Mais opinião que notícia

Queria vir aqui falar de viagem, filho, idade – do meu umbigo, em resumo, que tem me dado mais prazer que o noticiário – , mas não posso perder esse gancho que minha sócia me deu, sem saber, para extravasar minha indignação. Sobre a notícia de que funcionários do PT ganharam na loteria essa semana, a revista istoé (assim mesmo, com as minúsculas que merece) publicou uma nota com o seguinte título: “Os petistas ficaram ricos – sem roubar”. Eu li mais de uma vez para acreditar que estava lendo uma veículo de notícias, e não uma propaganda eleitoral fora de época, um panfleto de DCE, uma notinha social num boletim militar. E cada vez que leio me ferve a irritação com esse pseudo jornalismo que envergonha a profissão.

Não tenho muita paciência para a maioria dos veículos de esquerda porque me parecem jornalisticamente fracos, mas pelo menos são honestos: você sabe quais são os princípios que os orientam. A chamada grande imprensa, com seu falso verniz de imparcialidade e isenção, segue ajudando a consolidar o atual a situação de indigência política e intelectual que se alastra pelo país.

A nota da revistinha transborda desprezo e despeito pela sorte dos petistas – esse adjetivo que a imprensa, mais que nenhum outro setor, se esforça para transformar em xingamento. Para azar dos que tentam enxovalhar o PT e seus seguidores, informo que a esquerda tem muita experiência em transmutar em orgulho o que tentam lhe impingir como ofensa.

Helê, putíssima

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Mais estranho que a ficção

O Brasil realmente desafia as noções de verossimilhança.

Eu costumo dizer que a ficção é bem menos livre que a vida real. Porque se algo aconteceu, automaticamente é verossímil. Mas se sabemos que é uma história inventada, ela precisa fazer sentido. Por exemplo, se em um filme de ação um personagem pula em queda livre da estratosfera e consegue chegar ao chão vivo e inteiro, isso é um desafio à nossa suspensão da descrença. Até que alguém vai lá e faz isso na real. Aí já não é questão de acreditar. Aconteceu.

Mas então essa semana aconteceu o seguinte no Brasil: assessores dos deputados do maior partido de oposição, de esquerda, que tem um ex-presidente preso e outra deposta, ganharam na loteria.

Parece aquelas soluções de fim de novela. Tem que dar um final feliz pra todo mundo, esse grupo de personagens estava meio sem história, vamos fazer todo mundo ganhar na loteria pra resolver rápido sem precisar gastar tempo do último capítulo com coadjuvantes. Né não?

-Monix, incrédula-

O adeus a uma tradição

Tudo começou um tempo atrás, quando durante um conversa com meu filho e sobrinhos me dei conta de que eles nunca conheceram algumas paradas obrigatórias da gastronomia tradicional do Rio de Janeiro (leia-se: restaurantes que já foram importantes outrora, mantém um cardápio nostálgico, a estrutura física super deixa a desejar e o serviço é uma porcaria – ou seja, welcome to Rio).

Um desses tesouros da nostalgia gastronômica de que falávamos era o Bar Luiz, na rua da Carioca. Ficou a promessa de que os levaria para conhecer o famoso bife à milanesa com salada de batatas e o imperdível strudel com creme.

Aí veio a notícia – que não chegou a ser uma surpresa: sábado será o último dia de funcionamento do Bar Luiz. Depois de 132 anos, é hora de dar tchau.

Daí foi aquela correria: ajustes nas agendas de todo mundo, etc, pois não podíamos perder a última chance. Ontem chegaram notícias de filas enormes. Claro. Mesmo assim não desanimamos. Os adolescentes precisavam conhecem o lendário Bar Luiz.

No meio do caminho tinha uma fila

Na chegada o cenário não era muito animador. A turma do início da fila estava esperando há cerca de uma hora. Mas quem nunca teve um golpe de sorte na vida? Eis que chega o gerente perguntando: qual é o primeiro grupo de mais de quatro pessoas? Acabou de vagar uma mesa maior e é melhor acomodar um grupo do mesmo tamanho.

