Do Planalto para o planeta, a posse do turbante e do cocar

As posses de Sônia Guajajara e Anielle Franco estavam marcadas para a segunda-feira (9/1) e foram adiadas, claro, depois que o gado invadiu e emporcalhou as sedes dos três poderes. O evento passou para a quarta, dia dedicado a Xangô, orixá da justiça (entre muitas outras coisas). A cerimônia teve início com um canto em homenagem a ele, com a saudação “Caô, Kabecile!”. 

A deputada federal eleita por Minas Gerais, Célia Xacriabá, fez um saboroso discurso de apresentação da ministra Guajajara. Com graça, ironia, poesia, lembrou que esse Ministério dos Povos Indígenas já nasce ancestral; resumiu a importância da data com a frase já histórica: “Com Anielle e Sônia, o turbante e o cocar tomam posse!”. Olhando pela TV aquela mulher esplendorosa com um cocar belíssimo que se movia elegantemente quando ela se movimentava eu fiquei me perguntando por que, meu deus, levou tanto tempo para ver um indígena nesse lugar?! Sônia Guajarara respondeu a minha perplexidade prometendo: “Nunca mais um Brasil sem nós!”

A ministra Anielle Franco foi apresentada pela jovem ativista Camila, visivelmente emocionada com a missão: “É com imenso prazer que eu, Camila Moradia, cria do Complexo do Alemão, apresento a vocês Anielle Franco, cria da Favela da Maré, Complexo da Maré”. A ministra da Igualdade Racial fez um discurso correto e potente: depois dos agradecimentos aos ancestrais, às mulheres negras, à família e à equipe, passou a fazer referência aos demais ministérios, reforçando o caráter interdisciplinar de sua pasta. Foi bastante explícita ao citar os cinco tiros na cabeça que sua irmã recebeu, lembrando para que nunca mais se repita. Ao final do seu discurso, a cantora Marina Íris cantou o samba da Mangueira de 2019, junto com a filha de Marielle. De novo: se você não se emocionou, tá morto por dentro. 

(Pequeno parêntesis para uma impressão pessoal: eu tenho uma simpatia enorme pela Anielle, entre outros muitos motivos, porque participei de um processo de seleção para o Instituto Marielle Franco. Não fui selecionada e recebi um e-mail cujo texto era uma injeção de ânimo e motivação, elogiando a minha trajetória e me incentivando de um jeito que, no final eu esqueci, a decepção de não ter sido escolhida. E agradeci. E eles me responderam novamente, reiterando a força. Não era só uma vaga para mulheres negras, houve cuidado com essas mulheres, que não foram tratadas como mão de obra excedente. Um detalhe que diz muito sobre uma instituição e sobre que a comanda.)

A posse do turbante e do cocar ofereceu momentos belos, amorosos e até divertidos, como o Lula de cocar. E serviu pra reafirmar que é essa a imagem da qual o Brasil se orgulha e quer projetar: feminino, diverso, plural, colorido, ancestral e moderno. Além de elegante e alegre. Que fique claro: quando ocupamos o palácio, qualquer que seja, sabemos nos comportar. Afinal, nossa realeza vem de longe.

Helê

Advertisement

Um dia de graça

Um dia, meus olhos ainda hão de ver
Na luz do olhar do amanhecer
Sorrir o dia de graça
Poesias, brindando essa manhã feliz
Do mal cortado na raiz
Do jeito que o mestre sonhava
Luis Carlos da Vila, Por um dia de graça

Não foi fácil, não foi simples. Foi por pouco, mas foi por todos que elegemos Lula e derrotamos o militar corrupto, néscio, sádico e cruel. A sensação hoje, além de uma enorme alegria, é a de dever cumprido. Resistimos a quatro anos de deboche, desprezo e desmonte, e encontramos forças para vencer a maior máquina de reeleição já montada nesse país, e o pior presidente.

Vencemos. Viva nós!

**

Eu lembro com clareza do espanto e do inconformismo da minha filha em 2010, quando eu disse que o Lula não seria mais o presidente: “Mas por quê, mamãe?!” Nascida em 2002, Lula kid raiz, Fifi demorou, mas acabou entrando na campanha da Dilma, do alto dos seus sete anos. Foi crescendo e compreendendo melhor tudo o que se passava – e também sofrendo. Em 2018, suportamos juntas os urros de um vizinho bolsonarista em êxtase. Juntas choramos assistindo ‘Democracia em vertigem’, relembrando detalhes do golpe vil sofrido pela Dilma. Por isso, no dia 30 de outubro, quando ela me ligou para comemorar, a gente só chorava e ria no telefone, transbordando de felicidade. Dias depois ela me disse, com uma expressão de contentamento e quase incredulidade: “Mãe, você tem noção que a gente derrotou o Bozo? E mais, que a gente elegeu o Lula? Que eu votei no Lula?!”. Tenho, filha, noção e orgulho. Tem muito trabalho pela frente, e vai ser dureza. Mas, como acabei de ler: não entramos no paraíso, mas saímos do inferno.

