Dê a preferência ao pedestre

Comecei a dirigir tardiamente. Quer dizer, fiz auto escola mais ou menos na época que todo mundo faz, mas deixei a carteira de motorista (vencida) na gaveta por muitos e muitos anos. Só fui tomar coragem e rumo na vida quando meu filho tinha um ano. Começou a me fazer falta a autonomia que só o carro dá. Dirigir, portanto, foi para mim uma decisão pensada, e não algo que fiz porque todo mundo estava fazendo e tal.

Por isso, da mesma forma que decidi começar a dirigir, estou decidindo agora parar de dirigir  – quer dizer, não vou desaprender, né, mas optei por não ter mais carro nessa cidade que depende fortemente do transporte individual.

placa pedestre

Respeite o pedestre!

Não foi difícil chegar à conclusão de que abrir mão do carro era a decisão mais lógica. Financeiramente, o automóvel não costuma ser a melhor opção, especialmente para alguém que trabalha em casa e não tem garagem (como eu).

Mas, como eu disse, ter um carro para mim foi uma conquista de um momento em que precisava de autonomia. Este que tenho hoje, particularmente, significava ainda mais que isso: foi o primeiro “zero” que comprei sozinha, com meu dinheiro, sem ajuda de ninguém nem para pagar nem para escolher.

Daí que entre decidir vender e tomar coragem para anunciá-lo demorei seis meses. Metade do ano ruminando uma decisão tomada, tem como ser mais taurina do que isso?

Bom, agora vai. Estou anunciando o carro e espero vender em breve, porque agora o seguro venceu e já não vou mesmo usá-lo mais. Estou me sentindo mais leve e ao mesmo tempo menos livre. Mas tenho certeza de que vou me adaptar. E agora me respeitem porque sou (de novo) pedestre. :)

-Monix-

 

Mais da mesma

Lembrei da data, pensei nas imagens e postei para lembrar o inesquecível, que Amy Winewhouse não está mais entre nós. Fui tomar um banho e então as palavras começaram a escorrer na mente; corri para registrar, antes que secassem.

Cinco anos desde sua morte, cinco anos que parecem meses e também cinco décadas, o tempo sempre distorcido pelo filtro da saudade. Lembro exatamente onde estava quando soube da morte dela, quem me avisou, o impacto da confirmação do que se sabia previsível mas, ainda assim, era inaceitável. Porque a Amy é para mim o que foram Elvis, Lennon ou Colbain para outros. Embora eu sinta e lamente a perda de muitos outros nomes, tenho com Amy uma relação toda especial, que inclusive pode ser rastreada neste blogue jurássico: a primeira referência aparece em 2007, e retorna outras tantas vezes, antes e depois de sua morte em 23 de julho de 2011. E acho que voltarei a falar sobre ela, mesmo daqui a muitos anos.05981aefb4fe98dffbadbfc7c3d9c077

Claro que conta o fato de ter acompanhado sua trajetória – seu arco excessivamente dramático, eu diria, se sua vida tivesse sido uma ficção. Mas já tenho tempo de janela suficiente pra ter acompanhado muitos outros talentos; isso não explica tudo, não justifica essa falta que não passa, a sensação de injustiça por ela ter tido tão pouco tempo para existir nesse mundo. Não sei precisar exatamente o porquê da minha ligação com Amy; essas coisas de amor e amizade a gente sente e aceita, agradece e aproveita – mesmo quando dói.

Helê

Missing Amy

Helê

No mar você nunca está sozinho

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(via Ágora com dazibao no meio)

Helê

Please

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(Apresentação de Usher no 2016 BET Awards em 26/6, em Los Angeles, Califórnia. Do tumbrl )

Helê

Segunda-feira

…dia de pegar o touro à unha.

Cade Staton, of Bastrop, Texas, goes to bring his steer down in the steer wrestling event during the fifth performance of the Cheyenne Frontier Days Rodeo at Frontier Park Arena on Wednesday, July 24, 2013. Blaine McCartney/staff

(fabforgottennobility reblogou optimusx)

Helê

 PS: Hesitei em postar porque não gosto de rodeios e eventos correlatos. Mas a força e beleza da imagem foram mais fortes que meu desconforto – que, no entanto, fica registrado aqui. Na foto, minha simpatia e torcida vão para o touro.

Fora dela, boa sorte e boa semana para todos nós ;-) .

