Pastilhas Garota* Olímpicas

As olimpíadas começaram na semana em que Fifi terminou de ler “1984”, do Orwell, para a prova da Uerj. Falou comigo convicta: “Olhaí a pós-verdade, Tokyo 2020 acontecendo em 2021…” Sim, já tivemos julices mais leves, mas quem complicou foi a vida.

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Mas, provando que o fruto não cai longe da árvore e ela é, de fato, filha do Pacheco, torceu pro Kevin Hoefler desde que ouviu falar dele – umas duas horas antes de ele ganhar a medalha de prata.

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Eu contei no tuíter que foi um alívio encontrar um jogo de futebol da seleção feminina às 6h da manhã num dia em que acordei às 5h30 e não dormi mais. Tudo o que eu queria era não ter que ver no noticiário todos os crimes não resolvidos no Rio de Janeiro fora os novos  – e nem vamos falar do Planalto Central do país. Sim, quero ópio do povo e alienação, fadas e surfistas vitoriosos. Necessito de emoções baratas e mentiras sinceras, podisê?

Do começo na tampa de isopor ao ouro olímpico: conheça a trajetória do  surfista potiguar Italo Ferreira | Rio Grande do Norte | G1

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E a CPI, que volta na semana que vem, que não venha atrapalhar minha Olimpíada! Só mais uma semaninha de intervalo; depois vocês podem ficar passando  a limpo esse governo por quanto tempo for necessário.

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Não me conformo com a falta de público. Não que eu ache que deveria ser liberado, é só que eu acho triste, tristíssimo esses enormes espaços vazios, os atletas acenando pra meia dúzia de repórteres e técnicos. Como diria Djavan, fica faltando um pedaço, uma ausência estrondosa.

Olimpíada 2021 sem plateia tem silêncio como protagonista | Eu & | Valor  Econômico

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Fiquei assistindo o judô com um incômodo que só depois entendi de onde vinha: meu irmão, quando aprendeu, treinava comigo – embora a única coisa que eu soubesse era bater três vezes pra ele me largar. Deu gatilho.

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Não torcer é tão bom quanto impossível, então posso começar desinteressada e terminar gritando impropérios (aliás sou boa nisso, se fosse esporte…). Escolho de um modo geral os underdogs: latinos, africanos, os sem tradição naquela modalidade. Agora, por exemplo, EUA x Quênia no vôlei de praia – nem precisa perguntar, né? Aliás, as chances de torcer pra americano são baixas. Mas, por exemplo, se for um americano preto e um alemão, tô com o preto. Geopolílica helenista.

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La Outra falou em Nostalgia da Rio 2016 e eu acho que o sentimento foi generalizado, pela quantidade de vídeos que vi pela internet, até no feed da minha filha. Muita saudade daquele país que uns dizem que o PT distruiu, mas a gente sabe que ele projetou pro mundo inteiro.

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A gente tava feliz e sabia. Sabia também que tinha problemas enormes, tanto aqui no Rio quanto em Brasília, a gente fazia autocrítica durante, e não depois pra se justificar e pedir voto. E a gente sabia que ia acabar. Só não imaginava, e nem precisava ou merecia que fosse dessa forma vergonhosa e funesta.

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Mas eu tenho conflitos com a ideia de nação desde sempre, me parece uma abstração evocada em geral com os piores propósitos. Pátria então é pior a ainda  (a língua é minha pátria e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria). Eu gosto da brasilidade (apud Simas, Luiz Antonio) e gosto de pessoas. A cada dia grito menos Brasil e mais Raissa, Ítalo, Fernando.

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Agora, essa parada da Rússia até aqui ganhou a Medalha Caô desta Olimpíada. Por causa de doping, o país é punido. Mas os atletas participam, com a bandeira do comitê. E quem controlava o doping no país? O Putin, pessoalmente? Enfim, a hipocrisia.

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Simone Biles, que coragem esse mortal duplo carpado na expectativa do mundo inteiro em favor da sua saúde mental. Uma aterrisagem firme e belíssima fincada no seu bem-estar e na sua alegria. Você é gigante.

Loic VENANCE / AFP

Helê

*Porque Drops só da Fal

Atualizado em 29/07/2021 07:44

Sobre patriotismos — e algumas notas olímpicas

Os japoneses são tão organizados que calcularam direitinho pra olimpíada cair bem no intervalo da CPI da Pandemia, garantindo o entretenimento dos brasileiros.

