Do Planalto para o planeta, a posse do turbante e do cocar

As posses de Sônia Guajajara e Anielle Franco estavam marcadas para a segunda-feira (9/1) e foram adiadas, claro, depois que o gado invadiu e emporcalhou as sedes dos três poderes. O evento passou para a quarta, dia dedicado a Xangô, orixá da justiça (entre muitas outras coisas). A cerimônia teve início com um canto em homenagem a ele, com a saudação “Caô, Kabecile!”. 

A deputada federal eleita por Minas Gerais, Célia Xacriabá, fez um saboroso discurso de apresentação da ministra Guajajara. Com graça, ironia, poesia, lembrou que esse Ministério dos Povos Indígenas já nasce ancestral; resumiu a importância da data com a frase já histórica: “Com Anielle e Sônia, o turbante e o cocar tomam posse!”. Olhando pela TV aquela mulher esplendorosa com um cocar belíssimo que se movia elegantemente quando ela se movimentava eu fiquei me perguntando por que, meu deus, levou tanto tempo para ver um indígena nesse lugar?! Sônia Guajarara respondeu a minha perplexidade prometendo: “Nunca mais um Brasil sem nós!”

A ministra Anielle Franco foi apresentada pela jovem ativista Camila, visivelmente emocionada com a missão: “É com imenso prazer que eu, Camila Moradia, cria do Complexo do Alemão, apresento a vocês Anielle Franco, cria da Favela da Maré, Complexo da Maré”. A ministra da Igualdade Racial fez um discurso correto e potente: depois dos agradecimentos aos ancestrais, às mulheres negras, à família e à equipe, passou a fazer referência aos demais ministérios, reforçando o caráter interdisciplinar de sua pasta. Foi bastante explícita ao citar os cinco tiros na cabeça que sua irmã recebeu, lembrando para que nunca mais se repita. Ao final do seu discurso, a cantora Marina Íris cantou o samba da Mangueira de 2019, junto com a filha de Marielle. De novo: se você não se emocionou, tá morto por dentro. 

(Pequeno parêntesis para uma impressão pessoal: eu tenho uma simpatia enorme pela Anielle, entre outros muitos motivos, porque participei de um processo de seleção para o Instituto Marielle Franco. Não fui selecionada e recebi um e-mail cujo texto era uma injeção de ânimo e motivação, elogiando a minha trajetória e me incentivando de um jeito que, no final eu esqueci, a decepção de não ter sido escolhida. E agradeci. E eles me responderam novamente, reiterando a força. Não era só uma vaga para mulheres negras, houve cuidado com essas mulheres, que não foram tratadas como mão de obra excedente. Um detalhe que diz muito sobre uma instituição e sobre que a comanda.)

A posse do turbante e do cocar ofereceu momentos belos, amorosos e até divertidos, como o Lula de cocar. E serviu pra reafirmar que é essa a imagem da qual o Brasil se orgulha e quer projetar: feminino, diverso, plural, colorido, ancestral e moderno. Além de elegante e alegre. Que fique claro: quando ocupamos o palácio, qualquer que seja, sabemos nos comportar. Afinal, nossa realeza vem de longe.

Helê

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Um dia de graça

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o mestre sonhava
Luis Carlos da Vila, Por um dia de graça

Não foi fácil, não foi simples. Foi por pouco, mas foi por todos que elegemos Lula e derrotamos o militar corrupto, néscio, sádico e cruel. A sensação hoje, além de uma enorme alegria, é a de dever cumprido. Resistimos a quatro anos de deboche, desprezo e desmonte, e encontramos forças para vencer a maior máquina de reeleição já montada nesse país, e o pior presidente.

Vencemos. Viva nós!

