Sócia da ditadura

Relatórios indicam a contribuição da Volkswagen na repressão a trabalhadores durante a ditadura militar (Foto: Divulgação)

Esbarrei nessa matéria no Estadão: “Indenização de Volks será usada para investigar outras empresas que apoiaram ditadura“. Foi o que mais chamou minha atenção nos jornais hoje porque, como diz Monix, antes tarde que mais tarde ainda. Mas achei meio nebulosa, faltavam informações. Daí encontrei essa:

VOLKSWAGEN FECHA ACORDO DE R$ 36,3 MI PARA REPARAR VIOLAÇÕES DURANTE A DITADURA MILITAR

Essa sim, vale o clique: bem escrita e completa, sanou a maioria das interrogações que a outra provocou. Curioso que seja publicado na revista Autoesporte quando deveria estar na editoria de política. Mas considerando o governo atual, agradeça que saiu a matéria e olhe lá. Sintomático que uma empresa alemã faça um ajuste de contas que os governos democráticos não quiseram/puderam/conseguiram fazer em 30 anos (e deu no que deu… ).

Quando li no Estadão pensei que “a conta sempre chega”, até para as empresas. Pensei até em escrever sobre no Linkedin, alertando CEOs e gestores – mas talvez o tema seja indigesto para a plataforma e não ajude a me “recolocar no mercado” (esse eufemismo cínico para “superar o desemprego e ser contratada”). Depois da matéria no Autoesporte pensei: “R$36 milhões foi é pouco!”, porque se os caras, com um pesquisador próprio, toparam pagar, é porque devem mais do que admitem. Assinaram um TAC que os livra de futuras ações – quanto elas poderiam render? De todo modo, ainda que possa não ser o melhor acordo ou o mais justo, já é bom que exista. Afinal, nesta terra em que anistia é sinônimo de esquecimento e deus mercado rege tudo e todos, veja só, uma empresa expia sua culpa por ter ajudado um regime autoritário e espúrio. Quem diria.

Helê

Narciso maduro

Caetano Veloso anda em evidência nos últimos tempos, seja na internet, seja nos meios de comunicação tradicionais. O Sol entrou em Leão em julho e Caetano em nossa casa em 7/8, na lendária live em comemorou 78 anos cantando juntos dos filhos um repertório de sucessos mas que não foi óbvio. Pareceu escolhido com intenção desde a canção de abertura, a definitiva “Milagres do Povo”.

Quem descobriu o Brasil foi o negro que viu a crueldade bem de frente

e ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente

Talvez o certo fosse dizer que nós entramos na casa de Caetano (mas aí eu perderia a metáfora do início do texto e o que a gente não faz por uma, não é mesmo?) O clima foi intimista, com aquela formação familiar em linha em frente a uma estante repleta de símbolos posteriormente comentados e decodificados no twitter, esse reino da semiótica e da frivolidade.

E então Caetano Veloso voltou a “bombar” por causa do lançamento de “Narciso em férias” o excelente documentário dirigido por Ricardo Callil e Renato Terra. É chocante e deprimente assistir esse filme no contexto de um governo militar eleito democraticamente. Mas ainda assim é necessário. Talvez nesse momento seja ainda mais importante destacar a violência arbitrária, brutal e burra de que são capazes os militares brasileiros. Não digam que depois que não sabiam.

“Narciso em férias” também é bastante intimista, com seu cenário duro e revelações igualmente despidas de enfeites, algumas surpreendentemente íntimas – brutally honest, dizem com precisão os americanos. Emociona, revolta, diverte até.

Em determinado momento, o baiano se manifesta com veemência um anti-comunista; em várias entrevistas de lançamento do documentário ele aproveitou para fazer uma nota de pé de página a essa afirmação e rever suas crenças liberais. Creditou ao jovem  historiador Jones Manoel essa mudança. Afirmou repetidas vezes que as falas de Manoel e sua indicação da obra de Domenico Losurdo abriram sua cabeça e o fizeram menos liberalóide.

O liberalismo, claro, atingido na alma, tratou de se mexer, e a internet foi palco de variadas tretas. Curiosamente, Caetano foi parcialmente poupado; Jones Manoel, o jovem historiador negro de origem periférica, foi tachado de stalinista e reduzido a mero “treteiro de twitter”.  Na verdade não há nada de curioso nisso, apenas o racismo e classismo nossos de cada dia.