No mar você nunca está sozinho

no mar

(Landscape & animals via fabforgottennobility)
 Helê

Eureka

aceso

(by Carol Burgos, via Pinterest)

Da série Corações

Helê

Um herói trágico

Um bom documentário é como uma boa biografia: não basta contar a vida de uma pessoa ou narrar um fato. É fundamental apresentar o retrato de uma época a partir da vida de uma pessoa ou da narrativa de um fato. Por isso é importante escolher bem o tema sobre o qual se irá falar, para que o contexto histórico seja tão interessante quanto.

A história do atleta/ator americano OJ Simpson é sem dúvida um dos exemplos em que a biografia de uma pessoa se confunde, em vários níveis, com um momento histórico rico de significados. Semana passada, a ESPN Brasil* exibiu a série documental “OJ Made In América“, em cinco episódios de quase duas horas cada. O programa explora de forma bastante competente os muitos aspectos em que a história de OJ se mistura com as transformações que a sociedade ocidental (particularmente os Estados Unidos, o líder sócio-político-econômico do bloco) vivenciou nas últimas décadas: a luta pelos direitos civis, os conflitos raciais, a criminalização da violência contra a mulher, o culto às celebridades.

OJ Simpson reacts with lawyers after court clerk announces not guilty verdict in his murder trial

OJ foi inocentado no julgamento pelos homicídios da mulher e do amigo que estava com ela. Foto: REUTERS/Myung J. Chun/Pool

 

Nos Estados Unidos, OJ Simpson era uma celebridade absoluta: além de ter sido um grande jogador de futebol americano, tornou-se um VIP, aceito em todos os ambientes que seriam (e eram) negados a um negro nascido em um project (o que por aqui chamamos de conjunto habitacional). Era tão famoso e tão querido que atingiu um status conferido a poucos naquela época: deixou de ser visto como negro. Simpson morava em uma mansão em Los Angeles, frequentava o clube de golfe, era amigo dos ricos e famosos – quase todos brancos.

Simpson se casou com uma moça muito mais nova e muito branca e loura, Nicole Brown, e a exibia como uma esposa-troféu. Nicole denunciou o marido por agressão diversas vezes, até finalmente pedir o divórcio e tentar refazer sua vida. Um dia foi encontrada morta em sua casa, acompanhada de um homem chamado Ron Goldman, um amigo que teve a má fortuna de estar no lugar errado na hora errada.

Em poucas horas de investigação a polícia de Los Angeles apontou o olimpiano ex-marido como o principal suspeito do crime. Polícia esta que vinha sendo alvo de uma chuva de críticas pelo tratamento dispensado à comunidade negra da região – o caso OJ Simpson aconteceu três anos depois do brutal espancamento do negro Rodney King. O que se seguiu foi uma intrincada trama que mistura questões raciais e o papel da mídia na definição da “agenda” da sociedade. No momento em que virou réu, OJ voltou a ser negro.

A fuga de OJ, a perseguição policial e sua rendição foram transmitidos em tempo real, ao vivo, para todo o planeta, mostrando, pela primeira vez em grande escala, a força que as TVs all news ganhavam naquele momento. O julgamento, que durou quase um ano, foi cercado de polêmicas e sua absolvição escancarou a fratura racial que ainda existia (e existe) na democrática América: os negros comemoraram, os brancos se revoltaram. Uma das juradas entrevistada no documentário admite que OJ provavelmente deveria ter sido condenado, mas que sua absolvição, por um júri predominantemente negro, foi uma espécie de revanche por todas as vezes em que o sistema absolveu brancos injustamente (entre eles os policias que espancaram Rodney King).**

Já um pastor de uma paróquia local, também negro, diz no documentário que a absolvição não foi uma conquista da comunidade negra, e sim “a vitória de um cara rico chamado OJ Simpson”. Me pareceu a pessoa mais lúcida dentre todos os envolvidos.

OJ Simpson é um herói trágico – por definição, alguém que sempre tenta ultrapassar os próprios limites – e como tal, não escapou ao seu destino. No momento ele cumpre pena em uma penitenciária em Nevada, condenado por roubo e tentativa de sequestro – um desdobramento estúpido de uma sequência de erros cometidos por um homem que já tinha conseguido escapar da prisão. Em minha modesta opinião, a Justiça errou com OJ duas vezes: ao absolvê-lo e ao condená-lo.

-Monix-

* A ESPN é boa de documentário – eles provam que tudo, até o esporte, é política.
** Ao responder uma crítica sobre a excessiva brutalidade com que os negros eram tratados, o chefe da polícia respondeu que isso só acontecia porque eles não reagiam “como as pessoas normais” ao serem abordados por policiais.

 

 

 

 

O que tem que ser

força

Helê

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