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Eu lembro com clareza do espanto e do inconformismo da minha filha em 2010, quando eu disse que o Lula não seria mais o presidente: “Mas por quê, mamãe?!” Nascida em 2002, Lula kid raiz, Fifi demorou, mas acabou entrando na campanha da Dilma, do alto dos seus sete anos. Foi crescendo e compreendendo melhor tudo o que se passava – e também sofrendo. Em 2018, suportamos juntas os urros de um vizinho bolsonarista em êxtase. Juntas choramos assistindo ‘Democracia em vertigem’, relembrando detalhes do golpe vil sofrido pela Dilma. Por isso, no dia 30 de outubro, quando ela me ligou para comemorar, a gente só chorava e ria no telefone, transbordando de felicidade. Dias depois ela me disse, com uma expressão de contentamento e quase incredulidade: “Mãe, você tem noção que a gente derrotou o Bozo? E mais, que a gente elegeu o Lula? Que eu votei no Lula?!”. Tenho, filha, noção e orgulho. Tem muito trabalho pela frente, e vai ser dureza. Mas, como acabei de ler: não entramos no paraíso, mas saímos do inferno.

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“Parece que a multidão atrás também está subindo a rampa. E está.” @heitordt

Quem não chorou com essa transmissão de faixa tá morto por dentro. Ou não se sentiu representado entre aquele grupo de pessoas – e eu só lamento, porque foi uma emoção única. A pequenez do capitão acabou por oferecer a ocasião perfeita para Lula mostrar a sua grandeza. Foi o Christian Morais quem sintetizou tudo:

Lula se agiganta como líder popular, presidente e estadista nessa posse, especialmente na subida da rampa, na mensagem que passa ao país e ao mundo ao receber a faixa presidencial das mãos de uma mulher negra, cercado por indígenas, deficientes, idosos, mulheres e uma criança negra, a quem chamou para perto de si e abraçou durante a execução do hino nacional. Momento histórico, único na política nacional (e internacional), emocionante e com uma carga simbólica imensurável. Desabei em lágrimas quando vi todas aquelas pessoas ao pé da rampa. Os humilhados e ofendidos entrando no Palácio do Planalto com um igual em origem, com um legítimo representante do sofrido povo brasileiro. Logo eu, que vinha analisando a posse quase que de forma profissional, comovi-me extremamente com toda a emoção que transbordou da cena. Lula é o maior gênio político vivo no mundo. Hoje ele se colocou acima de Getúlio. Pelo menos na posse presidencial. Insuperável.

DEMOCRACIA SEMPRE!

Helê

Abecedário 2022 (update)*

Aniversário no Bode Cheiroso
Bruno e Don. Better call Saul
Cazé, Chimamanda in Rio; CPX

DataJanela e Democracia
Elza e Erasmo.

Família Gil

Gal e Galloti .

Hacks
Isabel do vôlei

Jair embora!
K
elmon, Kelson, Kelvin…
Lula Presidente, porr@! Laura e a baleira*
Messi, Moise 
Na luta é que a gente se encontra

Oitenta anos de Caetano, Gil, Paulinho & Nei Lopes.
Projeto Querino, Paulo Vieira.
Richarlison, Rolando Boldrin  e Residente.
Sua majestade, Pelé
Tricampeão da Libertadores: Mengo!
Última sessão de música
Vozes e Vidas Negras
Xandão 
Walter Firmo no IMS (muito bem acompanhada).

Zelensky

Helê

(*A Juju lembrou da Laura depois que eu postei, mas achei por bem incluir porque esse vídeo não pode morrer nunca)

Ressaca da Copa

A gente nem ganhou – na verdade não chegou nem perto, eliminados nas vandinhas de final – mas quem gosta de futebol hoje está de ressaca pelo fim da Copa do Mundo de 2022 e sobretudo pelo jogo absolutamente espetacular que foi a final de ontem entre França e Argentina. Um jogo épico em que se observou o incrível caso do homem que fez três gols (numa final de Copa do Mundo!) e não foi campeão. E, ainda assim, todos consideram o resultado justo.

Foi uma Copa estranha a começar pelo mês em que foi disputada – o que só fez reforçar aquela ideia de que o ano de 2022 é como uma camisa que você começa a abotoar errado e só percebe lá embaixo, e se enrola todo pra acertar. Copa em novembro, depois da eleição, como assim? Foi disputada em um país trata mulheres como indivíduos de segunda classe (se tanto) e criminaliza a existência da população LGBTQIA+. Realizar a Copa Rússia, outro país sem apreço aos direitos humanos, foi pouco, era preciso dar um recado ainda mais claro sobre o que pensa ou admite a FIFA, essa ilibada entidade cujas falcatruas são retratadas em documentários, podcasts e fartas reportagens.

