Apenas parem

Gente, 2016 tem muitos motivos para ser considerado uma merda monumental mas, pô, pessoas morrem todos os anos, e aos 90 não chega a ser exatamente uma surpresa, né? Quem quiser pedir pra descer, pedir pro mundo acabar, chamar o meteoro, ok. Acho que a piada já deu mas quem sou eu? Sei que eu quero continuar; agora que eu tô aqui quero ver como termina essa p*rra. Como cantou o Chico, que sabe das coisas: “Façam muitas manhãs que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz” – não o suficiente. 2016 teve uma larga cota de desastres e tragédias, queira deus que já tenha se esgotado (não olhe agora, mais ainda tem ano pela frente). Mas não coloquem a morte de Fidel nesta conta – ou a da maravilhosa Sharon Jones, que eu amava, ou a do Cohen, que eu mal conhecia. Morrer não é uma das misérias do ano, e sim da vida.
E ainda assim há controvérsias.
Apenas parem.
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Ao comandante, todo o meu respeito. Meu carinho e admiração para Sharon, que foi cedo demais, e sobre que nem consigo escrever, só ouvir e admirar.
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Helê

O presente e seus desafios

No celular tento digitar com os dedões porque a adolescente me explicou que de outro modo “é como faz o pessoal da sua idade”. Nenhum problema com esse pessoal, que é o meu, mas she’s gotta a point, faz mais sentido e é até mais confortável, tenta só pra ver. Provavelmente vai acarretar uma nova L.E.R.,  uma -ite digital,  mas vem no combo novas tecnologias /possibilidades/doenças também; paciência. Não é isso que me incomoda. Desagrada-me o fim da privacidade, ou por outra, a sua atual indefinição e fluidez. E não é só da minha que falo, é também a do outro.

Entrei num táxi uma vez onde o motorista participava de uma espécie de chat oral on line: rolava uma animada conversa com mais duas ou três pessoas pelo auto-falante do celular, nem sei que aplicativo eles usavam. Só sei que fui da Tijuca até a Gamboa ouvindo um papo animado sobre religião, mulheres em geral e mulheres da zona sul em particular (!) que me constrangeu bastante. Nem havia nada de picante ou impróprio, mas era uma conversa da qual eu não pedi para participar e fui incluída à revelia. Quase pedi pra descer me desculpando por incomodar. Na sala de espera de um consultório escutei o áudio em que a menina dizia ao rapaz: “Sinceramente, eu esperava mais de você”.  Tipo de coisa que desperta infinitas possibilidades de interpretação na minha mente zombeteira, e ainda me exige esforço e compenetração para não emitir uma opinião técnica, tipo, “Da próxima vez faz assim…”. E as pessoas que falam no celular no ônibus como se estivessem em casa, completamente à vontade? Eu morro de vergonha, seja qual for o teor da conversa; apenas porque eu não deveria e nem queria estar ouvindo aquilo.

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Em 1998 eu escrevi uma tese (não dorme, péra) com o título “Luis Fernando Veríssimo. O humor entre o público e o privado”. A única coisa que permanece com contornos definidos é o Veríssimo (Graças a deus!). Escrevi algo que em menos de 20 anos ficou obsoleto. Diz aí você, o que é uma coisa e outra, público e privado ? O Veríssimo, ok, é meu rei; meu pastor e nada me faltará.

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Um dos maiores desafios da atualidade: pegar o celular para fazer algo – uma das 73 coisas que você pode fazer com ele, além de telefonar –, e fazer. Porque esse potente microcomputador portátil também funciona como sumidouro, alçapão, armadilha: você vai, sei lá, procurar um número de telefone,  e de repente está curtindo uma foto do seu amigo no aniversário da mãe dele, no Instagram. Que merece, aquela fofa da D. Alzira –  mas como é mesmo que eu vim parar aqui? Culpa das notificações e avisos, sem os quais a gente não daria conta de saber o que se passa enquanto a gente não está olhando para a telinha. Mas que exigem determinação monástica, concentração zen-budista e força de vontade religiosa para que a gente apenas procure aquele número que buscava quando pegou o celular. Claro que o mesmo acontece no computador (eu vivo me perdendo entre abas e janelas), mas o <ler com sotaque português>telemóvel<fim do sotaque>, como dizem os primos, tornou tudo mais crítico,  colocando essas armas de distração em massa  no nosso bolso (ou bolsas). As definições de transtorno de atenção precisam ser atualizadas – assim como as de educação e etiqueta.

