Inés de minha alma

“Inés de minha alma”, de Isabel Allende, tinha mesmo tudo para me conquistar: a indicação entusiasmada de um amigo, o belo título e a autora, por quem tenho imensa simpatia. Sabia que ser capturada pelo enredo era uma questão de tempo, e assim foi: a leitura  passou logo de descompromissada a sôfrega.

É um romance de inspiração, como avisa Allende, baseado em fatos reais: Inés Suarez foi uma das fundadoras do Chile, junto com Pedro Valdívia; contemporânea de Diego Almagro e Francisco Pizarro, lutou contra os Mapuches,  encontrou água no deserto de Atacama, ergueu um reino, teve três maridos, morreu velha – e realizada, imagino eu.

A rica narrativa  abrange várias passagens históricas. A cada capítulo eu me dava conta do tamanho da minha ignorância sobre a história dessa América tão próxima e tão, tão distante. Surpreendi-me, por exemplo, com a quantidade e diversidade de povos que aqui viviam antes da chegada dos europeus. Dessas lições que a gente aprende, acha que sabe, mas um romance bem escrito faz você assimilar num outro nível. Acompanhando a trajetória dessa espanhola que deixa sua cidade natal para encontrar o marido que foi seduzido pelo sonho do Eldorado, “Inés de minha alma” narra trechos importantes  da história do mundo, sobretudo deste chamado novo, construído com mais sangue do que gostamos de lembrar.

Se, como se diz, a história é contada pelos vencedores, a verdade é ainda mais restritiva: ela é contada por alguns deles – Dona Inés nem de longe pode ser considerada uma vencida e, no entanto, foi sistematicamente esquecida pela história oficial, talvez pelo detalhe de ser uma mulher. Ainda por cima, independente, que recusou cada uma das sinas que lhe cabiam: ter um marido escolhido por outros, permanecer recolhida e casta  após a partida dele para a América; voltar para a Espanha quando não o encontrou.  Inés conquistou espaço e poder num mundo em que tal façanha era difícil mesmo para um homem, impensável para uma mulher.

Naquele tempo contado em outras medidas, viagens demoravam meses e cartas podiam levar anos para serem entregues. No entanto, em um momento crucial da narrativa, Inés leva apenas uma noite para decidir seu destino,  sem dramas intermináveis e lacrimosos; pragmática, só admitia perder tempo com o inevitável, e não mais que o necessário. Para superar a dor da maior traição de sua vida gasta dois meses. Ao fim desde período, compreende que o coração  funciona  como uma caixa: não pode receber bons sentimentos se insiste em reter mágoas e rancores. Esvazia o seu e trata de ser feliz.

Fiquei muito fã desta mulher que, em pleno século 16, recusou–se a seguir as normas que a sociedade, a família e a igreja lhe ditavam. Sem bravatas, sendo frontal apenas quando preciso, ela fez seu caminho, pegou o destino pela crina e guiou-o para onde quis. Amou, guerreou, errou, sofreu, foi feliz, viveu a vida até a última gota. Admirável dona Inés, agora também da minha alma.

Helê

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Viva São Pedro!

Salve ele, padroeiro dos pescadores, o dono das chaves – por isso, aquele que cuida também das questões de moradia. E lá em casa, dia da já tradicional canjica!

Helê

Days with my dad

Days with my father.

Das coisas mais tocantes com as quais já me deparei na internet. São tantas as palavras que poderia usar para descrever este site quanto são numerosas as emoções por ele provocadas. Visite – mas prepare-se, não se trata de leitura frugal  e rápida, embora também possa divertir em alguns momentos. Requer atenção, disponibilidade – itens cada dia mais raros.

(Foto de Philip Toledano)

Helê

Eulálios

Eulálio representa um Brasil que está morrendo tanto quanto ele – e que, como ele, quando morrer não irá fazer muita falta. Com o perdão do clichê, a saga dos Eulálios retratados por Chico Buarque no livro Leite Derramado é um retrato de um Brasil que em 100 anos passou do país onde fazia sentido uma vida baseada na lógica de ‘meu nome abre portas’ para o país que responde ‘não fode, vovô, conta outra’.