Mas eu acho que a internet miss the point, como de costume. Pelo menos o meu ponto, que não estou interessada em discutir stalinismo a essa altura do campeonato. O que me parece mais cintilante nesse rebuceteio digital é o frescor de um homem velho (que deixa vida e morte para trás), aos 78 anos, capaz de mudar de opinião e defender essa mudança. Que reconhece a ascendência de um jovem professor sobre suas ideias. Caetano tem esse passe fluido e orgânico entre os mais jovens que ele (é colaborador da Mídia Ninja, por exemplo), sem querer ser ou parecer jovem. Sendo ele mesmo, um velho baiano, que faz menção à própria idade às vezes, outras não. Ele sempre tão leonino , se mostra nesse episódio  generoso e humilde – e, para mim, brilha ainda mais por isso. 

Helê

Viva Walter Firmo ou saudades do Brasil

Hoje lembrei daquela foto icônica de Pixinguinha sob uma árvore, numa cadeira de balanço, numa ambiente que em muito me lembra a casa de minha vó em Marechal Hermes. Em seguida, veio à mente imagem de Clementina de Jesus sentada sobre folhas, e pensei em Walter Firmo com saudade, carinho e alegria, como quando a gente escuta sem querer uma música que gosta muito mas não ouvia há tempos.

Atravessei o portal encantado do Google e vaguei bastante por essa internet de meu deus. Primeiro fui checar e Mestre Firmo taí firme e forte, aos 83 anos (louvado seja!). Fui ao mesmo tempo vendo e lembrando de imagens penduradas na minha memória de poucas paredes e muitas caixas: Cartola, Dona Ivone Lara (linda!), Quelé em muitas poses, sempre divindade; e muitas, muitas fotos dessa figura poética, mística e etérea que se chama povo brasileiro e só se materializa diante de quem consegue lhe dar os contornos e luzes que merece. Muita gente preta, acho que ninguém nos fotografou tanto e tão bem. Será que já reverenciamos Walter Firmo o tanto que ele merece? Porque eu me sinto em dívida; sei que ele tem sua cota na minha formação, especialmente no tocante à negritude – que me constitui, identifica e sustenta.

 

Dona Neuma e Dona Zica; a foto do Pixinguinha que até de costas é incrível; Cartola e Nelson Cavaquinho; Madame Satã saindo do escuro; Ivone ainda sem ser dona; Jamelão; Cartola abraçado, Artur Bispo do Rosário; instantâneos do Brasil

Como blogue serve (também) pra fazer as homenagens que a gente acha justas e necessárias, fiz esse post como reconhecimento e agradecimento ao grande fotógrafo Walter Firmo. Também um beijo escrito, ou a transcrição do beijo dado e recebido com igual prazer, na foto em que a geolocalização está toda descrita em luz, sombra e cor, sem necessidade de legenda alguma.

Precisei me obrigar a parar ou essa galeria seria ainda mais extensa. A beleza dessas imagens me leva a tantos lugares, no tempo e no espaço, no passado e no futuro, que é difícil parar de vê-las. Embora elas também contenham, pra mim, uma dose amarga de melancolia. Eu ando por demais desiludida com esse país, triste, sem esperança alguma e até com alguma raiva da minha incapacidade de perceber o tanto de feiura e violência de que também somos feitos. Não posso mais olhar para essas fotos e pensar ingenuamente que esse é “O Brasil que merece o Brasil” (título da última exposição de Firmo). Ou ver Caetano naquela live delicada e potente e pensar que há um caminho para o Brasil. Como se existisse um país da beleza e outro em que o ódio tem gabinete na capital. É tudo a mesma suposta nação, argamassa, pedra e cimento da mesma construção que já é ruína, como cantou precisamente o mesmo Caetano.

O professor Luiz Antônio Simas, sabidíssimo, que eu admiro e com quem aprendo, sempre disse, mesmo antes desta fratura exposta em vivemos neste inacreditável 2020, que detesta o Brasil (seu autoritarismo, conservadorismo, patentes e colonialismos) mas a ama a brasilidade (as festas, as frestas, a rua, os ritmos). Uma solução plausível, mas que ainda não me conforma, nem conforta. Há em mim uma fratura e um desacerto, um desassossego incômodo que precisarei apaziguar para olhar as fotos de Walter Firmo sem que o sorriso ameace virar lágrima.

Helê

Estrelado

Da série Corações.

