Espontâneo

Elliott Erwitt, Valencia, Spain, 1952.

Da série Casais

Helê

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Trabalho pesado

 

Fui instantaneamente fisgada por essa imagem e fui atrás do autor. O pouco que conheci desse cartunista cubano me encantou muito. Tem uma crítica social que eu não via há tempos, pareceu até datada à primeira vista, mas que depois me fez pensar se não nos conformamos demais com tudo. E entre muita política e crítica aos costumes tem umas coisas emocionadas e emocionantes feito essa.  O site  é muito tosco – parece que foi feito nos nos 90 – mas dá pra acompanhar pelo twitter. Eu, pelo menos, não o perderei de vista.

Helê

Razão e fé

Andarei vestida com as roupas e as armas de Jorge. Adoro a imagem do Buda barrigudo sorridente. Rezei com fervor e emoção numa igreja batista do Harlem. Cosme e Damião me guiarão até o fim, ora iê iê minha mãe Oxum, namastê. O manto de retalhos multicoloridos da minha fé me envolve, protege, fortalece. Eu acredito – cada vez menos em religiões, e sem dúvida em deus, deusas, divindades, energias, orixás, santos, caboclos, vibrações.

Nessa religiosidade um tanto esculhambada há poucos rituais e nenhuma disciplina. Falo com deus em momentos inesperados e em lugares insólitos – muitas vezes na natureza, quando a presença de algo maior se impõe; noutras através da música, uma das linguagens divinas. Peço pouco e agradeço muito, sempre que lembro.

Mas de vez em quando peço. Na semana passada, pedi (num lugar insólito). E percebi minha enorme dificuldade em fazer isso, porque também  aí minha racionalidade impera e no momento mesmo da reza começo a analisar meu pedido. Acho que nunca consegui pedir sem, imediatamente, considerar a viabilidade de ser atendida, meu merecimento, as chances de conseguir. Não consigo rezar: “Faça com que eu ganhe na mega sena” sem pensar que talvez não seja necessário tanto, que há quem precise muito mais, que eu não cuido do meu dinheiro como deveria… Consigo imaginar o santo revirando os olhos, colocando a mão na cintura e falando “Sério, Helena?”

Então rezo pouco porque sou relapsa mas também porque tenho dificuldades em pedir. Acabo sendo pouco específica, peço bençãos de importância incontestável, como saúde e proteção para os meus. Até para pedir recuperação para os doentes eu preciso pedir e sair correndo, se não já começo com os detalhes – recupere se for o melhor, se não ficarem sequelas, se não houver mais sofrimento. Não há santo que aguente. (Com frequência recorro ao Pai Nosso, simples, forte e eficiente: com o  ‘seja feita a vossa vontade’ entrego a deus, literalmente, e lavo minhas mãos).

Por outro lado, esse excesso analítico, rezar pode ajudar exatamente por ser uma outra maneira de pensar sobre o assunto, analisar a situação, descobrir aspectos que antes não havia pensado e, no limite, encontrar respostas. Mais ou menos da mesma maneira que a gente acaba aprendendo a matéria quando prepara a cola. Tentando se safar por não saber,  a gente faz o que deveria ter sido feito, estudar. Ao rezar, penso mais profundamente no que estou pedindo, percebo o tamanho do meu desejo, o que posso fazer para conseguir, o que devo evitar, o que não quero e não vou tolerar.

No fim das contas, Deus realmente opera de muitas maneiras …

Helê

 

Êxtase

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(Big Jay McNeely (via fotografias incríveis de celebridades)

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(via ◆ COOL PHOTOS ◆ /)
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Helê

Trégua

Saí à rua e surpreendi uma temperatura mais baixa do que esperava. Não lamento, aproveito esses dias poucos e raros. Já, já chegam meus favoritos, os de luz e calor, meu habitat natural, quando a tristeza não orna. Reparo nas árvores da escola antiga que me encantam, trocando de folhas e flores sempre, mas mantendo inexplicavelmente um tom de sépia e saudade que me acolhe e acalma os sentidos dos erros (você sabe o resto). As pequenas aflições, as faltas atávicas, o estado do Rio, as perdas frequentes; as amizades surpreendentes, o poder da minha palavra, as delícias da maternidade, as lembranças recentes, o desejo latente. Os bons e a bad, alegrias e decepções, tudo tanto que embaralha a minha cabeça e acelera o carrossel do meu coração. Exausta, peço tempo e trégua, e conto com setembro para aquietar a mente e, principalmente, o coração. Porque no fim das contas, na peleja entre razão e emoção, é a segunda que me debilita: eu sinto muito.

