Salve São Sebastião


Saint Sebastian Healed by Angels,
Pieter Paul Rubens 

Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

Saudades da Guanabara, Moacyr Luz

Helê

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Agoniza mas não morre

Assisti “Spotlight – segredos revelados” na Netflix, sobre o escândalo de padres católicos pedófilos em Boston. Bem filmado, com ótimas interpretações, conta uma história importante sem aquelas bobagens roiludianas de inventar romance e drama onde não existe. Quando o filme terminou fiquei pensando no papel do jornalismo e em como não podemos prescindir dele – que, não por acaso, já foi escolhido como inimigo do atual governo.

À parte minhas angústias pessoais, “Spotlight” reafirma que o jornalismo pode ir mal das pernas, mas sempre haverá espaço para a investigação criteriosa,  redação bem feita, supervisão e orientação editorial responsável e divulgação de material de verdadeira utilidade pública. E há várias iniciativas sérias do chamado jornalismo independente à disposição em diferentes plataformas e formatos – YouTube, podcasts, newsletters e sites. Gratuitos, dependentes de assinaturas e financiamento coletivos ou híbridos, essas frentes merecem cada vem mais nossa atenção, apoio e incentivo. Creio que não conseguiremos resultados diferentes utilizando os mesmos caminhos, como já ensinou vovô Einstein.

Acompanho a produção do Intercept, do canal Meio e do Nexo, que estou considerando assinar. Também ouvi falar bem da Apublica, mas conheço pouco. E vocês, o que acompanham ou sugerem? 

Helê

 

Histórias de presépios

Na tradição das nossas famílias hoje, Dia de Reis, é quando guardamos todas as decorações natalinas, árvore, guirlandas, sinos e presépios. Daí o mote para fecharmos o tema natalino, antes que a Leader avise que já é natal de novo.

A história da Helê

Eu sou a que tem sentimentos dúbios e oscilantes sobre o natal, a que gosta da tradição mas recusa a imposição. A que não gosta de peru nem de passas em comidas salgadas, mas ama rabanadas com fervor. A que oscila entre curtir e não ligar. Então quando La Otra me chamou para um pré-natal pensei: “Não basta um, ainda teremos pré?” Mas fui atraída pelo convite criativo (“uma festa para se preparar para as festas”) e pelo descompromisso: chegar sem hora certa, levar o que quisesse (ou não levar), participar ou não de uma troca de presentes que nem precisavam ser novos, enfim: um natal sem pressão me atraiu e animou minha filha (que precisa de quase nada pra se animar, verdade seja dita).

Foi uma noite muito agradável, em que pudemos conversar sem pressa, nos assustar com o crescimento dos filhos alheios, comer coisas maravilhosas preparadas pela Monix numa mesa linda (que teve também contribuições igualmente deliciosas, como um cheesecake memorável). Tudo leve como deveriam ser as festas familiares e similares. Já na despedida, elogiei o presépio e disse à sócia que é das coisas de natal que eu realmente gosto, muito mais que da árvore e dos pisca-pisca coloridos exagerados. A cena reproduzida, os personagens, figurinos e o propósito de nos lembrar para que, afinal, estamos reunidos, tudo isso me agrada nos presépios – embora eu mesma não tenha um, comentei de passagem. E Monix imediatamente reagiu ao comentário oferecendo o empréstimo de um dos cinco (!) que ela possui, cada um com sua história. Aceitei e levei para casa aquele que foi o primeiro de sua casa de adulta, feito de barro e com tipos bem brasileiros; seguindo os preceitos da família dela, só coloquei o menino Jesus na manjedoura no dia 25. Suspeito que esse empréstimo seja o início de uma tradição, além da afirmação dos nossos laços de partilha e pertencimento. Afinal, é disso que se trata o natal, não?

O presépio da Monix, que foi passar o Natal na casa da Helê

A história da Monix

Das coisas que gosto no Natal – e são muitas -, minha preferida são os presépios.

