Machado Negão

No aniversário de 180 anos de Machado de Assis, o reconhecimento de seu pertencimento étnico ainda gera discórdia. A foto colorizada para reproduzir seu tom de pele mais próximo da realidade agradou à militância, mas houve reações, como a de um colunista (branco) que escreveu que não devemos acorrentar Machado à cor da sua pele; ele é um escritor humano. Típico argumento racista sacado sempre que os pretos estão em posição de vantagem ou superior aos brancos: imediatamente lembram da nossa “humanidade” e desvalorizam a importância da cor da nossa pele. Não vou dar o crédito ao racista da ocasião, prefiro mantê-lo acorrentado a sua ignorância e irrelevância. Vou festejar Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro, e sublinhar sua negritude sim porque representatividade só não importa para privilegiados e ignorantes.

Helê

Musa inspiradora

Quem lê nossa newsletter (ué, você não lê? Não sabe o que está perdendo, corre lá e assina) recebeu recentemente uma edição em que relembramos a origem do nome deste blogue. E essa história não pode ser contada sem lembrarmos da Nina, amiga da velha guarda do Mothern, nossa semente, onde tudo começou. Lá na época dos blogues-raiz eu já dizia, e cada vez acredito mais nisso: não existem amizades “virtuais”; aliás, é muito importante lembrar que o ambiente digital faz parte do mundo real. O que acontece aqui é percebido como real porque, adivinhem!, é real.

Aí que semana passada eu fui a Porto Alegre para um congresso, e não podia perder a chance de encontrar pessoalmente, pela primeira vez depois de 16 anos, essa amiga que foi muito importante em momentos decisivos da minha vida, e que eu nunca tinha abraçado antes. É difícil explicar, mas é assim mesmo: um vínculo que não conhece limitações de espaço nem tempo.

E novamente lembro de uma newsletter recente (é sério, a gente faz um blogue paralelo que chega direto no seu e-mail, se você não assinou, assine) em que falamos sobre nossas “caras metade”, ou seja, os melhores leitores do mundo: vocês. Então, acrescentando mais uma à nossa série “Eu ❤ Leitoras”, aquela em que as blogueiras é que pedem foto, fica aqui o registro desse encontro emocionante com a nossa musa inspiradora.

-Monix-

Eu e Nina, uma amizade que demorou 16 anos para se transformar em abraço

Cabelo, cabeleira, cabeluda

Three on One by Annie Lee

Hoje pela manhã li sobre a defesa da tese “Esse boom é nosso?”, orientada pela queridíssima Laura Guimarães (da dupla inventora do Mothern). Fiquei curiosa para ler o trabalho, lembrei de Ângela Figueiredo, minha ex-colega de trabalho no Afro-asiáticos, a primeira acadêmica que vi escrevendo sobre cabelos e seu significado para afrodescendentes, mais de 20 anos atrás, e pensei no quanto caminhamos até aqui, no quanto a mudança de alguns paradigmas para negros passou pela cabeça das mulheres negras.

Eu gostaria de usar uma palavra mais enfática como revolução, mas nem tanto, mestre, nem tanto. Se houve uma revolução dos cachos ela se restringe ao mercado de produtos capilares. No Brasil nunca houve oferta tão farta de produtos para cabelos crespos e ondulados – na real, há 30 anos não havia nenhuma, at all. Mas isso significa, na vida real dos pretos, no máximo, uma mudança de paradigma, como eu disse acima. Já não é tão difícil usar o cabelo sem alisamento but, ainda levanta muitas sobrancelhas, e o padrão branco liso moveu-se poucos centímetros do seu local de centralidade e idealização. Somos agora mais toleradas — em parte como uma tendência fashion, apenas.

Como consumidora, eu me beneficio das muitas opções a meu dispor, e boicoto sistemática e ferozmente as marcas tradicionais do mercado que, durantes décadas, me fizeram sentir inadequada por não tem um cabelo de seda, liso (e muitas vezes louro) como mostravam seus rótulos. Essas mesmas marcas agora aparecem oferecendo linhas inteiras para cachos e crespos, prometendo definição, brilho, volume… Não, obrigada, eu sei o que você fez no verão passado. Por isso faço questão de comparar marcas que sempre trabalharam com esse público, de preferência nacionais, de preferência gerida por pretos, porque acredito no conceito de black money: se não me vejo, não compro.

Helê

 

Utilidade pública

Achei que devia avisar.

Helê

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