Adivinha? Éramos cinco (quase um romance).

Bem, lá dentro as coisas estavam um pouco confusas. A milanesa já tinha acabado, fomos de rosbife. O barulho ensurdecedor de sempre nos impediu de entender totalmente o que o garçom dizia, mas basicamente o Bar teve que recrutar 10 garçons do Otto para ajudar no serviço.

E assim contabilizamos mais uma baixa nesse momento decadance sans elegance

Na verdade, dentre as coisas que o garçom disse, entendi trechos incongruentes como “Bar Otto”, “Tijuca”, “não conheço o cardápio, por favor informe o número”, “fechar”, “15 dias”, “reabrir”. Talvez isso signifique alguma coisa, talvez não. Fica aqui o registro de que eu talvez tenha perdido um excelente furo jornalístico por pura inabilidade social na conversa com garçons.

Bem, o strudel com creme também ficou só na nossa memória e na fantasia dos meninos – todas as sobremesas já tinham acabado. Para não perder a viagem, fomos comer uns docinhos na Confeitaria Colombo.

É triste se despedir de uma tradição. O Bar Luiz era caro, o serviço demorado, o ambiente barulhento, mas nós somos cariocas e gostamos desse charme meio decadente, meio soberbo, que só o Centro da cidade pode nos proporcionar. A rua da Carioca é uma lamentável metáfora de tudo o que vem acontecendo com a cidade nos últimos anos. Talvez ela sempre tenha sido, na verdade.

-Monix-

Perdida em Copacabana

Minha casa está em obras e por conta disso vou passar as próximas semanas na casa do namorido, na sempre louca Copacabana. (Não é a primeira vez que passo um tempo aqui, mas antes a situação era meio caótica e não valeu como experiência de “moradora do bairro”).

É engraçado como cada bairro tem sua cultura. Aqui tudo funciona em outro ritmo. Em geral, mais acelerado.

Mas aí no sábado resolvi fazer a unha. Fui procurar um salão aqui perto (há vários) que tivesse hora disponível, pois sábado é o dia mundial de fazer mão, pé e cabelo, certo? Bem. Um salão fechado. O segundo, idem. Mais outro. Continuei andando. Atravessei a rua, agora vai! Fechado também. Quase chegando no Leme, encontro finalmente um salão aberto, franquia de uma marca conhecida. Consegui a manicure, ótimo. Conversa vai, conversa vem, comentei: vem cá, as mulheres de Copacabana não frequentam salão aos sábados não? Até chegar aqui passei por vários, todos fechados! E a manicure, sem querer afrontar a cliente, lembrou sutilmente: será que não é porque hoje é feriado? FUÉM FUÉN FUÉN…

É isso que dá ser a louca do feriadão.

***

Saindo do salão, fui pegar um ônibus, meio perdida, como sempre. (Para quem não é do Rio, explico: nosso prefeito anterior fez várias mudanças na numeração das linhas, extinguiu algumas, criou outras. Além disso, distribuiu as paradas de ônibus em pontos específicos. Tudo isso dificultou muito o processo de saber que ônibus vai para onde quando não se está no dia a dia de determinado lugar e tudo o que resta são as lembranças de números de linhas que não existem mais.) Minha cara de ponto de interrogação deve ter chamado a atenção do pessoal à minha volta, porque um rapaz se ofereceu para me ajudar a decidir que ônibus pegar.

Agradeci, nem prestei muita atenção (antipatia mode on).

Daí o moço me pergunta: você está de preto por acaso ou é aquilo que estou pensando?

Era.

Só aí observei a figura: carregava dois violões e estava com uma camiseta colante, obviamente também preta.

Foi gancho para uma conversa meio sem pé nem cabeça que envolveu teorias da conspiração sobre a facada e menções a Edir Macedo que até agora não sei se eram contra, a favor ou muito pelo contrário.

Pena que o ônibus chegou e com isso estou até agora sem entender contra o que meu companheiro manifestante protestava.

***

Copacabana é isso aí. Cá estarei pelas próximas semanas.