E a gente estava mesmo precisando de uma diversão que não fosse apenas passar raiva juntos.

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Eu sou aquela que só gosta de futebol na Copa do Mundo. E dos demais esportes, quando os ventos favorecem, só mesmo em alguns Jogos Olímpicos. Em 2016 eu dei uma surtada com os Jogos no Rio e assisti um monte de eventos. Foi a última vez que minha cidade, que tanto amo, me fez realmente feliz.

Ano passado, quando adiaram os Jogos de Tóquio, eu estava mais preocupada com a crise global da pandemia. Não dediquei mais que dez segundos pensando “ah, fizeram bem”, e segui dando banho nas compras (a gente ainda estava nessa fase, lembram?). Mas desde semana passada, quando me caiu a ficha de que mesmo com a pandemia ainda nos ameaçando aí fora haveria, sim, olimpíada, convivo com um misto de sentimentos. O primeiro deles foi a saudade imensa do Rio olímpico, do alto astral daqueles dias. Revi vídeos e ri até das coisas que reclamei rabugentamente na época, como a zoeira exagerada da torcida carioca em esportes tradicionalmente mais “comportados”.

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Pouco antes de começar a olimpíada, fiquei meio na dúvida se era certo assistir, afinal, pandemia né? Durante outros dez segundos fiquei pensando se era incoerente acompanhar os Jogos depois de criticar a vinda da Copa América para o Brasil*, tempo suficiente para concluir: eles que lutem.

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O esporte é uma forma genial de canalizar o patriotismo das pessoas, construir um senso de nacionalidade, sem precisar levar todo mundo para a guerra. Assistir EUA X China no vôlei é um microcosmo de tensões geopolíticas que terminam quando o juiz dá o último apito. Este ano eu lembrei que adoro vôlei (sei lá por que tinha esquecido disso), e fico catando partidas nos inúmeros canais sem locução disponíveis no meu pacote. Mas não consigo assistir sem torcer, então escolho um país. Normalmente vou pela proximidade ou afinidade cultural: entre Irã e Venezuela, fiquei com nossos vizinhos. Perderam. Na partida entre americanas e chinesas, tentei de verdade torcer pelas representantes do nosso continente, Mas elas eram tão antipáticas, e as asiáticas, por outro lado, tinham tanta alegria (davam gritinhos a cada ponto), que mudei com cinco minutos de jogo.

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E obviamente há o Brasil. No Twitter o que mais vejo são negociações sobre para qual atleta podemos torcer, quem é ou não bolsominion, se é melhor focar nos esportes individuais e escolher os mais confiáveis ou se nos coletivos para diluir o risco. Sinceramente? Estou zero preocupada com isso. Torço mesmo. O esporte, como eu disse, é uma forma de emoldurar nosso conceito de nação — e curiosamente ao mesmo tempo é mostrado como um instrumento de superação pessoal de dificuldades, etc. Paradoxos.

Mas enfim, digressões à parte, há alguns anos, principalmente a partir de 2013, me sinto um pouco lesada no meu direito de pertencer ao Brasil, de ser brasileira, de me ver representada por símbolos nacionais (os piores casos são a bandeira e a camisa da seleção de futebol, que foram roubados de nós pelos extremistas de direita e hoje causam desconforto na maioria das pessoas da minha turma). Por isso, tem sido bom aproveitar os Jogos Olímpicos para me reencontrar com o sentimento de brasilidade. De saber que ser brasileira, mais do que vergonha internacional, é fazer parte de um povo alegre, apaixonado e apaixonante, intenso de todas as formas (às vezes a ponto, sim, de ser vergonhoso, mas por motivos mais inofensivos do que destruir a Amazônia ou deixar a pandemia fora de controle para lucrar com vacinas superfaturadas e garantir popularidade no ano de eleições).

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O maior símbolo do Brasil que eu quero e preciso resgatar no meu coração é a fadinha Rayssa Leal. O sorriso no rosto dessa menina, a leveza em cima do skate (e o próprio fato de o skate se tornar esporte olímpico), tudo isso me representa.

