A coroa

Ela nasceu na década de 1920.
Passou a infância como uma princesa. Perdeu o pai muito jovem e teve que ir à luta.
Casou-se com um oficial da Marinha de seu país.
Cuidou da mãe, que morreu bem velhinha. Teve muitos filhos, netos e bisnetos.
Viveu uma vida longa e manteve a família unida apesar de muitos pesares.
Depois de sua morte, ninguém foi capaz de ocupar seu lugar com a mesma competência e dignidade.

***

Parece que estou fazendo a biografia resumida de Elizabeth II, mas essa é a história da minha avó materna. E provavelmente essas similaridades explicam, em alguma medida, meu mal disfarçado fascínio por essa monarca — o que obviamente não combina com minha visão de mundo. Mas é isso: Lilibeth sempre me lembrou muito minha amada avó, que era, ela própria, fascinada pela rainha e pela família real.

Sobre a monarquia britânica, já disse antes que seu principal papel é dar um sentido de continuidade à história do país. A rainha está morta; viva o rei.

Sim, o Estado continua apesar da mortalidade dos soberanos. Mas a morte de Elizabeth é sem dúvida o fim de uma era. Para mim, numa nota mais pessoal, teve sabor de uma segunda despedida da minha querida avó.

-Monix-

Minha dinastia pessoal :)

Independência e vida

Desculpe aí, patriarcado, mas são duzentos anos de uma história contada pela metade, então hoje precisamos fazer uma correção importante. A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. É isso mesmo, repito para que não haja dúvidas:

A independência do Brasil foi proclamada por uma mulher. No dia 2 de setembro de 1822.

Essa mulher se chamava Maria Leopoldina, e hoje seu nome é mais reconhecido quando vem com um sufixo, no nome da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. Duzentos anos atrás, ela era a princesa regente do Brasil, portanto quem tinha autoridade para tomar decisões e assinar documentos oficiais. E foi isso que ela fez naquele 2 de setembro. Portugal queria que D. Pedro voltasse à Europa. A corte brasileira pressionava pela independência do Brasil. A relação colonial já não fazia sentido. Mas o príncipe estava ausente (ué, um homem ausente na hora que mais se precisa dele, cê jura?). Quem botou o dito cujo na mesa foi a consorte de apenas 25 anos, que tinha sido preparada a vida inteira para cumprir com os deveres de Estado.

Nos dois episódios históricos de 1822, Leopoldina esteve em defesa da emancipação brasileira. Em 13 de agosto (…) D. Pedro viajou para São Paulo , e Leopoldina assumiu pela primeira vez a regência do país. Durante esse período, no dia 2 de setembro, presidiu a sessão do Conselho de Estado na qual deliberou a separação entre os dois reinos, fazendo registrar na ata a assinatura de todos os ministros. Documentos afirmam que a independência foi oficialmente decidida nessa ocasião, e alguns dias depois proclamada por D. Pedro às margens do Ipiranga.

(Trecho extraído do verbete sobre Leopoldina de Habsburgo-Lorena, do Dicionário Mulheres do Brasil)

Leopoldina comeu o pão que o diabo amassou no Brasil, mas amou este país até o final

A história oficial tende a apagar a participação feminina nos grandes eventos ao longo dos séculos, mas nunca é tarde para revisitar o cânone e dar crédito a quem merece. Além de Leopoldina, que atuou aqui na corte do Rio de Janeiro, o Brasil como o conhecemos hoje deve muito às heroínas da independência da Bahia: Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa. Essa história também merece ser contada, mas hoje, 2 de setembro, o que eu quero é propor que comemoremos a verdadeira data de independência do Brasil relembrando Leopoldina — por exemplo, você já leu o livro da Fal e da Suzi? E se não leu, o que está esperando?

Olha quem já leu… Só falta você rsrsrs (a foto é montagem, mas fica a dica como inspiração)

A independência contada da perspectiva masculina tem cavalos, uma espada meio fálica (ops) e um grito que fala em morte. O que eu quero é uma independência que fale de vida, e a Imperatriz Leopoldina, com toda sua dignidade perante o sofrimento, sua habilidade para construir alianças e sua vocação para os negócios de Estado me parece uma representante muito melhor do espírito que devemos buscar para a nação brasileira.

-Monix-

Enfim, setembro!

Setembro. 1º de Setembro.

Sempre recebo este mês com alegria e alívio, mesmo que agosto não tenha sido tão difícil (mas quase sempre é, né?). E sempre com muita esperança, o peito explodindo de contentamento e aquele sentimento absolutamente infantil de que, sim, agora vai, vai dar tudo certo e serei feliz, feliz (façam muitas manhãs/ que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz etc. Chico, sempre).

