Atentos aos reacionários

O tempo, que tem se portado como um estranho neste período pandêmico, não ajuda. Os fatos parecem ora muito recentes, ora distantes, quase nunca estão onde esperamos encontrá-los. Além disso, vivemos nesses tempos que se alimentam de “polêmicas” (com e sem aspas), que se sucedem sem que a gente consiga fixar lição, opinião ou até meme. Tudo vai sendo substituído na pauta digital com rapidez impressionante. Na semana passada ainda tivemos a tristeza de perder Elza Soares: no dia de São Sebastião, a rainha voltou ao Orun, cravando mais uma flecha no peito do nosso padroeiro, deixando o Rio mais triste e o Brasil, definitivamente, mais pobre.

Gui Espíndola – 21.jan.2022/Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
Izabela Bombo @izabombo

Por tudo isso, eu quis vir aqui subir no meu caixote para deixar registrado que 186 jornalistas da Folha de S.Paulo assinaram uma carta questionando a linha editorial do veículo, apontando “a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal“. Assim que soube considerei algo importante, beirando o histórico. Consultei la Otra, que me respondeu: “Eu não lembro de ter visto nunca uma carta aberta dos jornalistas contra os editores, sobre nenhum tema, em nenhuma época. Posso estar enganada, óbvio, mas acho que é inédito”. Bastou para confirmar a minha (grata) surpresa com a posição dos colegas da Falha (nessa hora dá vontade e prazer em chamar de colega).

O gesto tem um efeito didático, eu diria, expondo para leigos a divisão nem sempre clara entre jornalistas e veículos, que é tensa e muitas vezes indistinta para os próprios comunicadores. No entanto, considero ainda mais surpreendente e alvissareiro que a união dos profissionais tenha se dado em torno do tema racismo que, a despeito de ser um problema da sociedade brasileira, sempre foi uma pauta levantada e sustentada por negras e negros. A menos que haja prova de que a Falha tem 186 jornalistas pretos, considero um avanço sem precedentes que o tema tenha mobilizado trabalhadores contra seus chefes e patrões. Significa que colegas em questão são super conscientizados? Não iria tão longe, mas indica que nosso esforço para pautar e escancarar o racismo brasileiro está redendendo frutos; fala mais da luta negra do que de qualquer outra coisa. Não está sendo em vão.

Precisamos nos manter atentos e fortes, já que em 2022 a Lei de Cotas será revisada pelo Congresso – ou você achou que o tal artigo do risível foi publicado agora por acaso? O movimento identitário branco, como de resto, as forças conservadoras, não brinca em serviço. E, como a Monix alerta aqui faz tempo, trata-se de reação a nossas conquistas. A luta, como sabemos, continua.

Helê

Benett

RCP no blogue

Fiquei um tanto horrorizada quando a Monix constatou na newsletter que passamos o mês de dezembro de 2021 inteiro sem postar. Sim, temos motivos para isso, além do Grande Motivo dos últimos e próximos meses (ai, ai), a Pands. Mas ainda assim, francamente; não é assim que se faz um blogue (auto-esporro: temos). Então cês me desculpem, seguem uns dedinhos de prosa pra não ficar esperando A Inspiração, porque não tá tendo.

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Ontem escrevi duas cartas – não importa que tenham sido enviadas por e-mail. Tinha (muito) mais que três linhas e, em terra de whatsApp, e-mail é rei. Impressionante a quantidade de vezes que escrevi a palavra pandemia, esse inferno que parece indefinidamente instaurado nas nossas vidas. Irritação com tudo isso e muito mais!, como diria o locutor da Sessão da Tarde. Mas irritação ainda é melhor que tristeza, eu acho; nos coloca numa posição ativa.

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Nada contra passiva, inclusive ôpa. #suja

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No fim de dezembro, durante uma valiosa semaninha de recesso, corri para praia quando pude – ainda bem, porque depois o sol meteu o pé e deu lugar à chuva, quando muito ao momarço (que eu te-tes-to). Além das atrações óbvas, eu amo ouvir a praia, os pedaços das conversas de turminhas de jovens, das familias estressadas ou delumbradas, e a divertida prosódia de vendedores e vendedoras praianos, com o sotaque carioca carregadíssimo (pix aqui virou piquicê!) e as mais inventivas chamadas de venda. (Ia dizer que devia ser estudada mas não, iam estragar a parada). A. acaba de me mostrar um ensaio divulgado pela Mídia Ninja que aponta a lente para essa galera; vale a pena.

