Uma aglomeração de amor

No dia de celebrar Helê, nada melhor que uma aglomeração de fotos aglomeradas. Porque essa mulher é dos muitos: muita gente, muita alegria, tudo muito. Nós somos amigas há quase vinte anos, mas nunca fomos só nós. Sempre estivemos cercadas de gente fina, elegante, sincera.

(Observem que a pessoa é tão agregadora que conseguiu a proeza de me convencer a participar de uma corrida (!!), como prova a foto do topo, à direita.)

Helê, mi sóciamada, que seu dia seja carregado da energia que esses abraços coletivos nos trazem. E que em breve eles voltem a acontecer. Feliz aniversário!

-Monix-

Quarta

Quarta-feira – e nem de cinzas é. (Se fosse, haveria uns bloquinhos carnavalescos desgarrados pela cidade, sempre um tantinho melancólicos em negação inútil e rebeldia inofensiva, mas renitentes e divertidos). Alguém já disse que é o pior dia da semana esse que fica igualmente distante do começo e do fim, quando a gente parece que já não está, mas ainda nem. De certo modo, é como se estivéssemos todos em uma looonga quarta-feira, as lembranças já começam a amarelar sem que a gente seja capaz de sonhar novos sonhos.

Tempos atrás – quando completamos cem dias disso que nenhum nome mais dá conta – eu disse que nadávamos sem mar à vista, tarefa ingrata até pra Phelps Ana Marcela. Agora avistamos montes aqui e ali – há até quem acene das bordas, pulando serelepe (prestes a cair na água, os incautos). Mas nadamos contra correntezas, a sensação persistente de que não saímos do lugar, ou que nos movemos muito pouco.

Uma quarta-feira loooonga demais. Mais do mesmo. Variantes de vírus vencem, quando precisávamos variar as saídas, as soluções  – e de meia dúzia de heróis, já que os vilões  se multiplicam sem controle nem constrangimento.

Cansaço abissal que já não é apenas desse país tacanho, mas da vilania do mundo, talebãs e tal. Sempre que inspiro mais fundo vira um suspiro, como se eu respirasse saudade. Aperfeiçoo, contra a minha vontade, a arte de perder sobre a qual Bishop falou melhor que ninguém. 

Mas sigo. Sístole e diástole, ou algo perto disso. Setembro vem aí, e ele, em geral, não me decepciona. Por favor, capriche na primavera e mantenha sua reputação.

Helê

 

Sobre patriotismos — e algumas notas olímpicas

Os japoneses são tão organizados que calcularam direitinho pra olimpíada cair bem no intervalo da CPI da Pandemia, garantindo o entretenimento dos brasileiros.

E a gente estava mesmo precisando de uma diversão que não fosse apenas passar raiva juntos.

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Eu sou aquela que só gosta de futebol na Copa do Mundo. E dos demais esportes, quando os ventos favorecem, só mesmo em alguns Jogos Olímpicos. Em 2016 eu dei uma surtada com os Jogos no Rio e assisti um monte de eventos. Foi a última vez que minha cidade, que tanto amo, me fez realmente feliz.

Ano passado, quando adiaram os Jogos de Tóquio, eu estava mais preocupada com a crise global da pandemia. Não dediquei mais que dez segundos pensando “ah, fizeram bem”, e segui dando banho nas compras (a gente ainda estava nessa fase, lembram?). Mas desde semana passada, quando me caiu a ficha de que mesmo com a pandemia ainda nos ameaçando aí fora haveria, sim, olimpíada, convivo com um misto de sentimentos. O primeiro deles foi a saudade imensa do Rio olímpico, do alto astral daqueles dias. Revi vídeos e ri até das coisas que reclamei rabugentamente na época, como a zoeira exagerada da torcida carioca em esportes tradicionalmente mais “comportados”.

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Pouco antes de começar a olimpíada, fiquei meio na dúvida se era certo assistir, afinal, pandemia né? Durante outros dez segundos fiquei pensando se era incoerente acompanhar os Jogos depois de criticar a vinda da Copa América para o Brasil*, tempo suficiente para concluir: eles que lutem.