Aos 13 anos, Rayssa Leal, a Fadinha, conquistou a medalha de prata no skate stre
Valeu, garota :)

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Ainda nesse quesito “reflexões sobre o patriotismo nos esportes”, chama a atenção a situação dos atletas russos. O país foi banido de competições internacionais, porque o governo estava dopando todo mundo pra conseguir os melhores resultados (resumindo em poucas palavras uma situação obviamente mais complexa que isso).

Esse caso da Rússia leva ao limite o argumento de que o esporte é uma forma de sublimar as guerras, de levar as tensões geopolíticas para dentro das quadras e pistas e etc. Hoje é século XXI, galera. O soft power é tão importante quanto qualquer outro, se não for mais.

Enfim, quando vi a bandeira olímpica e a a sigla ROC indicando que os atletas estão competindo pelo Comitê Olímpico Russo, e não pelo país, achei estranho e meio que como trocar seis por meia dúzia. Se são as mesmas pessoas, que diferença faz? Não é uma hipocrisia danada permitir isso?

Claro que há interesses comerciais que não podem ser contrariados. Um atleta de alta performance fora de uma olimpíada causa um prejuízo enorme para as marcas que investiram nele. Uma delegação inteira, ainda mais uma do porte da russa, seria incalculável.

Mas, negócios à parte, realmente não é a mesma coisa que competir sob a bandeira do país. Subir ao pódio e não ter o hino executado é um golpe no sentimento de patriotismo que vem junto com a vitória no esporte. Ainda mais quando se sabe que isso acontece porque o governo do seu país foi punido.

Além disso, na prática a medida significa que os atletas estão reunidos sob o Comitê Olímpico Russo, um órgão que o Comitê Olímpico Internacional consegue controlar.

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Um silêncio veemente que se escuta é o do presidente Jair. Políticos e artistas que entendem essa relação umbilical entre os esportes e o conceito de nação estão parabenizando os atletas, vibrando com cada conquista, e na medida em que adjetivam e qualificam cada acontecimento, ajudando a emoldurar a ideia que fazemos de Brasil. O Brasil é o sorriso da Rayssa? É o choro emocionado do Ítalo? É a persistência dos caras do vôlei que viraram um jogo suado contra a Argentina? Sim. Somos um pouco de tudo isso. E o presidente? Soltou uma nota burocrática parabenizando os skatistas e aproveitando para falar de isenção de impostos para skates, como se alguém estivesse pensando nisso na hora de comemorar medalhas. Francamente. Fora isso, nada mais. É quase como se estivesse aproveitando que todos mundo está olhando pro outro lado para entregar de vez o governo ao fisiologismo.

Ou vai ver que ele só consegue mesmo se pronunciar quando é pra atacar a ideia de Brasil que esses atletas representam. Por isso, quando eles triunfam, não consegue dizer é nada.

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Voltando ao começo, semana que vem a CPI recomeça e desconfio que o recreio vai acabar — ou seja, será o fim desse intervalo maravilhoso em que foi possível esquecer do Brasil sombrio de 2021 e acreditar que podemos ser muito, muito melhores que isso.

-Monix-

* Refletindo melhor, concluí que não, não é a mesma coisa. O Japão está há mais de um ano planejando e pensando em formas de realizar um evento deste porte em condições minimamente seguras para todos. O Brasil atravessou a rua para escorregar numa casca de banana que nem era nossa, e abrigou uma competição internacional com dias de antecedência, seguindo a lógica sanitária do salve-se quem puder.

Em busca do ânimo perdido

Tá tudo meio chato. Tudo meio assustador. Tudo meio deprimente. E esses “tudos” deixam a gente sem ânimo.

(Aliás, a palavra é bem essa mesmo. A gente costuma usar “ânimo” para falar de um estado de espírito, mas na origem a palavra significa o próprio espírito. E essa soma de coisas ruins — ou de nadas — parece estar matando o nosso espírito, não? Pelo menos é assim que eu me sinto, há uns bons meses.)

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As últimas semanas foram particularmente difíceis nesse quesito do ânimo. Mas aprendi com a turma do Medo e Delírio em Brasília que passar raiva junto é melhor. Foi por isso que na sexta à noite, apesar de não me sentir exatamente motivada, resolvi na marra que iria à manifestação do sábado.

Na rua não teve Fla X Flu. Torcidas unidas na força do ódio.