**

“Parece que a multidão atrás também está subindo a rampa. E está.” @heitordt

Quem não chorou com essa transmissão de faixa tá morto por dentro. Ou não se sentiu representado entre aquele grupo de pessoas – e eu só lamento, porque foi uma emoção única. A pequenez do capitão acabou por oferecer a ocasião perfeita para Lula mostrar a sua grandeza. Foi o Christian Morais quem sintetizou tudo:

Lula se agiganta como líder popular, presidente e estadista nessa posse, especialmente na subida da rampa, na mensagem que passa ao país e ao mundo ao receber a faixa presidencial das mãos de uma mulher negra, cercado por indígenas, deficientes, idosos, mulheres e uma criança negra, a quem chamou para perto de si e abraçou durante a execução do hino nacional. Momento histórico, único na política nacional (e internacional), emocionante e com uma carga simbólica imensurável. Desabei em lágrimas quando vi todas aquelas pessoas ao pé da rampa. Os humilhados e ofendidos entrando no Palácio do Planalto com um igual em origem, com um legítimo representante do sofrido povo brasileiro. Logo eu, que vinha analisando a posse quase que de forma profissional, comovi-me extremamente com toda a emoção que transbordou da cena. Lula é o maior gênio político vivo no mundo. Hoje ele se colocou acima de Getúlio. Pelo menos na posse presidencial. Insuperável.

DEMOCRACIA SEMPRE!

Helê

Abecedário 2022 (update)*

Aniversário no Bode Cheiroso
Bruno e Don. Better call Saul
Cazé, Chimamanda in Rio; CPX

DataJanela e Democracia
Elza e Erasmo.

Família Gil

Gal e Galloti .

Hacks
Isabel do vôlei

Jair embora!
K
elmon, Kelson, Kelvin…
Lula Presidente, porr@! Laura e a baleira*
Messi, Moise 
Na luta é que a gente se encontra

Oitenta anos de Caetano, Gil, Paulinho & Nei Lopes.
Projeto Querino, Paulo Vieira.
Richarlison, Rolando Boldrin  e Residente.
Sua majestade, Pelé
Tricampeão da Libertadores: Mengo!
Última sessão de música
Vozes e Vidas Negras
Xandão 
Walter Firmo no IMS (muito bem acompanhada).

Zelensky

Helê

(*A Juju lembrou da Laura depois que eu postei, mas achei por bem incluir porque esse vídeo não pode morrer nunca)

Ressaca da Copa

A gente nem ganhou – na verdade não chegou nem perto, eliminados nas vandinhas de final – mas quem gosta de futebol hoje está de ressaca pelo fim da Copa do Mundo de 2022 e sobretudo pelo jogo absolutamente espetacular que foi a final de ontem entre França e Argentina. Um jogo épico em que se observou o incrível caso do homem que fez três gols (numa final de Copa do Mundo!) e não foi campeão. E, ainda assim, todos consideram o resultado justo.

Foi uma Copa estranha a começar pelo mês em que foi disputada – o que só fez reforçar aquela ideia de que o ano de 2022 é como uma camisa que você começa a abotoar errado e só percebe lá embaixo, e se enrola todo pra acertar. Copa em novembro, depois da eleição, como assim? Foi disputada em um país trata mulheres como indivíduos de segunda classe (se tanto) e criminaliza a existência da população LGBTQIA+. Realizar a Copa Rússia, outro país sem apreço aos direitos humanos, foi pouco, era preciso dar um recado ainda mais claro sobre o que pensa ou admite a FIFA, essa ilibada entidade cujas falcatruas são retratadas em documentários, podcasts e fartas reportagens.

