18 anos juntas

O Dufas já pode tirar carteira

Sim, gente, nós contamos nos dedos (enquanto cabe!) e recontamos, e hoje completamos dezoito anos de blogueiragem (blogagem, bloguices?) Cês têm noção? Porque a gente não tinha, quando embarcou nessa, de quanto duraríamos e até onde iríamos. E continuamos sem ter, porque pra nós sempre importou mais a viagem e os companheiros de trajeto que propriamente o destino. Na verdade, a gente nunca quis chegar a algum lugar, mas seguir navegando, porque a gente sabe que é preciso. E registrando pelo caminho, que a palavra é o nosso (ganha) pão e pedra, é o que nos alimenta e funda, em meio às intempéries da vida.

18 fucking anos emitindo opiniões nunca-solicitadas (mas quase sempre bem-recebidas), dezoito anos fazendo amigos e influenciando pessoas, prestando atenção em cores que a gente não sabe o nome, organizando o movimento e orientando o carnaval, levantando, sacodindo a poeira e dando a volta por cima.

Talvez a gente não tenha sido totalmente honesta quando disse que não queria chegar a lugar nenhum: a gente sempre quis, e ainda deseja intensamente, chegar até você, leitora; encontrar você, leitor. Isso sempre foi o nosso maior prazer: conhecer gente, criar pontes, abolir muros e promover cirandas – reais, virtuais, possíveis, afetuosas, solidárias, democráticas. Ciranda, claro, que a gente é de Humanas como muito orgulho com muito amor. Então a gente agradece mais uma vez a você que está lendo este post nesse momento. Muito obrigada, de coração. Enquanto pousar um par de olhos sobre nós, aqui estaremos.
E se quiserem aproveitar para deixar um parabéns, um olá ou o que mais quiser nos comentários, essa é a chance perfeita!

As Duas Fridas, agora na maioridade :-D

Celebração

– Desculpa perguntar, mas que evento é esse que vocês estão indo?,

questionou o motorista do Uber, com respeito e curiosidade.

– Está tendo uma feira de leitura na cidade, e hoje, aqui, vai falar uma escritor da Nigéria,

que mora nos Estados Unidos – respondi, resumindo.

– Porque essa é a terceira corrida que eu pego pra lá!

– Sério? Quem bacana! Quem diria que um evento de literatura ia atrair tanta gente…Que bom!

– É mesmo, existe vida fora do celular, concluiu o motorista.

Esse diálogo peculiar iniciou uma noite idem, em que reencontrei o Maracanãzinho depois de muito tempo. Não era um evento esportivo como os que ele costuma receber; nem um show extraordinário como o do Chico Buarque, décadas atrás, que fez o pobre voltar ao palco muitas e muitas vezes. Estávamos ali para ver Chimamanda Adichie. Éramos muitos, muitos pretos, muito felizes de aglomerar em torno, veja você, de uma escritora. Mesmo levando em conta os TED Talks e a Beyoncé, que conferem à autora e sua obra alcance multiplicado e uma aura pop, estamos falando de milhares de pessoas num sábado à noite enfrentando fila para ver falar uma mulher que escreve livros (excepcionais, mas livros, esse produto desacreditado  e cuja morte já foi tantas vezes decretada). Uma mulher negra, americana, que exibe com evidente orgulho sua ascendência africana.

O “Bonde da Chima” incluiu la Otra, Monix, minha filha e o namorado e a Caetana, amiga querida de muitos anos – justamente aquela que me iniciou nos letramentos sobre raça e gênero, tanto nos lugares em que trabalhamos juntas como no correr da vida, crescendo filhos, amando gentes, fazendo carnaval e molhando a palavra aqui e ali.  Não programamos, mas estar com ela neste momento foi um presente mútuo, uma alegria especial e uma celebração: vivemos para ver isso, juntas.

Além desse grupo seleto e  significativo, ainda encontramos com outras amigas para quem avisei do evento, achando que podia interessar. Todo mundo contente de estar ali pra ver Chimamanda, que a gente acha que já conhece porque escreve como quem sabe de nós. Por tudo isso, estar no Maracanãzinho já me fez feliz antes mesmo de começar o evento.

E então ela subiu ao palco e eu confesso que me arrepiei, emocionada, como se fosse o início  de um show. Uma figura belíssima e radiante, recebendo do público um carinho quase palpável, que ela buscava retribuir sem firulas mas com sorrisos e sinceridade. Elegante da cabeça aos pés, passando pelas palavras, falou sobre o passado que permanece, a importância de contar histórias, e várias outras coisas bacanas. Nada muito diferente do que já vi em outras palestras ou entrevistas; nenhum ponto mais profundo ou crítico. Mas essa não era mesmo a proposta do Ler, que é um salão do Leitor. A ideia principal é promover esse encontro entre os que leem e os que escrevem, materializando de algum modo essa relação mágica, capaz de nos aproximar de distantes e nos reconhecer em diferentes.

