O ano em que a música mudou o mundo

“A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, disse Oscar Wilde no ensaio A Decadência da Mentira, indicando que o papel da “verdadeira” arte é muito mais indicar caminhos que reproduzir costumes de uma época.

A série documental 1971 não cita meu dândi favorito, mas a premissa é a mesma. O subtítulo, tanto em inglês quanto em português, é “o ano em que a música mudou o mundo”. São oito episódios que mostram um momento bem peculiar da história do século XX: os míticos “anos 60” tinham terminado, os Beatles tinham se separado, the dream is over era o mote que resumia o espírito do tempo. E realmente, né, se a gente pensa em momentos históricos da música… dificilmente o ano de 1971 seria apontado como memorável.

Mas o documentário mostra um recomeço. Para os Rolling Stones, por exemplo, foi um ano decisivo. Eles poderiam ter se desintegrado em muito sexo, muitas drogas e pouco rock’n roll. Mas se mandaram para a Côte D’Azur, depois para Los Angeles, e o resultado foi o álbum Exile on Main St., que dispensa apresentações. Acha pouco? É pouco mesmo. O ano de ’71 teve muito mais: John e Yoko lançando um libelo pela paz que ultrapassou o flower power e virou um hino mainstream. (Sim, Imagine foi lançada naquele ano.) Marvin Gaye, James Brown, Sly and the Family Stone, Tina e Ike Turner — vai vendo o naipe dessa rapaziada — foram contemporâneos de Gil Scott-Heron, um cara não muito conhecido que deixou como legado uma frase profética: “the revolution will not be televised” (que, na era das redes sociais, ganhou todo um novo significado).

Mi novecentos e setenta e um teve também Iggy Pop, Alice Cooper e a morte de Jim Morrisson. Um inglês meio esquisitão foi para Nova York, conheceu Andy Warhol… e assim nasceu o camaleão David Bowie.

Meu episódio favorito é o que tem foco nas mulheres: Joni Mitchell (que não curto muito) e Carole King, a quem eu nunca tinha prestado muita atenção. O álbum que ela lançou em 1971, Tapestry, foi uma fábrica de hits. Você provavelmente conhece bem mais da metade das faixas.

Carole King - Tapestry
Esse álbum é uma pérola. Apenas ouça.

Cinquenta anos depois, 1971 ainda ressoa, ainda toca nas nossas playlists, e, infelizmente, seu legado ainda desperta reações violentas contra nossa turma. We shall prevail.

-Monix-

Uma aglomeração de amor

No dia de celebrar Helê, nada melhor que uma aglomeração de fotos aglomeradas. Porque essa mulher é dos muitos: muita gente, muita alegria, tudo muito. Nós somos amigas há quase vinte anos, mas nunca fomos só nós. Sempre estivemos cercadas de gente fina, elegante, sincera.

(Observem que a pessoa é tão agregadora que conseguiu a proeza de me convencer a participar de uma corrida (!!), como prova a foto do topo, à direita.)

Helê, mi sóciamada, que seu dia seja carregado da energia que esses abraços coletivos nos trazem. E que em breve eles voltem a acontecer. Feliz aniversário!

-Monix-

Vilões de novela

Aqui no Brasil estamos tão anestesiados com os absurdos em série do nosso desgoverno que poucas coisas têm causado indignação de verdade. Mas esse caso da Pr*vent Senior é diferente. A cada novo detalhe divulgado, sinto uma reação física, mistura de revolta com choque e vontade de sair correndo.

Nunca pensei que em pleno século 2021 viveríamos para ver experimentos à la Mengele serem tocados às claras, em hospitais brasileiros. Fizeram isso com um médico que era símbolo do negacionismo no Brasil. Ao que tudo indica, o mesmo aconteceu com a mãe do empresário bolsonarista mais conhecido como Véio da Havan.

A Pr*vent transformou os pacientes em cobaias humanas. Em bom português, foi isso. É sério: pausa a leitura deste post, lê essa matéria, assiste os vídeos e depois volta aqui. Eu sei que é horrível e que ninguém aguenta mais notícia ruim, mas a gente precisa saber do que aconteceu. Isso é importante demais.

