Sem dias

Esperei chegar o dia de hoje para escrever, fiquei bolando rimas para parafrasear o Amyr Klink e um dos livros que eu mais gosto. Mas cheguei aqui e me ocorreu chamar assim, porque são tempos sem tempo, um bloco de lembranças & angústias que parecem ter muitas durações e contagens possíveis, menos o dia como a unidade que conhecíamos até ali, no comecinho de março.

Ficamos sem dias, das primeiras perdas da quarentena. Sem margem, sem pauta, sem borda, sem limites. Parece bom, em alguns momentos até foi, mas nadar sem terra à vista exaure qualquer Phelps.  Eu sigo: afundo às vezes, bóio quando dá e continuo a nadar, continuo a nadar…

Sairemos melhores, sairemos piores…sairemos? Por certo, não há noite que dure para sempre, disse alguém aí que eu esqueci. Mas a ressaca será monumental.

Cem dias. 50 mil mortos, subnotificadamente. I can’t breath. Sem bar. O Átila não deixa a gente sair. Lives. E as lives that matter. O acaso suspenso. Babu e BBB. Sem abraços. Máscaras sem glamour. Afeto que se afasta para se provar verdadeiro. Sem praia. Descorongar  compras. Luto sem presença. Maracatu on line, dançar por celular, fazer terapia na tela, tudo um desafio. Brasil, sempre um desaforo. Eu, mãe, MEI e desempregada, não consegui auxílio –  mas a mulé do Queiroz recebeu que eu vi.

Perdi frila, consegui frila novo, fui preterida na seleção de emprego, recuperei frila, escrevi artigo, o pai infartou, maratonei série, chorei de muitas formas, fiz chamada de vídeo com dona Mamãe on a daily basis,  cuidei da filha, cozinhei com a filha – uma longa lista de receitas, muita farinha e manteiga, vários sucessos e uns poucos fracassos. Rita Lobo parça real oficial. A filha cuidou de mim, rimos de doer a barriga,  brigamos, fizemos as pazes, demos tchau pros vizinhos, batemos panela e agora que saudade!

(Mandei a criança para o campo por proteção, como os londrinos na 2ª Guerra, na esperança que ela ache um guarda roupas mágico ou um adorável monstro de estimação. Mas que volte, nada de virar princesa em outra terra, que fantasia tem limite e se chama Mãe.).

(Óbvio que  a realidade não é exatamente essa, mas quem se importa? Calaboca faleceu e minha narrativa, minhas regras. Embora eu me sinta forçada a confessar o quão distante da verdade estou ao chamar de criança a moça que vai fazer 18 anos em dezembro. Sou contra, fique claro. Além do mais, 18, dezembro….abstrações, afinal.)

Coerência tem, mas, você sabe, acabou faz tempo. Não espere um texto redação do Enem, apresentação, desenvolvimento, conclusão (aliás #adiaEnem), que não vamos estar entregando, senhor. Passe outra hora. Sua ligação é muito importante para nós.

*

Distribuí Vales Comemoração pros aniversariante todos, sem prazo de validade, não-cumulativos.  Mas niver sem festa, São Jorge sem  samba, São João sem quadrilha, canjica sem convidados, olha, vô ti contá!… Sobre o próximo carnaval eu acho melhor a gente mudar de assunto e falar do que consegue dar conta.

*

Escreva, anote, rabisque o que você sente, vê, lembra, o que quer esquecer, o que precisa lembrar, o que te fez rir, o que você não pára de amar. Registre, guarde. Talvez para os escafandristas que virão explorar teus armários, teu vãos. Para mostrar para filhos e netos mais tarde, é a nossa gripe espanhola, disse G. Ou só para experimentar essa outra dimensão do tempo que é escrever.