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O esporte é uma forma genial de canalizar o patriotismo das pessoas, construir um senso de nacionalidade, sem precisar levar todo mundo para a guerra. Assistir EUA X China no vôlei é um microcosmo de tensões geopolíticas que terminam quando o juiz dá o último apito. Este ano eu lembrei que adoro vôlei (sei lá por que tinha esquecido disso), e fico catando partidas nos inúmeros canais sem locução disponíveis no meu pacote. Mas não consigo assistir sem torcer, então escolho um país. Normalmente vou pela proximidade ou afinidade cultural: entre Irã e Venezuela, fiquei com nossos vizinhos. Perderam. Na partida entre americanas e chinesas, tentei de verdade torcer pelas representantes do nosso continente, Mas elas eram tão antipáticas, e as asiáticas, por outro lado, tinham tanta alegria (davam gritinhos a cada ponto), que mudei com cinco minutos de jogo.

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E obviamente há o Brasil. No Twitter o que mais vejo são negociações sobre para qual atleta podemos torcer, quem é ou não bolsominion, se é melhor focar nos esportes individuais e escolher os mais confiáveis ou se nos coletivos para diluir o risco. Sinceramente? Estou zero preocupada com isso. Torço mesmo. O esporte, como eu disse, é uma forma de emoldurar nosso conceito de nação — e curiosamente ao mesmo tempo é mostrado como um instrumento de superação pessoal de dificuldades, etc. Paradoxos.

Mas enfim, digressões à parte, há alguns anos, principalmente a partir de 2013, me sinto um pouco lesada no meu direito de pertencer ao Brasil, de ser brasileira, de me ver representada por símbolos nacionais (os piores casos são a bandeira e a camisa da seleção de futebol, que foram roubados de nós pelos extremistas de direita e hoje causam desconforto na maioria das pessoas da minha turma). Por isso, tem sido bom aproveitar os Jogos Olímpicos para me reencontrar com o sentimento de brasilidade. De saber que ser brasileira, mais do que vergonha internacional, é fazer parte de um povo alegre, apaixonado e apaixonante, intenso de todas as formas (às vezes a ponto, sim, de ser vergonhoso, mas por motivos mais inofensivos do que destruir a Amazônia ou deixar a pandemia fora de controle para lucrar com vacinas superfaturadas e garantir popularidade no ano de eleições).

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O maior símbolo do Brasil que eu quero e preciso resgatar no meu coração é a fadinha Rayssa Leal. O sorriso no rosto dessa menina, a leveza em cima do skate (e o próprio fato de o skate se tornar esporte olímpico), tudo isso me representa.

Aos 13 anos, Rayssa Leal, a Fadinha, conquistou a medalha de prata no skate stre
Valeu, garota :)

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Ainda nesse quesito “reflexões sobre o patriotismo nos esportes”, chama a atenção a situação dos atletas russos. O país foi banido de competições internacionais, porque o governo estava dopando todo mundo pra conseguir os melhores resultados (resumindo em poucas palavras uma situação obviamente mais complexa que isso).

Esse caso da Rússia leva ao limite o argumento de que o esporte é uma forma de sublimar as guerras, de levar as tensões geopolíticas para dentro das quadras e pistas e etc. Hoje é século XXI, galera. O soft power é tão importante quanto qualquer outro, se não for mais.

Enfim, quando vi a bandeira olímpica e a a sigla ROC indicando que os atletas estão competindo pelo Comitê Olímpico Russo, e não pelo país, achei estranho e meio que como trocar seis por meia dúzia. Se são as mesmas pessoas, que diferença faz? Não é uma hipocrisia danada permitir isso?

Claro que há interesses comerciais que não podem ser contrariados. Um atleta de alta performance fora de uma olimpíada causa um prejuízo enorme para as marcas que investiram nele. Uma delegação inteira, ainda mais uma do porte da russa, seria incalculável.

Mas, negócios à parte, realmente não é a mesma coisa que competir sob a bandeira do país. Subir ao pódio e não ter o hino executado é um golpe no sentimento de patriotismo que vem junto com a vitória no esporte. Ainda mais quando se sabe que isso acontece porque o governo do seu país foi punido.

Além disso, na prática a medida significa que os atletas estão reunidos sob o Comitê Olímpico Russo, um órgão que o Comitê Olímpico Internacional consegue controlar.

