Amizade que transcende

Os fridinhos no Rock in Rio

Hoje é dia de celebrar a Helê, e eu aproveito para celebrar nossa amizade.

Faz quase vinte anos que essa moça da risada fácil e das palavras bonitas entrou na minha vida pra ficar, e a gente não se largou nunca mais. Mudamos de empregos, moramos em outras casas, viajamos pelo mundo, tanta coisa se modificou ao longo desse tempo.

A gente tinha dois bebês que mal andavam e falavam, hoje entregamos pro mundo esses xóvens lindos que estão aí na foto. Que têm uma amizade própria, que anda sozinha e não depende da gente. Nesse seu aniversário, sócia, o presente que nós duas ganhamos é ver esses dois trilhando um caminho que a gente até ajudou a construir, mas que agora depende basicamente deles mesmos. A gente pode ser mothern, mas somos também mães do “casaquinho” e mães do “quem meu filho beija minha boca adoça”. Por isso escolhi pra este aniversário uma foto da sua Djubs, que eu vi crescer e que tem tanto de você nela.

Hoje é aniversário da Helê, a moça da risada fácil e das palavras bonitas, que veio ao mundo no dia dos Erês para espalhar alegria que bem querer por esse mundo afora. Salve ela!

-Monix-

Enfim, setembro!

Setembro. 1º de Setembro.

Sempre recebo este mês com alegria e alívio, mesmo que agosto não tenha sido tão difícil (mas quase sempre é, né?). E sempre com muita esperança, o peito explodindo de contentamento e aquele sentimento absolutamente infantil de que, sim, agora vai, vai dar tudo certo e serei feliz, feliz (façam muitas manhãs/ que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz etc. Chico, sempre).

Eu sei, eu sei que é só uma virada de mês e não de vida, que o dia espetacular que faz hoje no Rio de Janeiro não está garantido, que tecnicamente é o tal do inferno astral, mas ainda sim hoje de manhã arranquei agosto de todas as folhinhas da casa com vontade e animação – você sabe, Esperança e Teimosia andam de mãos dadas, balançando as tranças e sorrindo.

(É como a campanha do Lula: a gente sabe que, ganhando, ele vai pegar um país muito pior que no primeiro mandato, vai ser tudo muito difícil – fora ter que ouvir os reaça mugindo contra e tal. Mas sem esperança a gente nem sai da cama nesse país triste e indecente em que o Brasil se transformou, não é mesmo?)     

A raiz desse meu contentamento injustificado com setembro vem da infância, daquela expectativa pelo aniversário (dia 27, anote), que nessa fase da vida é a data mais importante, mais até do que natal. Confesso que eu não superei essa fase: até hoje acho que é o dia mais importante do ano, perdendo apenas pro carnaval (Santa Claus não tem muita moral por aqui). Com o tempo, vivi desapontamentos  em setembro, pra minha total surpresa – até chuva no dia do meu aniversário, para o meu total horror. Mas nem a experiência me tirou a alegria de esperar e receber setembro com o peito aberto, a alma menina, e a esperança de um dia ser tudo o que quero (Caetano, também amo você).

Suspeito que enquanto esperar e receber setembro desse jeito nem tudo estará perdido, está mantido em mim o que me define, de certo modo; e posso sossegar pois não venceu o cinismo (que não passa de desespero sagaz e elegante ).

Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão (tamo junto também, Miltão!).

Helê

Idiossincrasinhas

* Dogma pessoal: nunca assisto decisão nos pênaltis nem debate eleitoral.

Debates eu acho que cheguei a assistir os primeiros presidenciais, em 89, mas meu sistema fica muito nervoso. Talvez trauma do fdp do Collor, não sei. Mas não tenho condições. Pênalti eu me recusei a assistir em 94, no tetracampeonato de futebol; deu certo, e nunca mais na vida eu assisti (no caso de estar torcendo para um dos times, claro).

* Dogma compartilhado com a Monix: não reclamo de vizinho se divertindo (aniversário, churrasco, reunião animada, tá valendo).

Procuro ter com vizinho a mesma condescendência que gostaria que tivessem comigo. Além disso, eu sempre penso no quanto é horrível e angustiante ouvir discussões, brigas, tentar decidir se é ou não caso de chamar a polícia – já vivi isso, é desesperador. Barulho de festa só é ruim porque você não está lá; além do mais, não acontece todo dia porque ninguém tá podendo. Então deixaoscara, em bom carioquês.

Minha tolerância talvez se deva à leitura de uma crônica, décadas atrás, do Rubem Braga, “Recado ao vizinho do 903”, publicada na icônica coleção Para Gostar de Ler. Acho que toda a minha vida em apartamentos foi guiada por essa ideologia do Braga.   

Rubem Braga, em desenho no IMS

 * Ritual pessoal: nunca volto pra casa direto depois de um enterro ou velório. Se não for possível arrastar um ou mais amigos para o bar, vou eu sozinha e tomo pelo menos uma gelada, espécie de gurufim particular. Para celebrar a vida de quem se foi e a minha, e espantar esse ranço de morte que fica na gente nessas situações.  E também pra ela não saber meu endereço.

Helê

Semi-retrospectiva (na metade de 2022)

Sempre tive o costume de anotar filmes, livros, eventos culturais que vejo, leio, assisto, compareço. No final do ano, transformo essas anotações em retrospectivas aqui no Dufas, seja para registrar e me lembrar, seja pra deixar aí como dicas pra quem se interessar.

Este ano, em vez de anotar em uma agenda ou caderno de papel, como era meu hábito, estou fazendo isso num quadro do Trello (meu vício atual, não vivo sem ele). Não sei se pela facilidade de anotar tudo por conta da onipresença do celular ou se pelo esforço deliberado que venho fazendo para acompanhar menos notícias, o que gerou um tempo livre “extra” no fim de cada dia… fato é que minha lista de vistos e lidos já está gigantesca e mal passamos da metade do ano.