Helê

Constrangimentos, vilanias, tribunais e contextos

O filme “E o Vento Levou” foi retirado da plataforma de streaming HBO Max ontem, no momento em que grandes protestos contra o racismo e a brutalidade policial, por conta da morte de George Floyd, levam os canais de televisão a revisar o conteúdo oferecido. O longa-metragem de 1939 sobre a Guerra Civil americana, que venceu oito estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme, continua sendo uma das maiores bilheterias de todos os tempos (quando são calculados os ajustes pela inflação), mas sua representação de escravos conformados e heroicos proprietários de escravos é alvo de críticas. (Fonte: UOL)

Eu vi “…E O Vento Levou” algumas vezes na vida. Uma delas enquanto esperava pacientemente o intervalo entre as contrações diminuir para que o trabalho de parto enfim começasse, há quase 18 anos.

Alguns meses atrás comprei o filme numa plataforma de conteúdo para assistir com o namorado, que nunca tinha visto. Junto com o filme vieram três ou quatro documentários, como conteúdo extra.

Esperei um domingo sem jogos importantes, afinal o filme é longo, e lá fui eu assisti-lo de novo junto com ele.

E me dei conta, com enorme constrangimento por nunca ter percebido isso antes, que “…E O Vento Levou” é um filme que enaltece os confederados. Sim, aqueles, os que perderam a guerra de secessão. Aqueles que defendiam a escravidão e que achavam que os ianques não podiam interferir no seu direito de possuir seres humanos. Aqueles que achavam que “salvar a economia” vale mais do que “preservar vidas humanas” (opa, que ano é hoje?).

Gone with the Wind removed from HBO Max - BBC News
Scarlett, além de mimada e frívola, era uma indesculpável escravocrata

E o pior: mesmo fazendo tudo isso, é um excelente filme, sob todos os outros aspectos. É um épico, tem um roteiro bem amarrado, a história é bem contada, o elenco é excelente*, os figurinos, lindíssimos, a fotografia impecável. Etc.

O fato de ser bom torna o filme ainda pior.

Porque a gente assiste, a gente gosta, e a gente não pensa sobre o absurdo que está sendo mostrado ali.

É como o caso do Tintim e do Monteiro Lobato: foram obras que envelheceram muito mal.

***

Daí fui assistir os documentários que vieram junto com o filme como conteúdo extra. E foi incrível. Toda aquela sensação incômoda que me perturbou enquanto assistia o filme foi explicada e analisada por professores, pesquisadores, especialistas. Ou seja, no século XXI não basta assistir às quatro horas de “…E O Vento Levou”, é preciso dedicar mais uma ou duas horas para a explicação sobre o que o filme representa e em quantos níveis ele está errado.

Se você ainda não viu, talvez seja melhor deixar pra lá ;)

***

Desde domingo venho acompanhando também a demolição de estátuas erguidas em homenagem a pessoas hoje vistas como deploráveis. Confesso que me entusiasmei ao ver as imagens de Bristol. A derrubada da estátua do traficante de escravos fez todo sentido, principalmente porque sua retirada vinha sendo pedida há tempos e ignorada pelas autoridades municipais.

Daí se seguiram movimentos semelhantes pelo mundo. Aqui no Brasil querem retirar a estátua de Borba Gato que fica em São Paulo. Hoje uma estátua de Cristóvão Colombo em Boston amanheceu decapitada. Outra, em Richmond, também foi parar no fundo do rio.

Acho que esses gestos são importantes para trazer à tona uma discussão que já deveria ter sido feita há décadas, séculos.

Alguns historiadores, no entanto, questionam a eliminação dos monumentos porque eles são, de certa forma, um registro do que já fomos. A escravidão de negros e indígenas faz parte de nossa história. O fato de os bandeirantes terem sido (e ainda serem, em larguíssima medida) tratados como heróis, também. Já vi sugestões de que essas estátuas — que, mantidas como estão, se constituem em homenagens — sejam realocadas para museus, onde se poderá explicar esse contexto e registrar que um dia fomos (somos) uma sociedade que enaltecia práticas vis.

Acho tudo válido, por contraditório que pareça: a fúria do momento, que leva à derrubada da estátua, tem um sentido. O debate que se segue, idem. As providências que tomaremos na direção da mudança são — têm que ser — a parte mais válida de todo esse processo.