Infelizmente, a eliminação da seleção brasileira não se insere entre as estranhezas da Copa. Na verdade, nada novo sob o sol do Dufas, que nunca viu o Brasil campeão no futebol masculino e que mais uma vez adiou o grito de “É Heeexa!”. Demorou tanto que até o Galvão Bueno se aposentou. Cheguei a ensaiar uma reconciliação com a amarelinha. Ver as multidões nas ruas vestindo a camisa como se todos tivessem recebido um memorando na véspera me lembrou o óbvio, que a camisa é dos brasileiros, e não de fanáticos fascistas. Uma vitória, ou pelo menos uma campanha mais consistente iria ajudar a reconciliar alguns, a resgatar o sentido de nação, diminuir hostilidades. Mas não foi possível. Restou a lembrança do gol obra de arte do Richarlisson, o primeiro tempo espetacular contra a Coreia do Sul (inesquecível, do dia do aniversário de 20 anos da Fifi!) e a estreia assistida entre amigos e com delay, excelente indicação para cardíacos e hipertensos, porque você fica sabendo bem antes se vai ser gol ou não – uma espécie de transmissão para comorbidades.

O Marrocos foi uma alegria enorme para árabes, africanos e muçulmanos, mas também não chega a ser uma surpresa se a gente pensar que quase toda copa tem uma “seleção sensação” – na última foi a Croácia; a minha favorita será sempre o time de Camarões do Roger Milla. Estranho mesmo foi uma final de campeonato tão incrível, que esses jogos em geral são tensos e truncados, e o melhor futebol acaba aparecendo num jogo de oitavas ou de semifinal. Mas estranho mesmo foi torcer pela Argentina, em nome de uma identidade latinoamericana que talvez desprezemos tanto quanto eles. Mas que sacamos do bolso diante das declarações insensatas de Mbappé e da possibilidade de mais uma vitória europeia. Ontem no bar em que assisti, a torcida era quase total para os argentinos – primeiro discreta, quase envergonhada; depois escancarada e febril, diante de um jogo dramático como uma ópera. Tá, como um tango.

No fim das contas, mais que uma latinidade mal ajambrada, nos uniu o amor incondicional pelo futebol, e ninguém, dos que jogam ainda hoje, nos enamorou tanto quanto Leonel Messi. Mbappé, por ora, está à sombra desse herói latinoamericano, capaz de dar a volta por cima, calar críticos e conseguir o título que faltava para confirmar sua habilidade fora do comum. O cara que nos fez, talvez pela primeira vez, nos sentir hermanos.

Viva Messi! Viva Latinamérica!

Helê

Cardeais

Gosto demais de música e tenho com a música popular brasileira uma relação particularmente intensa. Sinto como se nela eu tivesse sido moldada; como se tivesse aprendido com ela todo o necessário para viver e suas variações (amar, sofrer, ressurgir, criar…). Muita coisa eu compreendi antes de entender; aquilo que eu ainda não tinha condições de saber eu guardei, e ao longo da vida fui recuperando, as peças juntando e finalmente fazendo sentido. Entre muitos poetas e músicos talentosos que temos – nesse quesito o Brasil é a definição de fartura – alguns são para mim como alicerces, base, estruturam meus afetos, minhas vivências, meu estar no mundo. Milton Nascimento é um deles.

