Grandes injustiças, pequenas vitórias

Eu vim aqui falar de outra coisa, mas essa notícia que la Otra compartilhou me fez chorar de alegria, e a cada vez que eu esbarro nela tenho um flash de contentamento. E eu achei que essa imagem ia ornar com a da Michelle aí embaixo. (Para saber mais, clica no segue o fio (https://twitter.com/jonasdiandrade/status/1192289351025221632 )

Update: e já que o assunto é Justiça, o twitter preto ontem tava comemorando a possível soltura do Renan da Penha e do Gabriel Braga. Na real, assim como o preso mais famoso do país, também eles deveriam ter suas sentenças anuladas porque seu processos foram viciados, injustos e prejudicados pelo ódio aos pobres, em geral, aos pretos pobres em particular.

Helê

Great power, great responsibilities

Um amigo meu tem uma teoria que seria cômica se não fosse trágica: após o quinto gol da Alemanha (vocês sabem qual era o jogo), o Brasil entrou no mundo paralelo e não conseguiu mais sair.

Faz sentido. Pensa bem: o Brasil perder de 4 X 0 para a Alemanha numa Copa do Mundo seria humilhante? Seria. Mas seria algo como um portal para o mundo bizarro? Não. O 7 X 1 nos transportou para uma dimensão tipo twilight zone e eu realmente me pego perguntando se um dia conseguiremos sair dela.

Mas há quem diga que não, que na verdade o que aconteceu foi que os maias (não confundir com os Maias) tinham razão e o mundo acabou em 2012. Não dá para dizer que os fatos não sustentam essa teoria… afinal, de lá para cá tivemos as jornadas de junho, a ascensão ao poder de figuras bizarras no mundo todo, enfim, muitas coisas estranhas aconteceram. E além disso 2012 foi o ano em que Barack Obama foi reeleito para seu segundo e último mandato na Casa Branca. Realmente, olhando em retrospecto, parece que de lá para cá o mundo só desceu a ladeira.

***

Essas reflexões me vieram à cabeça porque estou lendo a autobiografia de Michelle Obama, ex-primeira dama dos EUA. Cá entre nós, faz tempo que eu suspeito que a família Obama na verdade não existe – são atores contratados por Hollywood para encenar um grupo de pessoas maravilhosas e fazer o mundo parecer um grande comercial de margarina.

Tá, digamos que Michelle existe. Claro que numa autobiografia a pessoa seleciona os melhores aspectos de si mesma, faz uma edição do lado obscuro da vida,especialmente da política, e mostra só os fatos que servem para compor um bom retrato de si mesma.

Mas isso não vem ao caso para falar sobre o que me impactou no livro.

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Porque um livro como este, com potencial para alcançar milhões de pessoas no mundo todo, carrega a força de uma mensagem. E a mensagem de Michelle é a de que o poder não é um fim em si, é um meio para causar impacto positivo na vida das pessoas. Com todas as suas limitações, o poder pode (ou deve) ser usado com responsabilidade sobre aqueles que o concederam – os eleitores, no caso de um representante eleito democraticamente.

E por isso, não importa se sinceras ou não, as palavras de Michelle mostram o poder não como algo fascinante, mas algo que a família encarava com grande seriedade. Fiquei comovida com diversos trechos da narrativa em que essa sensibilidade se revelou, mas especialmente neste parágrafo em que ela conta como se sentiu após passar uma noite passeando com o marido em Nova York, em um jantar seguido de teatro, algo que milhões de pessoas fazem, em milhares de cidades ao redor do mundo, corriqueiramente.

Era como se, com nossa noite a dois, Barack e eu tivéssemos testado uma teoria e provado tanto a melhor quanto a pior parte de uma longa suspeita. A parte boa era que podíamos sair de cena para uma noite romântica, como costumávamos fazer, anos antes, quando a vida política dele ainda não tinha assumido o controle. (…) A parte ruim era ver o egoísmo inerente a fazer isso, sabendo que nosso programa havia exigido horas de reuniões entre as equipes de segurança e a polícia local. Acarretara trabalho extra para nossos funcionários, para o teatro, para os garçons do restaurante, para as pessoas cujos carros haviam sido desviados da Sixth Avenue, para os policias na rua. Era parte do peso que nos acompanhava agora. Era muita gente envolvida, muita gente afetada, para qualquer coisa ser leve.