Helê

Menos um Mais Velho

John Bazemore/AP

Porque, como C. me ensinou, “a diáspora é um deslocamento definitivo”, a despedida de um grande de lá ecoa também aqui. Mesmo um país cada vez mais tensionado – com uma pandemia descontrolada (como aqui) e uma campanha eleitoral em curso – parou para render justas homenagens a um grande, o deputado John Lewis. Um defensor dos direitos civis, o mais jovem orador da marcha de Um Milhão de Negros em Washington – a do “I Have a Dream”; discípulo e amigo de Martin Luther King, Lewis viveu um dos papeis mais difíceis para um revolucionário: o de resistir ao tempo e permanecer relevante.

A CNN publicou uma impecável galeria de fotos do funeral. A que abre este post, com seu corpo cruzando pela última vez a ponte em Selma, me emocionou profundamente. Oprah, que o reverenciou diversas vezes em vida, lembrou que, entre as coisas que esse homem que fez História não dispensava estava a canção “Happy”, de Pharrel Williams: “It has the ability to lift my spirits and touch my being and soul.”

E encontrei um tuíte de palavras simples mas grandiosas – sobretudo ditas por alguém com um trajetória tão longa e rica – que podem nos servir nesse momento em que não podemos dispensar “words of wisdom”. Esses três instantâneos de John Lewis eu deixo aqui, como registro, despedida e homenagem.

Helê

Brasil, mostra tua cara

Daí que 1988 não é só outra época; talvez seja outro planeta.

Rever uma novela tão emblemática como Vale Tudo é, antes de qualquer coisa, uma experiência no mundo bizarro. No plano material, cada cena é um mergulho em uma indagação sobre como vivíamos “sem” tal coisa, ou “com” tal coisa. Telefones de fio (em um dos cenários o telefone tem o fio todo enrolado, coisa que deixava meu pai maluco), videocassetes, disc-lasers (era assim que chamávamos os moderníssmos CDs no final dos anos 80, crianças), computadores grandalhões e disquetes, máquinas de telex (!), até os eletrodomésticos pesadões e quadradões, tudo me espanta. Os carros, meu Deus, os carros. 1988 foi antes do Collor dizer que os carros brasileiros eram todos umas carroças, ofendendo a indústria automobilística nacional e os defensores da reserva de mercado (é, crianças, pesquisem). Spoiler alert: eram mesmo. (Voltarei ao Collor daqui a pouco.) 1988 foi antes de o fax chegar a Brasil. E não me façam começar a falar de roupas e penteados, porque né?

figurino solange vale tudo - Pesquisa Google | Figurino, Moda, Solange
Ombreiras, minha gente, isso já existiu.

Não sei se na época era claro para mim, mas Vale Tudo parte de uma premissa (e tudo na novela gira em torno dela): a desonestidade estrutural da sociedade brasileira. A trama central se baseia nas interpretações diferentes que Raquel (a mãe) e Fátima (a filha) fazem dessa constatação inicial. Raquel acha que se todos são desonestos, cabe a ela (e a todos que a cercam) corrigir isso por meio de ações estritamente éticas. Já Fátima entende que se todo mundo torce as regras para se dar bem, a solução é abandonar qualquer senso ético como única forma de sobreviver nesse mundo cruel.

A música-tema tem um dos versos mais contundentes do rock nacional, de autoria de Cazuza: “o meu cartão de crédito é uma navalha”…

Assistir a esse dilema tendo como pano de fundo a conjuntura de 2020 dá margem a muitas reflexões.

Primeira: a novela acabou em janeiro de 1989. Em novembro, tivemos a primeira eleição direta para presidente em 29 anos. E elegemos (opa, nós quem, cara-pálida?) Fernando Collor de Mello, que baseou sua campanha na ideia de caçar “marajás”, funcionários públicos que ganhavam super salários sem trabalhar. Fala-se muito da influência das novelas da época sobre a mentalidade nacional que resultou em sua vitória, especialmente as exibidas nos meses da campanha, como O Salvador da Pátria e Que Rei Sou Eu?, mas a ideia de uma “faxina ética” direcionada apenas (ou principalmente) à classe política, olhando em retrospectiva, parece ter sido uma simplificação tremenda.

