A Grande Ficha

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Bem, parece que aos poucos a Grande Ficha vai caindo, exceto para nosso irresponsável Pesadelo Eleito.

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É chegada a hora de ficar em casa e esperar. Paciência, algo que desaprendemos a ter, é o que a humanidade mais precisará nos próximos meses.

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Este é um evento de uma magnitude que a gente ainda nem consegue dimensionar. Não é como o pós-11 de setembro. Não é como a queda do Muro de Berlim. Talvez se compare à invasão da Polônia pelo exército nazista. A conferir.

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Teorias da conspiração: não passem adiante, por mais engraçadas que sejam. Há todo tipo de maluco, as pessoas acreditam em piadas.

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Mas se fosse para acreditar em alguma conspiração, acho que seria a natureza finalmente se cansando da espécie humana e mandando um recado, digamos, mais enfático.

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É hora de ver nossos privilégios como eles realmente são. Ver o valor de pequenas coisas, como ter a benção de passar a quarentena com pessoas que você ama, ou juntos, em casa, ou se aproveitando dos recursos que a tecnologia nos permite usar. Imaginem na época da gripe espanhola, ficar confinada bordando.

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Desde semana passada não consigo parar de pensar em como sairemos dessa crise global. Nesses momentos, o melhor e o pior da humanidade se apresentam. Prefiro focar no melhor. Iniciativas de apoio, coletivos, ajuda material, arte espontânea, tenho visto muita coisa bonita. Profissionais de várias categorias pensando em formas de ajudar — psicólogos fazendo atendimentos virtuais, nutricionistas compartilhando receitas, jornalistas ajudando a identificar o que é fato e o que é boato, isso sem falar no médicos e todos os profissionais de saúde, e em uma turma meio invisível que é fundamental: os técnicos que mantêm os servidores de internet no ar, os funcionários das companhias de água e energia, etc.

Penso muito nas categorias de trabalhadores não especializados, que serão essenciais para todos nós — por exemplo, funcionários de supermercados, entregadores, cozinheiras de restaurantes. Merecem aplausos na janela, também.

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Eu continuo trabalhando normalmente, e acumulando tarefas domésticas, então não tenho muitas dicas sobre o que fazer na quarentena. Sugiro que visitem as categorias do blogue sobre livros, filmes e afins e se distraiam com os posts antigos para se inspirar.

Ah, e enquanto nossa sanidade mental permitir, continuaremos mandando a newsletter toda quarta, tentando reciclar posts sobre belezuras e assuntos um pouco mais leves, para ajudar a enfrentar o que vem por aí.

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Cuidem-se. Lavem as mãos. Fiquem em casa.

-Monix-

Sobre banho e outras rotinas

Pessoal que chegou agora no home office, compulsório ou voluntário, sem planejar nem necessariamente desejar, uma dica muito importante: não esqueçam de tomar banho!

É sério. Cinco anos atrás, vocês sabem, eu pedi demissão de um emprego estável para trabalhar em casa por conta própria, movida principalmente pelo desejo de administrar meu próprio tempo. Naquele momento de tantas dúvidas (como vai ser minha rotina? vou conseguir clientes? vou ter disciplina para trabalhar todo dia?) um amigo que já estava há um tempo nesse mesmo caminho me deu esse conselho que agora repasso: não esqueça de tomar banho!

Parece piada, mas é verdade, pelo menos para mim. Muitas vezes passo o dia todo absorta, me dividindo entre o trabalho remunerado (demandas de clientes) e o trabalho doméstico (necessidades da família), e só na hora de dormir me dou conta: opa, ainda não tomei banho hoje!

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Bem, nos últimos dias muitas pessoas com quem convivo (digitalmente, pessoal, estou no isolamento desde sexta passada) têm comentado que passaram a trabalhar em casa. Muitas nunca tiveram essa experiência, pelo menos não por longos períodos de tempo. Então me dei conta de que uma das coisas que posso fazer para contribuir nesse momento difícil é compartilhar com vocês minhas experiências e minha rotina. Cada um irá descobrir suas soluções, mas espero que esse post ajude de alguma forma.

Primeiro, uma palavrinha sobre infraestrutura. Quem fala sobre home office (e tem gente que posta conteúdo sobre isso já há muitos anos) costuma recomendar que se crie um espaço exclusivo para o trabalho, um canto separado na sala, um cômodo convertido em escritório, etc. No meu caso isso não é possível. Meu “escritório” fica no meu quarto. Isso não significa que eu não tenha um espaço onde possa me concentrar. Dispensei a mesinha de cabeceira e mandei fazer uma bancada de trabalho bonita, colorida, e principalmente, ampla. Mas falarei mais sobre infra a seguir.