Neste mundo bizarro/pós-apocalíptico em que vivemos, é um sopro de alento vislumbrar uma visão tão consciente sobre o quanto nossos atos afetam os outros.

-Monix-

Chi-chi, le-le

Com interesse e banda larga, hoje em dia a gente pode conhecer boa parte do mundo, acompanhar o que acontece em lugares que nunca fomos ou iremos, mas que capturam nossa atenção – ainda que apenas na duração de tuíte. Por isso, estabelecemos com as cidades que efetivamente visitamos uma relação diferente, mais próxima; nunca mais ouvimos seu nome no noticiário da mesma maneira.

Digo isso pra explicar por que meu coração aperta a cada notícia que chega do Chile, especialmente de Santiago, que nos recebeu muito bem (a mim e à Fifi) e da qual guardamos amorosas lembranças de nuestra primeira viagem internacional. O Chile distante e mítico de Allendes (de Salvador e Isabel) tornou-se um pouco nosso também, depois de quatro dias e muitas caminhadas. Neste outubro de 2019 não faltam convulsões sociais em diferentes escalas, próximas ou distantes: Líbano, Equador, Catalunha, Bolívia. Mas o Chile captura o maior pedaço da minha atenção.

Como a maioria das pessoas da minha bolha (esquerdista/abortista/feminista/gayzista/graças à deusa), acho potente e inspirador que a população esteja saindo às ruas para questionar um sistema que vem sendo exportado como positivo sem que se esclareça para quem. Mas temo pela cidade, pelas pessoas, pela truculência dos carabineiros e das forças armadas – cuja presença na vida cotidiana da cidade me pareceu demasiada quando estive por lá.

Foto de Susana Hidalgo. A bandeira no topo representa os Mapuche, chilenos antes de existir o Chile. Manifestação de 25/10, que reuniu mais de um milhão de pessoas, a maior desde o fim da ditadura.

Tenho ouvido muitos discos, conversado com pessoas…não, péra, isso é música do Belchior. Tenho ouvido podcasts*, lido artigos e procurado informações no tuíter de gente que vive lá, para tentar compreender o que tá coteseno. Se vivemos um tempo em que os movimentos sociais são ou estão difusos, sem liderança e voláteis, também não basta se informar apenas pelos meios de sempre. Até porque, para a chamada grande imprensa, a maior surpresa é que haja revolta popular diante de indicadores econômicos tão positivos, mas ninguém faz o óbvio: questionar esses indicadores.

Sigo acompanhando por aqui, torcendo pelo melhor, ou seja: que a luta resulte em mudanças reais, especialmente para todas as periferias: econômicas, sociais e políticas . E que a memória do povo chileno seja ingrediente indispensável na construção de um futuro melhor.

Memorial no Estádio Nacional, em Santiago do Chile

Helê

*Um dos meus pods preferidos atualmente é o Muito mais que futebol, cujo teor é absolutamente fiel ao título; vale a pena. Aceito outras indicações 🙂 

 

Flamenguista

(Daqui)

Da série Corações

Helê

PS: VAMO FLAMENGO!

De Libra

Há muitos librianos na minha vida, mas ela sem dúvida ocupa um lugar especial.

Adoro essa foto, não só porque ela registra um dia em que nos encontramos em Niterói no meio de compromissos profissionais e acadêmicos e conseguimos passear por um lugar lindo, o Solar do Jambeiro. Isso por si só seria digno de registro, porque representaria o tanto de coisas que eu não saberia, se não fosse ela.

Mas eu adoro também porque as cores da fotos são complementares – quase todas as nossas fotos se prestam a uma análise semiológica interessante, principalmente no começo da nossa amizade, em que temos vários registros com roupas quase idênticas, etc. Nessa há um jogo de beges e marrons que tem tudo a ver inclusive com a história do blogue, com as Duas Fridas que reúnem em uma só a saia vermelha e a anágua bege, ou vice-versa.