O que já se descobriu sugere que a ideia era mesmo disseminar o vírus propositalmente, para estimular a fracassada e irresponsável “imunidade de rebanho”. Isso sem falar que mudavam os prontuários, escondendo mortes por Covid dos supostos estudos que foram alardeados para reforçar a “eficácia” (só que não) do tr*tamento pr*ecoce. Tudo possivelmente sob coordenação do tal gabinete paralelo que, já se sabe, passou por cima do Ministério da Saúde em vários momentos da condução da pandemia pelo desgoverno.

Há outros absurdos, como as denúncias de que havia um prazo máximo para os pacientes ficarem na UTI. Depois de certo período de tempo, passavam a receber apenas cuidados paliativos (ou seja, eram considerados doentes terminais). Nunca saberemos se poderiam ter sobrevivido.

Em resumo, é um show de horrores. Crime contra a humanidade é pouco.

***

Uma coisa que me espanta desde aquela famosa reunião ministerial de abril do ano passado é que naquele momento ficou claro o seguinte: esses caras são vilões de novela!

As cenas de vilões de novela/quadrinhos/cinema são sempre muito caricatas, porque os vilões precisam enunciar de forma bem clara e explícita seus planos malignos pro povo entender. Não pode ter sutileza.

O Véio da Havan é um dos melhores representantes desses vilões caricatos que tomaram conta do país

O bolsonarista típico é assim. Ele fala bem claramente: “vamos estimular as pessoas a ficarem doentes”, “deixa as empresas pequenas quebrarem”, “eu tenho ódio de indígena”, etc. É muito surreal.

Eu já presenciei algumas reuniões com empresários, por motivos de trabalho. Existe ali, mesmo em ambientes privados, um discurso muito bem construído que denota preocupação com responsabilidade social, redução de desigualdades e outros temas de impacto para a sociedade.

Com o bolsonarismo não. É na lata mesmo. As intenções perversas são tratadas às claras e a gente que lide com isso.

Quem ainda tá nesse governo em pleno século 2021 não tem desculpa: ou é criminoso, ou é criminoso.

-Monix-

Brasileiro

(Senegambia, sobre foto de Pisco Del Gasio)

(Via Claudio Luiz)

Da série Corações

Helê

Rest in power, Charlie

O fim de uma era.

Helê

Quarta

Quarta-feira – e nem de cinzas é. (Se fosse, haveria uns bloquinhos carnavalescos desgarrados pela cidade, sempre um tantinho melancólicos em negação inútil e rebeldia inofensiva, mas renitentes e divertidos). Alguém já disse que é o pior dia da semana esse que fica igualmente distante do começo e do fim, quando a gente parece que já não está, mas ainda nem. De certo modo, é como se estivéssemos todos em uma looonga quarta-feira, as lembranças já começam a amarelar sem que a gente seja capaz de sonhar novos sonhos.

Tempos atrás – quando completamos cem dias disso que nenhum nome mais dá conta – eu disse que nadávamos sem mar à vista, tarefa ingrata até pra Phelps Ana Marcela. Agora avistamos montes aqui e ali – há até quem acene das bordas, pulando serelepe (prestes a cair na água, os incautos). Mas nadamos contra correntezas, a sensação persistente de que não saímos do lugar, ou que nos movemos muito pouco.

Uma quarta-feira loooonga demais. Mais do mesmo. Variantes de vírus vencem, quando precisávamos variar as saídas, as soluções  – e de meia dúzia de heróis, já que os vilões  se multiplicam sem controle nem constrangimento.

Cansaço abissal que já não é apenas desse país tacanho, mas da vilania do mundo, talebãs e tal. Sempre que inspiro mais fundo vira um suspiro, como se eu respirasse saudade. Aperfeiçoo, contra a minha vontade, a arte de perder sobre a qual Bishop falou melhor que ninguém. 

Mas sigo. Sístole e diástole, ou algo perto disso. Setembro vem aí, e ele, em geral, não me decepciona. Por favor, capriche na primavera e mantenha sua reputação.

Helê

 

Ao (s) Leo (s)

Para fazer jus ao auto-concedido título de Guardiã das Tradições Recentes – embora esta já nem seja tão recente assim…- vai aqui minha homenagem aos leoninos e leoninas todos que povoam meu habitat emocional, incluídos aí leitoras e leitores mais ou menos anônimos. Feliz aniversário, o sol de vocês também me ilumina e aquece.