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Sim, o vendedor de queijo coalho aceita píquice. Guardadores de carro e pedintes também. O Rio de Janeiro se adapta. O que é a sua glória e a sua miséria.

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Eu cheguei a achar que esse era o verão do Píquicê, antes que a Ômicron tomasse pra si a mais carioca das estações e o Viruspalooza que assola a cidade tornasse inviável o mais importante evento do calendário. Olha, vôticontá!

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Aliás, entre as minhas possíveis fantasias de carnaval (tenho um acervo delas), está o de vendedor de Mate Leão; sou apaixonada por aquele uniforme.

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Muita gente indicou o doc Quatro horas no Capitólio,  na HBO, a propósito do aniversário daquela sandice tão vergonhosa quanto perigosa. A constatação imediata é que tudo foi muito pior do que pensávamos e a democacia americana foi defendida no braço, sem metáforas, com bem disse a Monix. Mas o que mais me impactou durante todo o documentário é a aura que envolve os manifestantes brancos, que os impede de serem tocados pela polícia. Mesmo em confronto direto com agentes de segurança ele não são tocados. Como se portassem uma capa de invisibilidade, os caras gritam na cara dos policiais a dois dedos de distância, e são repelidos com um…”back off” zangado. Pensa num negro dizendo na cara, literalmente, na cara de um puliça branco, “Faça o seu trabalho!” e me diga como a ação iria se desenrolar a partir daí. O doc tem cenas muito fortes, que dão outra dimensão ao que vimos no noticiário, mas nada me chocou mais do que isso. 

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Bom, gente, fico por aqui, acho que pra início de conversa e ressucitação do blogue já foi suficiente, não? No mínimo, respira por aparelhos. Querendo mais, manifestem-se. ;-) 

Helê

Abecedário 2021

Na boa tradição dufista de “antes tarde que mais tarde ainda”, segue a minha restrospectaica (ou algo assim), antes que o Dia de Reis encerre o ciclo de transição para o Ano Bom. É só o que desejo, um ano bom pra todos nós.

And just like that. B3 e Baile de favela. Covid: sobrevivi. Doses: 3 – and counting; Distanciamento Social.

Enfermeira Mônica, a primeira imagem da esperança; Evergreen . Fiftinah e Fadinha. GregNews.

Home office. Investimentos. JujUFF. Klink, Tamara. Lula, evidentemente.

Medo e Delírio em Brasília, marcapasso, Max Peterson; Netuno. O Tempo, Podcast Duas Fridas.

Quem mandou matar Marielle? Rebeca Andrade, Reunion de Friends. SUS, Saudades atlânticas.

Tóquio e Terapia: obrigada! Universitária (minha filha!). Viagem: preciso.

Xereca Olimpics. What a fuck, 2021? YouTube, meu canal de TV. Zé recuperado!

Helê

*revisado em 06/01

Retrospectiva de um ano-década

Desde maio de 2004, nunca este blogue tinha ficado um mês inteiro sem ter pelo menos um post publicado. Nunca, até dezembro de 2021. O último mês do segundo ano da pandemia teve esse efeito indelével na história do Dufas: nossos arquivos ficarão para sempre com um mês faltando, um mês que não aconteceu.

Será que essa ausência é um sintoma do quanto estamos (todas nós) esgotadas? Não é à toa. Nas últimas semanas, me peguei pensando que no início de janeiro de 2021 Trump ainda era presidente dos Estados Unidos. Foi só no dia 6 que aconteceu aquele episódio dramático no Capitólio. Um ano atrás, nós não tínhamos vacinas no Brasil. Em 12 meses, vimos Manaus sofrer, vimos o país atingir 3.000 mortes por dia por causa de uma doença para a qual poderíamos estar imunizados, vimos uma CPI eletrizante alçar à cena nacional personagens até então desconhecidos. Vimos Lula voltar ao jogo, com a anulação de suas condenações. E isso são só os destaques da editoria de política. Enfim, foi um ano intenso, que valeu por uma década. Ou pelo menos é essa a sensação que tenho quando tento me lembrar de como estava minha vida 12 meses atrás.

