Minas

  • La Otra já contou* que andei pelas Minas Gerais, então vou fazer este post mistura de ‘pastilhas’ e ‘diarice’, porque é o que temos no momento. Está sendo difícil retomar o rumo, o prumo e a escrita depois dessa eleição inimaginable (nas palavras de uma francesa atenta e querida). Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim (Chico Buarque®).

 

  • Essa foi uma viagem programada muito antes das eleições e de seu desfecho infeliz. Eu e meu amigo J. nos encontramos no dia 30 de outubro, ambos com o hematoma da desilusão grande e recente em nós. Poderíamos ter desistido, mas seguir adiante foi nosso primeiro ato de resistência – se não à ditadura, pelo menos ao desânimo (o que, convenhamos, não é pouco).

  • Conheci Ouro Preto em outro século, durante um carnaval – eu ainda era universitária e magra, veja você. Outra vida. Voltei décadas depois e encontrei uma cidade encantadora, acolhedora, altiva,  surpreendente. Desta vez visitei igrejas e museus, entrei numa mina desativada, conheci o Teatro Municipal, mergulhei em arte e história. Devo ter comido o equivalente a um pequeno leitão em forma de torresmo e provei muitas cachaças e cervejas, porque eu entendo cultura e arte num sentido beeeem amplo e saboroso. 

 

  • Um destaque? Os guias. Pode ser que a gente tenha tido sorte (em alguma coisa havemos de ter, oras!). Mas o fato é que não esbarramos em meninos engraçadinhos recitando datas e textos decorados. Encontramos guias turísticos bem preparados, com narrativas que fugiam dos discursos chapa branca. Mais que isso: que destacavam o protagonismo dos negros na trajetória da cidade e, por extensão, do país. Ouvi várias vezes a correta expressão  “africanos escravizados”. E aprendi coisas incríveis sobre o aproveitamento do conhecimento prévio de arquitetura, logística e mineração desses trabalhadores. 

  • Em São João del Rey encontramos a melhor cervejaria da viagem,  Ovelha Negra, a melhor anfitriã de AirB&B e vivemos uma experiência inacreditável para um paulista e uma carioca: dormimos de janela aberta numa casa de rua, sem muro. Mind blowing.

 

  • São João conservou (e bem) seu centro histórico e continuou a ser cidade em volta dele. Já Tiradentes parece toda ela uma cidadezinha de boneca, toda lindinha, conservada e…cara. Colada em uma serra imponente, deve ter trilhas e passeios interessantes que não tive tempo de fazer. A Maria Fumaça que liga as duas cidades só fez  aumentar a minha vontade de viajar num trem de verdade.

  • Em Belo Horizonte, a saudade e o cansaço já pesavam na mala. Mas aí, laralá, lirili, encontrei com amigas geniais que tornaram tudo leve e amoroso. Compartilhamos angústias e desilusões – além de gargalhadas e cervejas. Nesse momento de incertezas variadas e medos difusos, reafirmar afetos foi restaurador. Como já disse em outro lugar, as minas mais preciosas estão em BH. 

 

  • No mais, colocar uma mochila nas costas e viajar pelo interior do país aos quase 50 anos pode fazer muito bem para sua autoestima. A minha voltou mais robusta. 😉 

 

Helê

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Como fui parar na cidade do Stephen King – e só descobri depois de ir embora

Como vocês já sabem, em junho deste ano eu participei de um congresso acadêmico nos Estados Unidos, experiência que por si só valeria vários posts e/ou muitas horas de conversa. Não só pela parte acadêmica, que, claro, foi importantíssima, mas também pela oportunidade que tive de ir a alguns lugares que jamais teria visitado como turista.

O congresso foi realizado na Universidade do Maine. O Maine é aquele estado que fica no extremo nordeste dos Estados Unidos, já entrando pelo Canadá. Para vocês terem uma ideia, a cidade de Orono, onde fica o campus, é mais setentrional que Toronto, e quase na mesma latitude que Montreal. Para chegar lá, foi preciso voar até Boston, em Massachussets, alugar um carro e dirigir 400 quilômetros rumo ao Norte.