Tenho lembranças muito antigas, que remontam aos meus 8, 9 anos, ouvindo os discos do meu primo Fábio – também ele um emepebista inveterado -, e os do meu irmão (um poço de conhecimento musical, capaz de esquadrinhar a carreira de seus artistas favoritos por fases, ciclos, influências e o que mais você imaginar). Como a Calcanhotto, eu presto muita atenção ao que o meu irmão ouve, e foi com ele que escutei pela primeira vez o “Clube da Esquina”, “Minas”, “Geraes”, “Caçador de mim”. Foi com ele que primeiro fui a Minas sem sair de Vila Valqueire, ouvindo Toninho Horta, Lô Borges, os menino tudo. Somos de um tempo em que os discos vinham com encartes que eram verdadeiras obras à parte – e os de Milton sempre foram bonitos, criativos, cuidadosos -; enquanto ouvíamos os LPs ficávamos lendo tudo do encarte, letras, ficha técnica, mensagens inesperadas. Quando encontrei essa camisa na Chico Rei, comprei uma pra mim e dei outra pro meu irmão para celebrar os meninos que fomos, nosso laço e o amor por Milton e por tudo o que ele nos deu, generosa e lindamente.

Milton – juntamente com Caetano, Gil, Chico, Bethânia, Gal – é um dos pontos cardeais da minha bússola existencial. Guia, orienta, dá régua, compasso, prumo e vista para escolher a rota, inventar caminhos, desbravar territórios, contemplar paisagens. Assistir ao show “A última sessão de música” ontem foi emocionante demais, eu diria mesmo brutal. Tudo embalado em beleza e primor: o cenário, o figurino incrível de Ronaldo Fraga, a banda impecável e Milton, nos atravessando de emoção e potência. Milton, como disseram, em toda a sua grandeza e fragilidade. A constatação de que os sonhos não envelhecem, mas nossos ídolos sim – e nós também. Que travessia, meus amigos, que travessia!

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E tudo isso, ainda por cima, apenas alguns dias depois de dizermos adeus à Gal Costa. Confesso que o que escrevi acima, sobre os pontos cardeais musicais da minha vida, provavelmente teria sido diferente antes de perdê-la. Seja por machismo, pela supervalorização dos letristas sobre os intérpretes, pela combinação dos dois fatores e outros mais, eu teria ficado só no quarteto masculino. Foi com alguma surpresa que, quando fui dar a notícia da morte dela para minha filha, a voz embargou e falhou no meio da frase. E passei o resto do dia, dos dias, na verdade, sentindo esse vazio imenso do silêncio da voz de Gal ecoando no meu peito. E me dei conta o quão dela eram as músicas dos quatro caras que eu tanto admiro. Muito do que eles fizeram ganhou nova proporção, brilho e consistência com a voz de Gal (e a de Bethânia). Percebi que muito do que eu creditava exclusiva ou principalmente aos letristas tinha o toque igualmente genial de Gal e seu canto ímpar, que eu imitava ainda criança, no tapete da sala, com um microfone improvisado.

No meu aniversário deste ano, comemorado no Bode Cheiroso – único dia em que acabou a cerveja em mais de 70 anos de estabelecimento – alguém fez um vídeo em que apareço, entre muitos desconhecidos feitos amigos, dançando “Festa no Interior”, essa música que foi hit carnavalesco embora fale de fogueira e São João. Na voz de Gal se encontravam todos, do interior, da cidade, da festa junina e do trio elétrico, amigos e desconhecidos, todos irmanados nas trincheiras da alegria.

Devo à Gal também uma aprendizagem sobre o feminino, sabe? Antes da canção de Joyce, Gal foi quem primeiro me ensinou o que é feminina – no cabelo, no dengo, no olhar, na maneira ao mesmo tempo altiva e suave de estar à vontade com o próprio corpo, onde quer que estivesse. Para uma menina insegura de cabelo cacheado e lábios grossos, no início dos anos 80, sem referências e incapaz de perceber beleza em si, a imagem daquela boca vermelha e da juba orgulhosa era libertadora, assim como a ideia de uma sensualidade absolutamente natural, que apenas era, sem se esforçar para ser nem se desculpar por isso.

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Eles partiram por outros assuntos. Muitos, mas no meu canto estarão sempre juntos, como escreveu Caetano.

De qualquer modo, seja inesperadamente como Gal, ou em noite de gala como Milton, eu não aprendi dizer a adeus.

Helê

PS: Nesta mesma semana de perdas partiu também Rolando Boldrin, outro assombro de talento, esse caipira ancestral, tio ou vô de todos nós.