Segunda: em Vale Tudo, a corrupção está em todas as instâncias da sociedade brasileira, e ali são retratadas principalmente as mais cotidianas, com um foco especial na corrupção no setor privado: um dos vilões se dedica a desviar recursos da empresa familiar. Mais de trinta anos depois, parece que nosso foco se desviou para o “andar de cima”, a política partidária e institucional, e aquele papo sobre como a corrupção começa com quem molha a mão do guarda (que, diga-se de passagem, é outra simplificação besta, mas enfim, é um ponto de partida) foi praticamente esquecido.

Terceira: a parte da novela que fala de crise econômica e desemprego, tirando as questões ligadas à inflação, é tristemente atual. No entanto, um detalhe me chamou a atenção. A moeda era o cruzado, e tudo custava milhares de. Mas, para conseguir acompanhar os valores das coisas, percebi que tirando um zero de cada preço eu chegaria mais ou menos ao tanto que elas custariam hoje. As únicas exceções foram a diária da faxineira, que pela minha equivalência tabajara hoje vale 3 vezes mais (alvíssaras!), e o câmbio do dólar, que hoje, bizarramente, mesmo com a taxa absurdamente alta, seria seis vezes mais caro, se fosse mantida a proporção da época em relação aos preços das outras coisas.

Quarta: a exemplo de boa parte das obras de ficção, e não só as brasileiras, os vilões são pessoas muito mais interessantes. Até aí, nada de novo. Acho essa questão bem problemática, e isso talvez seja assunto para outro post. Mas em Vale Tudo os mocinhos de modo geral são muito chatos, e a suposta heroína, Raquel, é insuportável na sua unidimensionalidade — seus chiliques e suas lições de moral parecem, vistos de hoje, um ensaio canastrão para sua meteórica e constrangedora passagem pelo governo federal. Parece que Regina Duarte acreditou na personagem que interpretou três décadas atrás, e comprou aquele discurso fajuto de “vamos moralizar o país”. Raquel, a chata, com certeza seria uma bolsomonion (e pior, uma “tia do zap”) em 2020.

Quinta: há, no entanto, honrosas exceções a esse padrão de mocinhos unidimensionais, e elas se encontram principalmente nas personagens que encarnam os temas “polêmicos” que toda novela que se preza precisa abordar. A Heleninha Roitman que vejo hoje me parece bem mais interessante (na época eu a achava chata, provavelmente por conta da interpretação excessivamente dramatizada de Renata Sorrah, que eu não curto). A relação de Laís e Cecília marcou época, mas é engraçado ver como elas eram apresentadas como “amigas” e ninguém falava diretamente sobre o fato de obviamente serem um casal — até que uma delas morre e a questão da herança entra no meio. Tem sido interessante lembrar que estávamos saindo de um longo período em que produtos culturais e artísticos sofriam censura prévia, e que de repente se podia falar de certos assuntos. No Brasil de Damares, não sabemos até quando.

Há outra muitas reflexões possíveis, claro. Se quiser, deixe as suas nos comentários. Eu por aqui fico pensando que na verdade, fora cenários e figurinos, o Brasil de 2020 é de novo tristemente parecido com o de 1988.

-Monix-

Válter e eu

“Breaking Bad” estreou em 2008 e terminou em 2013; suspeito que não há nada sobre a série que não tenha sido dito. Apesar disso, escrevo – para registrar as impressões que causou em mim, para trocar figurinha com outros que viram, e também para tentar me despedir de Válter (como eu chamo Walter White/Heisenberg desde o início, nem sei porque). Terminei a série há semanas mas essa história ainda reverbera em mim. Algo me capturou de maneira irremediável no percurso desse homem que no meio da vida faz um desvio radical. As condições de temperatura e pressão capazes de provocar, acelerar ou impedir essa mudança; a perseguição de um desejo que, afinal, não era genuíno; a felicidade num lugar diferente de onde a procuramos, tudo isso (e mais) me incluiu entre os entusiastas da série.

Tinha tentado ver BrBa antes e achei o primeiro episódio chato e arrastado (o que me parece totalmente incompreensível agora). A quarentena me pareceu a ocasião perfeita para tentar novamente. Minha conversão se deu aos poucos. No começo eu dizia que só queria saber como Válter perdeu as calças. Porque tudo começa com a dita cuja voando e a intrigante cena desse homem de cuecas numa paisagem árida gravando um vídeo de despedida para a família. Um começo que condensa muito do trágico, patético, engraçado, tenso e dramático que viria a seguir.