Um pedacinho do meu “escritório”

Para o home office funcionar, o mais importante é conseguir criar e manter uma rotina que faça nosso corpo e nossa mente entenderem que o mesmo lugar pode servir para o descanso/lazer e para o trabalho. Todos os dias de manhã eu arrumo minha cama, inclusive colocando almofadas no encosto para dar uma cara de “sofá”. Troco de roupa, mesmo que seja um vestidinho de malha confortável (nos dias em que não há reuniões por vídeo). Transformo o quarto em escritório e começo o expediente.

Não sigo horários rígidos, mas mantenho certos hábitos mais ou menos consistentes (dependendo da agenda do dia). De manhã leio e-mails e resolvo assuntos tipo pagar contas, etc. Começo a dar andamento às tarefas do dia. Faço um pausa para o almoço, que inclui preparar a comida, servir, comer, lavar a louça. Ultimamente estava começando um novo hábito: dar uma caminhada de 20 minutos aqui na minha rua mesmo, para fazer a digestão, melhorar um pouco a circulação (fico muito tempo sentada) e pegar um solzinho. Suspendi temporariamente para evitar exposição, mas retomarei quando der. Volto para a bancada cheia de disposição e me concentro muito à tarde.

Aliás, essa é uma coisa que me espantou muito no início. As pessoas costumam dizer que trabalhar em casa é muito dispersivo, que há muitas distrações. De fato, nos primeiros meses isso acontecia sim, não vou negar. Mas depois que me acostumei com a rotina, a verdade é que acho o trabalho profundamente focado. Raramente sou interrompida. É muito comum eu trabalhar duas horas seguidas sem parar para nada, sem sentir o tempo passar.

Aí entra uma recomendação tão importante quanto lembrar de tomar banho: bebam água, amiguinhos! Eu não gosto de café (dsclp, gente!), então deixo uma garrafinha de água ao meu lado. É muito útil, especialmente durante reuniões por vídeo, quando falo mais. Mas o mais importante é fazer pausas ao longo do dia, levantar, esticar as pernas, ir ao banheiro. E voltar ao batente, que a vida não tá ganha, né?

Aos poucos fui entendendo que além do óbvio lado bom – ser dona do meu próprio tempo – a experiência de home office tem lá suas questões também. Hoje eu sou responsável direta por toda a minha infraestrutura de trabalho. Precisei fazer investimentos ao longo do tempo: internet de alta velocidade e estável; um bom computador desktop, com monitor grande, teclado e mouse, para dar conforto, e um notebook que não me deixe na mão; pacote Office original com direito a 1 Tera de armazenamento na nuvem, para garantir que meus arquivos não sejam perdidos por acidente; domínio e servidor de site e e-mail profissionais (eu separo o e-mail pessoal do profissional, senão não consigo administrar). E por fim, mas definitivamente não menos importante, uma cadeira bem confortável para dar sustentação à minha já calejada coluna vertebral.

Quando você decide trabalhar em casa, você vira seu próprio patrão, com todos os ônus de ser patrão. Inclusive o pagamento do “salário”. Sei qual é o valor estipulado que devo pagar a mim mesma. Em meses (raros) em que faço mais dinheiro do que preciso, deixo na conta pessoa jurídica ou invisto. Se ganhar menos, preciso completar com a reserva financeira que construí justamente para poder dar esse passo (e que graças à crise que nunca termina está bem minguada, infelizmente). Mas em suma, sei quanto eu tenho me pagar a mim mesma por mês, e isso é muito importante para não perder o controle dos gastos.

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As próximas semanas (ou meses) vão ser difíceis. Nós nunca vivemos uma pandemia em um mundo totalmente globalizado. Por outro lado, nunca vivemos uma pandemia com tantos recursos para nos ajudar a enfrentá-la minimizando os impactos na economia.

Faz tempo que defendo a possibilidade de trabalho remoto, ainda que parcial, como uma forma de tornar as cidades lugares mais acolhedores. Menos pessoas se deslocando geram menos trânsito, menos poluição, menos estresse, e teoricamente mais tempo livre (embora na prática nem sempre isso aconteça). Desejo que esse momento tormentoso pelo menos sirva para o mundo repensar alguns hábitos que talvez já não fizessem mesmo tanto sentido.