Minhas lembranças natalinas da infância são boas, o que provavelmente é um grande mérito da minha mãe, pois depois que cheguei à idade adulta me dei conta de que, desde sempre, as tretas reinaram nas festas da minha família*.

Mas, para mim, Natal era a alegria de montar uma árvore bonita, de comer uma ceia deliciosa (eu já fui magra, mas nunca não fui gulosa), e de admirar os lindos presépios que havia nas várias casas onde eu passava as festas. Uma tia do meu pai fazia uma gruta com papel-pedra. Lembro perfeitamente até hoje. O presépio da minha avó materna era (é) lindo – foi a herança do meu sobrinho, e hoje é um dos tais cinco presépios do “acervo” aqui de casa.

O presépio da vovó, que agora é a peça mais importante da nossa decoração natalina.

(Na verdade agora são quatro – um deles foi doado para uma família de refugiados venezuelanos.)

Uma das coisas que lamento na minha vida adulta é que não consegui transpor esse “espírito natalino” para meu filho. Há muitos, muitos anos não faço uma festa de Natal, nem aprontava uma decoração bonita na casa. Mas dos presépios, nunca abri mão.

Esse que foi passar o Natal com a Helê foi o primeiro que comprei, logo quando casei, em 1995. Quando se aproximou o mês de dezembro, lembro que liguei para minha avó e perguntei: “onde eu posso comprar um presépio?”. Eu nunca tinha pensado nisso, até então.

Vovó sabia das coisas, e respondeu na hora: “No Apostolado Litúrgico“. Eu nunca tinha ouvido falar nesse lugar! Mas era pertinho do meu trabalho. Dei uma passada lá, no horário de almoço, e bem na vitrine tinha esse de cerâmica, tão lindo, com um jeitinho tão brasileiro, completamente diferente do que havia na casa dela. Mas muito com a cara que eu estava dando para a minha casa.

É um presépio que eu adoro, até hoje. Há alguns anos ele tem sido preterido por outros, por motivos vários, e fiquei tão feliz por ele ter ganhado um lugar de honra na casa da minha sócia. Afinal, nada pode significar melhor “partilhar o espírito de Natal”… do que compartilhar um presépio.

* Nesse Natal de 2018, diante de tantas agruras que vivemos ao longo do ano, e de tantas outras que nos aguardam a seguir, decidi resgatar essa alegria natalina, das luzes coloridas, das bolas douradas, das músicas que só tocam nessa época. E, principalmente, resgatar os afetos. Minha família de origem é enorme, mas hoje está dispersa pelo mundo. Com a família próxima – pai e irmãos – eu celebro no dia 25. Com a família escolhida – namorido, cunhada, sobrinhos, sogro e sogra, primas – passo o dia 24. E de repente me dei conta que uma parte muito importante do que eu considero família, meus amigos mais chegados, estava longe de mim no Natal. Por isso tive a ideia de fazer essa festa que chamei de “Abraço Pré-Natal”, e que tem tudo para ser tornar mais uma das nossas tradições recentes.

Abecedário 2018

Aprendi ontem com meu cientista favorito que o mês de Janeiro deve seu nome ao deus romano Janus, responsável pelas transições, passagens, mudanças, términos e começos. Por isso sua representação olha ao mesmo tempo para o passado e para o futuro. Então, sob as bençãos de Janus, faço aqui a retrospectiva do ano que terminou ontem, ainda buscando inspiração e força para viver com esperança o ano que começou hoje.

 Helê

Dentro do coração

I’ll be there for you / ‘Cause you’re there for me too. 
The Rembrandts

Lá pelo final dos anos 1990 (e início dos 2000), a gente parava toda semana* – talvez às quintas-feiras? – para assistir Friends, uma série que, como o nome já diz, contava as aventuras e desventuras de seis amigos naquele momento da vida em que a faculdade já terminou mas sua “vida de adulto” ainda não começou. (Ao longo das dez temporadas isso foi evoluindo, claro, mas enfim. Quem lê esse blogue tem idade suficiente para ter assistido à série na época, eu acho.) 