(“Love” by Otto D’Ambra – salvo de curiousdukegallery.com)

Helê

Frutífero

(Pinterest)

Da série Corações

Helê

 

Festa na favela  

Há tempos quero escrever sobre isso, mas não achava o timing certo. Não podia ser depois de  um título, goleada ou vexame; tinha que ser num momento em que o Flamengo não estivesse nem rondando as últimas posições da tabela nem no G4. Status raro para um clube que não sabe viver sem sobressaltos, e passa de favorito a condenado em uma rodada. Minha amiga Ângela inclusive instituiu a expressão “Crise na Gávea” para os momentos tensos da vida cotidiana, porque carrega a dose exata de drama e gravidade.

Mas o que quero contar aqui tem a ver com o Flamengo, mas não só; relaciona-se com o futebol, mas não apenas; é ainda mais importante que essas entidades excepcionais. Falo do nascimento, ou seria melhor dizer, da construção da minha identidade flamenguista – ou deveria dizer minha nacionalidade rubro-negra. De cara eu devo dizer foi uma escolha, das primeiras que fiz na vida e, provavelmente, uma das mais determinantes. Eu decidi ser Flamengo.

Final dos anos 70, começo dos 80, eu cursava o primário (o atual fundamental), na escola Debret, em Vila Valqueire. Na minha família ninguém era muito ligado em futebol, só descobri o time dos meus pais quando perguntei. Mas naquela época não era possível ficar alheia ao esporte; soube logo que o Flamengo tinha um timaço, se não me engano havia ganhado um tricampeonato. Lembro-me do Zico, no início do que viria a ser sua canonização, e de outros craques como Adílio e Júnior. Comecei a dizer que torcia pelo time, comecei a ser Flamengo. E nas acaloradas e fundamentadas discussões que temos aos 10 anos de idade, os adversários debocharam de mim dizendo que o Flamengo é time de favelado, de preto, de pobre – isso numa escola pública do subúrbio, onde a maioria poderia se enquadrar nessa classificação.

Lembro com uma clareza assustadora e surpreendente de ter refletido sobre aquelas acusações. Eu não gostei de ser chamada de favelada –  talvez apenas porque não fosse, não tenho certeza. Preta e pobre eu era mesmo; por que então aquilo era um xingamento? Não fazia sentido. E, mais importante, o Flamengo era campeão e, naquele momento, o melhor time do Rio de Janeiro. Então, talvez, ser preto, pobre (e até favelado) só fosse um xingamento por despeito de quem não podia ser tão bom quanto nós. E ainda tinha esse “nós”: estar entre os melhores vinha com um sentido de coletividade e pertencimento, eu não estava só porque, afinal, o Flamengo é uma nação. Aos 10 anos fiz, sozinha, minha primeira desconstrução, desmontando o que me jogaram como ofensa e costurando como elogio – o que é o exercício 1 do primeiro livro de como ser negro nesse país (talvez no mundo). É sobre isso o orgulho negro que alguns têm tanta dificuldade (e/ou má vontade) de entender.

Voltando para a infância: depois dessa elucubração solitária, na primeira disputa em que a filiação clubista entrou em questão e que me acusaram de ser de um time de preto, pobre e favelado, eu devolvi cheia de propriedade e autoafirmação (embora desconhecesse essas palavras) e com a mão nas cadeiras: “E daí?!” Tá, eu reconheço que não fui muito eloquente, mas foi uma libertação, talvez a primeira de muitas. E por isso eu tenho com meu clube uma relação especial, profunda, e uma enorme gratidão. Porque foi aquele time vencedor,  e aquela torcida apaixonada e enlouquecida – que chegou até mim sem que houvesse uma figura dedicada a me converter, mas que me influenciou com sua força magnética – que concederam minha primeira identidade. Ser Flamengo, para mim, está intimamente ligado a ser negra e de origem pobre, e foi o Flamengo quem primeiro me ensinou a ter orgulho disso. Só por isso não perco a oportunidade de cantar ao mundo inteiro a alegria de ser rubro negra.

 

Helê

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