Segundo turno – ou a prorrogação sem descanso

O fim de semana inteiro do 1º turno das eleições de 2022 foi, para mim, um vórtex de ansiedade e expectativa, do qual saí arrasada, triste, envergonhada. Eu não achava que a fatura seria liquidada assim, de primeira. Tão pouco esperava que um adversário tão inferior em todos os aspectos possíveis tivesse, depois de quatro anos de baba raivosa, bravatas relinchantes e flagrante incompetência, tantos votos. Distribuídos também para seus colaboradores/asseclas diretos, uma gente abjeta e que deveria, em grande parte, estar respondendo criminalmente pelo que fez no governo, assim como o chefe do bando, o miliciano federal. Gente cujo nome eu me recuso até a escrever, não merece estar aqui.

Acordei na segunda-feira 3 de outubro me sentindo péssima, uma ressaca moral espetacular. Raiva, desgosto, desesperança, vontade de desistir. De que exatamente? Do Brasil? Posso desistir dele tanto quando pude escolhê-lo.

Deus é um cara gozador
Adora brincadeira
Pois pra me jogar no mundo
Tinha o mundo inteiro
Mas achou muito engraçado
Me botar cabreiro
Na barriga da miséria
Nasci brasileiro
Eu sou do Rio de Janeiro

Ainda por cima o Rio de Janeiro, mes amis, a Vanguarda do Caos: se pode dar merda, se vai dar merda, no Rio dá primeiro, em grande estilo, no primeiro turno.

Confesso que achei que minha reação talvez fosse exagerada, emocional demais, tratando como pessoal algo que, afinal, é do campo público, da coletividade, sobre o qual minha influência é tão limitada quanto deveria ser minha a resposta. Decidi dar um tempo do noticiário e, na medida do possível, das redes sociais, onde passei a entrar como quem anda pela cidade num dia chuvoso: pulando poças de informação sobre política em geral e eleições em particular. Para me poupar, já que estava me fazendo tão mal.

Com o passar dos dias fui percebendo que as pessoas que pensam – e sentem – como eu reagiram de maneira semelhante. Desse lado da corda, onde não há santos mas não toleramos perversos, todo mundo sentiu, de um jeito ou de outro, o pavor diante da força daquilo que desprezamos. E um cansaço largo e fundo, de anos de combate incessante, com muitas baixas, perdas demais, e alegrias menores do que a gente merece.

(…) os últimos anos foram um incêndio, do qual quem saiu ileso em muitos casos ainda não percebeu que está cheirando a fumaça e que talvez tenha se queimado, nem que seja as pontas dos dedos, tentando se segurar a algo quente demais. Muitos de nós estão tendo de voltar aos escombros, tentar ver o que dá para salvar. 

Em outra língua fumo se escreve com h, Renata

Por isso na newsletter de ontem nós falamos sobre descanso e autocuidado. Preservação, respiração, atenção a si e ao outro, aos nossos. Ouvir o corpo e nutrir a alma, fazer um detox dessa poeira que o gado levanta tentando nos sufocar. Cada um de nós vai buscar maneiras de se refazer, reagrupar forças, proseguir.

Não votar como eu queria – usando a toalha do Lula como uma capa – e aturar os verdeamarelos ostentando sua burrice orgulhosa me fez muito mal. Voto na esquerda há mais de 30 anos e nunca me senti ameaçada dessa maneira. E fiquei pensando que, ainda que a possibilidade de violência seja real, ela pareceu ainda maior porque eles não fizeram nenhum esforço para desmenti-la. Pelo contrário, deixaram a ameaça pairando sobre as nossas cabeças.

Decidi então nunca esquecer lo adesivo ao sair e SEMPRE encontro alguém que me dá um sorriso, uma palavra de apoio, alívio e alegria. Na maioria das vezes eu estou distraída e até levo um tempo para perceber, e quando me dou conta é tão revigorante que eu recomendo, viu? Tem uns olhares que podem ser de reprovação, mas nem dá tempo pra perceber e nunca mais do que isso. Eu não sei se vamos ganhar, mas decidi que pro medo eu não vou perder.