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Entre apocalíticos e integrados eu sempre pendi para os segundos, desde o tempo em que essa distinção fazia sentido e era ensinada nas faculdades de jornalismo, na Idade Média. Não acho que o problema seja o celular, a coisa em si, ou mesmo a tecnologia que a sustenta. Acho que o mal é o que sai da boca do homem, fecho com a bíblia nisso aí. Trata-se apenas de observações sobre um mundo que muda mais rápido que eu achava capaz. Não me entendam mal, nem me considerem uma velha rabugenta. Contra a rabugice lutarei sempre; da velhice finjo que não gosto, mas tô tentando fazer amizade.

Helê

Imagem daqui.

Eu ♥ leitoras

Talvez eu ainda tenha meus dois centavos sobre os jogos olímpicos, essa experiência intensa e surpreendente. Talvez tudo já tenha sido dito, ou tudo o que se queria ler e ouvir sobre o assunto. Na dúvida sobre escrever ou não sobre as Olimpíadas, não posso deixar passar a oportunidade de reeditar essa série que é uma das minhas favoritas, porque ela resume o objetivo-mor deste blogue, se não da minha vida, que é influenciar amigos e fazer pessoas – ou something like that. Para quem chegou há pouco: quando somos apresentados a um leitor, nossa felicidade é tamanha que nós pedimos para tirar uma foto com  a pessoa. Porque, né, temos uma audiência modesta em uma plataforma para muitos obsoleta. Em tempos de likes, coraçõeszinhos e conteúdo que  se autodestrói em 24 horas,  quando um post meu tem três comentários eu faço dancinha e tudo.

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Então eu me acostumei com a ideia de que conheço todos os nossos 23 leitores. Sempre me surpreendo e alegro quando alguém que não conheço diz: “Eu te leio” (na verdade, com os que eu conheço também #carente).  Fico toda prosa e imediatamente viro eu fã da pessoa – que criatura adorável deve ser!  E durante o movimento migratório temporário dos jogos  olímpicos, tive a chance de saborear essa sensação algumas vezes.

DSC_1830Começou no primeiro fim de semana, quando fui visitar a Cláudia Letti, pessoa saborosa que faz comidas ainda mais. Eu já a conhecia: estive em sua casa para buscar meu panetone salgado, tradição natalina na minha família (tradição de 2 anos e família de 2 pessoas, mas quem está contando?) Fui experimentar o tal do fudge que pra mim era igual caviar, eu só tinha ouvido falar. Meo deos. Fabulous fudge, indeed.  Se você não quer aumentar a lista de pecados gastrômicos, não prove, porque é divino, tem váááários sabores e eu gostei de todos que provei.

14063846_10208871943948583_2270500773360957198_nAlguns dias depois, no Gracioso, ali na Pedra do Sal, encontro com a Mary W., que veio ao Rio para uma curta temporada olímpica com a irmã, a Lídia – agora também W. Figura bacanérrima, bom papo, descontraída, em 5 minutos ficou à vontade na mesa como se conhecesse geral há tempos. Uma graça de pessoa que eu acho que a Mary tava miguelando por ciúme, coisa de irmã, sacomé. E a Mary revelou a condição dela de leitora com a frase mágica: “Ela te lê, Helê”. Pedi foto na hora; ainda bem que contava com  Cláudio Luiz,  que já está virando fotógrafo oficial desses momentos, desde o primeiro Grande Encontro.