Mapa do Maine

O Maine fica lá no alto dos Estados Unidos…

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Ao pesquisar as possíveis rotas para chegar na universidade, aprendi que a cidade mais próxima onde há um aeroporto (que acabei não conhecendo porque optamos por ir de carro) chama-se Bangor.

Bangor, Maine.

Se você é fã de Stephen King, provavelmente reconheceu este nome. Eu não sou, por isso cheguei lá completamente desavisada.

Eu e minhas roommates passamos por Bangor duas ou três vezes durante os dias que ficamos na universidade. Já na chegada, fizemos uma primeira parada para um lanche (jantar “comida de verdade” nos Estados Unidos é sempre um desafio), depois de praticamente um dia inteiro de viagem – fizemos algumas paradas no caminho para conhecer a encantadora Nova Inglaterra. Nos dias que se seguiram, fomos à cidade comprar comida ou de passagem, em direção a outros lugares.

Bangor, Orono e outras cidades pelas quais passamos são muito parecidas. Há a indefectível Main Street, que no caso da Bangor é uma avenida larga, com várias pistas de cada lado, extensa, cheia de cruzamentos. Há o também indefectível McDonald’s, o Subway, a Wendy’s, a Best Buy, o Walmart, ou seja, todas as cadeias que nas décadas recentes vêm sendo acusadas, não sem razão, de destruir o comércio local nos Estados Unidos, criando grandes monopólios em seus segmentos. Nas ruas transversais, há casas e mais casas, em centro de terreno, com um gramado na frente e um backyard, sem cerca nem portão. Nada de comércio, nada de calçadas, nem iluminação pública. A impressão que dá é que é impossível fazer qualquer coisa sem pegar o carro. E em algum ponto da cidade, há, na beira da rua, sem aviso prévio, as woods. Sabe quando você vê nos filmes ou séries de TV (ou lê nos livros) que alguma coisa sinistra aconteceu numa mata ou floresta? Eu sempre ficava me perguntando – mas gente, que mata é essa? As pessoas estavam na cidade, de repente apareceu uma floresta na beira de um rio ou de um lago, do nada? Pois é. Do nada. É assim mesmo que são as cidades americanas, pelo menos as que conheci lá no extremo norte.

E tem mais: mesmo no verão, quando anoitece surge uma neblina fraca, uma névoazinha que basicamente só serve para dar aquele clima de filme de terror. Fico pensando que no outono e no inverno esses lugares devem exemplificar muito perfeitamente o adjetivo “lúgubre”.

Fonte: AA Roads

Chegando a Bangor, uma cidade como outra qualquer. Foto: AA Roads

Enfim, Bangor não era meu destino final, nem meu ponto de partida, e foi basicamente uma cidade por onde passei algumas vezes para resolver questões práticas, como comer ou chegar a algum lugar.

Foi só quando já tinha saído do Maine, de volta a Boston para pegar meu voo para o Brasil,  que vi no Instagram de um colega que foi ao mesmo congresso a foto:

casa do stephen king

Foto: Rafael Sobreira

Hã? Como assim?!?

Só então fui pesquisar e descobri que sim, Bangor, no Maine, é a cidade onde mora Stephen King, autor de tantos best-sellers, nenhum dos quais eu li, e muitos dos quais foram adaptados para grandes sucesso do cinema (alguns eu vi).

O que, claro, explica muita coisa. Aquela neblina de verão que me causou arrepios quando eu dirigia por uma estrada mal iluminada, cercada de woods por todos os lados, não apenas parecia um cenário de uma história de terror.

Era o próprio.

-Monix-

 

Copa do Mundo – tá tendo

Então: aconteceu de novo. A Copa do Mundo correndo solta e euzinha, aquela que só gosta de futebol de quatro em quatro anos, saí do país.