Ate porque, e isso é muito importante, eu temo pelo limite. As manifestações da turba refletem, sim uma vontade popular. Mas não pode haver um tribunal da multidão para nada — nem para linchamentos reais, nem virtuais, nem para julgamentos históricos. As sentenças, sejam penais, morais ou históricas, têm que ser proferidas após argumentações de ambos os lados, após ponderação, amadurecimento de ideias. Senão, o que diremos quando derrubarem uma estátua de um dos “nossos”? Aí não pode? Quem traça o limite?

***

Voltando ao início, por isso gostei da medida da HBO Max de retirar o filme imediatamente, para mitigar o problema imediato, que é o constrangimento de exibir um filme que romantiza escravocratas. Mas o comunicado da emissora diz que em breve ele voltará, devidamente embalado em contexto. Espero que isso de fato aconteça.

-Monix-

* Detalhe curioso que vale um registro: a atriz Hattie McDaniel, que faz o papel de Mamie, foi a primeira atriz negra a vencer um Oscar, na categoria de atriz coadjuvante, vencendo inclusive outra atriz do filme, a super caucasiana Olivia De Havilland.

Representatividade importa

Então as manifestações antirracistas ganharam o mundo: o alvo não é mais apenas a polícia dos Estados Unidos, mas o racismo estrutural que molda as relações sociais no mundo ocidental há séculos. Parece que a ficha caiu: esse problema não está nem perto de ser resolvido.

Já houve várias ondas de protestos antes — na verdade, quantas vezes tivemos a sensação de estar de volta a 1968? —, mas desta vez a novidade é ver uma multidão de pessoas pretas e não-pretas marchando juntas, brigando juntas, exigindo juntas que o mundo seja mais igualitário. Tudo isso em meio a uma pandemia de uma doença mortal e tendo como pano de fundo a ascensão de uma extrema direita que ressuscitou discursos excludentes e supremacistas.

Minha mãe era professora de História, e ela costumava dizer que a História anda não em círculos, mas em espiral. A cada volta, a cada vez que parece que estamos retornando ao mesmo ponto, na verdade estamos uma dimensão acima. O que a morte de George Floyd nos ensinou foi que pessoas brancas não podem mais ficar caladas esperando que “eles que lutem”. Meu aprendizado com isso tudo foi: como pessoa de privilégio que sou, tenho a responsabilidade de usar minha voz para falar sobre essas tantas injustiças. E principalmente, preciso usar meus ouvidos para escutar o que os negros têm a dizer, respeitosamente, e mudar o que for preciso, em mim mesma, para ajudar a tornar este mundo melhor para todos e não só para alguns.

***

Essas reflexões me fizeram pensar que representatividade também importa. Sou da Comunicação, e para mim é impossível pensar em mudar o mundo se os conteúdos culturais e jornalísticos continuarem os mesmos.

Foi assim que nasceu este post. Eu estava assistindo uma minissérie na Netflix e de repente me veio uma lista praticamente completa de coisas que li e assisti e que tinham como protagonistas mulheres negras. É importante, sabe? Faz diferença. Quanto mais a gente vê mulheres negras como protagonistas, mais natural é a presença delas em lugares de destaque (já escrevi sobre como representação ajuda a criar uma ideia de mudança em outro contexto, mas também vale para essa reflexão aqui).

Então ficam as minhas dicas — que tal aproveitar o pouco tempo livre da quarentena para conhecer obras que não são protagonizadas por homens brancos, mas por mulheres negras? Nem todas são perfeitas, algumas são estilo cinema-é-a-maior-diversão, outras são profundas, ou belas, mas todas irão ajudar a expandir seus horizontes. Vai na fé.

A Vida e a História de Madam C. J. Walker (a minissérie que me fez pensar nesse post).

Madame C.J. Walker: liberdade contra o racismo
Madame C. J. Walker foi a primeira mulher negra a ficar milionária nos Estados Unidos

Lionheart e Harriet (um filme não tem nada a ver com o outro, mas eu escrevi sobre os dois nesse post aqui).

Toda e qualquer coisa sobre a Elza Soares.

O livro Um Defeito de Cor, obrigatório mesmo.

O livro Kindred – Laços de Sangue.