Pelo lado bom, esse ano que parecia infinito também foi, para mim, prolífico (uia!) em filmes, séries, livros e podcasts. Os dias, semanas, meses praticamente confinada, sem muito o que fazer além de trabalhar e cuidar da casa, renderam muitas horas diante das telas. Neste início de ano, ainda um pouco incerta sobre como serão os próximos meses, me preparo para uma semaninha de merecidas férias e aproveito para compartilhar com vocês o melhor do que andei vendo, lendo e ouvindo no ano que passou.

Filmes

Os 7 de Chicago, porque adoro Aaron Sorkin. O elenco maravilhoso tem até o Sacha Baron-Cohen em um papel não-cômico. Nem precisava ter uma boa história pra ser incrível. Mas tem. E é.

O Som do Silêncio, filme lindo e meio sinestésico.

Tigre Branco, que conta a história de um indiano, mas poderia se passar no Brasil ou em qualquer outro país onde a vida é bem mais cruel para os muitos e bem mais suave para os poucos.

Alô, Privilégio? É Chelsea. A humorista Chelsea Handler embarca em uma viagem de autoconhecimento para entender o tamanho de seu (nosso) privilégio branco. O filme tem lá suas contradições, mas até elas me pareceram interessantes.

A Ganha-Pão, uma animação delicada sobre uma menina afegã vivendo sob o jugo do Talibã. É uma produção de 2017 e eu assisti antes da situação no Afeganistão se deteriorar novamente, antecipando a tragédia que voltou a ser realidade.

Death to 2020, porque é melhor rir do que chorar. Já saiu o equivalente que fala das mazelas de 2021.

A Incrível História da Ilha das Rosas — o título já diz que vai contar algo incrível: o filme é baseado na história verídica do engenheiro Giorgio Rosa e da Ilha da República da Rosa, que ele construiu no meio do mar em 1968, entrando uma disputa diplomática inacreditável quando pediu a independência do território.

A Escavação, que junta várias coisas que gosto em um filme só: história, romance e sotaque britânico.

O Fotógrafo de Mauthausen é um filme barra pesada, mas que vale a pena ser visto, sobre um fotógrafo catalão enviado para um campo de concentração e sua luta para guardar provas sobre os crimes cometidos pelos nazistas.

Lida Baarová. Ainda na editoria da Segunda Guerra Mundial, este filme conta a história da amante tcheca de Goebbels. É uma história fascinante.

Para descontrair dos dois anteriores: Erasmo 80 AnosMussum Um Filme do CacildisFriends: The ReunionClichês de HollywoodMarisa Monte Portas e Janelas.

Judas e o Messias Negro, sobre o início do movimento dos Black Panthers e a ação de um infiltrado do FBI que investiga a organização.

Doutor Gama, que conta a história do abolicionista Luiz Gama.

Druk: Mais uma Rodada, filme dinamarquês sobre um experimento alcoólico que, obviamente, sai do controle.

Misbehaviour: Mulheres ao Poder. Um filme que mistura ativismo feminista e o concurso de Miss Mundo de 1970. Tudo isso baseado em uma história real.

15 Minutes of Shame, documentário que traz de volta a lendária Monica Lewinski para refletir sobre a cultura dos linchamentos virtuais e cancelamentos — e o que isso tem a ver com o mundo digital.

4 Horas no Capitólio. Este documentário, que injustamente foi pouco comentado, mostra de forma muito vívida como, em 6 de janeiro, algumas (proporcionalmente poucas) pessoas seguraram a democracia americana no braço. E não de forma metafórica. Imperdível.

Marighella. A história do cara que resolveu combater a ditadura militar a qualquer preço é um bom filme de ação. Como thriller político, faltou profundidade. E, na minha opinião, o protagonista é retratado como um herói inquestionável, o que não acredito que ele tenha sido.