Olhando pra essa lista e pensando na preguiça que eu teria de fazer a mãe de todas as retrospectivas no final do ano, resolvi me antecipar e já soltar uma semi-retrospectiva. Se alguém tiver curiosidade e fôlego pra chegar até o final, me contem nos comentários se gostaram (ou não) de alguma coisa.

Livros

Essa Dama Bate Bué – li em janeiro esse, que recomendei até no nosso podcast. Foi a primeira obra de uma série involuntária de leituras sobre a colonização e seus efeitos. Me transportou para Luanda e eu reconheci muito do meu Rio de Janeiro por lá.

Cachorro Velho – segundo livro dessa minha série pessoal com histórias de quem foi colonizado, e não dos colonizadores. A obra, que ganhou o prêmio Casa de Las Américas, se passa em Cuba, mas o tempo todo eu li pensando num engenho de cana por aqui mesmo. Somos todos resultado dos mesmos sofrimentos.

O Som do Rugido da Onça – para completar essa trilogia involuntária sobre a herança (maldita) colonial, foi a vez da ficção alcançar as histórias de indígenas e nossa relação ancestral com suas culturas, mesmo que a gente esqueça disso tantas vezes.

Viver É Melhor Que Sonhar – mudando de assunto, peguei essa biografia do incrível Belchior, que conta principalmente a vida do artista no período em que ele desapareceu dos holofotes e passou por uma experiência que, se não podemos chamar de loucura, não sei que nome tem.

Meu Muito Querido Pedro – engraçado, acabei de me dar conta que depois das leituras, digamos assim, pós-coloniais, encarei uma pequena série sobre mulheres da realeza. A primeira foi a Imperatriz Leopoldina, cuja história é pouco conhecida por nós brasileiros e foi desvelada nessa pequena pérola da Drops Editora, da nossa querida Fal.

Maria Stuart – a segunda rainha que fui conhecer é conhecida como Mary, Queen of Scots. A biografia, escrita por Stefan Zweig, mostra uma personalidade interessantíssima. Se tivesse nascido homem, Mary seria tipo um Henrique VIII da Escócia, e provavelmente sua vida teria um final bem menos trágico.

Claraboia – um delicado Saramago que permaneceu inédito até a morte do autor.

Meninas – este livro de contos da escritora russa Liudmila Ulítskaia traz um retrato singelo e intenso sobre a infância sob o stalinismo na antiga União Soviética.

Querido Lula – escrevi sobre o livro aqui.

Filmes

Netflix

A Filha Perdida – mais uma história de Elena Ferrante, mais uma mulher atormentada. Ferrante é tipo ame ou odeie. Veja e descubra qual é seu time. Só um aviso: tem Olivia Colman arrasando, como sempre, então, sei lá, acho que a chance de gostar é tipo bem grande.

Imperdoável – um thriller sem grandes pretensões, com mais uma boa atuação da Sandra Bullock.

Axé: canto do povo de um lugar – quem escuta um axé e não tem vontade de sair dançando, desculpe, só pode ser doente do pé. Esse documentário conta a história do gênero mais alto astral da música brasileira.

O Guia da Família Perfeita – essa “dramédia” não vai mudar a vida de ninguém. Mas às vezes a gente só quer passar o tempo assistindo algo sério e divertido ao mesmo tempo, sabe. Gosto dessas surpresinhas despretensiosas da Netflix, especialmente quando vêm de países que a gente não costuma ver no cinemão. Essa é do Canadá.

The House – essa animação stop-motion em três capítulos mostra três histórias possíveis em uma mesma casa, em diferentes épocas. Todas bastante surreais e muito bem contadas.

América Latina para Imbecis – o comediante John Leguizamo só precisa de um quadro-negro e uns pedaços de giz para recontar três mil anos de história do nosso continente.

O Barato de Iacanaga – que Rock in Rio que nada. O festival de música mais incrível deste país aconteceu em uma fazenda no interior de São Paulo, produzido com a cara e a coragem. Esse documentário conta a história do Festival de Águas Claras, o “woodstock brasileiro”.

Contra o Gelo – a editoria “exploradores da natureza” é com a Helê, mas esse filme conta uma história tão incrível que me deixou alguns dias levemente obcecada por essa expedição à Groenlândia (e suas implicações).

Munich e O Soldado Que Nunca Existiu – esses dois são da editoria “nós contra o nazismo”. Para mim, mais interessante que os filmes em guerra propriamente ditos é o fato de que, quase 80 anos depois do fim da II Guerra, ainda existam incontáveis filmes sendo feitos sobre o assunto. Talvez um dia eu escreva um post com meus dois centavos sobre o assunto ;)

Our Father – esse documentário conta a história mais bizarra dessa retrospectiva. É um daqueles casos que, se fosse ficção, a gente diria que é inverossímil; como aconteceu na vida real, só nos resta acreditar.

HBO

Confisco – documentário sobre o inacreditável período da história em que o governo brasileiro achou por bem confiscar o dinheiro de todas as contas bancárias, de pessoas físicas e jurídicas, e só devolver um ano e meio depois, quando o valor tinha virado (quase) pó.

King Richard: criando campeãs – opinião polêmica: onde todo mundo viu um filme sobre uma linda história de superação, eu vi um pai com tendências claramente abusivas empurrando as filhas (Serena e Venus Williams) para uma trajetória obviamente bem sucedida, mas sabe-se lá a que custo. Ou não. O que você achou?