O documentário What Happened, Miss Simone?

O filme Pantera Negra, é claro.

A novela gráfica Aya de Yopougon (há anos procuro as continuações, mas até onde eu sei só dois dos seis volumes da série foram publicados no Brasil).

O livro e o documentário Minha História, de Michelle Obama, a maravilhosa.

O livro e o filme A Cor Púrpura.

E para encerrar essa lista (que está longe de ser definitiva), é preciso citar o Em Pauta que virou Globo Repórter reunindo pela primeira vez na bancada as jornalistas negras Maria Julia Coutinho, Aline Midlej, Zileide Silva, Flavia Oliveira e Lilia Ribeiro, junto com Heraldo Pereira, para debater o racismo no Brasil a partir dos protestos antirracistas nos Estados Unidos. E assim, terminamos voltando ao começo — espero que em espiral.

Agora é sua vez: se puder, deixe nos comentários suas sugestões.

-Monix-

Projeto

Para a nossa newsletter de ontem escrevi uma ou duas linhas boas que não quis deixar restrita aos assinantes. São daquelas muitas que surgem durante a escrita, num fluxo direto: cabeça, mãos, teclado e ôpa! de onde veio essa ideia que eu não tinha pensado antes? (Mais uma razão para receber a nossa news: somos pressionadas a escrever ao menos uma vez por semana pelo motor mor do jornalistmo, o prazo. E a pressão às vezes é uma boa editora).

Falamos na news sobre a pauta incontornável desde que o assassinato de George Floyd ganhou as redes sociais e a mídia: o racismo e o extermínio da população negra. A curva da nossa indignação atingiu seu pico e levou às ruas milhares de americanos e também outros cidadãos do mundo. Ainda vivemos todos ameaçados pelo novo coronavírus – em maior o menor grau, variando de acordo com a competência e obtusidade de cada chefe de estado -, mas não foi possível adiar. Diante da brutalidade policial exercida lenta e deliberadamente, sem um traço de constrangimento ou preocupação, a pandemia que vitimou mais de 100 mil americanos pareceu menos letal que a truculência repressiva do estado. Hoje, o resultado da autópsia de Mr. Floyd indicou que ele estava infectado com o vírus da Covid-19, mas nesse caso a doença foi uma comorbidade, entre tantas outras, para a causa mortis que adoece e mata há mais tempo: o racismo.

Foto: Nelson Almeida/GettyImages

O Brasil, que se esforça pra ser sempre o melhor pior, consegue tornar ainda mais dramática a questão com uma absurda lista de crianças e jovens negros assassinados pela ação do aparato policial militar. A quem, aliás, não se pode acusar de incoerência: foi constituído originalmente para proteger a propriedade e as elites, e se mantém fiel aos propósitos fundadores, utilizando em suas hostes membros das mesmas classes que são treinados a abater.

Photo by: Miami- Dade Corrections

Talvez por isso as cenas que mais têm me emocionado nas manifestações americanas são aquelas em que policiais demonstram apoio aos manifestantes. Os que se ajoelham, no gesto ressignificado por Kaepernick, os que ouvem as pessoas, os que garantem a segurança delas mais que as propriedades, os que abraçam. Aqueles que, mesmo que momentaneamente, rejeitam anos de treinamento, o privilégio da impunidade e da força e recuperam sua humanidade. Talvez seja preciso começar por aí a desarmar esse monstruoso mecanismo tão bem azeitado ao longo da história. Ou a gente vai continuar, como acertadamente definiu Emicida, “por nossa conta e risco nesse grande projeto de matar preto que é o Brasil”.

Helê

Feliz aniversário pra nós!

E para celebrar nós vamos seguir o fluxo quarenter e…fazer uma live!
Passa lá no perfil da Helê ou da Monix e prove que vocês são muitos mais dos que os comentários fazem crer!

Nos vemos lá!

As Duas Fridas

Máxima

Orgulho desta regra que há anos orienta este blogue, gerido por duas jornalistas:

 

calabocajámorreuquemmandanaminhabocasoueu

 

Helê

Todo dia um 7×1

Foto do Leo Martins

Perdemos tanto com a morte de Aldir Blanc! Perdemos o Brasil que importa, o Rio que interessa, a Tijuca que aprendi a amar.