Helê

Adeus aos ídolos

Houve uma época em que nossos heróis morriam de overdose. Agora nossos ídolos morrem do Covid. O mundo, ele mudou.

Ontem perdemos Paulo José. Hoje, Tarcisão nos deixou. Nesses tempos de streaming e canais a cabo, em que a gente consome TV como num restaurante a quilo, os novinhos não têm noção do quanto essas pessoas eram presentes nas nossas vidas. A novela entrava na sala da gente, os personagens participavam do nosso jantar em família, a gente se emocionava com suas histórias como se fossem pessoas conhecidas. E essa geração fez a história da televisão e, claro, da nossa memória afetiva.

Paulo José foi um gigante. Foram mais de 20 anos lutando contra uma doença que poderia ter acabado com a carreira de qualquer outro ator. Mas ele nos entregou vários personagens incríveis, ensinou gerações de atores e atrizes, conquistou o carinho do Brasil.

Após 20 dias internado no Rio de Janeiro, ator Paulo José morre aos 84 anos  · Notícias da TV
Um gigante do talento

Tarcísio Meira fazia parte de uma categoria bem especial de artistas: aqueles que às vezes são super canastrões, outras vezes simplesmente espetaculares. (A Renata Sorrah também é dessas. Francisco Cuoco, por sua vez, é só canastrão mesmo.)

Mas a canastrice ocasional acontecia recheada de talento. Tarcisão nos deu personagens cômicos, dramáticos, épicos. Junto com Glória Menezes formou o casal mais carismático do showbiz brasileiro. (Sem falar que: ô gente pra nascer bonita, hein.)

A notícia da doença dos dois nos pegou de surpresa, mas tudo aconteceu muito rápido e nem tivemos tempo de nos despedir.

Tarcísio Meira e Gloria Menezes permanecem internados; ator está intubado -  10/08/2021 - Celebridades - F5
Dois talentos gigantes

Ver partir os ícones dessa geração nos dá uma dimensão bem concreta da passagem do tempo, esse ser apressado que nunca para. Crescemos vendo Paulo José e Tarcísio Meira brilharem com seus grandes personagens. Agora cabe a nós fazer com que não sejam esquecidos. Adeus, estrelas.

As Duas Fridas

The Xereca Olimpics

Estou morando nas Olimpíadas e não quero voltar. Num relacionamento sério com os Jogos Olímpicos de Tóquio, começo a sofrer por antecipação sabendo do fim. Era pra ser só um casinho sem consequências, uma distração pra parar de passar raiva com esse país truculento e arcaico. Mas aí encontrei um bando de gente simpática, talentosa, amorosa, muitas mulheres, pretas e pretos, nordestinos, lésbicas e as gueis, moleques e molecas que me fizeram torcer por eles. E torço por que? Porque nasceram no mesmo pedaço de terra que eu, falam como eu, e tornam-se campeões apesar disso. Eu num disse que tinha conflitos com patriotismo?

Quem escreve os roteiros do Brasil, precisamos admitir, não é lá muito criativo. Em geral a gente nunca ouviu falar do cara (ou da cara), aí pinta um medalha: viva! brasil! e tal, e aí vamos saber que a cara (ou o cara) não tem patrocício, surfou no isopor, nadou no açude, treinou no terreno baldio etc. E dá-lhe musiquinha triste e elogio à meritocracia. Vendo as histórias de superação de nove em cada 10 atletas brasileiros fiquei imaginando como seria ganhar sem drama, sem ter que lutar para sobreviver AND para treinar. Aí vi as moças que ganharam na vela, Martine e Kaena, e descobri que também pode ser bonito e emocionante. A gente não precisa sofrer tanto pra ser feliz. Ainda mais no esporte, que já tem naturalmente uma intensa carga dramática, baseado que é na superação – do corpo, do tempo, do outro.

E nesta edição ainda foi preciso superar um micróbio FDP e governos idem (nessa modalidade somos ouro, mas não estamos sós), o que provavelmente explica um clima de companherismo inédito nos Jogos. No começo parecia que era coisa da galera do skate, melhor em tudo, total relaxada e parça. Mas depois reparei na ginástica, que sempre teve uma vibe mega tensa, no judô, no atletismo, vários gestos de atletas que iam além da gentileza educada. Imagino que há uma mistura de alegria e celebração por terem conseguido chegar até ali. Desta vez, de um modo inédito, todo mundo enfrentou um adversário comum.