Globoplay

Agente Duplo – indicado ao Oscar de melhor documentário, esse filme chileno borra a fronteira entre o que é real e espontâneo e o que é ensaiado, brinca com a dúvida (será que a narrativa apresenta é honesta mesmo?, a gente pensa o tempo todo), e tudo isso para mostrar que às vezes o vilão da história está bem perto de nós mesmos (talvez até dentro de nós).

Storm Video – mais um documentário, dessa vez sobre aquela que talvez seja a última videolocadora do Rio de Janeiro. Em pleno ano de 2022, a existência da Storm Video parece algo surreal. As instalações parecem cenográficas. O dono parece uma personagem. Mas, até prova em contrário, é tudo verdade.

Eles Não Usam Black-Tie – um dos filmes mais aclamados do cinema brasileiro, e eu nunca tinha assistido. A versão que está na Globoplay foi restaurada digitalmente em 2007 e tem uma qualidade muito boa.

O Lobby do Batom – já escrevi sobre esse filme aqui.

8 presidentes 1 juramento – a dolorida história da redemocratização brasileira é contada através dos presidentes que tivemos. Montanha russa emocional define.

Amazon Prime Video

Coda – poderia ser apenas um belo filme tipo Sessão da Tarde, e de certa forma é, mas levou o Oscar de Melhor Filme em 2022. e, convenhamos, em 2022 tudo o que estamos precisando é de um pouco do clima de sessão da tarde.

Disney+

West Side Story – Steven Spielberg decidiu refilmar um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos. Deu certo? Claro que sim.

No cinema (sim, eu tomei coragem e voltei às salas de projeção, com máscara e tudo)

Medida Provisória – uma distopia de um futuro próximo/alternativo, que é na verdade uma alegoria do tempo presente. Já está na Globoplay.

Amigo Secreto – um documentário que conta os bastidores da Vaza Jato, a aliança entre veículos jornalísticos que denunciou e documentou os abusos cometidos pela operação Lava Jato.

Séries

Netflix

Queer Eye (sempre)

Como se Tornar um Tirano (falei sobre a série aqui)

Anatomia de um Escândalo

Grace and Frankie (última temporada)

HBO

The Gilded Age (para os órfãos de Downton Abbey)

It’s a Sin

Julia

My Brilliant Friend

A Escada

Hacks

Globoplay

Avisa Lá Que Eu Vou (se você tiver que escolher só uma série da lista, escolha essa)

O Canto Livre de Nara Leão

Expedição Rio

Elza e Mané e Casão

Queer Eye (sempre)

Amazon Prime Video

Em Casa com os Gil (errei, se tiver que escolher só uma série, escolha esta, sem dúvida. Escrevemos sobre ela aqui e aqui)

The Marvelous Mrs Maisel

Em dezembro tem mais (ou não)!

-Monix-

Pastilhas – de la Otra

Leu “pastilhas” no título e já pensou logo: post da Helê.

Só que não! Hoje soy yo, la Otra, quem lança mão desse sempre útil formato de breves pastilhas (porque drops, só da Fal) para comentar uma ou outra cosita que passou por aqui e me chamou a atenção.

***

O assunto do momento tá demorando a esfriar. As feministas cancelaram Chico Buarque? Ou foi o Chico que se autocensurou?

Olha, sinceramente, que preguiça. Nem sei por que estou falando desse assunto, mas quem nunca? Comentamos temas hypados porque somos criaturas da internet e não queremos perder o hype, nem que seja pra criticar o hype.

Gente, o sujeito compôs a música. Daí ele cansou da música, não importa por que motivo. Descurtiu, como diziam personagens de novela meio pretensiosas de décadas atrás. Ele não canta mais a música. Decisão dele, tá tomada e pronto. Se amanhã ele resolver cantá-la de novo, ótimo. Se nunca mais — ótimo também.

Se alguém quiser gravar e pingar um troco de direito autoral, tá valendo.

Ele não renegou a música, não proibiu ninguém de cantá-la. Só disse, bem de passagem no meio de uma entrevista para a incrível série documental O Canto Livre de Nara Leão, que não quer mais cantar, que as feministas têm razão. Na minha bolha, formada principalmente por feministas e simpatizantes, foi massacrado. Nas outras bolhas deve ter sido ignorado, porque ninguém tá nem aí nem pro Chico nem pra Nara. Ou seja.

***

Acabei de assistir à serie Como Se Tornar um Tirano, que disseca o passo a passo costumeiramente adotado por líderes autoritários. Os episódios têm uma estética leve e engraçadinha para tratar de temas sérios e pesados. Nem todo mundo gosta, eu sim. Esses são ainda mais legais de assistir por motivo de : narrados pelo Peter Dinklage.

Mas à medida que fui avançando na série, algo me incomodou profundamente. Todos os tiranos retratados são do mundo árabe, do continente africano ou do bloco comunista. Ou Hitler.

Nenhuma palavra, nenhuma cena, nenhuma imagem, por mais breve que fosse, sobre as ditaduras sanguinárias apoiadas diretamente pelos EUA na América Latina. Nada sobre Pinochet, Stroessner, Somoza. Brasil e Argentina são ausências que até entendo, já que tivemos regimes militares e não um ditador governando por vários anos ou décadas (a série aborda especificamente regimes personalistas de um único líder autoritário). Mas não dá pra levar a sério uma série sobre autoritarismo que mostra Fidel e esquece Papa Doc e Baby Doc. Enfim, gostei, só que não.

***

O ano de 22 chegou chegando por aqui. Na primeira semana comecei com uma tossezinha leve e um arranhão na garganta, virou uma faringite braba, entrei no antibiótico e a tosse se instalou por aqui sem a menor cerimônia. O que seria uma “gripezinha” se tornou um pesadelo que impedia a pessoa (no caso, eu) de comer, dormir, e até de trabalhar — como fazer reuniões por vídeo se a cada cinco palavras tinha um acesso de tosse?