-Monix-

Selfie

Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser ter tudo o que quer. Ou cansa, mas segue querendo, mesmo cansado.

Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos, ou viro doida ou santa, disse a Adélia aos 42. Aos quase 50, já no segundo tempo da vida, estou bem no meio do desespero, entre grata e carente, entre confiante e amedrontada, surpresa e culpada: como foi que cheguei aqui? Era aqui mesmo que eu queria estar?

Muitas perguntas ainda; talvez sempre. Mas a certeza de que sou quem eu gostaria de ser.

Quanto a isso, nenhuma dúvida.

 

Helê, a um mês de completar 50 anos

 

Na rádio Cabeça a jovem Alanis Morrissete canta “Hands in my pocket”.

 

Imagem do site Africanart

Pastilhas Garota*

D. comentou num tuíte que gosta de ver filme sem saber nada antes, nem lê a sinopse. Horas depois, por questões profissionais, adicionei uma pessoa entre os meus amigos do Facebook. Mas não olhei o perfil porque tive esse mesmo impulso: não quero spoiler (e nem quero que o retrato das redes estrague a (boa) impressão que estou tendo da pessoa).
*
Comecei a ver “Limitless” – que a minha dislexia tardia só chama de Timeless – porque eu preciso de uma bobagem pra ver de manhã, enquanto saio do banho, tomo café, arrumo a marmita. A série deriva de um filme, outro passatempo banal (com o plus dos olhos às vezes muito azuis do Bradley Cooper). Mas achei significativo que o superpoder do herói seja…a concentração – bem apropriado num mundo em que a gente recebe muito mais informação do que pode processar.
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No filme ele diz,depois de tomar a pílula pela primeira vez, algo como “não estou chapado, alegre, acelerado, bêbado. Apenas focado”. Um superpoder capitalista?!
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Tá, não é o foco. O protagonista da série (e do filme) também consegue acessar todos os arquivos da sua memória, lembrando de tudo o que já viu, leu ou assistiu na vida. Imagina a velha louca da memória sistematizando os trapos por cor, tamanho e textura e etiquetando todas as comidas num freezer computadorizado.

*
Hoje me ocorreu que o que eu tenho menos anos a viver do que já vivi . Sem drama, só na matemática e na probabilidade. Como não sou muito boa nem numa coisa nem em outra, cair no drama seria fácil, então achei melhor ouvir algo pra distrair e fui ouvir um podcast pra treinar o inglês (excelente, aliás) . E o cara resolve destacar a expressão “in your prime”. E explica que o ‘prime’ de um atleta é diferente de um profissional, que também difere da perspectiva evolutiva e… Olha, vôticontá, hein!
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Adoro essa expressão, vôticontá, morria de rir dela quando era pequena. Porque na verdade não conta nada, o que era importante já foi dito antes e você só tá sublinhando a gravidade da coisa. Minha mãe usa muito, e eu sempre acho que é daquelas falas tipicamente cariocas/suburbanas . Mas sempre que escrevo essas coisas na internet aparece várias pessoas de diferentes procedências dizendo dizendo que também usam , não é exclusiva do subúrbio e nem sequer do Rio, inclusive era uma expressão usada na Inglaterra medieval…olha…
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O podcast sobre o qual falei acima chama-se Plain English. Tem atualizações duas vezes por semana, é rápido (uns 20 minutos) e o cara tem o tom certo, não é nem “engraçadinho” nem formal demais. Escolhe temas atuais e oportunos. Tenho ouvido coisas bem interessantes, mas isso vale um post inteiro.

Helê

*Porque Drops, só a Fal 

Leão ❤

O sol deixa Leão hoje mas eu não poderia deixar de fazer esse carinho nas leoninas e leoninos fiéis ou aleatórios aqui do blogue. Afinal, eu sou a auto-intitulada Guardiã das Tradições Recentes. Um beijo para cada um; vamos juntos passar por Virgo aguardando chegada de Setembro, da Primavera e do meu aniversário! 😀

Helê, of claro

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