O episódio começa pelo fim; após essa cena bizarra nós somos apresentados a esse cidadão mediano e sua vida medíocre que, aos 50 anos, é presenteado com um câncer de pulmão em estágio avançado e decide prover sua família nos meses que lhe restam produzindo a melhor metanfetamina do mercado. (Como é que eu não me interessei por isso antes?) Nos primeiros episódios parece que tudo que pode dar errado dá, e segui movida pela curiosidade em ver quando esse cara ia se dar mal, o que parecia inevitável e iminente.

Aos poucos fui pegando gosto pela história, pelos personagens, locações (eu tenho um fraco por desertos). Aliás, o fato de ser ambientada no Novo México confere tons especiais à narrativa. Uma paleta de cores terrosas domina a paisagem e a vida das pessoas, compondo uma atmosfera peculiar: esta não é a América glamurosa e idealizada que a gente costuma ver na tevê. Pelo contrário, é uma quase esquecida, perto demais do incômodo e subdesenvolvido vizinho latino. Mas nem por isso é menos América. 

Vale dizer que a escolha do local foi um dos vários aspectos não programados da série – e eles são muitos e surpreendentes. As filmagens, que seriam na Califórnia, mudaram para o Novo México por detalhes técnicos. O personagem Jesse Pinkman duraria apenas alguns episódios da primeira temporada, mas a interpretação visceral de Aaron Paul fez Jesse sobreviver — inclusive à série. E várias outras pequenas histórias como essa se acumulam nas muitas entrevistas e reportagens disponíveis sobre BrBa . A produção soube tirar vantagens do acaso e se adaptar bem aos imprevistos naturais de uma produção do tipo.

Um ponto alto de Breaking Bad está no aspecto visual — não tenho certeza se “direção de fotografia” dá conta de tudo a que me refiro; se sim, ela é primorosa. Há engenho na escolha dos enquadramentos, nos objetos de cena, no movimento da câmera — nada é por acaso, e quase tudo tem um significado. Eles fazem “rimas visuais”, como alguém nomeou: uma cena que faz lembrar outra sem que sejam iguais. São detalhes que perdem a força e até mesmo o sentido se descritos, precisam ser vistos. A história de Válter é contada por diálogos e silêncios, planos, contraplanos, uma ótima trilha sonora e tudo mais que carateriza um bom produto audiovisual.

Nada disso se sustentaria sem excelentes interpretações, sendo Brian Cranston o destaque absoluto. Salvo ignorância minha, ele fez de BrBa o que Válter fez com o câncer: uma oportunidade para fazer algo grandioso em uma carreira até ali mediana. Sua interpretação arrebatadora, sob todos os aspectos memorável, foi capaz de nos manter interessados nesse personagem que desprezamos muitas vezes, pelo qual torcemos para que se foda tantas outras, mas com quem estabelecemos uma ligação incontestável. E que também despertou nossa empatia e compaixão.

Válter não é um personagem agradável. Em determinado ponto da trama eu me dei conta de que não gostava dele, mas podia compreendê-lo e até torcer a favor dele, aqui e ali. Gostar a gente gosta do Pinkman, a irresistível empatia pelo adolescente perdido que todo mundo foi um dia, em certa medida. Mas Válter, não: é um adulto que utiliza a doença terminal como passe para jogar fora seu compasso moral com a desculpa mais nobre  – pelo bem da família. Alguém contraditório, perdido, corajoso, confuso , culpado e até mesmo piedoso, embora a sua imagem violenta, egoísta e cruel tenha prevalecido.

 

Isso, aliás, me incomoda um pouco no fandom de Breaking Bad. A série tem em torno de si uma aura de veneração: há uma legião de apaixonados capaz de discutir teorias, contestar falas e produzir artes incríveis, mesmo anos depois do fim. Mas percebo um viés equivocado em ver Válter quase como um super herói. É como se não tivessem reparado que, o tempo todo, era de ambivalência e ambiguidade que falavam Vince Guillian ( o criador da série) e Cranston em sua interpretação multidimensional. Mesmo nas temporadas finais, quando Válter fica mais Heinsenberg, não desaparece a sombra do medo, da dúvida e da dor em sua face. (Não por acaso, num momento de vitória absoluta, ele tem um curativo no meio da cara, uma lembrança incômoda de sua fragilidade).