Depois de cinco semanas de tormento, e de três tratamentos diferentes, finalmente as coisas começam a voltar ao normal. Então feliz ano novo pra mim :)

-Monix-

Retrospectiva de um ano-década

Desde maio de 2004, nunca este blogue tinha ficado um mês inteiro sem ter pelo menos um post publicado. Nunca, até dezembro de 2021. O último mês do segundo ano da pandemia teve esse efeito indelével na história do Dufas: nossos arquivos ficarão para sempre com um mês faltando, um mês que não aconteceu.

Será que essa ausência é um sintoma do quanto estamos (todas nós) esgotadas? Não é à toa. Nas últimas semanas, me peguei pensando que no início de janeiro de 2021 Trump ainda era presidente dos Estados Unidos. Foi só no dia 6 que aconteceu aquele episódio dramático no Capitólio. Um ano atrás, nós não tínhamos vacinas no Brasil. Em 12 meses, vimos Manaus sofrer, vimos o país atingir 3.000 mortes por dia por causa de uma doença para a qual poderíamos estar imunizados, vimos uma CPI eletrizante alçar à cena nacional personagens até então desconhecidos. Vimos Lula voltar ao jogo, com a anulação de suas condenações. E isso são só os destaques da editoria de política. Enfim, foi um ano intenso, que valeu por uma década. Ou pelo menos é essa a sensação que tenho quando tento me lembrar de como estava minha vida 12 meses atrás.

Pelo lado bom, esse ano que parecia infinito também foi, para mim, prolífico (uia!) em filmes, séries, livros e podcasts. Os dias, semanas, meses praticamente confinada, sem muito o que fazer além de trabalhar e cuidar da casa, renderam muitas horas diante das telas. Neste início de ano, ainda um pouco incerta sobre como serão os próximos meses, me preparo para uma semaninha de merecidas férias e aproveito para compartilhar com vocês o melhor do que andei vendo, lendo e ouvindo no ano que passou.

Filmes

Os 7 de Chicago, porque adoro Aaron Sorkin. O elenco maravilhoso tem até o Sacha Baron-Cohen em um papel não-cômico. Nem precisava ter uma boa história pra ser incrível. Mas tem. E é.

O Som do Silêncio, filme lindo e meio sinestésico.

Tigre Branco, que conta a história de um indiano, mas poderia se passar no Brasil ou em qualquer outro país onde a vida é bem mais cruel para os muitos e bem mais suave para os poucos.

Alô, Privilégio? É Chelsea. A humorista Chelsea Handler embarca em uma viagem de autoconhecimento para entender o tamanho de seu (nosso) privilégio branco. O filme tem lá suas contradições, mas até elas me pareceram interessantes.

A Ganha-Pão, uma animação delicada sobre uma menina afegã vivendo sob o jugo do Talibã. É uma produção de 2017 e eu assisti antes da situação no Afeganistão se deteriorar novamente, antecipando a tragédia que voltou a ser realidade.

Death to 2020, porque é melhor rir do que chorar. Já saiu o equivalente que fala das mazelas de 2021.

A Incrível História da Ilha das Rosas — o título já diz que vai contar algo incrível: o filme é baseado na história verídica do engenheiro Giorgio Rosa e da Ilha da República da Rosa, que ele construiu no meio do mar em 1968, entrando uma disputa diplomática inacreditável quando pediu a independência do território.

A Escavação, que junta várias coisas que gosto em um filme só: história, romance e sotaque britânico.

O Fotógrafo de Mauthausen é um filme barra pesada, mas que vale a pena ser visto, sobre um fotógrafo catalão enviado para um campo de concentração e sua luta para guardar provas sobre os crimes cometidos pelos nazistas.

Lida Baarová. Ainda na editoria da Segunda Guerra Mundial, este filme conta a história da amante tcheca de Goebbels. É uma história fascinante.

Para descontrair dos dois anteriores: Erasmo 80 AnosMussum Um Filme do CacildisFriends: The ReunionClichês de HollywoodMarisa Monte Portas e Janelas.

Judas e o Messias Negro, sobre o início do movimento dos Black Panthers e a ação de um infiltrado do FBI que investiga a organização.

Doutor Gama, que conta a história do abolicionista Luiz Gama.

Druk: Mais uma Rodada, filme dinamarquês sobre um experimento alcoólico que, obviamente, sai do controle.

Misbehaviour: Mulheres ao Poder. Um filme que mistura ativismo feminista e o concurso de Miss Mundo de 1970. Tudo isso baseado em uma história real.

15 Minutes of Shame, documentário que traz de volta a lendária Monica Lewinski para refletir sobre a cultura dos linchamentos virtuais e cancelamentos — e o que isso tem a ver com o mundo digital.

4 Horas no Capitólio. Este documentário, que injustamente foi pouco comentado, mostra de forma muito vívida como, em 6 de janeiro, algumas (proporcionalmente poucas) pessoas seguraram a democracia americana no braço. E não de forma metafórica. Imperdível.

Marighella. A história do cara que resolveu combater a ditadura militar a qualquer preço é um bom filme de ação. Como thriller político, faltou profundidade. E, na minha opinião, o protagonista é retratado como um herói inquestionável, o que não acredito que ele tenha sido.

Ilusões Perdidas, vejam só, inspirado em um romance de Balzac, foi o filme que marcou minha volta ao cinema depois de quase dois anos de afastamento pandêmico. Como era parte do Festival Varilux, a exibição foi em uma tenda montada no Parque Lage, em que eu e minha amiga M. assistimos ao filme com direito a vislumbrar a mata e as estrelas por cima da lona transparente. Foi quase mágico.

