Pública, mas não gratuita*

Quando eu tinha 18 anos, tendo estudado a vida inteira em escola particular**, me deparei com a forte certeza de que minha primeira opção no vestibular seria uma universidade federal. Naquele distante final da década de 1980 estavam sendo realizadas as primeiras provas discursivas em muito tempo, portanto para meu plano dar certo era necessário conseguir notas muito boas em uma prova bastante difícil. Meu perfil como estudante era o de uma convicta “pessoa de Humanas”: ótimas notas nas disciplinas de cá, péssimas nas de lá. Mas minha formação básica garantiu um resultado suficientemente bom para ser aprovada para o segundo semestre, e assim tive meu primeiro contato com o ensino público em uma circunstância extremamente privilegiada, em uma instituição de excelência em todos os sentidos.

Porém, a escolha pela universidade federal passou por caminhos bem tortuosos e motivos muito pessoais, e mesmo subjetivos – claro que eu queria uma faculdade boa, um diploma para enfeitar bem meu currículo, essas coisas que (quase) todo estudante quer quando toma decisões sobre o vestibular. Mas queria também sair da esfera da PUC, onde a esta altura minha mãe lecionava, ampliar horizontes e evitar uma dependência financeira que àquele ponto da minha vida eu já não desejava.

Quando cheguei na UFRJ, no entanto, pela primeira vez tive uma vivência daquilo que hoje chamamos diversidade. Conheci gente de diferentes origens, gente que morava em bairros que eu nem sabia que existiam, gente que tinha estudado em colégios muito diferentes do meu, e, principalmente, gente que não vinha do mesmo ambiente protegido da classe-média-zona-sul, que precisava comer no bandejão para sobrar dinheiro para a passagem, que  vinha de famílias que nem sempre podiam financiar as condições mínimas para se estar ali.

Muitas vezes me questionei se era justo que eu estivesse naquele lugar. Sentia que estava ocupando uma vaga que deveria ser destinada a quem de fato não pudesse pagar. Durante algum tempo cheguei a concordar com os defensores do pagamento, por quem tivesse condições para tanto, de uma taxa anual.

Me formei, passou o tempo, muita coisa mudou na forma de acesso à universidade e acabei chegando à conclusão de que o ensino público só faz sentido se for gratuito e universal, no sentido de ser acessível a todos. Inclusive à elite. Esta é a riqueza da educação pública: ela trata a todos igualmente. Caso se instituísse uma taxa, os que pagassem se diferenciariam dos que não pudessem pagar, e pronto: já estaria criada uma hierarquia. Por outro lado, se a classe média alta/elite intelectual não frequentasse as escolas públicas, muito provavelmente o nosso sistema educacional seria como o sistema de saúde: atenderia mais ou menos mal a mais ou menos todo mundo. Porque os lugares frequentados pelos filhos da elite, mesmo sem verbas, mesmo com todas as dificuldades, mesmo sem papel higiênico nos banheiros, são alvo de um escrutínio muito mais rigoroso. E isso é ruim, porque expõe o duplo padrão da nossa sociedade, mas é bom porque beneficia a todos os que estão lá.

Então, acho que uma parte importante de acreditar no ensino público é estar nele. Investir numa educação pública de qualidade também passa por frequentar esses espaços. A chave para uma democratização do ensino não é fazer com que as pessoas paguem individualmente por ele: é melhorar as condições de acesso, sem criar falsas simetrias. Se nem todo mundo teve as mesmas condições na educação básica, faz sentido que haja uma reserva de vagas para quem vem com uma bagagem de conteúdo que, por si só, não seria suficiente para garantir a entrada na instituição. A política de cotas já está consolidada e os resultados são auto-explicativos. Basta frequentar um ambiente universitário hoje para ver como todos saíram ganhando.

***

Movida por motivações igualmente particulares e subjetivas, propus ao meu filho que, em sua passagem para o Ensino Médio, ele fizesse provas para escolas públicas de excelência da nossa região. Ele foi aprovado e está frequentando um colégio federal tradicionalíssimo do Rio de Janeiro. Esse meu reencontro com o ensino público me fez voltar a pensar nessas questões de inclusão, acesso, democratização, e, cada vez mais, defendo que ocupemos esses espaços, todos nós. É da mistura que nasce a qualidade. Esta foi a maior lição que aprendi em quatro anos de faculdade, e fico feliz por ver o aprendizado se repetindo na adolescência do meu filho.