Suspeito que essa mesma galera que enaltece o Heinsenberg é a mesma que hostiliza sua esposa, Skyler, creditando a ela a responsabilidade pela infelicidade do Válter, a mulher controladora que o mantém cerceado nos limites de um casamento opressivo. Acho essa uma visão simplista e machista (desculpem a redundância). No casamento, é preciso dois para fracassar ou ser feliz, a culpa nunca é apenas de uma pessoa (eu sei, I’ve been there, e voltei pra contar). Skyler ama Válter profundamente e isso fica claro muito mais por suas ações que pelas palavras. Tenta compreendê-lo e ficar ao seu lado mesmo quando descobre suas atividades. É ela que faz Válter confrontar suas reais motivações quando lhe pregunta “quanto é suficiente”. Enquanto Válter encarna o macho típico na falta de contato com as próprias emoções, no desconhecimento de seus desejos verdadeiros e na ontológica inabilidade de comunicação.

Apesar disso, não o considero um monstro. As circunstâncias e suas escolhas o levaram a fazer coisas monstruosas, mas Válter me parece tão humano quanto eu e você, e é isso que o torna assustador, terrível, e também sedutor. Um mentiroso contumaz cujas mentiras mais graves foram contadas para si mesmo. Valter é ao mesmo tempo seu próprio herói e algoz, na busca por se redimir da sua mediocridade.

Poderia falar muitas outras coisas sobre BrBa, mas a ideia é se despedir, não falar sem parar. Quero destacar apenas mais dois aspectos: Breaking Bad não mima nem subestima a audiência. Os personagens não ficam justificando seus atos, explicando suas razões; muito pelo contrário. Você tira suas conclusões e ao longo da história vai comprovando teorias ou descobrindo mal-entendidos. Talvez por isso até hoje desperte debates apaixonados internet afora.

E por fim, mas não menos importante, Breaking Bad não sucumbiu ao erro comum do universo das séries, que é ser vítima do próprio sucesso. Seu público foi crescendo aos poucos, ao longo das temporadas, mas ali entre a terceira e a quarta já havia quem questionasse o plano do genial Vince Gilligan, de parar na 5ª temporada. Ele se manteve fiel a sua fórmula, sabendo que, como na Química, qualquer alteração muda o resultado final. Vince soube, ao contrário de Válter, a hora certa de parar.

Helê

Sideral

Do Pinterest

Da série Corações

Helê

 

 

Há vagas

Era pra ser apenas mais uma mensagem num grupo de oportunidades de trabalho para jornalistas. Enviaram  o anúncio de uma vaga que pedia candidatos negros ou negras. Pouco tempo depois, alguém enviou a seguinte mensagem: “Estou indignada. Se a pessoa não for negra não é qualificada? Não conhece de cultura negra? AFF!” Logo depois precisei desabilitar as notificações do grupo, as mensagens não paravam, num fluxo constante e implacável: a Indignada foi contestada, com maior ou menor delicadeza  e paciência, por todos os que se manifestaram. Se alguém concordou com ela, calou. Eu fiquei acompanhando: em tempos de quarentena toda treta é distração. Sem me pronunciar, porque tenho preguiça de educar branco – eles que lutem.

A Indignada  tentou responder. A certa altura disse, entre outras coisas, “trabalho e já trabalhei com vários negros, extremamente competentes” (aos berros, utilizando maiúsculas) . Que é outra maneira de dizer “nada contra, tenho até amigos que são”. Apanhou mais que Judas no sábado de Aleluia (essa é velha, hein? Eu também.). Mas “apanhou” sem baixaria, sendo contestada com vários níveis de argumentação. Algumas até bem elaboradas, como a que falava sobre o “pacto narcísico da branquitude”. Não houve xingamento, ela foi chamada apenas e tão somente de racista – errado não tá. Duas pessoas sugeriram que a Indignada deixasse o grupo – o que ela acabou fazendo, menos de uma hora depois da mensagem original, sem dizer adeus. A esmagadora maioria (incluído o moderador do grupo) apoiou os requisitos da vaga e condenou a postura da Indignada.