Ethel e Ernest, outra animação delicada e lindíssima sobre a vida em comum de um casal: os pais do desenhista que é autor da história.

Antonia: Uma Sinfonia, a história de uma mulher que abriu mão de muita coisa para ir em busca do sonho de reger uma orquestra.

Abe conta a história de um menino que vive como síntese de uma guerra: a família paterna é palestina e a materna, israelense. Eles moram no Brooklin e ele sonha em ser cozinheiro. Quando conhece o chef Chico Catuaba (interpretado por Seu Jorge), a descoberta da culinária fusion se torna uma metáfora perfeita para seu desejo de integração.

Não Olhe Para Cima: eu demorei uma semana para assistir esse filme e tive a impressão que todo mundo me recomendou. É uma sátira trágica, ou uma tragédia satírica, que apesar do roteiro nem sempre muito bem amarrado faz a gente rir da nossa própria desgraça. O que não deixa de ser uma boa saída, na falta de possibilidade melhor.

Ataque dos Cães. Um filme em que ninguém é o que parece. Eu teria muito a dizer, mas dona Luciana já fez isso bem melhor que eu seria capaz.

Séries e Novelas

Cidade Invisível mostra um mundo fantástico, povoado por criaturas folclóricas como o Curupira, o Saci, o Boto Cor-de-Rosa como pano de fundo para uma trama policial.

Bridgerton, uma série que deu o que falar por um tempo e depois parece ter sido esquecida. O principal assunto foram as escolhas de atores e atrizes negros/negras para interpretar personagens da nobreza inglesa, mas sinceramente… e daí? Achei a história mais interessante que essa (zzzz) “polêmica”.

A Corrida das Vacinas, porque esse foi o assunto mais importante — o único assunto que realmente importava — em 2021.

Doutor Castor, série documental que escancara a absurda tolerância que nós, como sociedade, tínhamos para com os mafiosos do jogo do bicho.

Allen contra Farrow. Em uma história difícil de formar opinião, essa série documental claramente escolhe um lado e o defende com convicção: segundo os fatos apresentados, Woody Allen foi sim responsável por pelo menos um caso de abuso sexual, contra sua filha Dylan, na época com sete anos de idade. Assim como já havia acontecido com as canções de Michael Jackson dois anos atrás, assistir a um filme de Woody Allen agora traz um sabor amargo.

Mare of Easttown, porque a Kate Winslet está simplesmente maravilhosa e sozinha faz valer a série.

Segunda Chamada, a segunda temporada de uma série que já havia me cativado mostrando os dramas das turmas do ensino noturno de jovens e adultos. Eu gosto demais dos personagens.

The Flight Attendant, uma série meio comédia meio suspense que traz Kaley Cuoco, a atriz que ganhou fama em Big Bang Theory, em um papel totalmente diferente.

1971, sobre a qual já escrevi aqui.

Chico e Caetano foi disponibilizada (argh, odeio esse verbo) na íntegra e proporcionou alguns dos momentos mais emocionantes do meu ano de 2021. É um lugar onde podemos nos refugiar sempre que precisarmos de um pouco de beleza.

Only Murders in the Building, série divertidíssima com Steve Martin, Selena Gomes e Martin Short.

Defending Jacob é um thriller intenso sobre um pai que tem certeza, uma mãe que tem dúvidas e um filho que é acusado de matar um colega de escola.

Colin em Preto e Branco: aqui também vemos uma delicada relação entre pais e filho, mas com um componente racial desempenhando um papel importante nesse delicado equilíbrio. A história é real, narrada pelo quarterback e ativista Colin Kaepernick.

The Chair na verdade não é nada demais, mas me diverti assistindo. Como sou a favor de diversão, entrou na lista.

2021 foi um ano que assisti muitas novelas. Fui muito noveleira numa época da minha vida, depois parei, agora estou revivendo esse lado que andava esquecido. Das antigas, foi sensacional ter a oportunidade de ver O Bem Amado original, de 1973, com os personagens antológicos de Dias Gomes. Das atuais, gostei de sofrer com a Dona Lurdes procurando seu filho perdido em Amor de Mãe, e agora estou acompanhando as desventuras do questionável herói vivido por Cauã Reymond em Um Lugar ao Sol (que também deu espaço para uma interpretação magistral de Andréa Beltrão como a heroína improvável de todas nós mulheres da menopausa).

Podcasts

Medo e Delírio em Brasília: como enfrentar essa bad trip escrota em que a gente se meteu? Só mesmo rindo de nervoso com os memes impagáveis de Pedro Daltro e Cristiano Botafogo. Bora passar raiva juntos?

Noites Gregas: se a realidade é dura demais, a gente sempre pode recorrer à mitologia para entender a tragédia humana.

República Debochevique, para entender e digerir os acontecimentos mais surreais de 2021.

A Vida Secreta de Jair, série curta e imprescindível. É sério. Você é uma pessoa cidadã do Brasil e não ouviu ainda? Para tudo e vai lá.

República das Milícias, outra série que dói, mas explica coisas que precisamos saber.

Papo de Parente: essa é prazerosa de ouvir. A educadora Célia Xakriabá conta histórias e recebe convidados que nos conectam com a cultura indígena que existe e resiste no Brasil do século XXI.

Livros

Os Engenheiros do Caos é apresentado assim pela editora que publicou a obra no Brasil: “No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada dia traz sua própria gafe, sua própria polêmica, seu próprio golpe brilhante. No entanto, por trás das manifestações desenfreadas do carnaval populista, está o trabalho árduo de ideólogos e, cada vez mais, de cientistas e especialistas do Big Data, sem os quais esses líderes nunca teriam chegado ao poder.” O livro de Giuliano Da Empoli é básico para entender nosso tempo.