(Aliás, já faz um tempo que estou usuária de transporte público – pago, mas enfim, coletivo. Quase dá vontade de frequentar o SUS e fazer esse mesmo caminho na saúde. Estou mesmo bem convicta de que as soluções individuais não podem ser a saída – não em um planeta habitado por 7 bilhões de pessoas.)

-Monix-

* Um professor da escola (pública) do meu filho disse essa frase na primeira reunião de pais, querendo dizer que embora a escola não seja paga por meio de taxas diretas, ela é, sim, financiada pelos impostos de todos os brasileiros. Inclusive, e principalmente, os mais pobres. É por isso que eu acredito – e digo isso sempre que posso – que ele, como aluno daquela instituição, tem a responsabilidade de levar seus estudos a sério. O Brasil inteiro está pagando por isso.

** É curioso que sempre me vi como uma pessoa nascida e criada em um ambiente privilegiado – e sou, mesmo. Mas na prática meus pais nunca pagaram pela minha educação. Como filha de professora secundária, tive bolsa no colégio durante todo o ensino básico, e estudei em universidade federal. A primeira vez que paguei para estudar foi muito, muito tempo depois, quando fiz uma pós-graduação lato sensu.

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Violência institucional

Estava naquele estado impreciso e nebuloso, próprio das manhãs de ressaca e sono. Achei que tinha ouvido a televisão falar algo como “Geisel mandou executar, diz documento”, mas achei que tinha entendido errado. No caminho para o trabalho, horas depois, li no Meio a notícia e, imediatamente, fui olhar as capas dos jornais porque essa notícia era, para mim, uma manchete histórica com há muito não se via. Na verdade, como nunca se viu no tocante a esse assunto. O Globo deu o destaque que eu esperava, mas os outros nem tanto. Nas minhas redes sociais houve repercussão – maior no twitter que no FB –, mas achei pouco. Não entendi porque TODO MUNDO não está falando disso. Então vim aqui no blogue, subi no meu caixote pra falar do que acho importante e que geral não está dando a devida atenção.

Só os mileniais podem não saber (mas deveriam) sobre a tortura e as mortes ocorridas durante o regime militar. Nem os militares negam: o que fazem é tentar justificar. E muitas  pessoas, militares ou não (muitos cidadãos de bem, essa terrível entidade brasileira) acreditavam que excessos, se houve, foram isolados. Daí a importância de um documento oficial do Estado americano afirmando que um presidente da república foi oficialmente informado da execução de 104 pessoas, refletiu, e aprovou a continuidade da prática, desde que sob a supervisão do general que viria ser também comandante da nação, seu sucessor. Isso precisar ser escrito em negrito, se não em caixa alta, porque só não é mais assustador que a possibilidade dessa notícia ser esquecida na edição de amanhã. Derruba a versão que percebia excessos e exceções onde havia institucionalidade: o assassinato sistemático de pessoas autorizado pelo governo há 40, 50 anos – o que, em termos de história, acabou de acontecer. E o que nos iguala a regimes que execramos com suposta superioridade.

Decision by Brazilian President Ernesto Geisel To Continue the Summary Execution of Dangerous Subversives Under Certain Conditions (link para a transcrição do documento)

A precisão numérica também indica que o controle sobre essas mortes era maior do que as Forças Armadas sempre nos quiseram fazer crer. Tão óbvia quanto revoltante foi a reação do  Exército que, em nota, lembrou que os documentos sobre o período já não existem mais – como sempre se alega em todo período vergonhoso dessa nossa republiqueta que se pretende nação e não passa de uma terra de brutalidades. Essa manchete, dividindo espaço na primeira página do jornal com a reconstituição da execução da vereadora Marielle Franco, ontem no Rio de Janeiro, deixa a sombria impressão de que abater inimigos é prática arraigada e corrente nesses trópicos cada vez mais tristes e sempre cruéis.