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Um silêncio veemente que se escuta é o do presidente Jair. Políticos e artistas que entendem essa relação umbilical entre os esportes e o conceito de nação estão parabenizando os atletas, vibrando com cada conquista, e na medida em que adjetivam e qualificam cada acontecimento, ajudando a emoldurar a ideia que fazemos de Brasil. O Brasil é o sorriso da Rayssa? É o choro emocionado do Ítalo? É a persistência dos caras do vôlei que viraram um jogo suado contra a Argentina? Sim. Somos um pouco de tudo isso. E o presidente? Soltou uma nota burocrática parabenizando os skatistas e aproveitando para falar de isenção de impostos para skates, como se alguém estivesse pensando nisso na hora de comemorar medalhas. Francamente. Fora isso, nada mais. É quase como se estivesse aproveitando que todos mundo está olhando pro outro lado para entregar de vez o governo ao fisiologismo.

Ou vai ver que ele só consegue mesmo se pronunciar quando é pra atacar a ideia de Brasil que esses atletas representam. Por isso, quando eles triunfam, não consegue dizer é nada.

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Voltando ao começo, semana que vem a CPI recomeça e desconfio que o recreio vai acabar — ou seja, será o fim desse intervalo maravilhoso em que foi possível esquecer do Brasil sombrio de 2021 e acreditar que podemos ser muito, muito melhores que isso.

-Monix-

* Refletindo melhor, concluí que não, não é a mesma coisa. O Japão está há mais de um ano planejando e pensando em formas de realizar um evento deste porte em condições minimamente seguras para todos. O Brasil atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que nem era nossa, e abrigou uma competição internacional com dias de antecedência, seguindo a lógica sanitária do salve-se quem puder.

Canções de guerra, quem sabe canções do mar

Depois de um longo período sem conseguir me concentrar em nada, nem mesmo no escapismo catártico da ficção, aos poucos estou voltando a consumir alimentos para o espírito. #alertadeclichê

Eu sempre fui devoradora de filmes, séries, livros, e, mais recentemente, podcasts. Por isso, me preocupava um pouco minha total incapacidade de assistir mais de 20 minutos de um filme, minha total falta de vontade de começar uma série por saber que não daria conta de ir adiante, e, claro, minha total falta de foco para ler mais de duas páginas de um livro. Acho que muita gente está assim também, e ter companhia me deu algum conforto, claro. Mas o que realmente me deixou satisfeita foi conseguir, aos poucos e sem explicação, voltar a encontrar prazer nas coisas que sempre amei.

Daí que nos últimos meses vi muita coisa interessante, li um livro lindo que ganhei de presente, maratonei séries, enfim, I’m back :)

Como gosto de anotar o que estou vendo e ouvindo, reparei que nas últimas semanas assisti vários filmes passados mais ou menos na época da II Guerra Mundial — um pouco antes, durante, um pouco depois. (Eu sempre fico impressionada com a capacidade da indústria cultural de produzir infinitas obras sobre os horrores do nazismo. Já houve uma moda de filmes sobre a Guerra do Vietnã, que aconteceu bem depois, e a fase passou. Mas a II Guerra continua rendendo assunto até hoje. E faz sentido: depois de ler Hannah Arendt eu entendi.)

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Antes de chegar a um conclusão, se é que chegarei, deixo o registro dos filmes que vi (e um que revi) nas últimas semanas sobre esse tema.

Operação Final: agentes do serviço secreto israelense vão à Argentina para capturar e retirar do país o criminoso de guerra Adolf Eichmann (cujo julgamento inspirou outra obra da Hannah Arendt que ainda não li). A operação é bastante questionável do ponto de vista do Direito Internacional (talvez flagrantemente irregular, mas sei lá eu). Mas seus resultados concretos e simbólicos são, esses sim, inquestionáveis.

O Fotógrafo de Mauthausen – espanhóis derrotados na Guerra Civil foram tornados apátridas pelo ditador Franco, e enviados ao campo de concentração de Mauthausen, na Alemanha. Lá, um deles se torna assistente do oficial nazista que fotografava as atrocidades cometidas. Conforme os prisioneiros percebem que o fim da guerra se aproximava, alguns deles se unem na tentativa de preservar os negativos que serviriam (e serviram) de provas nos tribunais do pós-guerra. O filme é baseado em acontecimentos reais, e algumas cenas reproduzem fielmente as fotos tiradas na época.