A esperança se desequilibrou e caiu.

Helê

Adeus ao poeta do cotidiano

Quando eu era criança, não tínhamos vitrola em casa. Havia um rádio AM/FM e um toca-fitas. Havia também um acervo muito rico de fitas cassete com pérolas da música brasileira dos anos 1970: Chico Buarque, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Beth Carvalho, MPB-4, Vinícius e Toquinho… e, claro, não podia faltar nessa lista a dupla João Bosco e Aldir Blanc.

Aos sábados, meu pai escolhia algumas fitas e botava para tocar. Cantando juntos aprendemos as letras das músicas, e papai fazia questão de destacar a beleza de um ou outro verso especialmente poéticos.

Foi só depois de muito tempo, já mãe de um pré-adolescente, que me dei conta do privilégio que foi crescer no Brasil musical da década de 1970. Isso porque quando o fridinho chegou lá pelos 12 ou 13 anos percebi que ele não conhecia quase nada de música brasileira, e do pouco que conhecia não gostava. Claro que esse problema foi resolvido rapidamente: a cada saída de carro ouvíamos uma banda, um cantor ou um álbum antigos, e assim cobrimos (em parte) esse déficit geracional. Nascer nos anos 2000 certamente não proporcionou um ambiente musical tão rico quanto o da minha infância — longe disso, na verdade.

Bem, voltando às tardes de sábado, devo confessar que João Bosco e Aldir Blanc não eram meus preferidos, dado esse olimpo de estrelas que tínhamos disponíveis. Mas as canções da dupla tinham uma característica diferente, um jeitão de crônica, como que cantando coisas que poderiam acontecer ali na esquina de casa. “De Frente Pro Crime”, por exemplo, é quase cinematográfica em sua descrição de uma cena trágica.

Compositor e escritor Aldir Blanc morre aos 73 anos no Rio de ...
Adeus, Aldir.

Ontem, quando veio a notícia da morte de Aldir Blanc, senti uma tristeza profunda, como quando se foi Moraes Moreira, outro ícone da minha infância, ídolo das minhas tias mais jovens. E ao me despedir de Aldir, artista que fez parte da trilha sonora mais remota da minha vida, me lembrei de um daqueles versos que papai mais admirava, por sua capacidade de ver poesia em algo tão trivial quanto um sapato apertado:

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

(Dois pra Lá, Dois pra Cá)

-Monix-

À luz

Eu não assisto BBB há umas 19 edições. Entre vários motivos, porque acho chato mesmo. Então, pelas minhas próprias regras, não deveria falar sobre algo que não conheço. Entretanto falarei, amparada em uma das regras magnas desse blogue (a do calaalabocajámorreu), e porque muito pouca gente nesse país quarentenado ficou alheia aos desdobramentos do programa esse ano. Minha filha, que nunca havia assistido antes, pegou o bonde no meio e foi com ele até o final; ontem soltou a frase que definiu seu envolvimento: “Ainda bem que acabou, não aguentava mais gostar de BBB”.

Se bem que não é exatamente sobre o programa que quero falar. Acontece que a popularidade incontestável do Babu e a surpreendente vitória da Thelma me fizeram lembrar uma teoria que elaborei há algum tempo, defendida na Universidade Mesa de Bar, sobre o que eu chamava de “negritude difusa”, uma propensão popular a torcer e apoiar negros ou aspectos a eles relacionados, em certas situações – embora sem explicitar que era a etnia que estava em jogo.