Helê

 

As Irmãs Ephron e eu

Nora (esq.) e Delia

Já contei aqui que volta e meia sou tomada por um frenesi internético, que é a busca voraz por detalhes a respeito de uma pessoa, lugar ou período depois de alguma experiência marcante, em geral um livro ou filme. Faz parte da minha personalidade curiosa, do meu fascínio pelo acesso à informação e também é uma forma de prolongar o prazer causado pela obra. Esse frenesi sempre se mostra enriquecedor; um desses, por exemplo, me fez trocar e-mails com Delia, irmã da Nora Ephron, roteirista do delicioso “Harry & Sally” (da lista dos nossos filmes favoritos). Uma história breve, mas que La Otra achou que devia virar post. E que demostra, creio eu, que escrever é construir pontes que a gente não sabe onde nos levam, mas que sempre me conduziram a lugares e pessoas extraordinárias.

Falando nelas: tudo começou quando passei uns dias com a Vera, em Brasília, e trouxe comigo uns livros (será que trazer algo emprestado da casa de alguém é uma tentativa de prolongar a visita?). Um deles era “Meu pescoço é um horror!”, da Nora, prosa gostosa, leve sem ser superficial, colorida, bem humoradíssima, como uma conversa com uma amiga divertida que não encontramos sempre, então sempre tem novidades, boas histórias e conselhos úteis. Terminada a leitura, mergulhei internet afora em busca de informações sobre a autora. Certamente eu soube que ela morreu em 2012, mas não registrei a informação e entristeci novamente ao ler sobre. Procurei outros livros, detalhes sobre sua morte e, aba vai, aba vem, guiada pelos ventos da Serendipity, essa divindade digital, esbarrei nesse texto aqui, da Delia Ephron:

After 54 Years, We Fell in Love. After Five Months, I Got Leukemia.

Fui arrebatada pelo título inacreditável, entre o romance e a tragédia, mas algo me dizia que terminava bem – talvez a bela ilustração, talvez porque ela estava escrevendo. A tradução pode ser algo como “54 anos depois, nós nos apaixonamos. 5 meses depois, tive leucemia”, mas se você tem boas noções de inglês, por favor, leia o original. O resumo que farei não dá conta da qualidade do texto, fluido, agradável e cativante, sem traço de melancolia ou autocomiseração, apesar de carregado de significados e reflexões.

Delia conta que, a partir de uma crônica escrita para o jornal, em que narrava as dificuldade para cancelar a linha telefônica de seu falecido marido, entrou em contato com ela alguém com quem ela havia saído há mais de 50 anos. Resumindo muito uma história que merce ser lida em todos os detalhes, eles se reencontraram e se enamoraram pouco tempo antes de Delia descobrir que estava com a mesma doença que matou sua irmã – mas de um tipo diferente, que a credenciou a participar de um estudo clínico que a fez entrar em remissão, com o apoio constante de Peter, agora seu marido.

Li o texto quase como um romance,  apreensiva com o desfecho dessa história improvável, que não daria um roteiro: já é um pronto. No decorrer da narrativa, Delia fala sobre amar depois de já ter amado, das inseguranças e incertezas e também do pragmatismo que a idade pode conceder; relembra da irmã, responsável por apresentá-la a Peter décadas atrás; reflete sobre a proximidade da morte, a luta pela vida e os infortúnios de uma internação. O texto de uma senhora septuagenária falando de si, cheio de som e fúria.

Ou fui eu que li assim. O fato é que eu não consegui tirar o texto da cabeça. Contei pra minha filha, enviei para amigos, mas 2 ou 3 dias depois ainda pensava nessa história. Então entrei no site da escritora e enviei um e-mail, provavelmente repleto de erros, mas verdadeiramente comovido. Nele eu me apresentei e disse exatamente tudo o que contei aqui, acrescentando no final:

“…imagino que saber que tocamos o coração de alguém é a melhor recompensa para um escritor. E você tocou o meu, Delia. Preciso agradecê-la por isso e dizer que estarei torcendo por você. E pelo Peter. Tudo de bom para vocês dois.
Love,
Helena “

Recebi uma resposta automática algumas horas depois e pronto, saciei o meu desejo de expressar o quanto aquele texto e aquela história me mobilizaram. No entanto, algumas semanas depois, recebi uma resposta da própria Delia, que me encheu de alegria:

Dear Helena,

Thank you for the lovely, joyful, heartfelt email about my article. I so appreciated it and read it to Peter who sends you thanks and greetings.