Infelizmente, a eliminação da seleção brasileira não se insere entre as estranhezas da Copa. Na verdade, nada novo sob o sol do Dufas, que nunca viu o Brasil campeão no futebol masculino e que mais uma vez adiou o grito de “É Heeexa!”. Demorou tanto que até o Galvão Bueno se aposentou. Cheguei a ensaiar uma reconciliação com a amarelinha. Ver as multidões nas ruas vestindo a camisa como se todos tivessem recebido um memorando na véspera me lembrou o óbvio, que a camisa é dos brasileiros, e não de fanáticos fascistas. Uma vitória, ou pelo menos uma campanha mais consistente iria ajudar a reconciliar alguns, a resgatar o sentido de nação, diminuir hostilidades. Mas não foi possível. Restou a lembrança do gol obra de arte do Richarlisson, o primeiro tempo espetacular contra a Coreia do Sul (inesquecível, do dia do aniversário de 20 anos da Fifi!) e a estreia assistida entre amigos e com delay, excelente indicação para cardíacos e hipertensos, porque você fica sabendo bem antes se vai ser gol ou não – uma espécie de transmissão para comorbidades.

O Marrocos foi uma alegria enorme para árabes, africanos e muçulmanos, mas também não chega a ser uma surpresa se a gente pensar que quase toda copa tem uma “seleção sensação” – na última foi a Croácia; a minha favorita será sempre o time de Camarões do Roger Milla. Estranho mesmo foi uma final de campeonato tão incrível, que esses jogos em geral são tensos e truncados, e o melhor futebol acaba aparecendo num jogo de oitavas ou de semifinal. Mas estranho mesmo foi torcer pela Argentina, em nome de uma identidade latinoamericana que talvez desprezemos tanto quanto eles. Mas que sacamos do bolso diante das declarações insensatas de Mbappé e da possibilidade de mais uma vitória europeia. Ontem no bar em que assisti, a torcida era quase total para os argentinos – primeiro discreta, quase envergonhada; depois escancarada e febril, diante de um jogo dramático como uma ópera. Tá, como um tango.

No fim das contas, mais que uma latinidade mal ajambrada, nos uniu o amor incondicional pelo futebol, e ninguém, dos que jogam ainda hoje, nos enamorou tanto quanto Leonel Messi. Mbappé, por ora, está à sombra desse herói latinoamericano, capaz de dar a volta por cima, calar críticos e conseguir o título que faltava para confirmar sua habilidade fora do comum. O cara que nos fez, talvez pela primeira vez, nos sentir hermanos.

Viva Messi! Viva Latinamérica!

Helê

Uma mãe brasileira*

Quando acabei de assistir a minissérie sobre o assassinato da atriz Daniella Perez, Pacto Brutal, bateu um pessimismo imenso, comum a quem que vive nesse país injusto e desigual. Inevitável se surpreender e se revoltar com o fato de que os assassinos só foram condenamos por causa do trabalho direto e incansável da mãe da vítima. Na série, ficamos sabendo em detalhe o trabalho investigativo feito pela Glória Perez, seu empenho em convencer testemunhas a prestar depoimento e em zelar, durante 30 anos, pela memória da filha assassinada, sempre passível de ataques. E aí você pensa: se foi assim com a Glória Perez, uma mulher famosa, querida, contratada da maior empresa de comunicação do país, a nós só resta rezar para nunca, nunca mesmo, precisar da Justiça.

Glória, aliás, tem noção do seu lugar de privilégio, se comparado à trajetória de dezenas, centenas de outras mães brasileiras. Lembra das Mães de Acari, todas já falecidas hoje, sem saber o paradeiro de seus filhos. A elas poderíamos juntar muitas outras, como sabemos bem, especialmente no Rio de Janeiro – sempre na vanguarda do crime, como se diz no excelente podcast República das Milícias, uma investigação cuidadosa e reveladora das raízes da configuração atual do poder criminoso na cidade e no Estado.

Falando em podcast, aconteceu que eu vi a série enquanto ouvia os primeiros episódios de “Crime e Castigo“. Foi uma coincidência muito boa, porque o programa da Rádio Novelo procura discutir conceitos como reparação, punitivismo, a diferença entre justiça e vingança, reabilitação. Não é fácil de ouvir, tem depoimentos muito dolorosos. E o exercício de pensar sobre essas questões já é em si desconfortável porque, lembra, a gente tá sempre rezando pra nunca precisar da Justiça. Mas são questões que a cada dia mais nos alcançam, de um jeito ou de outro. Encarcerar resolver? Sempre? Condenar é ter justiça? Existe reparação possível? Reabilitar é uma possibilidade? Nós, sociedade, teremos que nos fazer essas perguntas para rever um sistema obviamente falido, ineficiente e cada dia mais cruel.