É que, apesar de para nós, brasileiros, isto parecer estranho, o mundo não para por causa do futebol. Os gringos marcam congressos internacionais bem no meio da Copa e não há nada que se possa fazer. Era uma oportunidade que eu não podia perder, que me trouxe experiências incríveis, tanto academicamente quanto no nível pessoal. Então eu fui. Mas no meio do caminho tinha um jogo. E, como eu disse para uma professora sul-coreana que me perguntou “vem cá, não tá rolando uma Copa do Mundo de futebol enquanto estamos aqui?”, para nós, brasileiros, essa competição é um big deal.

Aí que a ideia era só “dar uma olhadinha” no jogo e depois sair para os paineis da manhã. Como se isso fosse possível.

Não sei se vocês sabem, mas aquela senha ixperrta que a gente tem para “multitelar”, como diz a propaganda da TV por assinatura… bem, ela não funciona no exterior.

Então eu e minhas roomates brasileiras acabamos tendo que criar uma gambiarra para conseguir assistir o jogo pelo celular, em um link pirata, em um esquema que, como diria minha orientadora do mestrado, só pode ser classificado como “celular de guerrilha”.

Isso foi no dia do jogo contra a Costa Rica. Imaginem a tensão de ver aqueles dois gols nos acréscimos em um celular precário cujo sinal caía a cada 2 minutos, mais ou menos. (É, os paineis da manhã dançaram e as brasileiras ficaram mesmo foi no dorm assistindo o jogo pelo celular. Os gringos que nos desculpem, mas há momentos em que um valor mais alto se alevanta.)

Voltei para o Brasil no dia do jogo contra a Sérvia. Depois de uma noite sem dormir no avião mais desconfortável do mundo (todos são, eu sei), assisti o jogo com um olho fechado e o outro aberto. Mas cumpri meu dever cívico, isso é o que importa.

Agora é torcer para a seleção do Tite não decepcionar e me deixar pelo menos curtir mais alguns jogos. Vai, Brasil!

-Monix-

Estranhos estrangeiros

“Se o Bolsonaro ganhar, saio do país” é o novo “se o Lula ganhar saio do país”.

As pessoas saem de seu país natal por diversos motivos; política é apenas um deles. Nunca tive esse desejo, mas sabe-se lá o que a vida nos reserva. Me sinto, no entanto, muito enraizada não apenas neste país estranho (definitivamente o Brasil não é para amadores), mas, principalmente, na minha cidade-maravilha-purgatório-da-beleza-e-do-caos. Toda a minha ascendência, até onde posso mapear, é brasileira. Meus pais são cariocas; meus avós vieram de São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Ceará. Nenhum deles teve pais ou avós imigrantes. Talvez por isso faça sentido eu me sentir em casa aqui.

Meu filho, que compartilha esse legado comigo, não é assim: desde muito pequeno tem vontade de ganhar o mundo. Não sei se isso acontecerá um dia. Não sei de onde veio esse desejo, nem para onde o levará. Talvez para a geração dele seja mais difícil entender a ideia de nação, já que vivem em um mundo virtualmente sem fronteiras.

Minha prima mais querida (tenho muitos, muitos primos – amo todos eles – mas essa é a que cresceu junto comigo, com quem compartilhei alegrias, angústias e sonhos durante os primeiros 20 anos da minha vida) se mudou para longe, para o frio, para um outro país que é toda uma outra vida. Uma vez por ano nos encontramos, matamos saudades, tentamos fazer com que nossos filhos tenham pelo menos uma fração da familiaridade que poderiam e deveriam ter, se não vivêssemos em um planeta tão grande e tão diverso.

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Este ano ela veio no verão, pela primeira vez em 20 anos, por um motivo especial. Está em cartaz com um espetáculo sobre a estranheza de ser estrangeiro. Um sentimento que não conheço, mas que através da poesia da música, das palavras e dos movimentos pude tentar entender um pouquinho. Afinal, dizem eles, não somos todos, na verdade, estrangeiros?

-Monix-

SP

Voei para São Paulo com Caetano na cabeça, mais precisamente com “Baby” – vivemos na melhor cidade da América do Sul. Postei e os paulistanos, claro, adoraram. Era mais referência musical simples que uma rendição, mas sim, estou preparada para conceder esse título a Sampa. Eu me contentaria simplesmente em voltar a viver numa cidade viável – sem nem ligar pra ser maravilhosa.