Eu fui. E sim, passar raiva juntos é extremamente motivador.

Estou há um ano e meio em casa, durante uma pandemia fora de controle, sabendo que está tudo errado e que as coisas não precisavam ser tão desastrosas assim. Essa sensação de isolamento misturado com revolta é uma receita certa para desanimar, ou, mais exatamente, definhar. (Se você ainda não sabe o que é definhar, dá uma pausa na leitura aqui e clica no link. Depois volta aqui. Sério mesmo, essa matéria explica muita coisa.)

Estar na rua cercada por pessoas tão indignadas quanto eu teve o efeito contrário ao isolamento forçado da pandemia: foi revigorante. Não é natural para nós, humanos, estarmos longe de nossos pares, distantes de qualquer troca, alijados da vida em sociedade. Fazer parte de um grupo tão grande, tão diverso e tão potente me fez bem.

Durou pouco, é verdade. Assim como a destruição causada ao país vai demorar a ser recuperada, os danos à nossa saúde mental também não serão curados em um dia. Mas é preciso começar por algum lugar.

Então, leitores e leitoras do meu coração, fica a dica: na próxima manifestação, estejam lá. Faz bem ao país e, principalmente, faz bem para a nossa cabeça.

-Monix-

Orgulhoso

Arte de Leo Mendes

Da série Corações

Helê

Lição

Eu devia ter uns dez anos, se muito. E estava conversando com meu pai, não lembro sobre o que exatamente, e ele me disse a frase fatídica: “Tudo é política. Tudo é um ato político”. Espanto. Descrença. Não é possível, meu pai devia estar exagerando ou só sendo impaciente. “Tudo tudo, pai?” E ele, irredutível: “Tudo!” Revirei todos os conhecimentos que tinha conseguido juntar até ali pra tentar combater aquilo que parecia uma senteça da frieza do mundo. Não podia tudo na vida ser aquilo que eu achava cinza, chato e de adulto como a política. E então usei o exemplo que me parecia o mais distante possível e me parecia irrefutável: “Um beijo na boca, pai? Beijo é política?” Ele nem perdeu tempo considerando meu argumento pretensamente definitivo: “Sim, claro, até um beijo é um ato político”, respondeu, inabalado.

Sem mais recursos, eu desisti, mas não me convenci. Fiquei ainda algum tempo chocada com o que me parecia uma heresia. Como podia ser político um gesto tão lindo? (Lembre que eu tinha só dez anos, sabia menos sobre beijo que sobre política…)

Só mais tarde – mas nem tanto assim, no começo da adolescência – eu compreendi o que meu pai quis dizer. Descobri, por exemplo, a potência de uma frase como “Faça amor, não faça a guerra”, que aos dez anos daria um curto-circuito na minha cabecinha. Mas na qual eu já não via contradição ou inconsistência, pelo contrário: estava impregnada de política – e também de afeto e de muitos outros significados. Eu agradeço por ter sido educada para compreender a política como algo amplo, ordinário, presente no cotidiano de todos, cientes ou não disso.

E me irrito praticamente todos os dias com uso equivocado da palavra, as falsas oposições (‘é um quadro técnico, não político’ – ahã…) e com a ignorância orgulhosa de quem acha que política é aquilo que se faz em Brasília e não as mensagens mentirosas que eles distribuem no zap da família. Leio estarrecida comentários do perfil de um sindicato: “Cuidem de nossos problemas e deixem a política de lado.” Tenho ganas de responder: “Amadah?!?!”

Barba 🏀 on Twitter: "No segundo o beijo fictício de 2018 entre Bolsonaro e  Trump do artista BadBoy Preto em Maracanaú, Ceará. Artistas diferentes,  lados diferentes do espectro politico, países diferentes... Mas
Mein Gott, hilf mir, diese tödliche Liebe zu überlebenobra do artista russo radicado na Alemanha, Dmitri Wrubel. 