IMG-20160823-WA0002Dias depois, outro rendezvous olímpico teve lugar na Casa da Alemanha, nas areias de Ipanema. Eu estava com aquela que inaugurou a série, a Geide – que, na definição da minha filha, “era fã e virou amiga”. Das mais especiais, acrescento eu. Também chegou Domingos Dodô, garantia de risada na minha TL,  e lord Claudio Luiz com Mariana, sua amiga e hóspede, com quem iria ao Maracanãzinho mais tarde. Sabendo que iria me agradar, Cláudio já foi logo dizendo que ela era minha leitora, e eu, claro, já fui logo gostando e pedindo foto. Isso foi antes de ela falar com carinho e orgulho do nosso Cláudio, e me ensinar que existe uma Teoria da Hospitalidade, detalhes que aumentaram minha admiração para além do fato dela passar aqui vez ou outra.

Portanto, pessoas, o saldo olímpico do Dufas é o melhor possível, agora que eu sei que temos 25 leitores, ao invés de 23 (se eu não fosse de Humanas ousaria dizer que é um aumento de quase 10%). E você já sabe: se encontrar comigo por aí, não seja tímido ou acanhada, faz a Geide e vem falar comigo. Você corre o risco de tirar uma foto e virar amigo – mas o que é a vida se a gente não corre riscos, não é mesmo? 😉

Helê

Uma dúzia de anos

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Uma retrospectiva de tantos aniversários passados.

 

Lá nos primórdios do blogue, nos idos dos anos zero-zero, nosotras comemorávamos os aniversários do Dufas em mesões de bar, com cadeiras sendo espremidas ao redor da mesa a cada novo leitor ou leitora que chegava. Todos os anos conhecíamos pessoalmente gente que já era querida nos bits e bytes. Temos memórias incríveis dessas festas, como o bolo que chegou no meio da Choperia Brazooka, nas mãos de uma portadora que nem sabia direito o que estava fazendo ali.

Com o tempo, todo mundo foi migrando para as mídias sociais, a festa virtual acaba rolando por lá mesmo e ter blogue ficou sendo uma coisa meio teimosa, meio sem noção. Íamos nos tornar aquelas tias velhas que ficariam sentadas num canto, olhando a garotada fazer selfies e snaps e resmungando: no tempo dos blogues é que era bom, mimimi.

Mas pelo que nos contaram, está rolando um movimento de resistência, tias velhas unidas jamais serão vencidas etc e tal. Bem no mês em que comemoramos nosso 12º aniversário. Pensaram que íamos desistir? Jamais! No pasarán!

Nossa parceria já dura uma dúzia de anos. É mais que muitos casamentos por aí (inclusive os nossos). Brindemos a isso: tim-tim!

Las Dos Fridas

C.T.

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Somos da época dos blogues de várzea, dos blogues de raiz, dos blogues que eram blogues antes de ser modinha. Do tempo que o wireless tinha fio.
Somos aquelas que para certas pessoas preferíamos não contar que éramos “blogueiras”, porque provavelmente seríamos consideradas diferentonas.
De repente ter blogue virou outra coisa, e as pessoas perguntavam “seu blogue é sobre o quê?”, e ficávamos meio sem resposta porque não sabíamos que blogue tinha que ter tema. Aí descobrimos que tínhamos um blogue Seinfeld, um blogue sobre nada.
Aí veio o Twitter com seus 140 caracteres, e veio o Facebook, com seus 900 amigos, e de repente ter blogue virou uma coisa meio renitente, meio teimosa, quase vintage.
Agora dizem que os blogues vão renascer. E uma galera bacana, a turma do fundão daquela época boa em que blogues eram coisa de gente diferentona que escrevia sobre nada, se reuniu pra assumir que a gente gosta mesmo é de textão. Call me old fashioned, I don’t care.
Hoje é o lançamento da Central do Textão, um lugar pra reunir esse povo de muitas palavras, do qual nós temos a honra de fazer parte, provavelmente por uma distração de alguém. Agora é tarde, vão ter que nos aturar, porque já puxamos nossas cadeiras, sentamos à mesa e pedimos a primeira rodada. Saúde e vida longa à Central do Textão! Hic!

Las Dos Fridas

Sobre redes

Ontem reproduzi no meu perfil do Face uma brincadeira que vi na página de uma amiga:

A proposta é fazer um pequeno teste para ver quem lê as mensagens quando elas não possuem fotos. Portanto, se você está lendo esta mensagem, faça um comentário utilizando uma única palavra sobre como nos conhecemos. Uma única palavra… por favor. Em seguida, copie esta mensagem para o teu mural para que eu possa deixar uma palavra, ok?