Gostei de São Paulo desde a primeira vez que conheci: gosto dos cheiros da cidade, dos sotaques múltiplos, das novidades, do verde inesperado e, sobretudo, das pessoas. São Paulo para mim rescende a amizade, lá vivem algumas das pessoas da que eu mais gosto nessa vida, sejam elas nascidas, enamoradas ou apenas acolhidas pela Pauliceia. Então posso ir a um congresso da CUT, correr a São Silvestre, acompanhar a cirurgia cardíaca da minha mãe ou de férias, não importa: nas fotos guardadas na memória afetiva a cidade se funde com sorrisos e abraços e gargalhadas – como não amar SP?

Gente da minha mais alta estima (bota alta nisso): Fal & Maliu (no alto),  Zé Carlos (de óculos), Jô & Manu, e Vitor.

Depois de “Baby”, a Radio Cabeça passou a “Panis et Circense” e “Tropicália” e pensei que nada é mais paulistano que esse início de carreira do Caetano – no prédio em que fiquei, no pátio interno havia uma piscina com água azul de Amaralina, coqueiro, brisa e fala nordestina. O menino de Santo Amaro, ao chegar, sacou tudo, ou pelo menos, muito. Certamente ficou zonzo como eu com o ritmo veloz das pessoas e acontecimentos, com o tanto que você precisa saber (da piscina, da margarina, da gasolina, andar com a gente, viver de perto) A quantidade absurda de possibilidades desnorteia uma libriana como eu, quase na mesma proporção que me seduz.

Sampa descolada, cosmopolita, que eu entendi ainda melhor agora, depois de ter conhecido Nova Iorque – sim, há semelhanças e afinidades entre elas. São Paulo que se acha e onde a gente se perde fácil, para encontrar o mundo todo e nacos de Brasil na próxima esquina. Esse lugar onde o vendedor te chama de linda (e eu, besta, acredito). Onde tudo é muito, farto, veloz. São Paulo que sempre me surpreende: peguei um táxi no aeroporto preocupada, como de costume, em não ser enganada, mas o motorista deu voltas foi na conversa, até chegar ao problema com a namorada. Com ciúmes de uma passageira, a moça havia brigado com ele duas semanas antes; ensaiou uma volta, mas tá confusa e ainda quer um tempo. Ele – jovem, alto, forte, bonitão – desabafava comigo, incrédula: não consegue assistir as aulas na faculdade, tá com uma dor no ombro que tem certeza que é tensão e confessou sem rodeios: já chorou um monte. Eu só conseguia pensar no Criolo: alguém avisa a ele, por favor, que tem ainda existe amor em SP.

Helê

Santiago: voltaremos

Deixa eu escrever sobre a viagem para o Chile porque o cotidiano já começa a querer me sugar para sua mesmice acachapante, as notícias bombásticas sucedendo-se tão vertiginosamente que acabam virando um nada pastoso e ruim, apenas. Já vem a política, a Crise e a vida pública me sufocando; se não cuido acabo acreditando que tudo isso é mais importante que a minha vida – e não é. Então vim escrever para reter. E para contar, porque a leitora perguntou “Vai ter post do Chile, né?” Tá tendo, Renata, obrigada por me pautar, poucas coisas me alegram tanto aqui no blogue. ; -)

Nunca subestime o poder de uma viagem, mesmo que ela seja rápida. Santiago do Chile foi uma oportunidade de três dias, o suficiente para querer voltar. Um presente, dos melhores. Já garantiu lugar na lista das melhores coisas deste ano…bizarro (pra dizer o mínimo), e está bem cotada na categoria Viagens Inesquecíveis. Afinal, teve vários marcos: minha primeira visita a um país latino-americano, a estreia da Fifi (diminutivo de minha filha) no exterior, nossa primeira viagem juntas e sozinhas. Aliás, que tenso passar na puliça federal, provar que você não tá roubando a quiança. Tenso na minha cabeça também, a responsabilidade dobrada de cuidar de si e do outro. Nada que a gente não supere nos primeiros deslumbramentos. dsc_2296