A primeira vez que pensei sobre isso foi na Copa de 90, quando o Brasil se encantou com a seleção de Camarões de Roger Milla. Eu sei que você não era nascido, bebê, então deixa eu te contar: eliminados pela Argentina, os brasileiros adotaram a seleção camaronesa. Passamos a acompanhar e torcer de verdade, de juntar no bar ou fazer churrasco pra vê-los jogar. Lembro de ter ido assistir ao jogo definitivo na casa de amigos e, no trajeto que fiz entre Vila Valqueire e Laranjeiras – que é praticamente cruzar a cidade -, vi várias janelas com bandeiras improvisadas de Camarões, feitas com qualquer pano que tivesse as cores do país. E na hora do jogo, os gritos e comemorações foram semelhantes àqueles ouvidos nos jogos do Brasil. Um fenômeno desses é difícil de explicar; contribuiram para isso o futebol solto e ingênuo dos africanos, a simpatia de Milla, a possibilidade improvável de vitória de um underdog. Mas também torcíamos por irmãos africanos, pelos negros – embora essa correlação nunca fosse explicitada.

Muitos anos depois, um amigo trabalhou diretamente com o então ministro do Supremo Tribunal de Federal, Joaquim Barbosa. Acompanhou-o em seu momento de maior visibilidade e tensão. Esse amigo me contou sobre as pressões sofridas, os constrangimentos discriminatórios (dos quais um negro nesse país não escapa nem mesmo sendo presidente do STF), várias histórias. Mas as mais impressionantes e comoventes vinham das camadas mais humildes da população, que viam Joaquim com um misto de orgulho, respeito e esperança. Uma relato inesquecível diz respeito a uma visita do então ministro a um presídio no norte do país. Em um ambiente hostil por natureza, especialmente para autoridades, Joaquim Barbosa foi tratado com reverência, como “o cara”, como aquele que, apesar da origem humilde, “deu certo”, ascendeu honestamente. Também nesse caso, vários fatores podem justificar a popularidade de Joaquim, mas a classe, sozinha, não inspiraria a mesma admiração sem o componente racial. Nesse episódio da cadeia, os detentos ofereciam as mãos para serem tocados pelo ministro, e diziam coisas como: “O senhor colocou branco rico na cadeia, antes a tranca era só pra gente”. Barbosa era – e talvez ainda seja – visto como um “negro que deu certo”, e além disso foi destemido no enfrentamento aos poderosos (que nesse país é também um sinônimo para brancos).

Tudo isso é digressão de botequim, como avisei de início, não há ciência alguma no que digo. É só uma Teoria de Mesa de Bar que talvez não se sustente depois da 20ª edição do BBB. Porque não há nada de difuso na popularidade do Babu (tecnicamente, o 4º colocado, mas reconhecidamente o vencedor dessa disputa) e na inesperada vitória da Thelma. Raça e racismo estiveram em pauta ao longo de boa parte do programa (que, a propósito, no ano passado premiou uma pessoa identificada por grande parte da audiência como racista). As redes sociais hoje estão repletas de pessoas comemorando a vitória de uma mulher negra, e embora o BBB tenha destacado a “narrativa das mulheres” (um jeito que a globo inventou de falar de feminismo sem ousar dizer o nome), foi a raça ocupou um lugar inédito nos corações e mentes dos espectadores, e sobretudo na fala, deixando a clandestinidade, o lugar do implícito e do subentendido.

A desigualdade para os negros em geral e para as mulheres negras em particular amanheceu igualzinha, não tenho dúvidas. Mas talvez tenhamos ganhado uns pontos nas trincheiras do discurso. E uma batalha fica mais franca e justa quando podemos nomear com precisão quem são nossos inimigos e nossos aliados, e porque fazemos nossas escolhas.

Helê

Monix Day – edição 50 anos

Achou que a gente não ia comemorar o aniversário da Otra?

Foto: Martha Twice

Achou errado!

Hoje, mais do que em qualquer outro dos 14 ou 15 Monix Days anteriores, conto com o seu comentário para celebrar a chegada da nossa Hermione na Casa dos 50. Não se reprima, não se reprima: deixe seu comentário, beijo, declaração para confirmar o que a gente já sabe: que o aniversário é dela mas a sorte é nossa de tê-la em nossas vidas!

Viva Monix!

(E Joca, Joana e Calu!)

Helê

PS: Por determinação de mim mesma: declaro que todo aquele e aquela que fizer aniversário durante a quarentena tem direito à comemoração posterior, não cumulativa.

 

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