It was overwhelming to realize my story had made it to a “sister” writer in Brazil. And so happy to hear that you loved Nora’s book. It is wonderful.

Knowing I touched your heart is truly the greatest gift a writer can have and you touched mine.

All the very best wishes for your happiness,
Delia

Que delícia ser chamada de “sister writer” por uma das irmãs Ephron! Mais importante que isso, que delicadeza a dela em responder, de maneira generosa, a uma manifestação de carinho que só queria ser isso mesmo. Com meu gesto, que foi mais uma necessidade pessoal, sem qualquer cálculo ou expectativa, confirmei que vale a pena dar vazão a esses impulsos, não perder a chance de elogiar ou agradecer, de fazer contato, esticar a mão, traçar umas linhas, estabelecer pontes. E acabei tendo o meu exemplo particular de uma “letter of note“, uma correspondência que merece uma audiência maior. Espero que você concorde.

Helê

Uerj

Eu não me considero uma pessoa muito nostálgica – até porque minha memória tipo queijo suíço, cheia de buracos, perde muita coisa pelo caminho. Dos lugares por onde passo em geral retenho o mais importante – as pessoas. Daí que hoje voltei à minha universidade, levando a filha pra fazer uma prova. E fui invadida por uma inusitada e intensa nostalgia; bateu uma saudade danada daqueles corredores, pátios, da poluição visual dos milhares de cartazes, das histórias que vivi, da pessoa que eu fui ali, da efervescência do ambiente universitário.

A Uerj não foi a minha primeira opção, mas uma vez ali eu soube que estava no lugar certo. De lá trouxe pessoas importantes que até hoje estão na minha vida (ô sorte!); por estar lá cheguei até aqui – e, na real, não posso me queixar. Suspeito que os encontros que faria na ECO (a 1a opção) aconteceram de um jeito ou de outro. Assim foi com a minha Sócia aqui neste blotequim, com quem certamente cruzaria na Federal – mas teríamos firmado essa frutífera e invejável parceira então? Jamais saberei, mas o que precisa ser encontra seu caminho, maktub.

Em pouco tempo de Uerj eu dominei os códigos, fiz amigos e me senti totalmente à vontade. Logo percebi que aquela universidade, ao lado da linha do trem, entre Mangueira e o Maracanã, a mais carioca de todas, era o meu lugar. E hoje ao voltar lá com a minha filha eu me emocionei por reconhecer a universidade combativa que me formou.

A Uerj resiste – sobretudo no meu coração.

Helê

Monix Day – 10a edição

É hoje, gente, aquele dia de dar parabéns, presente, chamego, carinhos e afofamentos, virtuais ou não, nessa que é a nossa Hermione, a minha Sóciamada, a Monix (que também atende por  Mônica Chaves).

Viva ela! \o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/\o/

Helê

Valei-me, meu São Jorge!

“Sim, vou na igreja festejar meu protetor
E agradecer por eu ser mais um vencedor
Nas lutas nas batalhas”

Obrigada, Guerreiro!

Que me ponha onde haja.

Helê

Salve, D. Ivone

Dona, Diva, Dama. Arlindinho fez a aliteração que eu gostaria de ter escrito (inveja). Ouvi hoje de manhã enquanto me arrumava para trabalhar, atenta à cobertura da globo. Que, aliás, justiça seja feita, foi excelente, dando à D.Ivone a dimensão que ela tem na música brasileira.
Entre uma canção e outra eu me comovi, sorri, lembrei dos amigos de Koinonia e nossa coreografia em “Mas quem disse que eu te esqueço”, de um show que vi na Lapa; de outro em Madureira, no Trem do Samba – ela já com mais de 90, sentadinha na cadeira mas a voz límpida e segura, afinadíssima. E lembrei, claro, de “Sonho meu”, que minha mãe e todo o Brasil cantarolava no finzinho dos anos 70 e que até hoje é daquelas canções que animam qualquer roda e irmanam todos num coro ensaiado no inconsciente coletivo. A gente percebe a grandeza de um artista assim, quando se dá conta do quanto ele fez parte da nossa vida, mesmo que esteja não na estante de CDs, nem entre os nossos favoritos. Mas está entre os melhores.
Brilhe em paz, D. Ivone.
Helê
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