Da janela lateral do quarto de dormir

Trocar dinheiro – um que parece de brinquedo e tem muitos zeros, me confundindo como nunca antes –, compreender e ser compreendida, encontrar lugares, checar o mesmo mapa 30 vezes, desvendar o metrô, detectar roubadas, identificar oportunidades, calcular distâncias mesmo sem saber exatamente onde está, contar com a sorte, acreditar que vai dar tudo certo; descobrir-se capaz. Coisas que fazem o ato de viajar especial e único, e que ganham tons mais intensos quando você está acompanhado da pessoa mais importante da sua vida. Outra viagem, paralela, observar na hija a alegria da descoberta, o entusiasmo com o novo; ser guia e também companheira, porto e carona: tem isso de cuidar, mas também teve muito dividir e compartilhar, bem mais do que eu esperava. Uma aventura das mais radicais isso de viajar com filhote, criar memórias – como disse o baiano que cruzou nosso caminho por acaso, Edmilson, e nos deu ótimas dicas.

Uma das melhores foi a troca de guarda no Palácio La Moneda, que a gente perderia se ele não nos dissesse que estávamos ao lado, e quase na hora de começar. Não sei ao certo o que achar do ritual, que para minha incredulidade acontece dia sim dia não (!). Uma versão pocket de um desfile de sete de setembro, com militares uniformizados, banda, cavalos; dura quase uma hora e para por alguns minutos parte do trânsito no centro de uma grande cidade. É entretenimento, mas não só: há reverência às forças armadas, o que me incomodou bastante. Mas também há graça na bandinha tocando o tema do Rocky Balboa e Aquarela do Brasil; vale a pena assistir, ainda que eu não tenha certeza sobre o que aquilo tudo representa.

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O La Moneda foi nossa referência e quintal, nossa estação de metrô, ficamos mesmo íntimas (praticamente nossa Praça Afonso Pena – referência carioca-tijucana, sorry). Foi o primeiro ponto turístico que reconheci, mesmo chegando à cidade no meio da madrugada. Também era sobre o qual tinha ouvido falar mais, por causa do golpe militar de 73 e do assassinato covarde do Allende. Impressionante que aquilo tudo tenha se dado ali, no meio da cidade, à luz do dia. Em todas as muitas vezes que passei pelo Palácio não deixei de pensar nisso, e fico me perguntando se os santiaguinos conseguem (pelo menos os da minha idade ou mais velhos). O entorno é cercado por outros prédios importantes, como nos contou um simpático motorista de táxi, e por bandeiras do Chile – a gente contou 14, das grandes, em mastros, fora o Uhéobandeirão, tão enorme que não sei dizer o quanto e que dispensaria qualquer outra bandeira na cidade. Mas elas podem ser vistas por toda parte, pudemos encontrá-las nas varandas e janelas dos prédios próximos de onde nos hospedamos.

Quando estou numa cidade nova para mim fico atenta ao redor, à rua, às pessoas, fazendo comparações, traçando paralelos, anotando mentalmente detalhes que me chamam atenção. Muitos cachorros nas ruas, grandes, peludos e preguiçosos. O hábito de aproveitar parques ou qualquer pedacinho de grama como vi em Paris – também eu e Fifi rolamos na grama do La Moneda sem a cerimônia que o prédio impõe, como outras famílias perto de nós. Senti falta de negros, vi poucos.  Achei as pessoas muito parecidas com as que vemos no Brasil na maneira de vestir e também nos modismos: muita gente tatuada, muitas cabeças com cores como azul, roxo, rosa. Nem dá pra falar em população de rua, vimos dois ou três mendigos – e não ficamos na área mais chique, e sim no que seria a Lapa de Santiago (mas sem os bares). Os programas de TV eram tão iguais que deu até nervoso (até a praga do tr*vago!). Mas no rádio há uma diferença brutal: cerca de 80% do que se ouve é espanhol, para 20% em inglês.

