Aos 45

E então, esgotado o tempo regulamentar, finalmente consegui o sossego necessário para escrever um post de aniversário para minha sócia. A esta altura a festa do Facebook já bombou, e a comemoração da vida real, a que incrivelmente este ano pude comparecer, já acabou há mais de 24 horas. Mas antes tarde do que mais tarde é meu lema, e ela entende bem os motivos e as razões.

 

La Otra Frida e a Frida Honorária

La Otra Frida e a Frida Honorária comemoram

É assim: entre o dia 22 de setembro e o dia 1º de outubro fazem aniversário, em ordem cronológica: meu sobrinho, meu namorado, a Helena, meu pai e meu outro sobrinho. Então este fim de semana espremido entre as datas é sempre uma loucura, pulando de uma festa para a outra, e muito raramente consigo prestigiar a sócia. Este ano deu, e isso me deixou bem feliz. Essa leva de librianos tão importantes na minha vida não fica completa sem ela.

-Monix-

Aos 44

Agora a vista do escritório dá para a Baía de Guanabara, mas o que vejo durante todo o dia são aviões  que sobem e descem como movimentos de uma respiração longa, suspiros profundos – inspira, expira. Convite tentador para a mente dispersiva decolar para outro lugar que não essa trincheira de planilhas e inseguranças. Mas ando tão sem ambição que o meu sofá novo seria suficiente: ele estica, aumenta, parece que abraça a gente – tinha que ser presente de mãe, claro. No verão talvez ele esquente, mas o verão parece ainda distante, outra vida, aquela suada e pegajosa que, em compensação, tem o carnaval, esse refresco de realidade na ilusão do dia a dia. O professor da academia disse duas vezes “você é uma mulher forte”: na primeira como se estivesse dizendo uma obviedade; e algo na minha expressão deve tê-lo advertido porque na segunda vez ele falou com mais convicção ainda, como se quisesse me impedir de duvidar. Espero que ele saiba do que fala, porque eu não faço menor ideia. Com os 45 se aproximando não consigo evitar a metáfora do futebol, embora ela não me favoreça: minha atuação até aqui está mais pra pífia do que para consagradora. Com alguma condescendência dirão que fui esforçada, mas sem inspiração.  Gostaria de fazer um gol ou pelo menos um lance de perigo, uma jogada vistosa para chegar ao segundo tempo com moral. No entanto, tudo indica que sairei abatida para um intervalo que não há: a bola continua rolando, desistir não é uma opção e melhorar, uma necessidade. No joguinho do celular perco a todo instante e ele vaticina: “Você falhou!” Respondo mentalmente: “Você nem imagina o quanto!”.

Na outra vez que ensaiei escrever desse jeito, que não sei explicar exatamente qual é, me dei conta depois que minha inspiração vinha de Adélia Prado.  Claro que eu nunca vou escrever nem lista de supermercado como ela, mas foi a primeira que eu vi misturar assim as receitas, fazendo uma poesia cheia de prosa e vice-versa. “Com licença poética” foi uma espécie de RG feminino e feminista, mas a epifania veio com “Solte os cachorros”. Eu tinha 20 anos quando li esse livro e tive uma compreensão antecipada de dores que eu ainda não havia sentido, mas soube que viriam.  Dói do mesmo jeito, mas pelo menos não fui pega de surpresa.

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(Njideka Akunyili Nwantinti [Detail], 2012)

 

Mondo (cane) corporativo

Sou uma entusiasta das novas tecnologias, mas reconheço que elas também agilizam e multiplicam  aspectos pouco agradáveis da vida. Por exemplo, agora você tem dezessete maneiras diferentes de se sentir solitário, não é apenas o telefone que não toca: ele não vibra com uatizápi, ou com o sms, nem com ____(complete com o novo aplicativo badalado na última semana). E você carrega esse silêncio pra todo lado, porque passamos 24 horas grudados no celular, esta espécie de marcapasso compulsório moderno.

Também no ambiente profissional a incompetência se expressa de mil e uma novas maneiras: a pessoa assina o e-mail corporativo com o endereço pessoal, celular, skype, dna, uaréver, mas quando você liga para o telefone comercial, que deveria ser o canal primeiro de comunicação com alguém no trabalho, atende uma secretária eletrônica (!). Depois a pessoa vai se mostrando indisponível em cada uma daquelas instâncias em que deveria ser acessível, e só fala com você quando pode/quer. Para isso bastava apenas um número de telefone, não? Parece que faz parte desse universo tóxico esse jogo em que eu finjo que estou ao seu alcance para que você me valorize porque não consegue me encontrar – afinal estou sempre muito ocupado, não atendendo muitas pessoas. E aqueles que atendem em qualquer situação, respondem e-mails em cima da bicicleta ergométrica ou entre lençóis, me fazem lembrar das insuportáveis crianças sem limites. Ou são como elas e querem ser atendidos na hora que bem entendem ou são como os pais atarantados que, não sabendo delimitar fronteiras entre desejo e necessidade, atendem todas as demandas, sem critério.

Tem também o que eu considero uma falta de educação tremenda: você vai para uma reunião e todos estão olhando para pelo menos uma tela – celular, lepitópi, tábleti. Enquanto simula uma participação o indivíduo responde e-mails, torpedos, mensagens no chat. Maravilha, todo mundo multitarefa,  otimizando o tempo. Só que não fica ótimo e sim péssimo: nas semanas seguintes você se vê tendo que repetir ou repassar pontos que foram supostamente tratados naquela reunião. Aquela em que as pessoas estavam mas respondiam a outras – provavelmente iguais a você, cobrando tratos feitos anteriormente.  Ou antecipando futuras reuniões (aliás, reunião é um troço inútil desde a idade da pedra, que persiste porque as pessoas precisam mostrar que têm telas, só pode). Então fique sabendo: multitarefa significa que você faz muitas vezes a mesma tarefa porque não realiza nada com a devida atenção e entrega. Porque a gente não consegue estar presente, este conceito simples que se tornou sofisticadíssimo e que escapa pelos dedos enquanto lemos este texto pensando na mensagem temos que mandar para quem mesmo?

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Helê

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