Eu sei, eu sei que é só uma virada de mês e não de vida, que o dia espetacular que faz hoje no Rio de Janeiro não está garantido, que tecnicamente é o tal do inferno astral, mas ainda sim hoje de manhã arranquei agosto de todas as folhinhas da casa com vontade e animação – você sabe, Esperança e Teimosia andam de mãos dadas, balançando as tranças e sorrindo.

(É como a campanha do Lula: a gente sabe que, ganhando, ele vai pegar um país muito pior que no primeiro mandato, vai ser tudo muito difícil – fora ter que ouvir os reaça mugindo contra e tal. Mas sem esperança a gente nem sai da cama nesse país triste e indecente em que o Brasil se transformou, não é mesmo?)     

A raiz desse meu contentamento injustificado com setembro vem da infância, daquela expectativa pelo aniversário (dia 27, anote), que nessa fase da vida é a data mais importante, mais até do que natal. Confesso que eu não superei essa fase: até hoje acho que é o dia mais importante do ano, perdendo apenas pro carnaval (Santa Claus não tem muita moral por aqui). Com o tempo, vivi desapontamentos  em setembro, pra minha total surpresa – até chuva no dia do meu aniversário, para o meu total horror. Mas nem a experiência me tirou a alegria de esperar e receber setembro com o peito aberto, a alma menina, e a esperança de um dia ser tudo o que quero (Caetano, também amo você).

Suspeito que enquanto esperar e receber setembro desse jeito nem tudo estará perdido, está mantido em mim o que me define, de certo modo; e posso sossegar pois não venceu o cinismo (que não passa de desespero sagaz e elegante ).

Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão (tamo junto também, Miltão!).

Helê

Assistido por aí

Duas surpresinhas e uma leve obsessão

Anatomia de um escândalo” é uma série muito bem interpretada, que parece que vai ser sobre político infiel, casamento e tal (uma coisa assim meio The good wife), mas é, acima de tudo, sobre consentimento. Sobre a supremacia masculina tão entranhada nas sociedades em que vivemos que todas nós mulheres podemos nos identificar e mesmo nos reconhecer nessa minissérie britânica classe alta branca. Confira.

Hacks” é outra surpresinha. Parece que vai ser sobre uma comediante decadente e uma roteirista de comédia arrogante. E é, também, mas não apenas. Porque a humorista sênior tem seu valor, ainda enche o teatro (mesmo que queiram diminuir suas apresentações). E a jovem escritora tem uma dose de arrogância e sabe-tudismo típica da idade, mas pode ser uma pessoa compassiva. E cedo na série a gente

saca o que elas demoram um pouco mais a perceber: que são duas mulheres tentando vencer in a men’s world , o que as une, ainda que queriam se repelir mutuamente. E a gente vai revezando simpatias – uma hora amando Deborah Vance, outras nem tanto; em vários momentos torcendo para Ava, noutros querendo que ela se dane. Tudo recheado de diálogos excelentes, atuações idem e bons personagens secundários.

Sobre Better Call Saul eu direi apenas que: considerava Walter White um personagem complexo até conhecer Saul Goodman/Jimmy McGill, que tem mais camadas que uma cebola. Ou que o Shrek. E depois de seis temporadas de suspense, ação, intrigas criminosas, fotografia espetacular, conflitos familiares e atuações impecáveis, confirmei no último capítulo o que eu já desconfiava: que estive acompanhando uma bela e trágica história de amor.

Vô morrê de saudade.

Helê

23 de agosto

Omar ibn Said

Se há leis que pegam e outras não, também há datas que não conseguem se fixar no calendário de eventos. Eu descobri ainda há pouco que hoje é o Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição, de acordo com a UNESCO, que celebra a data desde 1998. Em 23 de agosto de 1791 aconteceu no Haiti a primeira rebelião de independência nas Américas liderada pelos africanos escravizados. Como eu aprendi com o Projeto Querino (escuta absolutamente indispensável), essa revolução passou a ser o terror das elites dominantes, que temiam que os negros escravizados de outras colônias fizessem o mesmo. Séculos se passaram e ainda há o que temer, visto que no país que recebeu cerca de um terço de todas as pessoas traficadas no período das colônias, na cidade que recebeu um milhão dessas pessoas, ninguém fala sobre o Dia Internacional da Recordação do Tráfico Negreiro e da sua Abolição. Talvez porque a data fale explicitamente sobre recordar, e todo o esforço nacional foi o de esquecer, abafar e sepultar a escravidão e suas sequelas. Em vão: estamos aqui para recordar, repetir e elaborar*.