Coisa minha, gesto simples. Como fazer um DataJanela postando toalhas do Lulão que encontro no meu bairro – quando me dei conta, a propósito, que nunca vi uma bandeira do milico. Meu DataJanela não considera a bandeira nacional como de candidato – e ninguém deveria.

Continuo pulando poças de informação nas redes e na mídia. Caminho, pedalo, mergulho na ficção muitas vezes ao dia, um dia de cada vez desse outubro interminável. Milito como posso e quando consigo, lembrando sempre que, apesar de tudo e de tantos, nós vencemos. E ainda não terminou.

Helê

Amizade que transcende

Os fridinhos no Rock in Rio

Hoje é dia de celebrar a Helê, e eu aproveito para celebrar nossa amizade.

Faz quase vinte anos que essa moça da risada fácil e das palavras bonitas entrou na minha vida pra ficar, e a gente não se largou nunca mais. Mudamos de empregos, moramos em outras casas, viajamos pelo mundo, tanta coisa se modificou ao longo desse tempo.

A gente tinha dois bebês que mal andavam e falavam, hoje entregamos pro mundo esses xóvens lindos que estão aí na foto. Que têm uma amizade própria, que anda sozinha e não depende da gente. Nesse seu aniversário, sócia, o presente que nós duas ganhamos é ver esses dois trilhando um caminho que a gente até ajudou a construir, mas que agora depende basicamente deles mesmos. A gente pode ser mothern, mas somos também mães do “casaquinho” e mães do “quem meu filho beija minha boca adoça”. Por isso escolhi pra este aniversário uma foto da sua Djubs, que eu vi crescer e que tem tanto de você nela.

Hoje é aniversário da Helê, a moça da risada fácil e das palavras bonitas, que veio ao mundo no dia dos Erês para espalhar alegria que bem querer por esse mundo afora. Salve ela!

-Monix-

A coroa

Ela nasceu na década de 1920.
Passou a infância como uma princesa. Perdeu o pai muito jovem e teve que ir à luta.
Casou-se com um oficial da Marinha de seu país.
Cuidou da mãe, que morreu bem velhinha. Teve muitos filhos, netos e bisnetos.
Viveu uma vida longa e manteve a família unida apesar de muitos pesares.
Depois de sua morte, ninguém foi capaz de ocupar seu lugar com a mesma competência e dignidade.

***

Parece que estou fazendo a biografia resumida de Elizabeth II, mas essa é a história da minha avó materna. E provavelmente essas similaridades explicam, em alguma medida, meu mal disfarçado fascínio por essa monarca — o que obviamente não combina com minha visão de mundo. Mas é isso: Lilibeth sempre me lembrou muito minha amada avó, que era, ela própria, fascinada pela rainha e pela família real.

Sobre a monarquia britânica, já disse antes que seu principal papel é dar um sentido de continuidade à história do país. A rainha está morta; viva o rei.

Sim, o Estado continua apesar da mortalidade dos soberanos. Mas a morte de Elizabeth é sem dúvida o fim de uma era. Para mim, numa nota mais pessoal, teve sabor de uma segunda despedida da minha querida avó.

-Monix-

Minha dinastia pessoal :)

Independência e vida

Desculpe aí, patriarcado, mas são duzentos anos de uma história contada pela metade, então hoje precisamos fazer uma correção importante. A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. É isso mesmo, repito para que não haja dúvidas:

A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. No dia 2 de setembro de 1822.

Essa mulher se chamava Maria Leopoldina, e hoje seu nome é mais reconhecido quando vem com um sufixo, no nome da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Duzentos anos atrás, ela era a princesa regente do Brasil, portanto quem tinha autoridade para tomar decisões e assinar documentos oficiais. E foi isso que ela fez naquele 2 de setembro. Portugal queria que D. Pedro voltasse à Europa. A corte brasileira pressionava pela independência do Brasil. A relação colonial já não fazia sentido. Mas o príncipe estava ausente (ué, um homem ausente na hora que mais se precisa dele, cê jura?). Quem botou o dito cujo na mesa foi a consorte de apenas 25 anos, que tinha sido preparada a vida inteira para cumprir com os deveres de Estado.