Ilusões Perdidas, vejam só, inspirado em um romance de Balzac, foi o filme que marcou minha volta ao cinema depois de quase dois anos de afastamento pandêmico. Como era parte do Festival Varilux, a exibição foi em uma tenda montada no Parque Lage, em que eu e minha amiga M. assistimos ao filme com direito a vislumbrar a mata e as estrelas por cima da lona transparente. Foi quase mágico.

Ethel e Ernest, outra animação delicada e lindíssima sobre a vida em comum de um casal: os pais do desenhista que é autor da história.

Antonia: Uma Sinfonia, a história de uma mulher que abriu mão de muita coisa para ir em busca do sonho de reger uma orquestra.

Abe conta a história de um menino que vive como síntese de uma guerra: a família paterna é palestina e a materna, israelense. Eles moram no Brooklin e ele sonha em ser cozinheiro. Quando conhece o chef Chico Catuaba (interpretado por Seu Jorge), a descoberta da culinária fusion se torna uma metáfora perfeita para seu desejo de integração.

Não Olhe Para Cima: eu demorei uma semana para assistir esse filme e tive a impressão que todo mundo me recomendou. É uma sátira trágica, ou uma tragédia satírica, que apesar do roteiro nem sempre muito bem amarrado faz a gente rir da nossa própria desgraça. O que não deixa de ser uma boa saída, na falta de possibilidade melhor.

Ataque dos Cães. Um filme em que ninguém é o que parece. Eu teria muito a dizer, mas dona Luciana já fez isso bem melhor que eu seria capaz.

Séries e Novelas

Cidade Invisível mostra um mundo fantástico, povoado por criaturas folclóricas como o Curupira, o Saci, o Boto Cor-de-Rosa como pano de fundo para uma trama policial.

Bridgerton, uma série que deu o que falar por um tempo e depois parece ter sido esquecida. O principal assunto foram as escolhas de atores e atrizes negros/negras para interpretar personagens da nobreza inglesa, mas sinceramente… e daí? Achei a história mais interessante que essa (zzzz) “polêmica”.

A Corrida das Vacinas, porque esse foi o assunto mais importante — o único assunto que realmente importava — em 2021.

Doutor Castor, série documental que escancara a absurda tolerância que nós, como sociedade, tínhamos para com os mafiosos do jogo do bicho.

Allen contra Farrow. Em uma história difícil de formar opinião, essa série documental claramente escolhe um lado e o defende com convicção: segundo os fatos apresentados, Woody Allen foi sim responsável por pelo menos um caso de abuso sexual, contra sua filha Dylan, na época com sete anos de idade. Assim como já havia acontecido com as canções de Michael Jackson dois anos atrás, assistir a um filme de Woody Allen agora traz um sabor amargo.

Mare of Easttown, porque a Kate Winslet está simplesmente maravilhosa e sozinha faz valer a série.

Segunda Chamada, a segunda temporada de uma série que já havia me cativado mostrando os dramas das turmas do ensino noturno de jovens e adultos. Eu gosto demais dos personagens.

The Flight Attendant, uma série meio comédia meio suspense que traz Kaley Cuoco, a atriz que ganhou fama em Big Bang Theory, em um papel totalmente diferente.

1971, sobre a qual já escrevi aqui.

Chico e Caetano foi disponibilizada (argh, odeio esse verbo) na íntegra e proporcionou alguns dos momentos mais emocionantes do meu ano de 2021. É um lugar onde podemos nos refugiar sempre que precisarmos de um pouco de beleza.

Only Murders in the Building, série divertidíssima com Steve Martin, Selena Gomes e Martin Short.

Defending Jacob é um thriller intenso sobre um pai que tem certeza, uma mãe que tem dúvidas e um filho que é acusado de matar um colega de escola.

Colin em Preto e Branco: aqui também vemos uma delicada relação entre pais e filho, mas com um componente racial desempenhando um papel importante nesse delicado equilíbrio. A história é real, narrada pelo quarterback e ativista Colin Kaepernick.

The Chair na verdade não é nada demais, mas me diverti assistindo. Como sou a favor de diversão, entrou na lista.