Torto Arado foi o livro que todo mundo comentou em 2021. Eu, também, me encantei.

Travessia de Verão eu encontrei em uma incursão a um sebo, no início de um momento de flexibilização pós-vacina. É um romance curto de Truman Capote, sua primeira obra de ficção, que ficou esquecida em um caixote e só foi recuperada (e publicada) após sua morte. Um daqueles livros cujo final salva a obra.

Toda Luz que Não Podemos Ver conta lindamente a história de duas crianças / adolescentes cujas vidas são entrelaçadas de forma inesperada durante a Segunda Guerra Mundial. Não é um livro de guerra, mas de busca por paz.

Terra Americana acompanha uma mulher mexicana de classe média que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando toda sua família é assassinada por um chefe de cartel e ela precisa fugir para os Estados Unidos com o filho pequeno. É uma história eletrizante, que me prendeu do início ao fim? Sim. Mas também é uma obra que foi alvo de justas críticas da comunidade latina.

10 Histórias para Tentar Entender um Mundo Caótico: em forma de conversa, Jamil Chade e Ruth Manus reúnem croônicas sobre temas fundamentais e atualíssimos.

Lula, Volume 1. A vida do nosso ex-presidente (e esperamos, futuro presidente também) é fascinante. Mas é preciso registrar: o livro é uma biografia muito bem comportada e “chapa branca”. Este primeiro volume começa pela prisão mais recente, retrocede no tempo, conta as origens de Luiz Inácio e mostra sua formação como metalúrgico e líder sindical, até encerrar com a história da primeira prisão, ainda durante a ditadura. Vale a pena ler, mas recomenda-se um certo senso crítico.

-Monix-

Uma aglomeração de amor

No dia de celebrar Helê, nada melhor que uma aglomeração de fotos aglomeradas. Porque essa mulher é dos muitos: muita gente, muita alegria, tudo muito. Nós somos amigas há quase vinte anos, mas nunca fomos só nós. Sempre estivemos cercadas de gente fina, elegante, sincera.

(Observem que a pessoa é tão agregadora que conseguiu a proeza de me convencer a participar de uma corrida (!!), como prova a foto do topo, à direita.)

Helê, mi sóciamada, que seu dia seja carregado da energia que esses abraços coletivos nos trazem. E que em breve eles voltem a acontecer. Feliz aniversário!

-Monix-

Quarta

Quarta-feira – e nem de cinzas é. (Se fosse, haveria uns bloquinhos carnavalescos desgarrados pela cidade, sempre um tantinho melancólicos em negação inútil e rebeldia inofensiva, mas renitentes e divertidos). Alguém já disse que é o pior dia da semana esse que fica igualmente distante do começo e do fim, quando a gente parece que já não está, mas ainda nem. De certo modo, é como se estivéssemos todos em uma looonga quarta-feira, as lembranças já começam a amarelar sem que a gente seja capaz de sonhar novos sonhos.

Tempos atrás – quando completamos cem dias disso que nenhum nome mais dá conta – eu disse que nadávamos sem mar à vista, tarefa ingrata até pra Phelps Ana Marcela. Agora avistamos montes aqui e ali – há até quem acene das bordas, pulando serelepe (prestes a cair na água, os incautos). Mas nadamos contra correntezas, a sensação persistente de que não saímos do lugar, ou que nos movemos muito pouco.

Uma quarta-feira loooonga demais. Mais do mesmo. Variantes de vírus vencem, quando precisávamos variar as saídas, as soluções  – e de meia dúzia de heróis, já que os vilões  se multiplicam sem controle nem constrangimento.

Cansaço abissal que já não é apenas desse país tacanho, mas da vilania do mundo, talebãs e tal. Sempre que inspiro mais fundo vira um suspiro, como se eu respirasse saudade. Aperfeiçoo, contra a minha vontade, a arte de perder sobre a qual Bishop falou melhor que ninguém. 

Mas sigo. Sístole e diástole, ou algo perto disso. Setembro vem aí, e ele, em geral, não me decepciona. Por favor, capriche na primavera e mantenha sua reputação.

Helê

 

Sobre patriotismos — e algumas notas olímpicas

Os japoneses são tão organizados que calcularam direitinho pra olimpíada cair bem no intervalo da CPI da Pandemia, garantindo o entretenimento dos brasileiros.

E a gente estava mesmo precisando de uma diversão que não fosse apenas passar raiva juntos.

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Eu sou aquela que só gosta de futebol na Copa do Mundo. E dos demais esportes, quando os ventos favorecem, só mesmo em alguns Jogos Olímpicos. Em 2016 eu dei uma surtada com os Jogos no Rio e assisti um monte de eventos. Foi a última vez que minha cidade, que tanto amo, me fez realmente feliz.

Ano passado, quando adiaram os Jogos de Tóquio, eu estava mais preocupada com a crise global da pandemia. Não dediquei mais que dez segundos pensando “ah, fizeram bem”, e segui dando banho nas compras (a gente ainda estava nessa fase, lembram?). Mas desde semana passada, quando me caiu a ficha de que mesmo com a pandemia ainda nos ameaçando aí fora haveria, sim, olimpíada, convivo com um misto de sentimentos. O primeiro deles foi a saudade imensa do Rio olímpico, do alto astral daqueles dias. Revi vídeos e ri até das coisas que reclamei rabugentamente na época, como a zoeira exagerada da torcida carioca em esportes tradicionalmente mais “comportados”.