Naturalmente, a maioria dos meus “amigos do Face” – essa categoria pra lá de permissiva e imprecisa – fez referência à internet como origem da relação, o que fez do ‘Mothern’ e do ‘Duas Fridas’ campeões de citações (e correlatos como ‘blog’ ou ‘Jabámail’, a newsletter do Dufas). Talvez em segundo lugar estejam os locais de trabalho ou estudo: UERJ, Koinonia, Pentágono (e digo talvez porque me recusei fazer uma tabulação séria, que aí perdia a graça). Quer dizer,  à pergunta “como?” grande parte das pessoas respondeu “onde”: em lugares físicos (teve até berço!), virtuais ou afetivos (família, bloco de carnaval). Houve os que responderam de maneira dinâmica, com uma ação: me conheceram correndo, lendo, rindo (que surpresa). Outros sintetizaram o encontro, pessoal ou digital, evocando outras pessoas – e me vêm à mente a idéia tanto da ciranda quanto de constelações.

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(Encontrado em blog.timesunion.com)

Não faltaram lembranças de manifestações culturais  – futebol, carnaval, samba (eu sou um clichê carioca, gente). Evidentemente não havia resposta melhor que outra; cada escolha é governada por forças diferentes, mais ou menos explícitas. Gostei de todas e também aproveitei para lembrar o momento em que conheci aquela pessoa, comparar a resposta dela com a minha, concordando ou me surpreendendo.

A princípio, a nano amostragem parece confirmar a premissa de que os textos simples têm apelo menor: obtive 69 respostas de um universo de 494 pessoas, pouco mais de 13%, se não me falha a matemática (a minha, ao contrário da fé, costuma faiá).  Embora poucos em relação ao total possível, os comentários superam em muito os likes, o que foge à regra.  Explica-se, em parte, porque o leitor atende a instruções claras e curtas como a que foi dada (apenas uma palavra). Notei ainda que responderam algumas pessoas que quase nunca comentam, no meu perfil ou no Facebook em geral. Talvez porque o pedido era para relembrar o início de uma amizade ou encontro, algo da ordem do afeto e a nostalgia, que têm apelo inconteste nas redes sociais.

Claro que não há precisão científica nesse teste, nem mesmo sei a origem e não planejei escrever sobre isso. Quis apenas, a partir de uma brincadeira, fazer outra, um exercício analítico sem compromisso para pensar sobre redes e seu funcionamento (penso melhor escrevendo. E falando).  Um campo da comunicação demasiadamente novo, fluido, difícil de auferir, isolar. Marcas e corporações buscam avidamente estabelecer parâmetros e regras para converter pessoas em fãs e fãs em consumidores, mas nada está firmado sobre bases suficientemente sólidas. Ainda é possível e preciso experimentar muito, ouvir bastante, correr riscos.

Helê

Nós que nos amávamos tanto

Fomos chegando aos poucos, uma de cada vez, se apresentando timidamente, puxando uma cadeira virtual e sentando para o papo interminável no incrível boteco digital que era o Mothern, um blogue de raiz. Isso no tempo que blogue era coisa moderna e que aqueles que tinham livro de visitas eram os que realmente valiam a pena.
Ao longo de anos, forjamos uma amizade daquelas raras. Um grupo tão grande de mulheres de idades diferentes, cidades diferentes, histórias diferentes, e mesmo assim uma compreensão tão grande umas das outras, que nem a passagem dos anos e o crescimento dos filhos fez esmaecer.
Aliás, pelo contrário: nossos filhos perpetuam esse laço, e cada vez que se (re)encontram ou se (re)conhecem parece que são mesmo amigos de infância – o que não deixa de ser verdade.

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Tantos anos depois, não pensei que seria possível ainda estarmos juntas. Não só estamos – virtualmente – como, pela primeira vez, conseguimos reunir essa mulherada de todo o Brasil, filhos e maridos, num encontro quase mágico de tão incrível. Depois de um dia como este, escrevo meio embriagada, apesar de ter bebido pouco, e bastante emocionada. Que venha o próximo.

-Monix-

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