A Escavação – pouco antes da guerra começar (a Inglaterra já era sobrevoada por ameaçadores aviões alemães), uma viúva, proprietária de terras, decide escavar um terreno onde, segundo a lenda local, havia coisas antigas debaixo da terra. Ela contrata um arqueólogo amador, eles fazem uma descoberta muito importante e o resto é história (e História). A trama não é lá grande coisa, mas as imagens da escavação são sensacionais e valem o filme.

Lida Baarová – em meados da década de 1930, em plena ascensão do nazismo na Alemanha, uma atriz de cinema tcheca, já famosa em Praga, se muda para Berlim na tentativa de ser bem sucedida por lá. Na época, Berlim era um polo cinematográfico que competia com Hollywood — e para a qual perdeu talentos como Fritz Lang e Marlene Dietrich, fato citado em uma das cenas. (Aliás, eu só fiquei sabendo mais sobre essa era de ouro do cinema alemão quando visitei o Museu do Cinema berlinense.) Bom, pra variar, I digress. Voltando ao filme: a atriz Lida Baarová de fato consegue fazer sucesso na capital alemã, tanto que chama a atenção do Führer em pessoa e do poderoso ministro da Propaganda Joseph Goebbels, de quem torna-se amante. A história de Lida é uma história de decisões erradas.

A sociedade literária e a torta de casca de batata – logo após o fim da guerra, uma escritora londrina conhece, através de cartas, um grupo de amigos moradores da ilha de Guernsey, que chegou a ser ocupada pelo exército alemão. Deu vontade de rever um confort movie, escolhi esse. Apesar do tema de guerra, é uma história doce sobre como o amor e a amizade podem surgir em momentos (e por pessoas) que não se espera. O livro, um romance epistolar delicioso, já foi tema de post da Helê.

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Bom, depois dessa enxurrada de filmes mais ou menos sobre o mesmo tema, alguns mais delicados, outros bastante pesados, me peguei pensando por que será que estou tão interessada na II Guerra Mundial, que nem é um período histórico pelo qual eu tenha uma preferência especial.

E o mais estranho: a vida real está tão difícil, tão complicada, que eu deveria estar buscando conforto na ficção, eu acho. Em vez de assistir a coisas ainda mais horríveis.

Mas talvez seja isso: talvez, de algum forma, saber sobre coisas horríveis pelas quais a humanidade já passou, conhecer aquilo a que sobrevivemos, esteja me ajudando a lidar com nossos tempos duros. Eu ainda quero acreditar que nós somos ação, eles são reação. Eles passarão, nós passarinho.

-Monix-

O ano do meu cinquentenário

O ano do meu cinquentenário meio que não aconteceu — mas por outro lado aconteceu sim, e muito.

Foi um ano de isolamento forçado, e isso talvez tenha me deixado mais melancólica do que eu deveria ter sido em um ano de cinquentenário.

O ano do meu cinquentenário teve uma comemoração remota, com bolo encomendado pelas amigas e a mensagem “Feliz Cinquentena”. Foi um bom jogo de palavras, mas infelizmente estava longe da realidade: a quarentena virou trezentos-e-sessenta-e-cinquentena e parece que ainda falta muito para acabar.

O ano do meu cinquentenário registrou uma coincidência matemática que nunca vai se repetir: ano passado, eu e meu filho comemoramos aniversários simbolicamente importantes (eu 50, ele 18). Teria sido divertido e emocionante comemorar com uma celebração bem marcante, talvez uma viagem daquelas de guardar para sempre na memória. Em vez disso, passamos um ano e sabe-se lá quanto tempo trancados dentro de casa. E poucas coisas devem ser mais próximas de um pesadelo para um cara de 18 anos do que passar 12 meses convivendo com a mãe cinquentenária. (Mas ele é educadinho e nem deu bandeira.)

O ano do meu cinquentenário foi triste. Foi um ano de perdas, em que mesmo quem não tem do reclamar pode reclamar — porque a vida nos pregou muitas peças, a todos nós, no ano do meu cinquentenário.

