Letal

(Salvo de zeroing.tumblr.com)

Da série Corações

Helê

Pais

 

 

 

 

    

 

 

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afro-art-chick.tumblr.com via Pinterest

Michael Vick and son. photographed by Chris Crisman

Laila Ali (R) is kissed by her father, boxing great Muhammad Ali, she defeated Erin Toughill, June 2005 Washington.
Salvo de chainedblackmentality.tumblr.com One of 400 Expelled Palestinians with his daughter after His Return Home, Deir El-Balah Camp, Gaza, Palestine, 1995.

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Marvin Gaye and His Son

 

Helê

Na minha pele 

Fiquei esperando pelo livro do Lázaro Ramos na fila, por assim dizer; ansiosa, procurei antes de chegar às livrarias e comprei na semana de lançamento. Gosto dele, acho um excelente ator, um entrevistador responsável, dedicado; gosto de sua postura serena, firme e ao mesmo tempo relaxada, de seu humor. Era o que esperava encontrar em “Na minha pele”, uma perspectiva ao mesmo tempo séria e leve  —  coisas que, em geral, não encontro nas leituras sobre raça, sempre necessárias mas em geral pesadas e dolorosas.  Evidentemente, também há dor na trajetória de Lázaro – nunca conheci um entre nós negros que dela tenha escapado. Mas na narrativa de Lazinho sobressaem a doçura, a ausência de ressentimento, a franqueza; há também leveza e humor. É um livro honesto, de alguém que pergunta junto com o leitor,  ri de si mesmo, e não traz verdades, pelo contrário: desconfia delas. O estilo não se destaca nem compromete, mas essa nunca foi sua preocupação, ele esclarece desde o início. Buscava expor o que, em sua trajetória, poderia ser útil para o leitor, e em ‘útil’ estão contidos outros adjetivos: solidário, inspirador, provocativo. Missão cumprida, Lázaro.

Para mim, o grande mérito de “Na minha pele” é essa abordagem do racismo de um ponto de vista pessoal, íntimo – que inevitavelmente acaba reverberando no coletivo. Porque a tônica da discussão sobre o tema recai sobre a discriminação no mercado de trabalho, a coerção policial e o preterimento na escola — para citar apenas alguns efeitos em massa das desigualdades raciais no Brasil. Mas pouco se fala – ou se falava, até algum tempo –, da sensação esmagadora que sente um adolescente rejeitado, que acha que ninguém nunca vai se interessar por ele – e, principalmente,  sobre como esse adolescente enfrenta a situação. Cobramos – e cobraremos sempre – ações do Estado e da sociedade, mas é no varejo do dia a dia que o racismo mostra suas garras e aprendemos a afiar as nossas – não sem cicatrizes.   E me interessa esse viés, as ações pessoais, as resistências diárias e os rastros que deixam; o que fazemos (ou deixamos de fazer) com as sequelas da luta, muitas vezes brutal e brutalizante que negras e negros enfrentam em função de sua aparência. O depoimento de Lázaro contribui também para esse olhar privado sobre o problema, além de expor, novamente com sinceridade e destemor, de que maneira ele se move na vida considerando o racismo mas sem se deixar pautar pelos racistas.

Das variadas reflexões do livro, uma frase que não sai da minha cabeça desde que li: “afeto é potência”. Ela ainda reverbera na minha cabeça e no meu coração, semanas depois de terminada a leitura; ainda não esgotei seus significados. É o que faz um bom livro: permanece em você mesmo depois de lido.

Helê

 

Helê

Agosto, sol em leão

Feliz aniversário para as leoninas e os leoninos leitores deste blogue – uma de nossas tradições mais antigas e pretexto para fotos dessa realeza.

Helê

Anotações para uma biografia musical

Quando eu nasci, há dez mil anos atrás, veio um anjo safado que decretou que eu tava predestinada a ser errada assim. Deus, que é um cara gozador e adora brincadeira, pra me jogar no mundo tinha o mundo inteiro, mas sou natural daqui Rio de Janeiro, sou em quem levo a alegria. Nascida no subúrbio nos melhores dias. Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim. Levava uma vida sossegada, gostava de sombra e água fresca. Seemed that life was so beautiful, magical. Quando fui ferida, vi tudo mudar das verdades que eu sabia. Yesterday came suddely. Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar. A cada  mil lágrimas sai um milágre. Eu sei, serei feliz de novo. Ah, se eu fosse marinheiro, seria doce o meu mar. I’m all about the bass. Em matéria de guarida, espero ainda a minha vez. My friends all drive Porshes, I must make amends. Tenho desejos maiores, eu quero beijos intermináveis. I told you I was trouble. As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender.

Helê

Ler para aprender

Lembrando da época em que os memes nasciam (e prosperavam) nos blogs (blog? whaaat?, pergunta um incauto que lê isso no Facebook), imaginamos uma lista de livros “Ler para”, livros de ficção que, além da qualidade literária, podem ser usados com um objetivo bem específico, como se didáticos fossem. A Helê teve essa ideia quando identificou claramente dois que serviriam a este papel – número suficiente para iniciar uma lista, principalmente com a colaboração das leitoras e leitores (can I get an amem here?). Se te ocorrer um livro que se enquadre na definição, indique nos comentários, sifazfavoire.