2021 foi um ano que assisti muitas novelas. Fui muito noveleira numa época da minha vida, depois parei, agora estou revivendo esse lado que andava esquecido. Das antigas, foi sensacional ter a oportunidade de ver O Bem Amado original, de 1973, com os personagens antológicos de Dias Gomes. Das atuais, gostei de sofrer com a Dona Lurdes procurando seu filho perdido em Amor de Mãe, e agora estou acompanhando as desventuras do questionável herói vivido por Cauã Reymond em Um Lugar ao Sol (que também deu espaço para uma interpretação magistral de Andréa Beltrão como a heroína improvável de todas nós mulheres da menopausa).

Podcasts

Medo e Delírio em Brasília: como enfrentar essa bad trip escrota em que a gente se meteu? Só mesmo rindo de nervoso com os memes impagáveis de Pedro Daltro e Cristiano Botafogo. Bora passar raiva juntos?

Noites Gregas: se a realidade é dura demais, a gente sempre pode recorrer à mitologia para entender a tragédia humana.

República Debochevique, para entender e digerir os acontecimentos mais surreais de 2021.

A Vida Secreta de Jair, série curta e imprescindível. É sério. Você é uma pessoa cidadã do Brasil e não ouviu ainda? Para tudo e vai lá.

República das Milícias, outra série que dói, mas explica coisas que precisamos saber.

Papo de Parente: essa é prazerosa de ouvir. A educadora Célia Xakriabá conta histórias e recebe convidados que nos conectam com a cultura indígena que existe e resiste no Brasil do século XXI.

Livros

Os Engenheiros do Caos é apresentado assim pela editora que publicou a obra no Brasil: “No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada dia traz sua própria gafe, sua própria polêmica, seu próprio golpe brilhante. No entanto, por trás das manifestações desenfreadas do carnaval populista, está o trabalho árduo de ideólogos e, cada vez mais, de cientistas e especialistas do Big Data, sem os quais esses líderes nunca teriam chegado ao poder.” O livro de Giuliano Da Empoli é básico para entender nosso tempo.

Torto Arado foi o livro que todo mundo comentou em 2021. Eu, também, me encantei.

Travessia de Verão eu encontrei em uma incursão a um sebo, no início de um momento de flexibilização pós-vacina. É um romance curto de Truman Capote, sua primeira obra de ficção, que ficou esquecida em um caixote e só foi recuperada (e publicada) após sua morte. Um daqueles livros cujo final salva a obra.

Toda Luz que Não Podemos Ver conta lindamente a história de duas crianças / adolescentes cujas vidas são entrelaçadas de forma inesperada durante a Segunda Guerra Mundial. Não é um livro de guerra, mas de busca por paz.

Terra Americana acompanha uma mulher mexicana de classe média que vê sua vida virar de cabeça para baixo quando toda sua família é assassinada por um chefe de cartel e ela precisa fugir para os Estados Unidos com o filho pequeno. É uma história eletrizante, que me prendeu do início ao fim? Sim. Mas também é uma obra que foi alvo de justas críticas da comunidade latina.

10 Histórias para Tentar Entender um Mundo Caótico: em forma de conversa, Jamil Chade e Ruth Manus reúnem croônicas sobre temas fundamentais e atualíssimos.

Lula, Volume 1. A vida do nosso ex-presidente (e esperamos, futuro presidente também) é fascinante. Mas é preciso registrar: o livro é uma biografia muito bem comportada e “chapa branca”. Este primeiro volume começa pela prisão mais recente, retrocede no tempo, conta as origens de Luiz Inácio e mostra sua formação como metalúrgico e líder sindical, até encerrar com a história da primeira prisão, ainda durante a ditadura. Vale a pena ler, mas recomenda-se um certo senso crítico.

-Monix-

Ouvir estrelas

Ora direis ouvir estrelas? Certo perdeste o senso mas não, estou falando da nossa nova empreitada midiática, o nosso pedido, aguardado, adiado e esperado podcast! (Se você não concorda com ‘estrelas’ sinto muito, acordei com a autoestima desregulada).

É com a alma lavada, enxaguada e quarada ao sol que comunico que está no ar o primeiro episódio do Duas Fridas podcast, que você pode ouvir no Spotify. Ainda incorporando o Odorico Paraguaçu, adianto que neste formato podcastal vamos manter a mesma linha editorial do blogue, ou seja: falar sobre tudo o que nos der na telha, com o auxílio luxuoso de vossas sugestões e comentários. Então, sem mais delongas, corre lá pra ouvir e depois passa aqui pra deixar pegada, combinado?