Eu fiquei surpresa com a força e a unanimidade com que ela foi rechaçada.  Fosse uns anos atrás (não muitos), teria acontecido o oposto: o anúncio, se houvesse, seria mais contestado que defendido. E a composição do grupo não justifica essa reação; jornalista não é mais conscientizado que, sei lá, um engenheiro civil formado (ironia intended). O episódio me parece um sinal de que houve alteração nas relações raciais no Brasil e na compreensão de suas nuances, impasses, forças. Tenho a impressão de que certo discurso, antes restrito ao movimento negro e à academia, transbordou para outros espaços. Estamos inegavelmente mais  conscientes e vocais. Aturamos menos e falamos mais, muito mais  – e melhor. E enquanto adquirimos novos instrumentos  e lapidamos a retórica, os brancos ainda recorrem ao pueril e  rudimentar “tenho até amigos que são”. Sofistiquem-se: deixem de ser racistas.   

Arte de Temi Coker, reproduzida  no Pinterest

Helê

Sem dias

Esperei chegar o dia de hoje para escrever, fiquei bolando rimas para parafrasear o Amyr Klink e um dos livros que eu mais gosto. Mas cheguei aqui e me ocorreu chamar assim, porque são tempos sem tempo, um bloco de lembranças & angústias que parecem ter muitas durações e contagens possíveis, menos o dia como a unidade que conhecíamos até ali, no comecinho de março.

Ficamos sem dias, das primeiras perdas da quarentena. Sem margem, sem pauta, sem borda, sem limites. Parece bom, em alguns momentos até foi, mas nadar sem terra à vista exaure qualquer Phelps.  Eu sigo: afundo às vezes, bóio quando dá e continuo a nadar, continuo a nadar…

Sairemos melhores, sairemos piores…sairemos? Por certo, não há noite que dure para sempre, disse alguém aí que eu esqueci. Mas a ressaca será monumental.

Cem dias. 50 mil mortos, subnotificadamente. I can’t breath. Sem bar. O Átila não deixa a gente sair. Lives. E as lives that matter. O acaso suspenso. Babu e BBB. Sem abraços. Máscaras sem glamour. Afeto que se afasta para se provar verdadeiro. Sem praia. Descorongar  compras. Luto sem presença. Maracatu on line, dançar por celular, fazer terapia na tela, tudo um desafio. Brasil, sempre um desaforo. Eu, mãe, MEI e desempregada, não consegui auxílio –  mas a mulé do Queiroz recebeu que eu vi.

Perdi frila, consegui frila novo, fui preterida na seleção de emprego, recuperei frila, escrevi artigo, o pai infartou, maratonei série, chorei de muitas formas, fiz chamada de vídeo com dona Mamãe on a daily basis,  cuidei da filha, cozinhei com a filha – uma longa lista de receitas, muita farinha e manteiga, vários sucessos e uns poucos fracassos. Rita Lobo parça real oficial. A filha cuidou de mim, rimos de doer a barriga,  brigamos, fizemos as pazes, demos tchau pros vizinhos, batemos panela e agora que saudade!

(Mandei a criança para o campo por proteção, como os londrinos na 2ª Guerra, na esperança que ela ache um guarda roupas mágico ou um adorável monstro de estimação. Mas que volte, nada de virar princesa em outra terra, que fantasia tem limite e se chama Mãe.).

(Óbvio que  a realidade não é exatamente essa, mas quem se importa? Calaboca faleceu e minha narrativa, minhas regras. Embora eu me sinta forçada a confessar o quão distante da verdade estou ao chamar de criança a moça que vai fazer 18 anos em dezembro. Sou contra, fique claro. Além do mais, 18, dezembro….abstrações, afinal.)

Coerência tem, mas, você sabe, acabou faz tempo. Não espere um texto redação do Enem, apresentação, desenvolvimento, conclusão (aliás #adiaEnem), que não vamos estar entregando, senhor. Passe outra hora. Sua ligação é muito importante para nós.

*

Distribuí Vales Comemoração pros aniversariante todos, sem prazo de validade, não-cumulativos.  Mas niver sem festa, São Jorge sem  samba, São João sem quadrilha, canjica sem convidados, olha, vô ti contá!… Sobre o próximo carnaval eu acho melhor a gente mudar de assunto e falar do que consegue dar conta.

*

Escreva, anote, rabisque o que você sente, vê, lembra, o que quer esquecer, o que precisa lembrar, o que te fez rir, o que você não pára de amar. Registre, guarde. Talvez para os escafandristas que virão explorar teus armários, teu vãos. Para mostrar para filhos e netos mais tarde, é a nossa gripe espanhola, disse G. Ou só para experimentar essa outra dimensão do tempo que é escrever.

Helê

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