PS: Soube da data por um fio no tuíter (em inglês) falando sobre Omar ibn Said, um estudioso muçulmano que foi escravizado nos Estados Unidos e escreveu em árabe sua autobiografia.

*Eu não li o texto do Freud, mas só o título eu já acho poderosíssimo e certeiro.

Helê

Idiossincrasinhas

* Dogma pessoal: nunca assisto decisão nos pênaltis nem debate eleitoral.

Debates eu acho que cheguei a assistir os primeiros presidenciais, em 89, mas meu sistema fica muito nervoso. Talvez trauma do fdp do Collor, não sei. Mas não tenho condições. Pênalti eu me recusei a assistir em 94, no tetracampeonato de futebol; deu certo, e nunca mais na vida eu assisti (no caso de estar torcendo para um dos times, claro).

* Dogma compartilhado com a Monix: não reclamo de vizinho se divertindo (aniversário, churrasco, reunião animada, tá valendo).

Procuro ter com vizinho a mesma condescendência que gostaria que tivessem comigo. Além disso, eu sempre penso no quanto é horrível e angustiante ouvir discussões, brigas, tentar decidir se é ou não caso de chamar a polícia – já vivi isso, é desesperador. Barulho de festa só é ruim porque você não está lá; além do mais, não acontece todo dia porque ninguém tá podendo. Então deixaoscara, em bom carioquês.

Minha tolerância talvez se deva à leitura de uma crônica, décadas atrás, do Rubem Braga, “Recado ao vizinho do 903”, publicada na icônica coleção Para Gostar de Ler. Acho que toda a minha vida em apartamentos foi guiada por essa ideologia do Braga.   

Rubem Braga, em desenho no IMS

 * Ritual pessoal: nunca volto pra casa direto depois de um enterro ou velório. Se não for possível arrastar um ou mais amigos para o bar, vou eu sozinha e tomo pelo menos uma gelada, espécie de gurufim particular. Para celebrar a vida de quem se foi e a minha, e espantar esse ranço de morte que fica na gente nessas situações.  E também pra ela não saber meu endereço.

Helê

Julice 1.9

Outros tempos, outras julices; mesmo orgulho, o amor maior.

Helê

Saiba

Esbarrei nessas fotos no tuíter e não resisti a trazer pra cá – em que pese o erro de incluir o Chico Buarque no Bonde dos Octogenários (no qual ele só embarca em 2024). O engano certamente se deve à genialidade dessa turma; alguém sugeriu que no ano de 1942 um portal se abriu. Por ele passaram também, pra ficar só na música brasileira, Clara Nunes, Nara Leão, Paulinho da Viola e Tim Maia. (Um tal de Paul MacCartney também passou). A Flávia Oliveira abordou o “fenômeno” em uma de suas excelentes colunas, quando chamou atenção para os “oitenta anos” dessas e de mais duas figuras com excesso de talento: Muniz Sodré e Nei Lopes, cada um a seu modo e em suas áreas, responsáveis por relevantes serviços e obras para a cultura brasileira. Acho que a Flávia só não colocou a Vera porque – que pena! -, não teve ainda o privilégio de conhecê-la, a grandmothern de todas nós e minha amiga, com muito orgulho e saudade. A Vera, Veríssima, só confirma a excelência impressionante dessa safra de gente.

Voltando às fotos: de cara eu fiquei impressionadíssima em como o Milton mudou tão pouco. Ao mesmo tempo, na Rádio Cabeça começou a tocar “Saiba“, do Arnaldo Antunes, essa canção de ninar que eu acho absolutamente genial. A mistura de gente reconhecidamente bacana e vilões incontestáveis quase assusta num primeiro momento, mas cumpre a missão do poeta, de colocá-los todos como humanos que somos. Também faz isso nos propondo o inusitado exercício de imaginar em fraldas e com chupetas gente como Einstein, Freud ou Buda, que se fixaram em nosso imaginário como velhos desde sempre. Em verso ousado e talvez contraindicado para uma lullaby, Antunes também nos iguala pelo final, lembrando da morte, tão certa quanto o fato de que tivemos, todos, pai e mãe. Ou seja, uma canção de ninar improvável, tratando de temas delicados, ainda que aparentemente simples, e que cita Hitler e Fernandinho Beira-Mar, Che Guevara e Simone de Beauvoir. Mas faz tudo isso de um jeito tranquilizador, sereno e sábio, com uma melodia que nos embala e afinal, nos convence de que é isso aí, tudo natural, é assim para todos, e somos todos humanas potências, para o Bem ou para o Mal. A geração de 42 talvez tenha apenas caprichado um pouco mais.