Lembro de ter lido, em algum momento dos muitos anos em que acompanhei a série, um artigo que tentava explicar seu sucesso. E era alguma coisa que tinha a ver com o fato de aqueles personagens retratarem uma característica típica da (nossa) geração: a importância que damos aos amigos e amigas.

Devem haver outras explicações, mas gosto muito dessa. Não sei quais são as causas sociológicas para isso, mas tenho mesmo essa sensação de que a relação que tenho com meus amigos é muito diferente da que meus pais tiveram, ou, sei lá, meus avós. Não é que eles não tivessem grandes amizades que atravessaram décadas – eles as tiveram. Mas não posso imaginar minha mãe chegando na casa de uma amiga e abrindo a geladeira para pegar uma água. Talvez seja uma coisa de classe e não de geração. Mas o ponto é que minha casa sempre foi aberta a amigos/amigas. Foi o lugar onde a turma dormia quando ficava tarde demais para pegar o ônibus, onde a gente se reunia para jogar e beber cerveja quando a grana ficava curta, onde a gente assistia filmes (saudoso Cinemonix) quando as crianças eram pequenas, e por aí vai. Da mesma forma, sempre me senti à vontade na casa deles/delas. Aquele entra-e-sai dos apartamentos das “meninas” e dos “meninos” na série é uma bela metáfora para essa relação confortável que temos com os espaços uns dos outros.

E não é só nas casas da gente que essas coisas acontecem. Nas nossas vidas, também existe esse entra-e-sai de amigos/amigas. Eu conto com eles, eles contam contam comigo. Perdi a conta de quantas mudanças ajudei a desencaixotar – e, claro de quantas pessoas me ajudaram a desencaixotar as minhas mudanças. Tudo o que não sei e preciso saber, pergunto a um amigo/amiga. Quando meu filho era pequeno, a gente ria disso – ele fazia perguntas doidas sobre o espaço sideral ou sobre tubarões, e eu dizia: não sei, mas tenho uma amiga que sabe. 🙂

Um dos planos mirabolantes que tenho com minhas amigas é o do asilo grandmothern, um lugar meio utópico em que nos reuniremos quando formos velhinhas, para cuidar umas das outras, reclamar dos filhos, babar os netos e paquerar os enfermeiros. Só não pode faltar o wi-fi, o resto a gente resolve.

Há um tempo atrás a atriz Jennifer Aniston, que interpretava Rachel, brincou dizendo que se Friends fosse feita hoje, a série seria um fracasso, pois os seis ficariam sentados no sofá olhando para seus iPhones. Talvez. Prefiro pensar que não.

Fim de ano é época de festas de família. Mas eu queria dizer aos meus amigos e amigas (vocês sabem quem são): vocês também são família para mim.

-Monix-

*  Naquela época, tínhamos que esperar longos sete dias para assistir 22 minutos de um episódio. 

Descartável

Do Pinterest

Da série Corações

Helê

Cartas de amor aos livros

O fim do ano está chegando, e ao mesmo tempo em que refletimos sobre o que passou, começamos a nos programar para as festas e celebrações, que eu, particularmente, pretendo aproveitar como há muito tempo não aproveitava – afinal, não estamos todos precisando de luz, amor, paz e rabanadas?

Nesse clima meio-retrospectiva-meio-compras-de-Natal, quero aproveitar o espaço aqui do blogue para divulgar a carta aberta do Luiz Schwarcz, editor do grupo Companhia das Letras, a todos os amantes dos livros. (Os grifos são meus.)
-Monix-

Foto: Daniel Alvarez, via Unsplash

***

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia. A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros, mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores, procuremos soluções criativas e idealistas neste momento. As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer. Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla. Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro.

Luiz Schwarcz

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