Nós brasileiros começamos festejando a vitória da menina de 13 anos mas também comentando a conjugação do inusitado verbo xerecar (v. intransitivo) no skate (sempre ele). Depois, Rebeca Andrade ganhou duas medalhas (e disse o tuiter que não trouxe a terceira pra evitar excesso de bagagem). Mayra Aguiar conquistou o terceiro bronze olímpico da carreira. Já temos encaminhada uma medalha no boxe feminino e no vôlei de quadra só as mulheres ainda podem trazer ouro ou prata. Além das já citadas velejadoras, conhecemos, torcemos e vibramos, mais ou menos nesse espaço de tempo, Ana Marcela – que quase acabou com meu fôlego, mesmo ela lá e eu no sofá. E que dedicou a medalha à namorada. Fora a menção do Alison, do vôlei de praia, ao pedir gentilmente mais tranquilidade pro parceiro (“Calma, buceta!”). São ou não the Xereca Olimpics?

Se, como ensina Angela Davis, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, imagina o que acontece quando ela voa, como graciosamente fez a Rebeca. Minha torcida por ela continua e se intensifica agora, que ela passa a ter um imenso holofote a acompanhá-la. Por mais resiliente que tenha se mostrado, nada prepara totalmente alguém para isso, tá aí a Simone Biles que não me deixa mentir. Uma mulher incomoda muita gente. Uma mulher negra bem-sucedida incomoda muito mais. Li que Biles usou em seu collant uma cabra de strass [em inglês, goat – great of all times, o maior de todos os tempos, uma gíria do esporte comum entre machos como Neymar e Cristiano Ronaldo]. Na prova em que ousou usar o desenho pela primeira vez, mesmo fazendo um exercício nunca feito por uma mulher na história da ginástica, ficou com uma pontuação 6.6. É com esse tipo de coisa, que um atleta branco jamais enfrenta, que Biles tem que lidar, além de todas as outras de qualquer atleta de excelência. Rebeca Andrade, apesar do jeito sorridente e terno, deu algumas respostas que fogem um pouco da esquema gratidão religiosa submissa (ainda bem!). Dizer “eu agradeço por ter tido inteligência de aproveitar as oportunidades” é mais elaborado e consciente do que apenas jogar tudo na conta do Senhor. Tem capacidade para não ser manipulada pelos insaciáveis interesses que se moverão em sua direção, mas nem todos em seu benefício. Permaneço, portanto, na torcida!

E acho que foi a mãe da Mary W. que comentou esse feito incrível, mudar a imagem da ginástica artística. Os da minha idade se acostumaram a ver um esporte de gente branca de nome difícil, de lugares muito distantes, e sisudos. E primeiro a Daiane dos Santos, e agora a Rebeca alteraram a referência no imaginário de algumas gerações para um esporte de mulheres negras, sorridentes e felizes. E fodas. Isso não tem preço. (Péra que entrou um cisco aqui) Se você , como eu, também achava que a Daiane era medalhista olímpica, deve ser por coisas como esse vídeo aqui, do qual eu não lembrava, mas que a laureou para sempre no meu registro:

Mamãe, agora sem as mãos. Agora sem música!

Ah, o skate trouxe mesmo um frescor para os jogos que nem sei se estávamos preparados – nós, público, acho que sim, mas os comitês/confederações eu não sei, me pareciam sempre um pouco assustados na hora do pódio, com medo de receber um abraço indevido ou hangloose mais expansivo. Foi ótimo ver essa galera xóvem e diversa, totalmente à vontade numa coisa que todo mundo estava jogando uma megaexpectativa. Faz pensar o que é próprio da modalidade e o que se deve à estreia – teriam os outros esportes sido também mais soltos nos seus primórdios? O skate apresentou outras formas de ser profissional, de competir, de se concentrar. E de se divertir, que afinal era o objetivo inicial da coisa toda, não?

Helê

Dez anos sem Amy

… e eu continuo sentindo falta de todas a as canções que você deixou de escever e cantar.

Helê

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