Então hoje é dia de celebrar essa Pessoa com P maiúsculo, minha sócia eterna, no matter what.

Helê: todo amor que houver nessa vida ❤

-Monix-

Mão dupla

Sair da maternidade levando minha filha nos braços foi uma das muitas alegrias do nascimento. Porque a família havia vivido, poucos anos antes, o drama de um parto prematuro e do vazio abissal que sente um mãe que volta pra casa sem bebê. Então eu me lembro nitidamente de voltar pra casa muito feliz no banco de trás do carro, conversando com a Juju e mostrando as coisas pra ela no caminho: “Aqui, é o Rio de Janeiro, minha filha, aquele ali é o Redentor, ali é a Marques de Sapucaí onde tem o carnaval, você vai gostar….” Soube ali que essa seria uma das coisas bacanas de ser mãe, mostrar o mundo pra filhote. Ela só tinha olhos pra mim àquela altura, mas acho que aproveitou o tour.

Dezesseis anos depois eu estou com essa moça alegre e bonita ao meu lado, chamando atenção por onde passa nas ruas de Manhatan. Mostro a ela a Central Station, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a igreja de Saint Thomas; vamos da alucinação do Times Square ao silêncio respeitoso do World Trade Center Memorial. Juntas descobrimos e admiramos a Catedral de São Patrick – mas é no culto batista do Harlem que ficam nossos corações e mentes. Circunavegamos a ilha e subimos ao topo do Empire; compramos como nunca, sorvemos cultura em grandes goles; as perguntas brotando como lenços de uma caixa de papel: uma puxa outra que puxa outra, numa sequência sem fim. Ela agora só tem olhos para o mundo, mas ainda me ouve. Também me mostra e ensina coisas, e então a maternidade, essa mão dupla de amor, proporciona esse tour inesquecível em muitos sentidos. Estabelecemos com a cidade um forte laço afetivo; reforçamos de maneira singular o nosso próprio laço, que um dia foi cordão.

Então eu boto fora a amargura que me cobria ao questionar o que, afinal, conquistei em 50 anos, e escolho me enfeitar de orgulho e alegria para celebrar a trajetória que me trouxe até aqui, o tanto que neste meio século de vida eu construí. Não foi pouco – e ainda quero muito mais.

Helê

Equinócio, primavera

Ela chegou hoje, a Primavera que me faz sentir com mais intensidade e amor o mês de Setembro, justo quando ele começa a se despedir – não sem antes me carimbar uma nova idade, renovar minhas esperanças, rever meus desejos e me impulsionar para luz. Que é minha órbita natural mas há, como se sabe, tropeços, poeira cósmica, meteoros de tamanhos diversos, eclipses e muito imprevisto. Vez por outra, desvio da trajetória, permaneço na sombra mais do que o recomendável, mas é a luz que procuro, dela me alimento e me constituo.

Curiosamente, nesse equinócio eu me percebi entre duas emoções intensas, aquelas provocadas pela recente viagem à Nova York com minha filha (The 15/50ish Tour) e aquelas que projeto e anseio para o aniversário próximo, de 50 anos (and counting). Eu, que já gosto de comemorar, inventar nomes e modas em todo 27 de setembro, me sinto especialmente tocada pela celebração de meio século de vida, a mudança da Casa do Quarenta, a ampulheta do tempo, suas alegrias, alguns temores. Atenta, me percebo nesse hiato de alegrias, um tanto fora da rotina, mas muito presente.

Equinócio, equilíbrio. Libra, livre (como sempre quis), leve (como espero ser).

(Ah, gente, é só isso mesmo, uns pensamentos soltos, umas aliterações pseudo poéticas e nenhuma conclusão. Relevem e colaborem, que fazer 50 anos é potente e bonito, mas não fácil – depois ajudo todos vocês, prometo. )

Helê

PS: Sobre colaborar e inventar moda, eu criei uma playlist colaborativa (e comemorativa) no Spotify, chamada 50 músicas para Helê. Se tiver uma música que você acha que tem a ver comigo, de algum modo, adicione a essa playlist; receberei como um presente 😘)


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