Helê

Tradições dufianas

Quem nos lê há algum tempo sabe que essa é uma das tradições do blogue: um parabéns especial para os leoninos e leoninas que rondam a vida. Às vezes rugem, noutras ronronam, mas são sempre, sempre, objeto do meu afeto e da minha admiração.

Congratulations, leos.

Helê

Uma mãe brasileira*

Quando acabei de assistir a minissérie sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, Pacto Brutal, bateu um pessimismo imenso, comum a quem que vive nesse país injusto e desigual. Inevitável se surpreender e se revoltar com o fato de que os assassinos só foram condenamos por causa do trabalho direto e incansável da mãe da vítima. Na série, ficamos sabendo em detalhe o trabalho investigativo feito pela Glória Perez, seu empenho em convencer testemunhas a prestar depoimento e em zelar, durante 30 anos, pela memória da filha assassinada, sempre passível de ataques. E aí você pensa: se foi assim com a Glória Perez, uma mulher famosa, querida, contratada da maior empresa de comunicação do país, a nós só resta rezar para nunca, nunca mesmo, precisar da Justiça.

Glória, aliás, tem noção do seu lugar de privilégio, se comparado à trajetória de dezenas, centenas de outras mães brasileiras. Lembra das Mães de Acari, todas já falecidas hoje, sem saber o paradeiro de seus filhos. A elas poderíamos juntar muitas outras, como sabemos bem, especialmente no Rio de Janeiro – sempre na vanguarda do crime, como se diz no excelente podcast República das Milícias, uma investigação cuidadosa e reveladora das raízes da configuração atual do poder criminoso na cidade e no Estado.

Falando em podcast, aconteceu que eu vi a série enquanto ouvia os primeiros episódios de “Crime e Castigo“. Foi uma coincidência muito boa, porque o programa da Rádio Novelo procura discutir conceitos como reparação, punitivismo, a diferença entre justiça e vingança, reabilitação. Não é fácil de ouvir, tem depoimentos muito dolorosos. E o exercício de pensar sobre essas questões já é em si desconfortável porque, lembra, a gente tá sempre rezando pra nunca precisar da Justiça. Mas são questões que a cada dia mais nos alcançam, de um jeito ou de outro. Encarcerar resolver? Sempre? Condenar é ter justiça? Existe reparação possível? Reabilitar é uma possibilidade? Nós, sociedade, teremos que nos fazer essas perguntas para rever um sistema obviamente falido, ineficiente e cada dia mais cruel.

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Eu comecei a ver a minissérie para saber exatamente o que tinha acontecido. Eu já era adulta quando tudo aconteceu, lembro bem do choque, das pessoas comentando por semanas, as matérias, programas, reportagens. Mas depois a gente cansa e fica com uma versão assim meio imprecisa dos fatos. Rever algumas gravações da época não deixa de ser uma curiosa viagem no tempo pra quem viveu aquilo – a gente lembra onde estava estudando ou trabalhando, com quem estava, um revival involuntário.

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Foi um crime absolutamente terrível e bizarro, desde sempre. Mas, embora eu tivesse quase a mesma idade da Daniela naquela época, acho que me comovi mais ainda agora, vendo a Glória Perez, e sendo eu mãe de uma jovem de quase 20 anos. É possível que eu tenha chorado mais hoje, vendo o calvário dessa mãe, que a gente tem vontade de abraçar e acolher, mesmo passado tanto tempo, mesmo sabendo que não adianta.

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Acho que a minissérie poderia ter um pouco menos de cenas da Daniella – me incomoda sempre, em todos os programas do tipo, querer mostrar quão boa era a vítima, quando ela não deveria ter morrido independente do seu caráter, personalidade e aspirações. Mas ok, não chegou a resvalar no sensacionalismo. Acho que o documentário falha um pouco no episódio “De onde vem?”, que explora muito do que se sabe sobre o assassino, mas pouco sobre a família da assassina, que parece bastante poderosa. Agora, tem pelo menos duas participações Pilatos no Credo, do tipo nada-a-ver com-porra-nenhuma: a Sônia Abraão posando de jornalista séria e o Roberto Carlos, que só aparece pra dizer que é noveleiro e amigo da Glória. Totalmente dispensáveis.

Helê

*Penei para encontrar um título, e ainda não sei se é o melhor. Mas quando pensei nesse lembrei na hora da pungente “Chora, brasileira“, da Fátima Guedes, cantada pela Nana Caymmi. Então fica esse, com a menção musical.

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