Foi uma noite histórica, como pontuou Djamila Ribeiro, em que celebramos, na figura de Chimamanda, o feminismo negro, a luta antirracista, nossa ancestralidade, ideais libertários, a literatura. Mas foi também uma noite de afetos,  em que celebramos igualmente o encontro e a palavra. Foi bonito de ver e de viver.

Helê  

Calou-se o cavaquinho de Gallotti

Acordei com a notícia terrível da morte do músico Eduardo Galllotti, aos 58 anos de idade. Soube por um post do Pratinha, outro músico-personagem da cidade, e só por isso acreditei no inacreditável. Não era meu amigo, acho que nunca falei com ele, só aplaudi. Era um excelente músico, comandante de memoráveis rodas de samba que frequentei nos últimos anos nesssa cidade que é musical antes de qualquer outra coisa. Desde cedo passa na minha cabeça um filminho mal editado mas com a melhor trilha sonora e as locações são o Trapiche Gamboa, a livraria Folha Seca, o Samba do Peixe e mais outras que não me lembro o nome mas tinham em comum aquele moço de caracóis no cabelo e óculos redondos, que vez por outra também cantava – sempre bons sambas; não necessariamente conhecidos mas de inconstetável beleza – só a fina flor. A perda de alguém como Gallotti é um baque profundo, desnecessário e atordoante: perde o samba, o choro, as rodas, a Lapa, a cidade, a boemia, perdemos todos nós amantes de tudo isso. Uma belíssima matéria da Maria Fortuna no Globo de novembro passado, que exaltava o retorno dele depois do tratamento do câncer, o chamou de ‘elo perdido’, pela habilidade em transitar por rodas em todos os cantos da cidade, fazendo preciosas conexões entre elas: da Tia Surica em Madureira até Paquetá, passando por Botafogo, Vila Isabel e onde mais você imaginar nesse Rio em que cada ribanceira é uma nação. Veja você se o Rio de Janeiro merece perder alguém desse naipe, essa cepa de carioca que é a sua síntese mais necessária e valiosa! Esta cidade, partida em mil pedaços, fragmenta-se e enfraquece mais sem um elo como este; perde-se em tristeza.

Cedo demais, cedo demais.


Obrigada por tudo, Gallotti.

Helê

Duas Fridas, vários Rios

Na verdade, tá tendo: você já pode acessar no Spotify o novo episódio do Podcast das Fridas – o terceiro no total, segundo se descontar a pilota. Nós conversamos sobre o Rio de Janeiro, essa cidade que nos acolhe e repele diariamente, nossa miragem mais real, nosso amor vagabundo compartilhado. Mas será que o Rio que a Helê navega é o mesmo que a Monix atravessa? Correm paralelos, cruzam-se ou só vão se encontrar no Atlântico? Ouça nosso podcast e descubra. E depois passe aqui e diga o que achou, qual é o seu Rio, de que lado você samba e onde a gente se encontra, ok? 😉

E ainda: Opiniões Não-Solicitadas e as sempre imperdíveis Dicas das Fridas.

Sintonize nas Fridas (eita, entreguei a idade!) e divirta-se. Nós adoramos fazer 😁😁.

Helê

São Jorge, carnaval

Eu já reclamei no twitter (onde mais, né?) desse calendário doido em que o carnaval vem depois da Páscoa – e nem católica eu sou, veja você!… Botei a culpa do meu desconforto no ascendente em virgem, mas esse moço definiu melhor:

Tentando abotoar essa camisa existencial e retomar os preceitos fundamentais da vida, lá fui eu no dia 23 para a Igreja de São Jorge, vestida de melindrosa. Porque também era sábado de carnaval, a roupa é vermelha, achei que o Santo entenderia. Em sinal de respeito, tirei a pena da cabeça, na hora da reza.

Foi um reencontro comovido, como têm sido todos na Retomada. Eu, que já choro nessas ocasiões porque a fé me emociona demais, chorei dobrado esses dois anos de ausência, perdas e lutas, em que, apesar de tudo, as roupas e as armas de Jorge protegeram não só a mim, mas também os meus. Salve, Jorge! Sempre! Ogunhê!