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Pouco antes de começar a olimpíada, fiquei meio na dúvida se era certo assistir, afinal, pandemia né? Durante outros dez segundos fiquei pensando se era incoerente acompanhar os Jogos depois de criticar a vinda da Copa América para o Brasil*, tempo suficiente para concluir: eles que lutem.

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O esporte é uma forma genial de canalizar o patriotismo das pessoas, construir um senso de nacionalidade, sem precisar levar todo mundo para a guerra. Assistir EUA X China no vôlei é um microcosmo de tensões geopolíticas que terminam quando o juiz dá o último apito. Este ano eu lembrei que adoro vôlei (sei lá por que tinha esquecido disso), e fico catando partidas nos inúmeros canais sem locução disponíveis no meu pacote. Mas não consigo assistir sem torcer, então escolho um país. Normalmente vou pela proximidade ou afinidade cultural: entre Irã e Venezuela, fiquei com nossos vizinhos. Perderam. Na partida entre americanas e chinesas, tentei de verdade torcer pelas representantes do nosso continente, Mas elas eram tão antipáticas, e as asiáticas, por outro lado, tinham tanta alegria (davam gritinhos a cada ponto), que mudei com cinco minutos de jogo.

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E obviamente há o Brasil. No Twitter o que mais vejo são negociações sobre para qual atleta podemos torcer, quem é ou não bolsominion, se é melhor focar nos esportes individuais e escolher os mais confiáveis ou se nos coletivos para diluir o risco. Sinceramente? Estou zero preocupada com isso. Torço mesmo. O esporte, como eu disse, é uma forma de emoldurar nosso conceito de nação — e curiosamente ao mesmo tempo é mostrado como um instrumento de superação pessoal de dificuldades, etc. Paradoxos.

Mas enfim, digressões à parte, há alguns anos, principalmente a partir de 2013, me sinto um pouco lesada no meu direito de pertencer ao Brasil, de ser brasileira, de me ver representada por símbolos nacionais (os piores casos são a bandeira e a camisa da seleção de futebol, que foram roubados de nós pelos extremistas de direita e hoje causam desconforto na maioria das pessoas da minha turma). Por isso, tem sido bom aproveitar os Jogos Olímpicos para me reencontrar com o sentimento de brasilidade. De saber que ser brasileira, mais do que vergonha internacional, é fazer parte de um povo alegre, apaixonado e apaixonante, intenso de todas as formas (às vezes a ponto, sim, de ser vergonhoso, mas por motivos mais inofensivos do que destruir a Amazônia ou deixar a pandemia fora de controle para lucrar com vacinas superfaturadas e garantir popularidade no ano de eleições).

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O maior símbolo do Brasil que eu quero e preciso resgatar no meu coração é a fadinha Rayssa Leal. O sorriso no rosto dessa menina, a leveza em cima do skate (e o próprio fato de o skate se tornar esporte olímpico), tudo isso me representa.

Aos 13 anos, Rayssa Leal, a Fadinha, conquistou a medalha de prata no skate stre
Valeu, garota :)

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Ainda nesse quesito “reflexões sobre o patriotismo nos esportes”, chama a atenção a situação dos atletas russos. O país foi banido de competições internacionais, porque o governo estava dopando todo mundo pra conseguir os melhores resultados (resumindo em poucas palavras uma situação obviamente mais complexa que isso).

Esse caso da Rússia leva ao limite o argumento de que o esporte é uma forma de sublimar as guerras, de levar as tensões geopolíticas para dentro das quadras e pistas e etc. Hoje é século XXI, galera. O soft power é tão importante quanto qualquer outro, se não for mais.

Enfim, quando vi a bandeira olímpica e a a sigla ROC indicando que os atletas estão competindo pelo Comitê Olímpico Russo, e não pelo país, achei estranho e meio que como trocar seis por meia dúzia. Se são as mesmas pessoas, que diferença faz? Não é uma hipocrisia danada permitir isso?

Claro que há interesses comerciais que não podem ser contrariados. Um atleta de alta performance fora de uma olimpíada causa um prejuízo enorme para as marcas que investiram nele. Uma delegação inteira, ainda mais uma do porte da russa, seria incalculável.

Mas, negócios à parte, realmente não é a mesma coisa que competir sob a bandeira do país. Subir ao pódio e não ter o hino executado é um golpe no sentimento de patriotismo que vem junto com a vitória no esporte. Ainda mais quando se sabe que isso acontece porque o governo do seu país foi punido.

Além disso, na prática a medida significa que os atletas estão reunidos sob o Comitê Olímpico Russo, um órgão que o Comitê Olímpico Internacional consegue controlar.

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Um silêncio veemente que se escuta é o do presidente Jair. Políticos e artistas que entendem essa relação umbilical entre os esportes e o conceito de nação estão parabenizando os atletas, vibrando com cada conquista, e na medida em que adjetivam e qualificam cada acontecimento, ajudando a emoldurar a ideia que fazemos de Brasil. O Brasil é o sorriso da Rayssa? É o choro emocionado do Ítalo? É a persistência dos caras do vôlei que viraram um jogo suado contra a Argentina? Sim. Somos um pouco de tudo isso. E o presidente? Soltou uma nota burocrática parabenizando os skatistas e aproveitando para falar de isenção de impostos para skates, como se alguém estivesse pensando nisso na hora de comemorar medalhas. Francamente. Fora isso, nada mais. É quase como se estivesse aproveitando que todos mundo está olhando pro outro lado para entregar de vez o governo ao fisiologismo.

Ou vai ver que ele só consegue mesmo se pronunciar quando é pra atacar a ideia de Brasil que esses atletas representam. Por isso, quando eles triunfam, não consegue dizer é nada.

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Voltando ao começo, semana que vem a CPI recomeça e desconfio que o recreio vai acabar — ou seja, será o fim desse intervalo maravilhoso em que foi possível esquecer do Brasil sombrio de 2021 e acreditar que podemos ser muito, muito melhores que isso.

