fiquei sozinho até achar que estar sozinho é estar com alguém“. De uma maneira racionalmente estúpida, eu quero voltar pra esse alguém, que nunca vai me decepcionar. Para aceitar estar tão só por tanto tempo eu tentei me convencer de que o amor – por sorte, azar ou destino – não era pra mim. Acho que consegui. Agora sinto-me inadequada, inábil, tremendo para desarmar uma bomba: sabendo que preciso cortar o fio certo, mas pensando que o errado talvez resolva tudo de uma vez. “O chão sumiu a cada passo que eu dei”, diz a música em outro trecho. O abismo, fascínio e terror. Amar é muito precário. (Amar é complexo, aprendemos aqui no Rio de Janeiro.) Muita bagagem para ser leve, vivida demais para me sentir tão frágil, mais vulnerável do que consigo suportar. O amor é uma habilidade – aprendi num filme, mas desaprendi na vida; não exercitei e perdi a forma, a flexibilidade, o tônus – a manha, talvez. Acho que não dou conta. Certas coisas têm prazo de validade: acampar, usar franja, amar sem temor. Tenho quase 50 anos, talvez não possa mais correr certos riscos.

Helê

Ponto de virada

 

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Em geral eles surgem sem placa ou indicação; às vezes leva algum tempo para perceber que passamos por eles. Mas, com o tempo, a gente olha pra trás e vê claramente os pontos em que a nossa história mudou de um jeito inesperado, repentino ou radical (ou todos juntos).

Tenho pelo menos dois momentos definidores na minha vida, aqueles em que ações ou eventos mudam tudo, redirecionam sua rota, alteram as coordenadas da existência. O primeiro deles, um verdadeiro twist plot, aconteceu quando eu terminei o ensino fundamental e ia para uma escola técnica. Não tinha o menor desejo de cursar eletrotécnica – que eu até hoje não sei no que consiste -, mas eu passei na prova sem dificuldade, era um colégio púbico e um particular estava fora de que$tão. Mas uma professora de Estudos Sociais, D. Braguez (de quem eu nem era próxima), considerou que seria um desperdício porque eu era muito inteligente, a escola era fraca e eu ia para lá apenas por falta de opção. Então ela foi ao melhor colégio do bairro, onde os filhos dela estudaram, pediu e conseguiu uma bolsa de estudos integral pra mim. Assim, fui estudar no Pentágono, e minha vida tomou um novo rumo por causa disso. Além do ensino de qualidade, eu descobri que o mundo era muito maior que Vila Valqueire; aquela escola ampliou meus horizontes de um modo que nenhum outro ambiente conseguiu. Fiquei tão deslumbrada que, depois de um primeiro ano excepcional, levei bomba no segundo e perdi a bolsa (e por isso me sinto até hoje em falta com a D. Braguez). Tento me desculpar lembrando que eu era uma adolescente querendo conquistar o mundo e beber a vida em grandes goles (e alguns tragos).

O segundo momento talvez seja melhor definido como um turning point – que eu entendo como ligeiramente menos radical que a virada de enredo, mas também impactante na narrativa, de maneira irremediável. Aconteceu em 2003, quando acessei um blog chamado Mothern e deixei um comentário no Livro de Visitas. Voltei – a convite da Fernanda Castro, que por isso virou minha comadre –, e muito do que aconteceu depois na minha vida deriva desse conjunto de ações. Sem o Mothern você não estaria lendo esse post agora, por exemplo. Eu teria seguido um curso diferente na minha vida se não tivesse entrado nessa trilha, que me levou a caminhos inesperados, me trouxe as melhores paisagens e as mais incríveis companhias. Um tanto de acaso, bocado de curiosidade, e muita sorte de estar no lugar certo na hora exata.

E você, consegue identificar momentos de virada na sua vida? Qual foi o seu turning point (ou quais foram)?

 

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Helê

Descompasso

Uma conhecida me falava sobre a felicidade de, depois de trabalhar com produção, estar em uma escola, lidando com o dia a dia das crianças. Elogiava a concretude do trabalho: “Você vê o resultado do que faz na hora”, ela concluiu, empolgada. E eu concordei, alegando que todo mundo que trabalha com esta vaguidão chamada cultura sente falta disso. Disse a ela: “Às vezes eu queria, sei lá, fazer uma mesa de madeira igual a essa em que estamos, produzir algo real.” Conversa vai conversa vem, logo depois me peguei falando entusiasmada do quanto eu gosto de mexer com texto, com tudo o que lhe diz respeito: escrever, revisar, editar, aprimorar, adaptar. “A carpintaria” eu disse, usando uma metáfora recorrente, que naquela conversa soou redundantemente divertida. Percebi que meus textos são as minhas mesas – ora rústicas, ora elegantes; largas ou aconchegantes, sempre convidativas, generosas. Sobre elas gosto de servir, alimentar, celebrar, apoiar e agregar. E quando possível, tento decorá-las da melhor maneira, com beleza e sem frescura,  com aconchego e alegria, cores e amor.

Mas nasci em tempos de fast-food.

Helê

Bigorna

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Tenho quase cinquenta anos e recentemente essa constatação caiu na minha cabeça como uma bigorna de desenho animado. A imagem é divertida, o sentimento não. Quando me dei conta disso fiquei meio zonza, depois um pouco ofegante; experimentei um mini ataque de pânico. Culpa e recriminação às golfadas, ansiedade. Depois tristeza; ainda espanto. Não, não se apresse em corrigir e dizer que falta muito: é depois de amanhã – ainda semana passada eu fiz 40, surpresa.  Interrompi a leitura de Dupla Falta (Lionel Schriver) para ler Não há tempo a perder (Amyr Klink), sem me dar conta da metáfora de imediato – mas fiz terapia por muito tempo pra deixá-la escapar por completo.  Terapia talvez ajudasse – mas, pensando bem, ela estava lá anos atrás, quando eu deveria ter me preparado para isso. Isso o que, exatamente? Envelhecer? Sim, talvez seja isso, em resumo; mora aí o desconforto. Negá-lo não o fará desaparecer, então vamos enfrentá-lo, olho no olho, sem enfeite nem fuga. Sinto que me falta um plano que deveria ter feito 20 anos atrás. Pode voltar a fita? Acho que nunca pensei em perspectiva, e talvez tenha me dado conta tarde demais de que precisava ter feito diferente. Bom, em minha defesa devo dizer que, let’s face it, venho de um lugar na pirâmide social onde a perspectiva é trabalhar até o fim da vida, com discretas variações. Por mais que o estudo tenha me empurrado para as fronteiras da classe média e eu socialize mais com o privilégio do  que com a privação, não me afastei dela o suficiente para não me sentir ameaçada. E eu não contava com a possibilidade de, sendo jornalista, virar um mordomo, ou seja, um profissional obsoleto e em extinção. No entanto, let me face it, exatamente por ter não contar em herdar nada além de hipertensão e o braço gordo da minha avó, eu deveria ter me preparado melhor para envelhecer com alguma estabilidade, ou pelo menos com a ilusão dela. Espero que ainda seja cedo para ser tarde demais.

 

Helê

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