Helê

Fé, rituais e liturgias

Eu tenho esse hábito: sempre que preciso, peço à d. Mamãe pra incluir alguém nas orações dela (como fiz esta semana, com o coração apertado). Embora eu também reze – na maioria das vezes, de maneiras não-ortodoxas – recorrer à minha mãe me parece uma providência necessária e efetiva, como se estivesse recorrendo a uma instância superior (exatamente o que a mãe é, ora bolas)

Não sei exatamente quando nem como começou, mas vem de longe. Lembro vagamente de pedir na adolescência por amigos que iam fazer uma prova; mais tarde passaram a almejar empregos ou alugar um apê. Com o tempo as requisições foram ficando mais graves, urgentes, próximas. Passei a pedir sorte num exame ou tratamento, primeiro para os pais de amigos, depois para os próprios. (Como se pode imaginar, dona Mamãe andou sobrecarregada nos últimos meses).

Minha mãe recebe os pedidos e reza. E continua rezando, até que eu a libere; às vezes esqueço e ela também. Meses depois, pergunta: E fulano, conseguiu o emprego? Terminou o tratamento? Ela pode esquecer de me perguntar, de rezar, nunca; segue capricornianamente disciplinada e fiel. Houve uma época em que participava de um grupo espírita que aceitava pedido de reza, mas pediam nome completo, até o número do quarto do paciente. Eu achava meio burocratas esses espíritos, dava as informações que tinha para minha mãe e pronto, minha fé sempre foi na fé dela; o resto eram coadjuvantes (bem-vindos, claro, nesse departamento a gente não dispensa ajuda).

Mas é que existe algo de especial nesse nosso ritual, essa liturgia inventada, no ato de pedir pra mãe rezar por alguém – que na maioria da vezes ela não conhece, mas por quem intercede com fervor, indiscriminadamente. É a primeira coisa que penso em fazer quando um amigo está necessitado; para os mais íntimos chego a tranquilizar: Pode deixar, já pedi pra minha mãe rezar. Como se. Mas pra mim sim, pelo menos temporariamente, restabelece o equilíbio das coisas.

(Claro que agora me ocorre a lembrança de Nossa Senhora, a mãe de todos. Certeza que toda mãe tem sim, em função do cargo, uma preferencial com o Todo Poderoso, como me ensinou não a Bíblia ou a igraja católica, mas o Ariano Suassuna e a Fernandona) .

Eu, já mãe e ainda filha, acredito em muitas forças. Acredito em Deus, deusas, energias, vibrações, na minha mãe e em sua fé. E nesse fio de amor que e gente estica entre o sagrado e quem a gente quer bem.

#ForçaZé!

Helê

Gilberto Gil imortal

Eleito para ABL – que sorte da Academia!

Helê

Marília

Há coisa de uns meses atrás (talvez mais, como medir o tempo com precisão depois de um ano e oito meses de infinitena?) ouvi falar no nome dela pela primeira vez, na tela inicial da GloboPlay. Pela ênfase dada à divulgação da série documental, parecia alguém importante. Dividida entre a curiosidade por saber do que é popular e a preguiça de conhecer coisas novas, fui vencida pela segunda. Em pouco tempo, os destaques do serviço de streaming mudaram, a fila andou, enfim, ela saiu de novo do meu radar.

Sexta-feira passei o dia concentrada no trabalho, e só no fim da tarde, em uma breve olhada nas mensagens, fiquei sabendo: primeiro de um acidente ao qual ela supostamente havia sobrevivido; depois, a retificação e a confirmação da tragédia.

Mas só aos poucos fui entendendo o tamanho que tinha Marília Mendonça. E minha ignorância diz muito sobre mim, sobre o quanto minha percepção do mundo é limitada por uma experiência de vida meio-intelectual-meio-de-esquerda (e também meio-MPB-meio-rock’n’roll), mas também diz muito sobre as bolhas e o quanto é fácil se estar completamente alienada de um fenômeno popular dessa magnitude, sem nem ao menos saber que se está por fora.