-Monix-

* Refletindo melhor, concluí que não, não é a mesma coisa. O Japão está há mais de um ano planejando e pensando em formas de realizar um evento deste porte em condições minimamente seguras para todos. O Brasil atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que nem era nossa, e abrigou uma competição internacional com dias de antecedência, seguindo a lógica sanitária do salve-se quem puder.

Canções de guerra, quem sabe canções do mar

Depois de um longo período sem conseguir me concentrar em nada, nem mesmo no escapismo catártico da ficção, aos poucos estou voltando a consumir alimentos para o espírito. #alertadeclichê

Eu sempre fui devoradora de filmes, séries, livros, e, mais recentemente, podcasts. Por isso, me preocupava um pouco minha total incapacidade de assistir mais de 20 minutos de um filme, minha total falta de vontade de começar uma série por saber que não daria conta de ir adiante, e, claro, minha total falta de foco para ler mais de duas páginas de um livro. Acho que muita gente está assim também, e ter companhia me deu algum conforto, claro. Mas o que realmente me deixou satisfeita foi conseguir, aos poucos e sem explicação, voltar a encontrar prazer nas coisas que sempre amei.

Daí que nos últimos meses vi muita coisa interessante, li um livro lindo que ganhei de presente, maratonei séries, enfim, I’m back :)

Como gosto de anotar o que estou vendo e ouvindo, reparei que nas últimas semanas assisti vários filmes passados mais ou menos na época da II Guerra Mundial — um pouco antes, durante, um pouco depois. (Eu sempre fico impressionada com a capacidade da indústria cultural de produzir infinitas obras sobre os horrores do nazismo. Já houve uma moda de filmes sobre a Guerra do Vietnã, que aconteceu bem depois, e a fase passou. Mas a II Guerra continua rendendo assunto até hoje. E faz sentido: depois de ler Hannah Arendt eu entendi.)

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Antes de chegar a um conclusão, se é que chegarei, deixo o registro dos filmes que vi (e um que revi) nas últimas semanas sobre esse tema.

Operação Final: agentes do serviço secreto israelense vão à Argentina para capturar e retirar do país o criminoso de guerra Adolf Eichmann (cujo julgamento inspirou outra obra da Hannah Arendt que ainda não li). A operação é bastante questionável do ponto de vista do Direito Internacional (talvez flagrantemente irregular, mas sei lá eu). Mas seus resultados concretos e simbólicos são, esses sim, inquestionáveis.

O Fotógrafo de Mauthausen – espanhóis derrotados na Guerra Civil foram tornados apátridas pelo ditador Franco, e enviados ao campo de concentração de Mauthausen, na Alemanha. Lá, um deles se torna assistente do oficial nazista que fotografava as atrocidades cometidas. Conforme os prisioneiros percebem que o fim da guerra se aproximava, alguns deles se unem na tentativa de preservar os negativos que serviriam (e serviram) de provas nos tribunais do pós-guerra. O filme é baseado em acontecimentos reais, e algumas cenas reproduzem fielmente as fotos tiradas na época.

A Escavação – pouco antes da guerra começar (a Inglaterra já era sobrevoada por ameaçadores aviões alemães), uma viúva, proprietária de terras, decide escavar um terreno onde, segundo a lenda local, havia coisas antigas debaixo da terra. Ela contrata um arqueólogo amador, eles fazem uma descoberta muito importante e o resto é história (e História). A trama não é lá grande coisa, mas as imagens da escavação são sensacionais e valem o filme.

Lida Baarová – em meados da década de 1930, em plena ascensão do nazismo na Alemanha, uma atriz de cinema tcheca, já famosa em Praga, se muda para Berlim na tentativa de ser bem sucedida por lá. Na época, Berlim era um polo cinematográfico que competia com Hollywood — e para a qual perdeu talentos como Fritz Lang e Marlene Dietrich, fato citado em uma das cenas. (Aliás, eu só fiquei sabendo mais sobre essa era de ouro do cinema alemão quando visitei o Museu do Cinema berlinense.) Bom, pra variar, I digress. Voltando ao filme: a atriz Lida Baarová de fato consegue fazer sucesso na capital alemã, tanto que chama a atenção do Führer em pessoa e do poderoso ministro da Propaganda Joseph Goebbels, de quem torna-se amante. A história de Lida é uma história de decisões erradas.

A sociedade literária e a torta de casca de batata – logo após o fim da guerra, uma escritora londrina conhece, através de cartas, um grupo de amigos moradores da ilha de Guernsey, que chegou a ser ocupada pelo exército alemão. Deu vontade de rever um confort movie, escolhi esse. Apesar do tema de guerra, é uma história doce sobre como o amor e a amizade podem surgir em momentos (e por pessoas) que não se espera. O livro, um romance epistolar delicioso, já foi tema de post da Helê.

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Bom, depois dessa enxurrada de filmes mais ou menos sobre o mesmo tema, alguns mais delicados, outros bastante pesados, me peguei pensando por que será que estou tão interessada na II Guerra Mundial, que nem é um período histórico pelo qual eu tenha uma preferência especial.

E o mais estranho: a vida real está tão difícil, tão complicada, que eu deveria estar buscando conforto na ficção, eu acho. Em vez de assistir a coisas ainda mais horríveis.

Mas talvez seja isso: talvez, de algum forma, saber sobre coisas horríveis pelas quais a humanidade já passou, conhecer aquilo a que sobrevivemos, esteja me ajudando a lidar com nossos tempos duros. Eu ainda quero acreditar que nós somos ação, eles são reação. Eles passarão, nós passarinho.

-Monix-

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