E acima de tudo, torço para que passemos por essa com o mínimo de danos, que todos fiquem bem e seguros. Cuidemo-nos uns aos outros, está bem?

Update: uma coisa importante sobre rotina que quase esqueço de incluir aqui – se você tiver um horário certo para começar o expediente, tenha também um horário certo para encerrar os trabalhos. Se for como eu, sem rigidez de horários, estabeleça pelo menos um número total de horas a trabalhar por dia. Tão bom quanto começar o trabalho sem precisar sair de casa é encerrar o trabalho… e já estar em casa!

-Monix-

Belezuras que eu encontro

A internet ainda me surpreende e proporciona encontros com belezas como essa, que achei sem procurar no Pinterest. Fiquei encantada com a imagem dessa senhora olhando esse negócio que eu não sei o nome e tinha lá em casa quando eu era pequena: um tubinho por onde a gente olhava fotos (depois descobri, chama-se monóculo de foto).

Daí fui buscar mais informação para postar e encontrei o blog do artista, Gidásio Jardim. Ele  mora em Padre Paraíso, Minas, no Vale do Jequitinhonha. Tem outras obras igualmente belas e coloridíssimas, com essa cara de Brasil. Tem também um vídeo em que ele fala de suas inspirações, do uso da chita e de como começou a desenhar; vale a pena conferir.

Helê

Mulheres do Ano

A história anda de um jeito engraçado, às vezes parece que dá saltos, depois é como se desse um passo para trás antes de dar dois para frente (foi Lênin que disso isso?), e ultimamente tenho tido a impressão de que ela anda para frente e para trás ao mesmo tempo.

Isso porque enquanto vemos retrocessos se escancararem a olhos vistos, por outro lado parece que certas mudanças nos corações e mentes, no zeitgeist da sociedade ocidental, foram se consolidando ao longo de décadas e chegaram a um lugar de onde não voltarão atrás.

Então é assim: passei o dia de hoje vendo maços de rosas sendo vendidos no supermercado e recebendo fotos e vídeos sobre o Dia da Mulher, tanto com mensagens naquele tom condescendente que sempre me irritou quanto numa vibe de empoderamento. Preguiça monumental de tudo isso, tanta que nem ia mais me dar ao trabalho de escrever sobre.

Mas aí minha cunhada feminista (pensando bem, todas são, graças às deusas) mandou um link para um projeto especial da revista Time que realmente me comoveu. A revista refez todas as suas capas de “Homem do Ano”, de 1920 a 2020, apenas com mulheres. São cem destaques para histórias femininas, com imagens lindas que mostram como seriam as capas reais, e breves textos contando os feitos dessas mulheres incríveis.

A mulher do ano de 1938

Parece pouco, mas esse foi um projeto que realmente me comoveu, por mostrar que apesar de todas as dificuldades e silenciamentos as mulheres sempre fizeram parte da história, sempre contribuíram para mudar o mundo, sempre provocaram impacto com suas ações. Só que elas não estavam nas capas das revistas “importantes”. Estavam nas revistas “femininas”, onde se falava de assuntos “menores” (talvez nem sejam, mas isso é outra discussão).

Enfim, neste 8 de março aproveite que é domingo e faça um favor a você mesma: clica no link que está na foto da Frida aí em cima e lê com calma as histórias dessas mulheres notáveis. É o que eu vou fazer.

-Monix-

Foward to the past

(do Insta @mrchristopherlloyd) 

Christopher Loyd e Michael J. Fox, uma imagem que derreteu meu coração logo cedo (entendedores entenderão, mas só para os da minha faixa etária de gaza…)

Helê

Resenha momesca

O carnaval, como se sabe, tem um período flexível, variando de folião pra folião (o calendário oficial só vale para autoridades incompetentes e para os que não gostam mas se locupletam). O meu começou em janeiro quando fui ao Palácio do Samba com P.A. para ela matar as saudades da Verde e Rosa e sair às três da manhã com cara de “Mas já?!”.

 

Outro ponto alto foi minha estreia dançando no Tambores de Olokun, essa embaixada informal de Pernambuco no Rio que rende homenagem aos ancestrais, aos orixás e às nações do Maracatu de Baque Virado do Recife. Uma experiência plural que nem cabe neste post, um começo que parece retorno. “Na beira da praia eu vi que o mar não recuou/ no reino de Yemanjá, estrela do mar é flor“.