São Jorge Ogun no desfile da campeã Império Serrano

Como faço todos os anos, saí da igreja com planos vagos, disposta a andar um pouco pelas redondezas, observando o movimento dos fiéis, disponível para o que a rua oferecesse. Sempre, desde que instaurei pra mim essa tradição de ir à Igreja no dia de Jorge, coisas surprendentes e felizes acontecem: já encontrei rodas de samba memoráveis, já comi feijoada de graça, encontrei amigos, vi apresentações de choro, celebração de umbanda no Campo de Santana, já fui parar na quadra da Estácio de Sá… Desta vez achei que nada aconteceria já que o movimento foi muito menor, mas ao longe ouvi um batuque, fui me aproximando e era um maracatu que veio ao meu encontro. Vinha lindo e potente o Baque Mulher, com sua magnética rainha à frente, e eu fui acompanhando o cortejo, lembrando imediatamente dos passos, como se não fizesse dois anos que eu não dançava. E para que o recado não passasse despercebido, minha mestra no Tambores de Olokun me encontrou no meio do povo, e num abraço esfuziante me convocou: “Volta!”.

Surpreendentes e felizes, eu disse.

Depois disso, fui até a Praça da Harmonia, onde novamente encontrei São Jorge e uma mistura indelével de fiéis e foliões. No caminho, fui abordada por um “frei” (“ô, melindrosa, sabe que horas sai o bloco?”), fiz duas amigas (“Oi, eu sou a Vanessa, ela é a Michele, tá indo pra praça também?”) e ouvi alguém reclamando sozinho pela rua: “É São Jorge, é carnaval, é jogo do Flamengo, assim não dá! Vai ter que ter um auxílio emergencial de mil reais! E quando o Lula for eleito, vai ter outro carnaval!”. Ou seja, puro suco de Rio de Janeiro, só um pouco mais bagunçado que o habitual.

Fora essa rápida saída sacro-profana, o carnaval de abril não me capturou, e nem sei explicar bem o porquê. Só não bateu, simples assim. Acabei curtindo pela tevê, e mesmo assim, só algumas escolas. A Mangueira, belíssima, me fez chorar em camadas com a comissão de frente: o surgimento dos três homenageados, as rosas brotando, a homenagem a Seu Nelson Sargento. É realmente uma lástima que não tenhamos nova oportunidade de vê-la, assim como o magnífico carro em que Seu Delegado bailava etéreo sobre uma caixa de música, bailarino exímio que foi (tive a honra de vê-lo de perto e cumprimentar, juntamente com D. Mocinha, em uma apresentação na Uerj, garbo e elegância inesquecíveis). Não consegui uma boa foto desse carro, o que me fez pensar que o desfile tem uma volatilidade desconcertante. Todos os anos vemos alas refinadas, fantasias primorosas, carros estonteantes por alguns minutos – e isso dentre aquilo que a transmissão monopolizada, precária e parcial decide mostrar, que ainda é apenas uma parte o espetáculo real. A gente não pode normalizar algo tão improvável e espetacular, e deveríamos manter um registro cuidadoso dessa expressão ímpar e magnífica que é o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Que mesmo acontecendo meio fora de lugar no calendário, foi fundamental para restabelecer laços, crenças e esperanças. Além de marcar o tempo: é preciso o carnaval, ou pelo menos o desfile, sua raiz profunda, para que a gente acerte os botões da camisa – ou desista dela de uma vez e vista um collant de lamê.

Quem sabe agora, com Exu devidamente reconhecido e celebrado – ele que deve ser o primeiro a ser servido – não possamos nós, de fato, recomeçar? Laroyê! E que a gente cumpra a obrigação ancestral de ser feliz.
Helê

Monix Day!

Mesmo de volta à vida normal, depois de um carnaval extemporâneo, ainda há motivos para felicidade: hoje é dia dela, a minha sócia, a nossa Monix, Hermione carioca, a melhor anfitriã dessa cidade, e mil outras qualidades que vocês podem lembrar ali embaixo, nos comentários. Vamos para mais uma dose de alegria para celebrar o presente que é tê-la nas nossas vidas, virtual ou digitalmente. Venha festejar e deixe pegadas!

Helê

A gente já sabia!