Nos dois episódios históricos de 1822, Leopoldina esteve em defesa da emancipação brasileira. Em 13 de agosto (…) D. Pedro viajou para São Paulo , e Leopoldina assumiu pela primeira vez a regência do país. Durante esse período, no dia 2 de setembro, presidiu a sessão do Conselho de Estado na qual deliberou a separação entre os dois reinos, fazendo registrar na ata a assinatura de todos os ministros. Documentos afirmam que a independência foi oficialmente decidida nessa ocasião, e alguns dias depois proclamada por D. Pedro às margens do Ipiranga.

(Trecho extraído do verbete sobre Leopoldina de Habsburgo-Lorena, do Dicionário Mulheres do Brasil)

Leopoldina comeu o pão que o diabo amassou no Brasil, mas amou este país até o final

A história oficial tende a apagar a participação feminina nos grandes eventos ao longo dos séculos, mas nunca é tarde para revisitar o cânone e dar crédito a quem merece. Além de Leopoldina, que atuou aqui na corte do Rio de Janeiro, o Brasil como o conhecemos hoje deve muito às heroínas da independência da Bahia: Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa. Essa história também merece ser contada, mas hoje, 2 de setembro, o que eu quero é propor que comemoremos a verdadeira data de independência do Brasil relembrando Leopoldina — por exemplo, você já leu o livro da Fal e da Suzi? E se não leu, o que está esperando?

Olha quem já leu… Só falta você rsrsrs (a foto é montagem, mas fica a dica como inspiração)

A independência contada da perspectiva masculina tem cavalos, uma espada meio fálica (ops) e um grito que fala em morte. O que eu quero é uma independência que fale de vida, e a Imperatriz Leopoldina, com toda sua dignidade perante o sofrimento, sua habilidade para construir alianças e sua vocação para os negócios de Estado me parece uma representante muito melhor do espírito que devemos buscar para a nação brasileira.

-Monix-

Enfim, setembro!

Setembro. 1º de Setembro.

Sempre recebo este mês com alegria e alívio, mesmo que agosto não tenha sido tão difícil (mas quase sempre é, né?). E sempre com muita esperança, o peito explodindo de contentamento e aquele sentimento absolutamente infantil de que, sim, agora vai, vai dar tudo certo e serei feliz, feliz (façam muitas manhãs/ que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz etc. Chico, sempre).

Eu sei, eu sei que é só uma virada de mês e não de vida, que o dia espetacular que faz hoje no Rio de Janeiro não está garantido, que tecnicamente é o tal do inferno astral, mas ainda sim hoje de manhã arranquei agosto de todas as folhinhas da casa com vontade e animação – você sabe, Esperança e Teimosia andam de mãos dadas, balançando as tranças e sorrindo.

(É como a campanha do Lula: a gente sabe que, ganhando, ele vai pegar um país muito pior que no primeiro mandato, vai ser tudo muito difícil – fora ter que ouvir os reaça mugindo contra e tal. Mas sem esperança a gente nem sai da cama nesse país triste e indecente em que o Brasil se transformou, não é mesmo?)     

A raiz desse meu contentamento injustificado com setembro vem da infância, daquela expectativa pelo aniversário (dia 27, anote), que nessa fase da vida é a data mais importante, mais até do que natal. Confesso que eu não superei essa fase: até hoje acho que é o dia mais importante do ano, perdendo apenas pro carnaval (Santa Claus não tem muita moral por aqui). Com o tempo, vivi desapontamentos  em setembro, pra minha total surpresa – até chuva no dia do meu aniversário, para o meu total horror. Mas nem a experiência me tirou a alegria de esperar e receber setembro com o peito aberto, a alma menina, e a esperança de um dia ser tudo o que quero (Caetano, também amo você).

Suspeito que enquanto esperar e receber setembro desse jeito nem tudo estará perdido, está mantido em mim o que me define, de certo modo; e posso sossegar pois não venceu o cinismo (que não passa de desespero sagaz e elegante ).

Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão (tamo junto também, Miltão!).

Helê

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