**

Eu comecei a ver a minissérie para saber exatamente o que tinha acontecido. Eu já era adulta quando tudo aconteceu, lembro bem do choque, das pessoas comentando por semanas, as matérias, programas, reportagens. Mas depois a gente cansa e fica com uma versão assim meio imprecisa dos fatos. Rever algumas gravações da época não deixa de ser uma curiosa viagem no tempo pra quem viveu aquilo – a gente lembra onde estava estudando ou trabalhando, com quem estava, um revival involuntário.

**

Foi um crime absolutamente terrível e bizarro, desde sempre. Mas, embora eu tivesse quase a mesma idade da Daniela naquela época, acho que me comovi mais ainda agora, vendo a Glória Perez, e sendo eu mãe de uma jovem de quase 20 anos. É possível que eu tenha chorado mais hoje, vendo o calvário dessa mãe, que a gente tem vontade de abraçar e acolher, mesmo passado tanto tempo, mesmo sabendo que não adianta.

**

Acho que a minissérie poderia ter um pouco menos de cenas da Daniella – me incomoda sempre, em todos os programas do tipo, querer mostrar quão boa era a vítima, quando ela não deveria ter morrido independente do seu caráter, personalidade e aspirações. Mas ok, não chegou a resvalar no sensacionalismo. Acho que o documentário falha um pouco no episódio “De onde vem?”, que explora muito do que se sabe sobre o assassino, mas pouco sobre a família da assassina, que parece bastante poderosa. Agora, tem pelo menos duas participações Pilatos no Credo, do tipo nada-a-ver com-porra-nenhuma: a Sônia Abraão posando de jornalista séria e o Roberto Carlos, que só aparece pra dizer que é noveleiro e amigo da Glória. Totalmente dispensáveis.

Helê

*Penei para encontrar um título, e ainda não sei se é o melhor. Mas quando pensei nesse lembrei na hora da pungente “Chora, brasileira“, da Fátima Guedes, cantada pela Nana Caymmi. Então fica esse, com a menção musical.

Aqui estamos, no nos vamos

A semi retrospectiva de la Otra me lembrou desse clipe, que foi uma das coisas mais impactantes e bacanas que vi este ano. Pensei em postar várias vezes, sozinho ou como parte de um post falando de outras coisas mas acabei não fazendo. E essa obra de arte que merece e precisa ser vista pelo maior número de pessoas possível. Sobretudo porque fala da América Latina e de nós como latino-americanos, essa identidade que desprezamos mas que nos identifica irremediavelmente, como fica evidente no vídeo.

A esta altura já não lembro mais como esbarrei no clipe, já que sofro da mesma alienação que critico e sei muito pouco sobre a produção cultural dos nossos vizinhos. Mas por sorte esse me alcançou e foi uma leve obsessão por alguns dias. A Eva Uviedo, já não bastasse desenhar divinamente, escreveu muito bem sobre o que vemos na tela; há fios no tuíter e vídeos no YouTube que também buscam desvelar as imagens e suas referências: são muitas, e é preciso um guia para perceber todas. Algumas cenas são bem fortes, é bom se que diga – mas todas justificadas dentro na narrativa muito bem costurada pelo rapper, que unifica nossas dores e tragédias.

Acho importante ressaltar o que Residente disse em entrevistas: ele não está propriamente contestando o clipe de This is America, de Childish Gambino (também excelente), mas estabelecendo com ele um diálogo, ao lembrar que América vai do Canadá à Terra do Fogo.

Você já tinha visto? O que achou?

Helê

Gil e nós

Ao contrário de boa parte do tuíter, eu não quero entrar para a família Gil, nem acho que eles são excepcionais. Na verdade, nessa família genuninamente musical, oriunda de um gênio do ofício, me encantou tudo de ordinário que aparece, comum a todas as famílias. As tensões gerenciadas, os desabafos emocionais, as mágoas confessadas, as lágrimas incontidas, as gargalhadas memoráveis. Observar a família Gil me fez lembrar da minha própria família, origem, ramificações, agregados, separações e reuniões. E talvez esse tenha sido o gancho que nos prendeu a todos logo de cara: fomos interessados no Gil e na música, mas foram as relações e os afetos que nos fisgaram, humanos gregários que somos. Sem esperar, encontramos um espelho.

