Inimigos imaginários

Quase todo mundo que eu conheço está reclamando de cansaço extremo. E eu não acho que seja por causa da “vida moderna”, o estresse da cidade grande, trabalho demais, nada disso.

Acho que é porque cansa demais levar pancada o tempo todo e não saber nem por onde começar a reagir. É isso: a minha turma foi escolhida como inimiga número um da sociedade – pelo menos pela parcela mais alucinada da sociedade.

O problema é que esses ataques são tipo a Ursal. Quando o Cabo Daciolo tirou da cartola essa teoria da conspiração, o que aconteceu? No dia seguinte, quebrou a internet (pelo menos a internet onde eu circulo). Mas por quê a minha turma achou tanta graça e criou tantos memes? Justamente porque a gente nunca tinha ouvida falar em Ursal. Assim como nunca tínhamos ouvido falar em “marxismo cultural” nem em “ideologia de gênero”. E aí é que mora o perigo: como a gente navega em bolhas, tem um pessoal de outra bolha que está nos julgando (e condenando) com base em coisas que simplesmente não existem.

Ou seja, é pior do que combater inimigos imaginários – coisa que desde Dom Quixote já sabemos que é bem difícil. É que nós fomos transformados em inimigos imaginários e estamos sofrendo ataques reais. Quem descobrir como se defender, capaz que ganhe o Nobel da Paz em 2020.

Então somos acusados de ser comunistas e tentamos responder dentro do conceito que a gente conhece de comunista, dizendo: olha, o comunismo já não existe mais em país nenhum do mundo, etc. Só que não é desse comunismo que se está falando. Comunista, na linguagem da direita populista, é qualquer um que se oponha ao seu projeto moralizante-autoritário travestido de anti-sistêmico. Incluindo a Veja, o Papa Francisco, etc.

E é com base nessa realidade que só podemos chamar de “alternativa” (aliás, faça um favor a si mesmo e leia esse artigo do linguista Jan Blommaert sobre “fatos alternativos”) que são tomadas decisões importantes sobre políticas públicas.

Tipo o contingenciamento de verbas das universidades e institutos federais.

Tirar dinheiro dos “doutrinadores” não vai fazer as pessoas mudarem seu pensamento. Se a UFRJ não tiver comida no bandejão, se a UFF não tiver segurança nos campi, se o Colégio Pedro II ficar sem luz elétrica (sem telefone já está, há mais de um ano)… os professores e os estudantes continuarão pensando as mesmas coisas que pensam hoje com luz, segurança e comida. Talvez eles só não possam mais debater essas coisas em sala de aula, porque as aulas terão que ser suspensas.

Mas isso seria exatamente o significado da metáfora “matar um mosquito com tiro de canhão”. Sendo que o mosquito, no caso, nem existe.

-Monix

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Fogo nos racistas

A frase é um mote de Yuri Marçal. Sabe quem é? Não? Pois é…

Esse menino (tem 25 anos) é um talentoso humorista que no domingo passado lotou o Vivo Rio, uma das maiores casas de espetáculos do Rio de Janeiro, fazendo um show solo. Contou com a divulgação de suas mídias sociais (basicamente YouTube e Instagram). Ele não tem contrato com a Vênus Platinada, ele não ganhou um milhão de reais investindo em ações, não participou de nenhum reality show. Não é filho do Chico Anysio nem afilhado do Jô Soares, nem faz parte de um grupo de cassetas ou de portas. Ele faz stand up, um gênero bem popular nos EUA mas sem tradição aqui; Yuri segurou uma plateia de 2 mil pessoas durante mais de hora e meia só com o microfone e um banquinho, apenas. Sem apelação, sem comédia física (que também tem seu valor e lugar), sem se fixar em estereótipos. Ah, a propósito: criado em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro,  ele é de origem pobre e, advinha? negro. Fala sobre racismo e relações raciais como ninguém antes falou no entretenimento brasileiro. Reuniu num domingo de fim de mês (quem sabe o que isso representa vai entender a referência) centenas de pessoas – a grande maioria de negras e negros – ansiosos por diversão mas também por afirmação, identificação, celebração e pertencimento. Foi lindo de ver, foi emocionante de participar, foi histórico.

Não deu no jornal, não saiu no portal, mas eu estava lá e vim aqui contar pra vocês.

De nada.

Yuri, Ícaro e D. Márcia Marçal

#FogonosRacistas

Helê

Educação, balbúrdia, vida

Eu não fui, nos anos da educação básica, uma aluna estudiosa. Fui, sim, interessada, participativa, curiosa. Mas não estudiosa.

Daí que quando me formei na graduação fiz uma pequena cerimônia de libertação, rasgando as folhas do fichário que usei na faculdade, os textos em xerox que já não seriam mais necessários, etc. E à la Scarlett O’Hara fiz uma promessa mais ou menos solene de que nunca mais passaria fom… ops, não era isso. A promessa era de que nunca mais na vida eu iria estudar.

Mas aos vinte e poucos anos a gente é mesmo besta, não é? E “nunca mais” lá é promessa que se faça?

Enfim. Veio a necessidade de me aperfeiçoar e fui fazer uma pós-graduação. A sensação de ser a “tia” da turma foi engraçada. Eu tinha a idade dos professores, estava pagando para estudar pela primeira vez na vida, para fazê-lo deixava meu filho pequeno em casa com uma babá… não estava lá só pra ter um certificado bonito. Eu queria aprender. E então me vi quebrando minha promessa solene. Estudei, e gostei.

Depois que terminei a pós, fui convidada a dar aulas. Ensinei, e gostei.

