Salve o Almirante negro, viva João Cândido!

Almirante João Cândido Felisberto (1880-1969), conhecido como

 

CE aprova projeto que inscreve nome de João Cândido no livro Heróis e Heroínas da Pátria

Talvez por ser, como já disse aqui, neta de marinheiros negros, talvez por ter conhecido essa história muito cedo por um dos meios que mais e melhor me formou, a música brasileira, a história de João Cândido me comove profundamente. Sinto-me impressionada com sua força e inconformada com a perseguição que até hoje, mais de um século depois, ele ainda sofre. Soube pelo twitter hoje de manhã sobre essa votação no Senado, e também sobre a posição abjeta da Marinha. Incapaz de impedir novamente a votação (já havia manobrado pelo adiamento anteirormente), enviou uma nota técnica tão pífia e desconexa quanto desculpa de jogador de vôlei homofóbico. Classifica a Revolta da Chibata como um “acontecimento triste” em que todos os envolvidos “tiveram omissões”, o que não justifica “exaltar ações de revoltosos”. Perderam uma excelente chance de ficarem calados, como apontou a dra. Rita Cristina, autora de um bem escrito artigo e também do tuíte que chamou minha atenção para o assunto (obrigada!).

Revolta da Chibata - Navio BA com Nascimento

Chocante que as forças armadas (assim mesmo, em minúsculas, que é o que fazem por merecer) sempre foram ao longo da história brasileira uma possibilidade de emprego dígno para a massa pobre e preta da população, vistas com respeito e admiração e, no entanto, as corporações têm por esses mesmos estratos sociais o desprezo das “elites”. A história de João Candido não temina com o fim da Revolta – a BBC Brasil tem uma extensa matéria sobre o Almirante, que foi traído, caçado, preso e atormentado, num comportamento aviltante para uma insitutição que se pretende zelosa dos mais altos valores da nação (Malditos Milicos!®) Perseguido até o fim da vida, até na sua morte, até ontem, quando a Marinha se deu ao trabalho de contestar um reconhecimento já estabelecido há muito tempo na sociedade, à revelia de sua opinião: João Cândido, o Almirante Negro, é um herói do Brasil. O Senado Federal só fez legitimar o que Aldir Blanc e João Bosco eternizaram em canção, e que encontra ressonância aqui no meu  DNA negro e marítimo.

Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais!

Helê

PS Portantíssimo: Ainda na editoria relações raciais no Brasil, o STF decidiu ontem (28/10/21) , que o crime de injúria racial se equipara ao racismo e, por isso, é imprescritível, ou seja, pode ser punível a qualquer tempo. Ou seja: Fogo nos racistas forever, sem prescrição!

®vinheta do Medo e Delírio em Brasília

Quer que desenhe? Taí

Na semana passada, nós listamos os crimes do presidente em nossa newsletter (mentira que você não assina?!) e eu fiquei me perguntando se não deveria postar aqui também, para dar mais visibilidade às barbaridades que desse dementador. Acabei não fazendo por falta de tempo e ainda bem: hoje posso reproduzir aqui essa capa genial (graças ao sempre atento Márcio Maturana, que postou lá no tuinto). E mantenho o canto: Vem tribunal de Haia! Vem Tribunal de Haia!”*

Helê

*Vinheta/mantra do combativo e divertido podcast Medo e delírio em Brasília

Rompido

juliecampbellart

Da série Corações

Helê

O ano em que a música mudou o mundo

“A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, disse Oscar Wilde no ensaio A Decadência da Mentira, indicando que o papel da “verdadeira” arte é muito mais indicar caminhos que reproduzir costumes de uma época.

A série documental 1971 não cita meu dândi favorito, mas a premissa é a mesma. O subtítulo, tanto em inglês quanto em português, é “o ano em que a música mudou o mundo”. São oito episódios que mostram um momento bem peculiar da história do século XX: os míticos “anos 60” tinham terminado, os Beatles tinham se separado, the dream is over era o mote que resumia o espírito do tempo. E realmente, né, se a gente pensa em momentos históricos da música… dificilmente o ano de 1971 seria apontado como memorável.

Mas o documentário mostra um recomeço. Para os Rolling Stones, por exemplo, foi um ano decisivo. Eles poderiam ter se desintegrado em muito sexo, muitas drogas e pouco rock’n roll. Mas se mandaram para a Côte D’Azur, depois para Los Angeles, e o resultado foi o álbum Exile on Main St., que dispensa apresentações. Acha pouco? É pouco mesmo. O ano de ’71 teve muito mais: John e Yoko lançando um libelo pela paz que ultrapassou o flower power e virou um hino mainstream. (Sim, Imagine foi lançada naquele ano.) Marvin Gaye, James Brown, Sly and the Family Stone, Tina e Ike Turner — vai vendo o naipe dessa rapaziada — foram contemporâneos de Gil Scott-Heron, um cara não muito conhecido que deixou como legado uma frase profética: “the revolution will not be televised” (que, na era das redes sociais, ganhou todo um novo significado).

Mi novecentos e setenta e um teve também Iggy Pop, Alice Cooper e a morte de Jim Morrisson. Um inglês meio esquisitão foi para Nova York, conheceu Andy Warhol… e assim nasceu o camaleão David Bowie.

Meu episódio favorito é o que tem foco nas mulheres: Joni Mitchell (que não curto muito) e Carole King, a quem eu nunca tinha prestado muita atenção. O álbum que ela lançou em 1971, Tapestry, foi uma fábrica de hits. Você provavelmente conhece bem mais da metade das faixas.

Carole King - Tapestry
Esse álbum é uma pérola. Apenas ouça.

Cinquenta anos depois, 1971 ainda ressoa, ainda toca nas nossas playlists, e, infelizmente, seu legado ainda desperta reações violentas contra nossa turma. We shall prevail.

-Monix-

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