 

 

O prêmio de Revelação do carnaval vai para o bloco Terreirada Cearense, para o qual fui achando que seria bom mas foi sensacional. Música da melhor qualidade e um colorido espetáculo que trouxe para a Quinta da Boa Vista minhas raízes nordestinas. O Prêmio Personalidade foi a d. Fofa cujo nome não sei, mas tinha 84 anos e pulou na chuva com a gente na Gamboa, saquinho de confete em punho. Depois do bloco dar a volta no quarteirão, perguntava esperançosa: “Será que vai dar mais uma?”

 

A Imagem do Carnaval já está estabelecido que foi a a Mangueira e Leandro Vieira que nos deram. Mas confesso que me emocionei com Elza Deusa Soares (a quem homenageei no Boitatá) e com o enredo/desfile da Viradouro – o campeonato ficou em boas mãos.

Beth Carvalho foi uma ausência sentida, seja no desfile da Manga ou no Cacique de Ramos. Mas também de presença e encontros se faz um carnaval: elegi o Melhor Reencontro o meu com o Escravos da Mauá, de quem posso me separar por um tempo, mas me recebe de braços abertos – um amor sempre correspondido. Parceiro de todos os dias, Claudio Luiz protagonizou a categoria Melhor Coincidência: nos encontramos de preto e vermelho na terça sem ter combinado antes. E ainda pedimos a um rapaz para tirar uma foto nossa e ele estava vestido de…diabo.

 

Bem amigos, encerro aqui esse brevíssimo registro, feito mais para mim e minha memória suíça como um queijo, que depois de algum tempo fica cheia de furos. Como a Ressaca de Carnaval do Olokun foi adiada por causa da chuva, acabou mas ainda tem. Espero rodar a saia mais uma vez antes de guardar a purpurina e a fantasia. Feliz ano novo pra todo munda!

Helê

PS: Melhor Nome de bloco: “Quem me viu, mentiu”. Levarei pra vida.

 

 

Beth S.

Nos últimos dias minhas redes ficaram repletas de homenagens à queridíssima Beth Salgueiro, que depois de meses dolorosos e difíceis, cantou pra subir no sábado. Uso a expressão com carinho e reverência: sabendo que ela respeitava todas as crenças, sei que não se importaria. Além do mais, me parece adequado utilizar uma metáfora musical e mística para falar da morte de alguém como ela, toda sons e luz.

Nos aproximamos, lembro bem, em um post meu falando sobre o show da Adriana Partimpim, em 2005. A música era uma paixão em comum, e Beth tinha larga experiência na área, tendo trabalhado com importantes nomes da MPB por muitos anos. Zelosa da privacidade alheia, liberava apenas uns nacos de um acervo que suponho riquíssimo de histórias e vivências.

Imagem que ilustrava o post original sobre o show da Partimpim

Também compartilhávamos belezas outras: fotos, ilustrações, pinturas. Neste período de convivência digital, acompanhamos as mudanças das nossas vidas – perdas, conquistas, evoluções, angústias, derrotas e vitórias. Às vezes mais próximas, outras nem tanto – como em qualquer amizade offline. Nos vimos uma única vez, num aniversário do Duas Fridas em que ela foi um dos poucos e seletos convidados. Mas ter estado pouco com ela não diminuiu a sensação de perda e a tristeza pela sua partida. Beth era, e continuará sendo, uma presença suave e marcante, como um perfume bom e raro.

Somos da mesma geração da internet. Chegamos mais ou menos na mesma época – quando isso aqui tudo era mato – ; pegamos a fase de popularidade dos blogues, vimos surgir as redes sociais, os memes, o Skype (por onde ela falava com os netos), o WhatsApp… Ela fazia parte dessa turma intrépida e destemida que se jogou no ciberespaço sem manual, aprendendo a mexer mexendo e criando maneiras de ser e estar na internet. Pintamos e bordamos, desbravamos territórios e fizemos amigos – dos quais agora nos despedimos aqui também, em lembranças, homenagens, lamento.

Beth Salgueiro, cujo sobrenome os cariocas associam ao samba e ao carnaval, nos deixou no começo da quaresma, depois da farra mas quando havia ainda um batuque aqui e um chocalho ali, pra gente não entristecer de vez. Sempre muito sabida, a Beth partiu num 29 de fevereiro que é pra gente sofrer só de quatro em quatro anos – e ser feliz sempre que lembrar da graça de ter convivido com ela.

A gente segue meio Piu Piu sem Frajola assim sem você, Beth – mas segue, resistindo com amor, humor e arte, como você faria. Obrigada por tudo, querida.

Helê

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