Nos últimos anos tem sido assim: às vezes eu estudo, às vezes eu ensino. Acabei de terminar o mestrado. Estudei muito, mais do que nunca na vida. Fui feliz.

Hoje dou a última aula de um curso de extensão na Uerj. Foram cinco (ou seis?) semanas em que frequentei, pela primeira vez, este heróico campus. Cheguei um pouco mais cedo e estou escrevendo este post sentada em um corredor por onde passam estudantes de todos os tipos e tamanhos: uma universidade é, sem falta, um ambiente efervescente, fervilhante, onde a energia da criação é tão intensa que quase pode ser tocada. A Uerj vive porque toda Universidade vive.

Tem balbúrdia, sim, seu ministro que não merece nem ser linkado. Porque a juventude é barulhenta, graças aos deuses. Barulhenta, colorida, entusiasmada, esperançosa e ligeiramente transgressora, como nós, do alto da nossa idade e experiência, muitas vezes não conseguimos mais ser.

Acho que foi isso que vim buscar quando quis voltar a esse lugar. E encontrei.

-Monix-

Monix Day – edição 2019

É hoje, gente!

Dia de afofar nossa mais recente mestra, nossa querida Hermione que também atende por Aria Stark, e é só charme discreto e sorriso nesse flagrante obtido por um dos muitos paparazzi que nos perseguem, hahahaha! Mandem comentários, felicitações, presentes, elogios, fofices – nudes não, que a moça é comprometidíssima.

Queridona, vou pegar todos os desejos dos últimos Monix day e dobrar a meta, combinado? Seja feliz sem moderação.

Amo você,

Helê

Rabugices & implicâncias

Pode ser que a idade esteja me deixando mais ranzinza ou apenas removendo meus filtros (estágio da vida também conhecido com Síndrome de Dercy Gonçalves, quando você acha que a idade é salvo conduto para sua personalidade. Perigoso ou divertido, depende da narrativa). Mas a verdade é que me sinto cada vez mais sem paciência para certas coisas, e reviro os olhos tão forte que as me doem as órbitas. São várias pequenas coisas, entre as quais agora me lembro dessas:

 
– a expressão apreender menor, para falar da prisão de infratores crianças ou adolescentes. Não, apenas não. Você apreende cocaína, carro roubado, 15 quilos de ecstasy, você não apreende uma pessoa. (E quase se esquece do que se trata – pessoa – usando apenas um adjetivo que determina que ela é menos que… qualquer um, um menor). Inventaram isso de “apreender”  de uns tempos pra cá e deve ter alguma razão, mas nunca me apresentaram nenhuma e como eu gosto das palavras, defendo suas funções e significados. Se a prisão de um menor de idade é diferente da de um adulto, ele não pode ser detido, recluso, internado, até recolhido (que também não me agrada), no melhor dos mundos, acolhido? Apreendido é droga, arma e bicho – é disso mesmo que estamos falando?


– Profissão: criativo. Puta.que.pariu. Desculpaí, mas eu não consigo ler ou ouvir isso sem uma reação intensa, que varia entre um palavrão e uma gargalhada. Porque pra mim situa-se entre a arrogância e a completa falta de noção. “O que você faz?” “Sou criativo.” Eu tenho vontade de responder: “eu sou honesta. Eu queria mesmo ser bonita, mas a relação candidato/vaga…”. Imagina se os médicos resolverem agora  que se chamam salvadores. Então você nomeia a sua função com a qualidade mais apreciada na sua profissão? Isso me parece uma jogada publicitária…ruim, muito ruim.

– o que me leva a outra roll my eye balls muito forte: propagandas de entidades assistenciais. São todas dolorosamente deprimentes e eu tiro do canal todas as vezes que elas começam. As músicas são tristes, as imagens pavorosas, são sempre loooongas demais e quando o controle some e você não consegue tirar do canal, esses comerciais só conseguem me provocar pena e culpa por não estar querendo ver aquilo. Nunca vi um sequer que tenha me motivado a fazer uma doação, e todas essas instituições fazem trabalhos inquestionavelmente importantes: Médicos sem Fronteiras, Action Aid, Unicef, todas elas vão a lugares onde governos não chegam e realizam o trabalho que ninguém quer fazer. Mas a propaganda que fazem é péssima porque não estabelece empatia com o público, e causa incômodo. Até nós, consumidores, já descobrimos que a propaganda lida com emoções. Vender tênis e cerveja: ok; engajar pessoas em doações humanitárias está na coluna de desafios. Eu não sei como fazer , mas eu fiz jornalismo e não publicidade – cadê o criativo quando a gente precisa dele?

Helê

PS: Amanhã é aniversário da Monix, depois não vale dizer que não comprou presente porque não sabia….

Eu estou feliz porque sou da sua Companhia

Helê

Breviário Dufas

Somos, como se sabe,  duas senhoras. Juntas, somamos quase cem anos… de conexão. Tão senhoras que usamos a palavra breviário (!). Em quase 15 anos de blogagem,  cunhamos algumas máximas (e outras tantas mínimas). Aceitamos contribuições que nós porventura tenhamos esquecido:

  • Antes tarde do que mais tarde ainda.
  • calabocajámorreuquemmandanomeubloguesoueu.
  • Não me peça de graça a única coisa pela qual eu posso cobrar.
  • Escrever, essa arte de fazer pessoas e influenciar amigos. Ou vice versa.
  • Não se amplia a voz dos imbecis.
  • Servimos melhor para servir sempre. 
  • Coerência: não trabalhamos.

Las Dos Fridas

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