Livros da Helê

Para compreender a formação do Brasil: Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves

Tenho uma dívida enorme com esse livro e com a Ana porque nunca falei dele aqui no blog. Não que isso vá fazer alguma diferença para ele ou para ela, mas é que eu me sinto em falta, já que escrevi sobre outros que me causaram menos comoção. Demorei muito a ler, fiquei achando que perdi o timing do post. Mas quando tive a ideia desta lista, nenhum outro poderia encabeçá-la. Porque eu indico aos amigos dizendo que pode substituir sem perda Raízes do Brasil, Casa Grande e Senzala, e quetais (como se eu tivesse lido todos esses, abafa). Mas é disso que trata esse romance épico, narrativa cheia de sangue, suor e lágrimas sobre a fundação dessa bagaça do ponto de vista de uma mulher africana escravizada, tornada brasileira pela liberdade alcançada para voltar de onde não se retorna. Clássico incontestável, a história de Kehinde me antecede e me acompanha, e pela primeira vez na vida olhei para África com um sentimento de pertencimento. Tive a oportunidade de dizer isso à Ana, numa cachaçaria na Lapa, muitos anos atrás, onde ela me ensinou a comer pimenta biquinho. Ou seja, uma mulher que vi duas vezes na vida e que só me trouxe ensinamentos valiosos.

Para entender a (não) elite carioca: Leite Derramado, Chico Buarque
Também li muito depois de todo mundo, e foi até aqui o livro dele que mais gostei. Na verdade já tinha simpatia e curiosidade pelo livro por causa da canção que o originou, “O velho Francisco”, dolorosa e delicada. Mas aquilo que parece uma biografia desafortunada na letra da música ganha contornos mais amplos nas páginas; salta aos olhos uma elite que já nasce decadente, cuja riqueza não se produziu em bens como terra e indústrias, mas principalmente nas relações mais ou menos espúrias com o Estado e com quem mais pudesse apresentar benefícios. Uma elite deslumbrada e sem poder, que só tardiamente se dá conta da sua desimportância.

Livros da Monix

Para entender a passagem do Brasil rural para o Brasil que se quer urbano: O Tempo e o Vento, Érico Veríssimo

Aprendi a amar Érico Veríssimo (além de tantas outras coisas) graças à Fal. É uma saga de fôlego, mas fundamental. Através de várias gerações da família Terra/Cambará a gente acompanha o surgimento das primeiras povoações, ainda na época da colônia, as guerras, revoluções e outros (e)ventos que foram, ao longo de décadas e séculos, ajudando a moldar isso que hoje chamamos de Brasil. Mas também espiamos pela fresta da porta da História, e ficamos sabendo um pouco de como viviam as pessoas comuns, como eram criados os filhos, como se nascia e morria no Brasil de antigamente. O Tempo e o Vento é o Rio Grande do Sul, mas é o país inteiro.

Para conhecer onde e quando tudo começou: Onde Vais, Isabel, de Maria Helena Ventura

É um livro difícil: de encontrar e de ler. Parece ter sido escrito de forma que a gente mergulhe na alma medieval – toda a musicalidade, todo o ritmo do livro nos levam a um lugar diferente. Essa é a beleza da história da Rainha Santa Isabel de Portugal, que nos ensina sobre a fundação da cidade de Coimbra, sobre a vida na corte do século XIII, sobre uma época em que a religião ocupava o lugar que hoje damos à ciência, sobre tecnologias que não enxergamos como tal. A lição mais interessante que tirei dessa leitura foi sobre o visionário Dom Dinis, rei de Portugal e marido de Isabel. É ele que prepara o Portugal do futuro, da expansão marítima, que conquistará os oceanos e colonizará nosso Brasil. Uma das coisas que Portugal deve a Dom Dinis é a plantação de imensos bosques de pinheiros, para que a madeira fosse utilizada na construção dos navios que se lançaram para o além-mar. A história de Isabel tem ainda um toque de realismo fantástico avant la lettre, com a bela lenda do milagre das rosas. Como entender o Brasil sem, antes, passar por Portugal?

Outros livros que são aulas: O Nome da Rosa; Anarquistas Graças a Deus; a trilogia Os Subterrâneos da Liberdade; A Casa dos Espíritos e Inés de minha alma, de Isabel Allende, para conhecer o Chile e essa América que é nossa mas não parece; enfim, são muitos… conta para nós qual é o seu.

As Duas Fridas

Exposta

A canção que me comove intensamente diz “Eu fiquei sozinho até achar que estar sozinho é estar com alguém“. De uma maneira racionalmente estúpida, eu quero voltar pra esse alguém, que nunca vai me decepcionar. Para aceitar estar tão só por tanto tempo eu tentei me convencer de que o amor – por sorte, azar ou destino – não era pra mim. Acho que consegui. Agora sinto-me inadequada, inábil, tremendo para desarmar uma bomba: sabendo que preciso cortar o fio certo, mas pensando que o errado talvez resolva tudo de uma vez. “O chão sumiu a cada passo que eu dei”, diz a música em outro trecho. O abismo, fascínio e terror. Amar é muito precário. (Amar é complexo, aprendemos aqui no Rio de Janeiro.) Muita bagagem para ser leve, vivida demais para me sentir tão frágil, mais vulnerável do que consigo suportar. O amor é uma habilidade – aprendi num filme, mas desaprendi na vida; não exercitei e perdi a forma, a flexibilidade, o tônus – a manha, talvez. Acho que não dou conta. Certas coisas têm prazo de validade: acampar, usar franja, amar sem temor. Tenho quase 50 anos, talvez não possa mais correr certos riscos.

Helê

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