Gil, que a ABL imortalizou e que aqui sempre foi o nosso Buda Nagô

Um ancestral contemporâneo, um espetacular griô, um artista que fez política com poesia, um gentil trovador dos filhos desse solo, esse senhor nascido no interior da Bahia, pai de muitos filhos e numerosas canções, foi ungido pelo seletíssimo clubinho da Academia Brasileira de Letras na semana passada, um raro momento em que a elite reconheceu a genialidade de alguém de origem simples e negra nesse país. Que bom pra elite, finalmente homenagar aquele que há tempos já haviamos consagrado e pelo que somos sempre gratas, já que, como dia Monix, “para toda e qualquer situação da vida, existe um verso de Gilberto Gil que se encaixa como luva”. Gilberto Passos Gil Moreira na Academia Brasileira de Letras é um orgulho para nós, pretos; um alento para poetas seresteiros namorados; para quem admira a mais sofisticada e acessível arte brasileira, a música popular. E uma oportunidade enorme para que a elite repense seus conceitos e não precise de tanto tempo para ampliar seus horizontes e ver para além do próprio espelho. Com a presença de pessoas como Gil e dona Fernandona nos círculos de poder e glória, nos sentimos também um pouco menos mortais, mais próximos das divinidades. (E nem pensem em questionar a relevância da Academia agora, tá! Tinham que ter falado na vez do Merval, do Sarney. Agora que meu povo tá lá, se faltava relevância, terá!).

Fernanda Montegreno saúda Gil; salve eles!

Helê

Batom é pouco, queremos direitos

Até 1988, o homem era considerado o chefe da família pela lei brasileira. Se ele decidisse mudar de cidade, a mulher e os filhos eram obrigados a acompanhá-lo. 1988, gente. Logo ali. E olha o que dizia o código civil de 1916 (tá, um pouco mais antigo, mas nem tanto assim): uma mulher que tivesse bens e se casasse perdia o direito de administrar o próprio patrimônio. É, o marido passava a controlar tudo. Quer vender a casa que era do sogro e torrar tudo em jogo? Pode.

Quando foi instituída a Assembleia Constituinte, em 1987, 26 mulheres foram eleitas deputadas. Quando assumiram seus mandatos, descobriram que não existia banheiro para elas no plenário da Câmara. A representação feminina ainda é pífia na política brasileira, mas por incrível que pareça já avançamos um bocado. E devemos muitas das conquistas que hoje nos parecem óbvias, como o direito a usar nosso próprio dinheiro ou escolher a cidade onde vamos morar, tanto a essas deputadas quanto a muitas outras mulheres que participaram do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, criado em 1985. Elas estudaram todo o arcabouço legal (nunca pensei em usar essa expressão no blogue hahaha) que na década de 1980 tratava de questões ligadas à vida das mulheres. E descobriram que muita coisa precisava ser mudada. Daí botaram a mão na massa e escreveram um documento chamado Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes, que foi elaborado com a participação de gente do Brasil inteiro. Muitas das demandas dessa carta hoje fazem parte da nossa constituição cidadã.

A bancada feminina na Assembleia Constituinte

Toda essa história está contada no documentário O Lobby do Batom, que tem depoimentos incríveis de várias dessas mulheres que mudaram nossas vidas. A elas, meu muito obrigada.

-Monix-

Temos ódio e nojo à ditadura

As Duas Fridas

Resistência

Encontraram, a 3 mil metros de profundidade, o Endurance, navio de Ernest Shackleton naufragado na Antártida, 107 anos atrás. O estado de conservação foi considerado surpreendente para uma embarcação de madeira construída no início do século passado. E nos vídeos e fotos, podemos distinguir com clareza o nome, como se, tanto tempo depois, ela ainda reafirmasse sua natureza e também a dos homens que ela levou buscando a glória, mas que conseguiram notoriedade pela capacidade de sobreviver a condições impensáveis.

O naufrágio do Endurance ocupa páginas nobres na história da navegação e exploração mundiais, embora a  Expedição Transantártica Imperial não tenha alcançado seu objetivo: fazer a primeira travessia terrestre da Antártica. Guardadas muitas proporções, me lembra um pouco a história do filme Apollo 13 (e digo do filme pq não sei o quanto Hollywood mexeu na história real). Em ambos os casos, o que tinha tudo para ser um fracasso retumbante conseguiu se transformar em vitória épica.

O comandante Shackleton sabia que o gelo polar imobilizaria o Endurance, mas esperava que depois de algum tempo, o soltasse. No entanto, o gelo foi lentamente esmagando o barco, que acabou afundando. Milagrosamente, os ocupantes do navio sobreviveram no continente gelado e foram todos resgatados, meses depois. Os detalhes do salvamento, com Shackleton e alguns poucos homens enfrentando o furioso mar do sul em botes salva-vidas e depois escalando o território desconhecido das ilhas Geórgia do Sul, são daqueles casos em que o real parece ficção. Também atestam até onde se pode ir quando não há opção de voltar.

E hoje, 100 anos após da morte do comandante Shackleton, a imagem de seu navio vem à tona para o mundo, preservado pelas águas que o retiveram. Se não está completo, parece ainda inteiro e altivo, lembrança para que ninguém esqueça essa história incrível, de um tempo em que, como eu já disse, as pessoas eram célebres, e não celebridades. Para que não se esqueçam que seu nome é resistência.

Helê

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