Helê

Conversas com adole antes das 7h ou Posts Íntimos

Descobrindo o pinto - Blog Dri Viaro - Família, viagens, gastronomia e  cotidiano


– Mãe, a Fulana queria ter um pinto.
– Isso é uma metáfora, filha?
– Não, mãe!
– Então ela quer um pinto bicho?
– Não, mãe, ela queria ter um pinto pinto (faz o gesto com as mãos).
– Mas pra quê ela queria ter um pinto? Ela é trans, gay…?
– Não, mãe. Eu sei lá. Aí ela perguntou pro Sicrano como é ter um pinto e ele morreu de vergonha.
– Claro, filha.
– Ela também perguntou se ele já se masturbou, como é. Ele ficou suuuuuuper sem graça.
– Claro, né, filha! Isso não é coisa que se pergunte num grupo, é muito íntimo. No máximo com um amigo ou amiga, a dois.
-…
– Além do mais, é uma pergunta irrespondível. Não tem resposta.
_ Ué, por que não tem reposta?
_ Porque cada um é um, ué. Ele não sabe dizer como é ter pinto, ele já nasceu com um, não sabe como é ser de outro jeito. É como se eu te perguntasse como é ter xoxota.
_ É legal. Mas às vezes coça.

(escrito em junho de 2015 e encontrada acidentalmente em junho de 2021)

Helê

Canções de guerra, quem sabe canções do mar

Depois de um longo período sem conseguir me concentrar em nada, nem mesmo no escapismo catártico da ficção, aos poucos estou voltando a consumir alimentos para o espírito. #alertadeclichê

Eu sempre fui devoradora de filmes, séries, livros, e, mais recentemente, podcasts. Por isso, me preocupava um pouco minha total incapacidade de assistir mais de 20 minutos de um filme, minha total falta de vontade de começar uma série por saber que não daria conta de ir adiante, e, claro, minha total falta de foco para ler mais de duas páginas de um livro. Acho que muita gente está assim também, e ter companhia me deu algum conforto, claro. Mas o que realmente me deixou satisfeita foi conseguir, aos poucos e sem explicação, voltar a encontrar prazer nas coisas que sempre amei.

Daí que nos últimos meses vi muita coisa interessante, li um livro lindo que ganhei de presente, maratonei séries, enfim, I’m back :)

Como gosto de anotar o que estou vendo e ouvindo, reparei que nas últimas semanas assisti vários filmes passados mais ou menos na época da II Guerra Mundial — um pouco antes, durante, um pouco depois. (Eu sempre fico impressionada com a capacidade da indústria cultural de produzir infinitas obras sobre os horrores do nazismo. Já houve uma moda de filmes sobre a Guerra do Vietnã, que aconteceu bem depois, e a fase passou. Mas a II Guerra continua rendendo assunto até hoje. E faz sentido: depois de ler Hannah Arendt eu entendi.)

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Antes de chegar a um conclusão, se é que chegarei, deixo o registro dos filmes que vi (e um que revi) nas últimas semanas sobre esse tema.

Operação Final: agentes do serviço secreto israelense vão à Argentina para capturar e retirar do país o criminoso de guerra Adolf Eichmann (cujo julgamento inspirou outra obra da Hannah Arendt que ainda não li). A operação é bastante questionável do ponto de vista do Direito Internacional (talvez flagrantemente irregular, mas sei lá eu). Mas seus resultados concretos e simbólicos são, esses sim, inquestionáveis.

O Fotógrafo de Mauthausen – espanhóis derrotados na Guerra Civil foram tornados apátridas pelo ditador Franco, e enviados ao campo de concentração de Mauthausen, na Alemanha. Lá, um deles se torna assistente do oficial nazista que fotografava as atrocidades cometidas. Conforme os prisioneiros percebem que o fim da guerra se aproximava, alguns deles se unem na tentativa de preservar os negativos que serviriam (e serviram) de provas nos tribunais do pós-guerra. O filme é baseado em acontecimentos reais, e algumas cenas reproduzem fielmente as fotos tiradas na época.

A Escavação – pouco antes da guerra começar (a Inglaterra já era sobrevoada por ameaçadores aviões alemães), uma viúva, proprietária de terras, decide escavar um terreno onde, segundo a lenda local, havia coisas antigas debaixo da terra. Ela contrata um arqueólogo amador, eles fazem uma descoberta muito importante e o resto é história (e História). A trama não é lá grande coisa, mas as imagens da escavação são sensacionais e valem o filme.