Para mim, o grande mérito do livro é o cuidado com o texto. É uma fala que traduz uma mente senil, com devaneios, histórias repetidas e a cada vez recontadas de outra forma; parece fluir facilmente, mas é bastante evidente que houve muito trabalho para se chegar a essa aparente facilidade.

O outro livro do Chico que li (Budapeste) não tinha me tocado tanto quanto este, que ganhei de presente no ano passado. Foi daquelas leituras cativantes, de um fôlego só. O protagonista/narrador – um homem que sob qualquer outra circunstância seria detestável – aos poucos nos cativa apesar de seus dramas equivocados, sua arrogência patética, seu anacronismo farsesco. A decadência é algo que de certa forma provoca minha solidariedade.

-Monix-

Wedding mood

Adorable photo of the day!

(Do The Single Bride)

Helê

Ela chegou

Minha avó materna foi a filha mais velha de sua família. Minha mãe, a primogênita de sete filhos. Eu fui a primeira filha, neta e bisneta. Pelo lado paterno, embora já tivesse dois primos quando nasci, fui a primeira neta. Em um ano, éramos cinco meninas.

Como fica fácil de perceber, cresci num verdadeiro matriarcado. Para mim, a coisa mais normal do mundo são os papos intermináveis na cozinha, telefonemas rapidinhos que se transformam em uma conversa que faz acabar a bateria do telefone sem fio, cafés da manhã que viram almoços porque ninguém se levanta da mesa, e por fim, mas não menos importante, um incrível intercâmbio de roupas, sapatos, bolsas e acessórios que durante muito tempo me fez praticamente não ter motivo para ir ao shopping e mesmo assim manter meu guarda-roupa sempre renovado.

Aí vieram os novos bebês. Os bisnetos da minha avó. Um menino. Depois outro. E mais um. Hoje, são nove bisnetos. Todos meninos. Um festival de energia yang que nossa família nunca tinha vivenciado. Tivemos que aprender sobre Power Rangers, Ben 10, times de futebol. Os tombos, chutes, movimentos bruscos e a movimentação incansável dos meninos tomaram conta das festas de Natal.

Até que hoje ontem, enfim, nasceu nossa menininha. Júlia, minha sobrinha, a princesa que irá trazer de volta os lacinhos de fita e a cor suprema para os lanches de domingo*.

Na escalação do time da fantasia, sai Bob o Construtor, entra Dora a Aventureira. Desculpem o exagero dos estereótipos de gênero (meu filho sempre curtiu a Dora, por exemplo), mas essa menininha que acabou de chegar já me deixou assim, meio cor-de-rosa.

-Monix-

* Modo de falar. Amo minha família, nos vemos sempre, mas não temos o hábito de nos encontrar semanalmente. Aliás, tema para um post futuro: o que aconteceu com os almoços de família? A resposta está na fila do restaurante mais próximo de você.

Solstício de inverno

O começo oficial do inverno aconteceu na tarde desta terça-feira (21), data que coincidiu com o solstício de inverno, fenômeno que marca o começo da estação mais fria do ano. Esta data também era de grande importância para diversas culturas antigas, que de um modo geral a associavam simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento.

O solstício de inverno é ‘o dia mais curto do ano’, em que o Sol nasce mais tarde e se põe mais cedo, fato que ocorre devido à angulação da estrela perante a Terra. Por outro lado,  no solstício de inverno acontece a noite mais longa do ano. No entanto, a partir deste dia, o Sol volta cada vez mais forte, para chegar ao seu ápice no solstício de verão.

(Fontes: Wikipedia, Bruxaria, Notícias BR)

Alheia a tudo isso, acordei cedíssimo, sem despertador, e fui caminhar. Pensando em  ir em busca do sol, enfrentando o frio lá fora, ao invés de encolher-me nas cobertas. Fiquei pensando em como eu sou, de fato, uma pessoa de manhãs; na necessidade de tomar posse do meu corpo,  e lembrando de uma imagem na qual esbarrei dia desses:

Dei-me conta de que trata-se de uma escolha – como sói acontecer com várias e importantes coisas nessa vida. Iniciei o dia satisfeita e disposta a assumir um compromisso comigo mesma – o tipo mais desafiador.

E aí quando, já ao anoitecer o Google me lembrou do solstício, formou. Porque, vocês sabem, eu não acredito em coincidência – ni en bruxas, pelo que las hay...

Helê

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