O ano do meu cinquentenário está acabando e parece que nem começou. Ao mesmo tempo, parece que sempre existiu. Como diria nossa amiga G., passei o ano do meu cinquentenário presa na infinitena, e não foi legal.

O fim do meu cinquentenário me fez lembrar de uma amiga que dizia: o problema não é chegar aos trinta, a data redonda a gente comemora e tal. O problema é quando a gente faz trinta… e um. Em 2020 não pude nem comemorar a data redonda; em 2021 os 51 dificilmente me parecem ser uma boa ideia (referência a ser entendida por quem está perto do cinquentenário, para mais ou para menos).

O ano do meu cinquentenário foi sem nunca ter sido. Uma espécie assim de Viúva Porcina do meu calendário pessoal.

-Monix-

Notas sobre o réveillon de Copacabana

Estou chegando de uma rápida caminhada de reconhecimento pela Atlântica, na altura do Copacabana Palace. Pouca gente na rua. Nem todos de máscara. Bastante policiamento. A chuva forte que caiu deve ter contribuído pra deixar o pessoal em casa. Muitas vagas disponíveis, uma visão inédita. O metrô fechou às oito em ponto. Quiosques e restaurantes funcionando discretamente, com pouca gente, sem música nem nada, todo mundo sentado em mesas separadas. Tinha gente entrando e saindo de prédios com travessas de comida na mão, esperando Uber na calçada… Acho que as festas em casa vão ser o maior problema. Mas aglomeração na rua não creio que tenha mesmo não.

Escrevi esse textinho ontem, antes da meia-noite. Já passei muitas viradas de ano em Copacabana e dessa vez me senti bastante dividida entre a intenção de me manter dentro de casa respeitando o isolamento social (estou temendo muito pelo janeiro que enfrentaremos) e a curiosidade de ver esse bairro, conhecido internacionalmente pelos réveillons lotados, nesse momento excepcional. Acabei chegando a esse meio-termo possível: uma caminhada de reconhecimento, para ver uma inédita Copacabana semi-deserta, algumas horas antes da virada. E depois a ceia em casa, ao som da live de Natal do Caetano.

***

Um pouco mais cedo, ainda à tarde, conversava por telefone com um amigo que cresceu no Leme. Ele, com sua memória extraordinária, contou que se lembra das viradas de ano de antes das queimas de fogos: depois da meia-noite ia até a praia com os pais, a mãe jogava flores ao mar, ele via grupos de pessoas fazendo suas homenagens para Iemanjá. Até que em 1980 o hotel que na época se chamava Méridien (hoje Hilton) estourou uma cascata de fogos de artifício às duas da manhã. No ano seguinte, a atração passou a acontecer à meia-noite. Outros hotéis também faziam suas próprias queimas de fogos. Foi só nos anos 1990 que a prefeitura centralizou o espetáculo pirotécnico — àquela altura, o número de pessoas que comparecia à festa já beirava o milhão.

Imagem
A cascata do Méridien, em 1982
(fonte: Rio Antigo no Twitter)

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Na passagem do ano 2000 para 2001 eu fui a Copacabana para saudar o novo milênio (tá, eu sei que oficialmente começou no ano seguinte, me deixem). Um ano depois eu estava em um trabalho temporário, cobrindo férias na sucursal carioca do SBT. Comecei no dia 1º de janeiro de 2001 às sete da manhã. Ao chegar lá, a primeira matéria que precisei editar foi sobre o acidente acontecido na festa de Copacabana: a queima de fogos oficial (promovida pela prefeitura) era disparada da areia. Por conta dessa tragédia, desde então o show pirotécnico acontece em balsas no mar. Nunca mais o impacto visual foi o mesmo, mas é claro que a segurança é mais importante que a pirotecnia.

***

Eu amo fogos de artifício. Adoro a festa popular que acontece todos os anos nas areias de Copacabana. Sei que para os animais da região o estrondo é ruim. Que para os idosos o barulho e o tumulto são um problema. Que para os moradores do bairro é uma loucura ficar quase 24 horas com seu direito de ir e vir muito comprometido — os acessos ao bairro ficam fechados, as vagas de calçada são um sonho impossível, o metrô funciona em regime especial, os ônibus idem. Ontem deve ter sido um dia bom para quem sofre com a maior festa de rua da cidade. Eu confesso que senti falta da mega aglomeração. Só resta esperar a vacina e a volta dos abraços, das multidões, das ruas lotadas em Copacabana na virada do ano.