Lida Baarová – em meados da década de 1930, em plena ascensão do nazismo na Alemanha, uma atriz de cinema tcheca, já famosa em Praga, se muda para Berlim na tentativa de ser bem sucedida por lá. Na época, Berlim era um polo cinematográfico que competia com Hollywood — e para a qual perdeu talentos como Fritz Lang e Marlene Dietrich, fato citado em uma das cenas. (Aliás, eu só fiquei sabendo mais sobre essa era de ouro do cinema alemão quando visitei o Museu do Cinema berlinense.) Bom, pra variar, I digress. Voltando ao filme: a atriz Lida Baarová de fato consegue fazer sucesso na capital alemã, tanto que chama a atenção do Führer em pessoa e do poderoso ministro da Propaganda Joseph Goebbels, de quem torna-se amante. A história de Lida é uma história de decisões erradas.

A sociedade literária e a torta de casca de batata – logo após o fim da guerra, uma escritora londrina conhece, através de cartas, um grupo de amigos moradores da ilha de Guernsey, que chegou a ser ocupada pelo exército alemão. Deu vontade de rever um confort movie, escolhi esse. Apesar do tema de guerra, é uma história doce sobre como o amor e a amizade podem surgir em momentos (e por pessoas) que não se espera. O livro, um romance epistolar delicioso, já foi tema de post da Helê.

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Bom, depois dessa enxurrada de filmes mais ou menos sobre o mesmo tema, alguns mais delicados, outros bastante pesados, me peguei pensando por que será que estou tão interessada na II Guerra Mundial, que nem é um período histórico pelo qual eu tenha uma preferência especial.

E o mais estranho: a vida real está tão difícil, tão complicada, que eu deveria estar buscando conforto na ficção, eu acho. Em vez de assistir a coisas ainda mais horríveis.

Mas talvez seja isso: talvez, de algum forma, saber sobre coisas horríveis pelas quais a humanidade já passou, conhecer aquilo a que sobrevivemos, esteja me ajudando a lidar com nossos tempos duros. Eu ainda quero acreditar que nós somos ação, eles são reação. Eles passarão, nós passarinho.

-Monix-

Pastilhas Garota – edição Infinitena

O tempo do apartamento é tão fugaz (…)
me dá tua mão mascarada me leva daqui/ prum tempo que for qualquer tempo que for pra fora desse apartamento/que o tempo aprisionou

Foi totalmente por acaso, procurando um som pra me acompanhar no home office, que descobri o novo álbum do Marcos Sacramento, chamado “Crônicas do apartamento 20“. Deduzi que tratava-se de canções da pademia, sons da quatentena, e era exatamente isso. Sacramento fala de um tempo que não é mais tempo, que não sobra mais, de estradas sem caminhões e brisas sem aviões. Tempos duríssimos.

Estou tão só e demora esta solidão sobrehumana
Tão só, tão só que mesmo os gatos de casa/ mesmo deles emana
um torpor exageradamente solitário

Eu costumava ter certa desconfiança com obras artísticas que cujo tema fosse algo muito próximo. Quando vi, por exemplo, a Netflix anunciando uma série chamada “Distanciamento social“, torci o nariz. Achava que não é possível retratar tão bem algo sem alguma distância do que está em foco. Mas a curiosidade foi maior que o pré-concebido, e tive uma surpresa agradável e positiva com a série.

Os episódios são independentes, praticamente pequenos curtas e, como pode acontecer nesses casos, a qualidade varia entre eles. Mas de um modo geral, vale a pena assistir. Há algumas atuações excelentes, tramas ora divertidas, ora realmente dramáticas, e a sensação persistente de familiaridade. Quase todos nós vivenciamos em algum grau uma (ou muitas) daquelas situações. O pai que tem que cuidar da filha enquanto a mãe enfrenta a Covid isolada no quarto, a cerimônia funeral on line, adolescentes paquerando via web.

Distanciamento Social | Site Oficial Netflix

A familiaridade incomoda em vários momentos, pode ser reconfortante em outros; o fato é que não ficamos alheios à tela: também é mais difícil assistir se estamos envolvidos no enredo.   