No programa Lady Night, em 2018

Hoje voltei na GloboPlay e a série da Marília estava novamente em destaque. Mesmo que não estivesse, eu procuraria por ela — entrei no streaming para isso. Assisti os quatro episódios de uma só vez e fiquei ainda mais espantada com o fato de ter, durante anos, veja bem, anos, pois pelo menos desde 2015 essa mulher é um sucesso retumbante, ignorado sua existência. Nem entro no mérito de gostar ou não de suas músicas (não é meu estilo musical preferido, mas feminejo é mais divertido que o sertanejo universitário e outros subgêneros, então sim, curto levemente, digamos assim). O ponto é sobre como é possível que pessoas bem informadas — outras como eu admitiram, nos últimos dias, o mesmo desconhecimento — estarem totalmente desatentas a um fenômeno desta proporção. Na época da comunicação de massas, se um artista alcançasse o topo, como ela alcançou, todos saberíamos.

Em 2017, na Expo Araçatuba

Essa moça bonita, carismática, de voz potente e energia incansável, se foi cedo demais, mas deu tempo de deixar sua marca na história musical de um país que tem grandes nomes nessa arte. Assistindo a série, aprendi muito sobre quem ela era: acima de tudo, alguém que se conectava com as pessoas de uma maneira única. E isso não é pouca coisa, especialmente em tempos tão dominados pelo narcisismo. Vai fazer falta.

-Monix-

Ainda o mar

Alertada pela Manu, eu passei a acompanhar a Tamara Klink na travessia que ela acaba de concluir, viajando sozinha num veleiro, vindo da França até o Recife. Peguei a viagem mais ou menos no meio do caminho; quando me juntei ao cardume de leitores e leitoras ela já havia deixado Nantes e fazia uma parada na Espanha, se não me engano. Só poucos dias antes da chegada descobri como acompanhar a rota do Sardinha, seu barco, via GPS, e então quase todo dia eu ia lá espiar em que ponto do Atlântico ela estava. E essa é a primeira das muitas e inevitáveis comparações com as viagens de seu pai, Amyr: no caso dele, era preciso esperar que elas terminassem e virassem livro para que a gente pudesse embarcar.

Tamara tem desenvoltura com os instumentos de navegação e também com as palavras: seus relatos quase sempre poéticos, mesmo que em prosa, não deixavam de captar a dimensão filosófica e transcendente de sua empreitada, uma jovem mulher de apenas 24 anos cruzando um oceano inteiro por conta própria. Observar a trajetória dessa moça tem um sabor todo especial para quem, como eu, navegou durantes anos entre as páginas dos livros de seu pai. Tenho a sensação parecida com a que tenho com as conquistas dos filhos de amigos: a (ilusão de) proximidade, a alegria por uma vitória que é dela, mas que perpassa também seu pai, de muitas e insondáveis maneiras.

Tenho um profundo respeito e admiração pelo Amyr Klink (foi a última pessoa a quem pedi um autógrafo; antes dele, só para o Veríssimo, pra você ter uma ideia). Seus livros me lançaram em paisagens nunca antes lidas e foram passaporte para muitas outras histórias incríveis sobre a descoberta dos polos ou a ascenção ao Everest. Assitir agora, na palma da minha mão, sua filha chegando em tempo real depois de uma temerosa e bem-sucedida jornada me comove um bocadinho, me fala sobre o tempo, tempo, mano velho correndo macio e sendo legal, me deixando testemunhar uma outra geração Klink de desbravadores – daqui do alto das minhas próprias conquistas, também vendo herdeira dando os primeiros passos para zarpar logo vida a fora. E enquanto escrevo lembro, pra deixar redondo esse moto-contínuo que é o tempo e seus assombros, que presenteei a Manu, anos atrás, exatamente com o “Cem dias entre céu e mar”, que ela de certa forma me devolve ao me contar da Tamara e sua travessia, que atravessa minha vida trazendo frescor, esperança e gratidão.

Helê

PS: E por alguma dessas coincidências da vida, o post sobre o autógrafo do Amyr foi publicado há exatos quatro anos. 

Sonhador

Arte de natibassanesi

Da série Corações

Helê

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