No primeiro dia, quando achávamos que teríamos pouco tempo, além do La Moneda e seu Centro Cultural vimos a Plaza de las Armas, a Catedral, Prédio dos Correios, Mercado Central e o Cerro San Cristóban – de onde você vê a cidade inteira e descobre que Santiago é uma ilha cercada de montanhas por todos os lados. A neve, mesmo distante e pouca, já causou alguma comoção. Depois do agente de viagem baiano, cruzamos com um operador de turismo que morou no Méier, o Guilhemo, outro encontro valioso. Almoçamos no Pátio Bella Vista na hora da janta, pollo y papa + Pisco Sour (pra mim, claro). Já na cama, filhote conclui com olhinhos brilhando: “Se acabasse agora, já tinha valido a pena”. Sim, principalmente depois de ouvir essa frase. Transbordei de contentamento num sorriso do tamanho da montanha.

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O funicular que leva ao topo de El Cerro, e a imagem de Nossa Senhora

Ainda teve passeio até a vinícola, indo de metrô; visita ao Museu de Artes Pré-colombianas – que vale muito a pena, principalmente a parte “Chile antes do Chile” – e o Vale (pouco) Nevado. Ok, a gente sabia que estava fora de temporada, o que significou uma nevezinha que deve ser colocada à noite só pra que os turistas não fiquem muito frustrados. Por outro lado, encontramos o lugar quase vazio (imagino que em julho aquilo seja tipo praia no Rio em domingo de sol). Então pudemos andar e subir no nosso ritmo e desejo, deitar ao sol nas pedras, tirar fotos ridículas e curtir as montanhas sem ser incomodadas. Havia a expectativa de como ficaríamos a três mil metros, mais de uma vez perguntaram: “Vocês têm problemas com altitude?” E minha resposta sincera era: “Vamos saber agora”.  Djubs teve uma dor de cabeça passageira, eu nem isso (o que me animou para o Himalaia). Fiquei encantada com aquela imensidão, paisagens que se mostram à medida em que você sobe mais um pouco, passa um pedra, dobra uma curva. Ao chegar achamos que cinco horas seria muito, mas ainda eu poderia ficar mais, se as nuvens não encobrissem o céu e batesse um vento frio da porra (cancela o Himalaia).

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Na América pré-Colombo já tinha abraço coletivo ❤

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Bola de neve e…eu falei fotos ridículas?

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Na van que nos trouxe, acho que só eu e o motorista estávamos acordados; fui reparando em tudo e então comecei a dominar bem a geografia da cidade e me localizar com alguma segurança – mas então era a hora de voltar.  Jantamos no Tiramissu, indicação catada na internet, uma pizza ótima e atendimento idem. Consegui agendar um táxi para nos pegar de madrugada escrevendo em portunhol pelo Whats up – me senti muito ninja. No avião, um bônus espetacular: sobrevoar a Cordilheira dos Andes. Que assombro, que visão estonteante. No caderninho de desejos sublinhei: voltar.

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Acho que demorei a escrever porque, segundo uma personagem da Isabel Allende, quando a gente viaja de avião a alma desencontra do corpo, porque viajam em velocidades distintas. Por isso a gente leva um tempo até assentar; no caso de uma viagem rápida, esse desencontro é, imagino eu, ainda maior: quando minha alma tava se instalando no Chile o corpo chegava ao Galeão e, no mesmo dia, foi fazer compras no Guanabara. Mas agora já me encontrei, corpo e alma e tudo mais, renovada como só as viagens fazem com a gente. Revigoram nosso espírito, nos lembram de que há muito mais a fazer e viver, e que a gente dá conta, eventually.