A noite está parada, abalada, abalda parou.
A noite está fechada.
A vida foi travada
tudo é anormal

As crônicas cantadas de Sacramento despertam sentimentos semelhantes. Da varanda de seu apartamento em Santa Teresa, com um vista privilegiada e ampla do Centro do Rio, ele registra silêncios e sinais, angústias, reflexões, lembranças e desejos de alguém acostumado ao palco e à experiência coletiva da música obrigado a se isolar. Impossível não se identificar em vários momentos e versos. E, como todos já descobrimos, nem só de tristeza e melancolia se vive  uma pandemia. São vários os ritmos visitados por Sacramento, e é um samba (sempre ele!) que carrega os versos mais luminosos e esperançosos. Lembrando ser “um samba que já nasce em sacrifício – pois o vício de sambar é ancestral”, manda o recado, papo reto:

Gritam nebulosas do espaço
que a vida é infinta, que ela vai continuar!

Procurando as letras das canções para escrever o post, emcontrei o site do cantor e compositor e lá soube que ele fez também uam álbum visual, disponível no YouTube. Igualmente instigante, inteligente e bem feito. Marcos Sacramento fez uma margarita ótima desse limão azedíssimo que estamos tomando forçosamente há mais de um ano. Vale muito a pena provar.

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Uma outra iniciativa que é cria  direta da pands é o Museu do Isolamento, perfil no Instagram que publica trabalhos artísticos que abordam…isso tudo que tá aí. Tem humor, crítica, raiva, bom gosto, de tudo um pouco, e quase tudo muito intereressante, criativo e…familiar. De novo uma sensação de conexão com o outro que eu não sei quem é mas que está vivendo coisas muito intensas e parecidas. Também acho que vale a visita. 

Arte feita por Carol Yokota, para ver mais acesse @carolyart #museudoisolamento

Arte feita por Cecile Mendonça, para ver mais acesse @picortes_ 

Arte feita por Helena de Paula e Gabriela Bosco, para ver mais acesse @matracanossa #museudoisolamento

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E, desviando da minha propria pauta, a auto indisciplinada aqui tem mais duas dicas imperdíveis que surgiram durante a pandemia, sem ter compromisso com ela. O meu amigo Erasmo Car, não, péra. Meu amigo Renato Hermsdorff colocou no ar o The Renato Herms Show, um canal do YouTube  em que ele reparte seu vasto conhecimento e comprovada experiência de jornalismo especializado em audiovisual e  oferece informações, comentários e críticas sobre filmes, séries e quetais. Inteligência, conhecimento, humor e (por que não?) beleza te esperam no TRHS; confira. 

E a ideia esperta (e necessária) de falar com mulheres da minha Faixa Etária de Gaza, isto é, ao redor dos 50 anos, também com inteligência, leveza e acuidade não podia esperar a pandemia passar. Então a minha amiga Tina Lopes lançou o  @Fifitinah, saboroso já no título, que tem trazido informações relevantes, para além do coach (cruzcredo!) e demais obviedades rasas e promovendo lives que parecem bate papos no bar com as amigas – ou seja, algo muito mais legal que live. Novinhas e homens são aceitos e bem-vindos –  mas esqueçam os privilégios, por favor. Por enquatdo é um perfil no insta, mas se você vacilar a Tina Cérebro vai dominar o mundo! Eu, Pink, torço por isso.

Helê

Dezessete anos hoje

No Instagram da Monix e da Helê

Helê

(Ainda) notas sobre a Covid

A Covid-19 não tem remédio mas tem cura — um paradoxo, uma angústia, mas ainda assim melhor desse jeito que o oposto. Doença recém-surgida, assemelha-se a uma roleta russa gigante que aleatoriamente distribui leves resfriados, pneumonias fulminantes, nada, perda de sentidos, sintomas longos e extremos, ou coriza e febre. Não saber com o quê você vai ser sorteada te coloca numa posição de vulnerabilidade absurda.

Mas não, não é a pior doença que já apareceu no planeta — ou pelo menos não a conhecemos o suficiente nem para afirmar isso. Eu vi os primeiros anos da Aids no mundo e nada parecia mais triste que aquilo. E foi um fantasma horroroso por muitos anos imaginar que o gozo poderia nos matar num sentido não figurado.

A Covid-19 é, seguramente, a que mais assusta agora, e a mais desafiadora porque não basta ter recursos para combatê-la. O problema é o que ainda não sabemos — nós, que acreditamos cada vez mais que sabemos tanto sobre tudo.