-Monix-

Náufragos

Janeiro, fevereiro, quarentena, dezembro – assim resumiram o ano no reino da concisão, o twitter ( que também é terra das dores mal disfarçadas de deboche). É como se a gente estivesse andando no jardim e cataploft! caímos num buraco feito a Alice – história pela qual, aliás, nunca nutri simpatia. Menos ainda quando a gente cai no país das Milícias e o rei louco é um capitão perverso que não corta a cabeça, mas deixa morrer milhares. 2020 parece uma fenda no tempo, feito “A caverna do dragão” – só que nos falta o Mestre dos Magos, e o Vingador é o presidente, eleito democraticamente.

“Muitos temores nascem do cansaço e da solidão”, diz um texto que eu gosto imenso e ao qual volta e meia recorro como uma oração. Ao final deste ano impensável, acumulo doses excessivas de ambos; temores gigantescos, portanto. Sinto-me exausta, embora tenha sido um tempo de deslocamentos menores. Ficar nunca foi tão custoso. Saudades de todo tipo: miúdas, profundas, recorrentes, aleatórias. A quarentena me conectou mais com algumas pessoas, inesperada e felizmente. Mas de um modo geral deixou mais frouxos todos os laços de afeto – ou esse é apenas mais um dos meus temores.

Há dias em que preferia a tristeza porque ela, em geral, tem RG e endereço conhecido: alguém ou alguma coisa nos entristece. Melhor que essa mistura de melancolia com angústia, esse aperto no peito sem nome ou com muitas caras mas sem definição, esse desassossego, uma inquietação que dá volta em torno de si mesma sem chegar a nenhum lugar, cachorro correndo atrás do rabo. A gente não se livra do que não consegue nomear, nem dá vazão aos sentimentos sem conseguir identificá-los. E faz o que, então? Escreve umas linhas tortas num blogue anacrônico como quem joga uma garrafa ao mar (já que estamos todos náufragos em nós mesmos).

Helê

 

 

 

Majestosa

É um paradoxo que o aniversário da Helê tenha caído no meio da pandemia, no meio do isolamento social, termo que por si só é uma contradição em termos, e que definitivamente não combina com nossa aniversariante do dia.

Helê é um ser social, um espírito agregador, uma alma solar. Ela é da música, do samba, dos bons drink, da risada escancarada.

Helê é majestosa como na foto aí de baixo, tirada no aniversário do ano passado com duas das nossas melhores amigas-leitoras.

A majestosa aniversariante

Dessa vez não vai ter festa em várias etapas. Vai ter festa guardada, para quando a gente puder finalmente se abraçar apertado novamente. Enquanto isso a gente deixa nosso amor aqui, em forma de comentários. Bora?

-Monix-

Um aprendizado classe-média-sofre

Tem muita gente aproveitando a quarentena para fazer cursos online, para se aperfeiçoar, para assistir lives sobre temas edificantes.

Esses são os privilegiados. (Ou os mentirosos – ops, desculpaí o sincericídio.)

Eu estou como muitas pessoas que conheço, e o termo que melhor define é em inglês: overwhelmed. Fazendo coisas demais e mal dando conta do mínimo, do básico. Eu já trabalhava em casa, então meu dia não ganhou duas horas porque parei de me deslocar até o trabalho. E passei a acumular muitas rotinas da casa que eram responsabilidade de duas diaristas (uma para a faxina, outra para a comida, cada uma vindo uma vez por semana).

Muitas amigas mulheres têm me dito que se sentem da mesma forma. Que o dia se resume a uma alternância exaustiva entre trabalhar, fazer reuniões remotamente e cozinhar, lavar louça, lavar roupa, varrer a casa quando dá.

IDA - VAI TER LOUÇA QUADRO 22 CM X 22 CM - Tok Stok - M
O mantra do momento

Enquanto isso, ouvi de dois homens comentários um pouco diferentes. Ambos falaram sobre seus aprendizados durante a crise. Um disse que aprendeu a cozinhar feijão. O outro, que descobriu que existe um produto chamado Vidrex, usado para limpar os vidros da casa – é, este não é um trabalho dos elfos domésticos.