Helê

 

 

Trilha sonora: minha Radiohead não parou de tocar um só instante em Santiago, porque é assim que ela funciona, no matter where. Em geral faz adaptações de acordo com o lugar, algumas músicas óbvias; outras , sabe-se lá porque são executadas. Na playlist Chi-chi-le-le tocou muito: “Soy loco por ti, América”, com o Caetano; “Cordilheira”, Simone; Juan Luís Guerra, que ouvi lá muitas vezes; “The good life”, na deliciosa gravação do Ben l’Oncle. “Fantasy”, do Earth, Wind and Fire” nós ouvimos na pizzaria e decidi que era ideal para as montanhas do Vale Nevado. “Sobre todas as coisas”, tocou por causa dos versos “Ou será que o deus/Que criou nosso desejo é tão cruel/Mostra os vales onde jorra o leite e o mel/E esses vales são de Deus”. Mais o Coiso também apareceu: “Vá morar com o diabo” entrou no set por causa do Casillero del diablo, lógico.  E a música que mais ficou na cabeça, o tempo inteiro, ainda agora enquanto escrevo esse post, chama-se “Dança do ouro”, do Boca Livre. Seria muito mais adequada para Vanessa, que acabou de voltar do Peru, já que fala do sol que nasce em Cuzco. Mas talvez por causa de “Nada do que foi será/Ao sul dessa América/Tão linda” , essa foi a canção da viagem.

Thanks to: Geide, Ju Branco, Priscilla Caetano, Grazi, Lucinha, Ângela.

Sabores da Maçã

Visitei o Metropolitan Museum, em Nova York, naquele momento da viagem em que faltam dias e sobram coisas a fazer. Ainda havia na lista o Guggenheim e o Withney – pra ficar só com os museus; acho que nunca haverá dias suficientes para tudo o que se tem pode fazer em NY. Mas acabei concluindo que o Met era obrigatório, e ainda bem: se eu soubesse que veria tantos Van Goghs numa única sala, incluindo um autorretrato, eu não teria pestanejado. E jamais me perdoaria se tivesse perdido essa oportunidade. Esse moço me comove até a raiz dos cabelos, chorei instantaneamente diante de todos os quadros dele que tive a graça de ver de perto.


Met - fachada Vincent

Mas o Met, como dizem os novaiorquinos, tem outros atrativos. Fica em uma belíssima construção encravada no Central Park, é claro, amplo e muito bem sinalizado (ao contrário do Museu de História Natural, tremenda decepção). Mais ou menos como no Louvre, qualquer virada de pescoço é lucro, tudo é lindo (menos, claro; o Louvre é imbatível). Museus podem ser intimidadores (Versailles), instigantes (Brooklin Museum), eficientes (MoMA). O Met tem uma atmosfera acolhedora, friendly: você percebe logo que não vai dar conta, mas tá tudo bem. Como se ele dissesse: “Eu estarei aqui quando você voltar – porque você voltará”. Sendo assim, fiquei o quanto pude e os meus pés deixaram, relaxada, aproveitando. Lembro da impressionante Sala de Armas e Armaduras, dos burgueses do Rodin com quem havia topado em Paris; estátuas magníficas, vestidos deslumbrantes na área dedicada à moda, um portão incrível que até hoje me pergunto como foi parar lá; séculos de arte e engenho.

portão vestido

Saindo do Metropolitan precisei ir à loja da Apple para uma amiga; uma vez lá, aproveitei para tentar consertar o Ipad da minha filha e meu Ipod, ambos com problemas de carregamento. Depois de longa espera, ouvi da jovem atendente que o Ipad não tinha conserto porque era antigo, tinha mais de cinco anos – “obsolete“, disse ela. Imaginei então que ela classificaria o Ipod como paleolítico, e foi quase. No caso dele, o problema era outro mas tão pouco havia conserto: era um modelo “vintage”, ela disse.

Agradeci e vim embora pensando na ironia de ouvir esses diagnósticos depois de ter passado o dia vendo obras de arte de cinco mil anos, de muito antes dela, de mim e da Apple, e cujo interesse e deslumbre permanecem. É para ver em primeira mão essa tecnologia que caduca em cinco anos que as pessoas dormem na fila? Que estranho. Fiquei pensando, por outro lado, que viver essas duas experiências no mesmo dia tem a cara de Nova York, essa metrópole em que convivem em harmonia a arte mais perene e a mais passageira novidade. Então constatei que já havia sido seduzida pela cidade, a ponto de identificar algo tipicamente novaiorquino na obsolescência programada da Apple e na relevância do Met – e gostar desse paradoxo.

geral

Reservatório Jakie Onassis, norte do Central Park

Helê

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