É realmente incrível que não haja uma explicação lógica para que a gente esteja até agora torcendo pelo Paulo Gustavo, um cara jovem, saudável e com recursos, junto com as velhinhas italianas octogenárias que deixaram o hospital sob aplausos e lágrimas. Mas havemos de aplaudir o Paulo também!

Não tem remédio mas tem cura, não sabemos porque age tão diferente entre as gentes, mas já criamos uma penca de diferentes vacinas que podem evitar a forma mais grave e a morte. E seguimos assim, ansiosos, gratos, impacientes e esperançosos com a ciência — e absolutamente putos com a imbecilidade e a estupidez dos homens — fora a perversidade deliberada, para a qual tinha que haver punição proporcional. Ouvir um milico de alto escalão dizer que se vacinou porque quer viver e não vê-lo dedicar-se todas as horas de seu dia a fazer o mesmo pelo povo brasileiro deveria ser considerado flagrante de homicídio doloso.

Mas no momento estou evitando gente tóxica em qualquer nível, atrapalha a recuperação. Não gosto da metáfora da luta, dizer “venci” a doença. Não sei explicar, talvez seja medo de despertar-lhe a ira e o desejo de uma forra. Fico mais confortável dizendo que sobrevivi à Covid. Que termina, mas não acaba. Desde que ultrapassei a marca importante dos 14 dias eu me sinto estranha e fora do meu registro natural. É como se eu estivesse em uma outra rotação, mais lenta. É como se eu estivesse voltando, embora eu não saiba dizer de onde. A cada dia mais eu me sinto um pouco mais eu mesma, embora desconfie que não seja possível voltar exatamente ao que eu era. Bom, no mínimo há 25% da capacidade pulmonar a recuperar — e eu fico me dando tapinhas mentais: ainda bem que deixei de ser fumante há mais de 20 anos.

Não sei qual é a classificação médica, talvez meu caso tenha sido leve, já que a internação nunca chegou a ser cogitada. Às vezes sinto até certo pudor, diante de tanta dor esmagadoramente maior. Mas há um um lugar pra minha dor nessa experiência assustadora e desagradável. Para mim foi grave o suficiente para sair dela ainda mais solidária com quem é por ela atingido e menos transigente com qualquer filho da puta que esboce o mais leve desacordo com a gravidade dessa situação.

Nos primeiros dias eu consegui o impossível, que é ficar ainda mais emotiva do que eu, que posso chorar com Tom e Jerry, já sou. Agora acho que isso está normalizando. Lentamente, como tudo, pedindo sempre um pouco mais de calma. É uma doença agravada pelo seu contexto político, e também por conta dele deixa em nós uma dose de stress pós-traumático. Um vírus que concentra e condensa muitos de outros males desses tempos; a nossa gripe espanhola, a nossa guerra, a primeira grande cicatriz do século 21.

Eu preciso dizer que fui muito bem tratada nas vezes em que fui à clínica da família Hélio Pelegrino, e também na UPA da Tijuca. Pouca espera, médicos atenciosos, que tiraram as minhas dúvidas e reforçaram que não existe tratamento precoce para Covid. Também tive o apoio informal e fundamental de uma médica amiga, que atende pacientes da doença na enfermaria de um hospital federal aqui no Rio. Então, mais um vez e sempre, VIVA O SUS, PORRA! Se depois de um ano a gente já sabe que a humanidade não vai melhorar e tal, vamos pelo menos escolher algumas batalhas e permanecer nelas.

Coisas que eu não quero esquecer:

  • o carinho firme da minha filha, que devia estar tão ou mais assustada que eu, mas foi âncora e farol.
  • O som da torcida do Flamengo no dia do jogo contra o Palmeiras, por algum motivo um dia em que me desesperei com a doença. Era aquele silêncio tenso de domingo de pandemia com jogo decisivo: dava pra ouvir o vizinho abrindo uma lata de cerveja. A gente perdia. No gol do empate, o grito coletivo que sai feito uma erupção: aquele som reverberou dentro de mim, e eu chorei emocionada com aquela onda de vida que me atravessou.
  • E a expressão de alívio no rosto da minha amiga Caetana quando ela finalmente me viu. Eu vi a exata medida do medo que ela sentiu e do amor que nos une, tudo estampado no seu rosto expressivo, familiar, amoroso.

Nossa vingança vai ser sobreviver; nossa audácia: ser feliz.

Helê

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