Eu aprendi, também, a cozinhar feijão – até cozinho bem, mas arroz e feijão são coisas que nunca consegui acertar muito bem. Vidrex eu já conhecia. Mas esses não são nem de perto os grandes aprendizados que vou tirar dessa crise.

O primeiro deles eu diria que é algo que sempre intuí: o dinheiro, em si, não vale nada. Lembro de falar sobre variações dessa ideia desde muito jovem: o importante não é o dinheiro, são as coisas que ele pode me dar. Parece óbvio, mas na prática as pessoas tendem a ser muito mais apegadas ao dinheiro em si do que aos bens que ele permite usufruir. E no fundo, quando somos confrontados com uma situação-limite como uma pandemia dessa proporção, o que vale mesmo é ter abrigo e comida. Coisa que os homens das cavernas tiveram durante séculos, sem precisar acumular essa coisa abstrata chamada capital.

Mas o maior aprendizado que extraio dessa experiência extrema é o valor do trabalho doméstico. Também é algo de que falo há muitos anos: que as “mulheres de antigamente” não cuidavam dos filhos sozinhas, pois havia sempre outras mulheres na casa ajudando (uma tia solteirona, uma avó viúva, vizinhas, babás). E que na verdade elas passavam era muito tempo cuidando da casa: entre preparar uma refeição, arrumar a mesa, lavar a louça, depois guardar, já estava na hora de começar tudo de novo, até a hora de dormir.

Estas semanas têm me proporcionado essa experiência na prática. E eu tenho máquinas que ajudam muito: aspirador de pó, lava roupas, lava louças, liquidificador, microondas… Fico imaginando as mulheres de antigamente e sua vida dura. Ou as mulheres de hoje mesmo, que não têm esse meu padrão de classe média bem de vida, e que cuidam da minha casa e da casa delas e ainda conseguem manter o bom humor. Elas já tinham todo o meu respeito. Agora têm minha empatia. Quando me sinto muito cansada, digo a mim mesma para deixar de lado o classe-média-sofrismo e seguir em frente.

Essa crise está trazendo, sim, muitos aprendizados. Me conta quais foram os seus.

-Monix-

Casas e vidas

Ainda estou me instalando na Casa do Cinquenta, esta mudança compulsória à qual resisto pero no mucho, porque a alternativa, como se sabe, é muito pior. Então, resignada, tento me acomodar nessa casa com o que tenho, criando meu próprio espaço, rejeitando o que é preestabelecido apenas por conveniência e hábito, tentando reconhecer e aceitar limitações reais. Nada fácil – mas ninguém disse que seria.

Alguns esqueletos te acompanham de casa em casa — ainda que os armários sejam trocados. Haja terapia para faxinar os porões, espantar fantasminhas e bichos papões, desarmar gambiarras e bombas de auto sabotagem.

Mas, verdade seja dita, também carrego de moradas anteriores arcas repletas de amizades bordadas durante muitos anos, com fios preciosos de empatia, solidariedade, acolhimento. Decoro a Casa dos Cinquenta com peças valiosas: nas paredes e estantes há registros de momentos incríveis; pela sala espalho almofadas grandes e macias recheadas de abraços, luminárias de sorrisos; guardo potes de mantimentos com especiarias dos lugares por onde passei; tenho rede para sonhar e outras tantas coisas boas que fazem de uma casa um lar.

Uma coisa que reparei, nos últimos tempos, é que há uma mudança de perspectiva. Tenho experimentado certo estranhamento ao esbarrar em algumas lembranças que me parecem muito distantes, embora, em alguns casos, tenham acontecido poucos anos atrás. Passo por uma rua que costumava ser um itinerário frequente mas saiu da minha rota e tenho essa sensação que vivi ali uma outra vida. Porque não se trata apenas do lugar: também muito do que eu pensava, queria, esperava então difere de hoje; percebo a mudança de atmosfera, outro cenário, trilha sonora, todo um conjunto de elementos familiares que se tornaram apenas reconhecíveis, como uma cidade visitada há muito tempo. Outra vida.

Talvez não seja uma exclusividade felina ter várias.

Helê

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