*

“Viva a nossa família, viva todas as famílias!”, exalta Gil a certa altura. Não deixo de observar a ironia de um músico revolucionário e contestador como ele (e também Caetano, cantando com os filhos) que chega ao anoitecer da vida louvando essa estrutura naturalmente conservadora. Mas Gil ensina que a única coisa permanente na vida é a mudança. E essa família sorridente da foto é resultado de pelo menos três casamentos. Que topou a proposta considerando que, talvez, o clima pudesse pesar, como alguém confessa, no final. Então sim, viva a família: a família de verdade, cheia de falhas e de força, cujas bases se alicerçam no afeto, acima de qualquer coisa. Sem isso não vale a pena, e nem família é.

*

Se há um viés de homenagem e reconhecimento a um músico extraordinário, há, inevitavelmente, um sopro de despedida na celebração do nosso Griô maior. Aos 80 anos, aumentam as chances de passarmos dessa para outra, por assim dizer; a sombra do final permanece à espreita. Não damos muita bola pra ela, mas sabemos, nós e eles – filhas, filhos, netos e etc. – da oportunidade preciosa que estamos tendo de observá-lo e expressar de algum modo nosso amor e gratidão.

*

Também preciso admitir que ter mais de 50 anos, ou seja, estar no segundo tempo da vida, afeta de um jeito peculiar o olhar sobre essa história e esses personagens. A gente estabelece identificações, mas também consegue se observar em várias pessoas e momentos, ora filha, ora neta, ora nós mesmas – por que não?-, matriarcas/patriarcas dos nossos próprios clãs. Um exercício involuntário, emocionante, desconcertante.

*

Do ponto de vista técnico, a série consegue a proeza de ser íntima sem ser invasiva. Não quer passar a imagem de uma família perfeita – há, como já disse, tensões, o vaso sanitário entope, até Buda Gil altera a voz uma ou duas vezes. Dá pra ver uma mágoazinha atrás de uma almofada, uma frustração que o lenlçol não consegue encobrir. Mas Andrucha mantém uma linha respeitosa e escapa da vulgaridade e da maledicência. Hermano Vianna traça um roteiro inteligente, em que a escolha do repertório do show, com a defesa de cada canção – e cada um indicando outro membro para falar, como um amigo não-oculto -, deu um sentido, uma espinha dorsal para a gravação, ao redor da qual foram sendo agregadados outros momentos, de diferentes composições e intimidades variadas, como o futebol de todo mundo, as conversas de Gil e as filhas mais velhas, os momentos delicados do casal Gil e Flora.

*

Por fim, eu gostaria de reivindicar Gil um pouco mais para mim (ser uma preta da diáspora, aliás, é um eterno reinvindicar, requerer e apossar. Tão necessário quanto exaustivo). Cidadão do mundo como poucos, reverenciado em todo canto, esse homem preto baiano que jamais esqueceu suas raízes é motivo de orgulho imenso para nós pretos. E sim, é preciso que se diga o óbvio: que trata-sede um homem preto esse que agora recebe todas as graças e honrarias, porque é justo quando cismam que a cor de sua pele não faz diferença. Em momentos de sucesso ou de visibilidade inventam asneiras como uma “era pós-racial” (que tentaram implacar no governo Obama, mas esqueceram de combinar com a polícia, que continuou matando negros a granel). Por muitos, infelizes e trágicos motivos, nesta terra de desigualdades descomunais, ver um patriarca negro feliz, devidamente reverenciado e cercado de amor tem um gosto particularmente saboroso para mim e para os pretos todes, que raramente temos essa oportunidade, na vida ou na ficção.

Helê

PS: Para quem ainda quer mais, esse vídeo do UOL mostra Gil e alguns membros da família diante do resultado de um teste de DNA que investiga ancestralidade genética. E o Rafa Aragão (que eu não conheço) fez um fio com produções sobre vida e obra de Gilberto Gil disponíveis nas plataformas de streaming.

Resistência

Encontraram, a 3 mil metros de profundidade, o Endurance, navio de Ernest Shackleton naufragado na Antártida, 107 anos atrás. O estado de conservação foi considerado surpreendente para uma embarcação de madeira construída no início do século passado. E nos vídeos e fotos, podemos distinguir com clareza o nome, como se, tanto tempo depois, ela ainda reafirmasse sua natureza e também a dos homens que ela levou buscando a glória, mas que conseguiram notoriedade pela capacidade de sobreviver a condições impensáveis.

O naufrágio do Endurance ocupa páginas nobres na história da navegação e exploração mundiais, embora a  Expedição Transantártica Imperial não tenha alcançado seu objetivo: fazer a primeira travessia terrestre da Antártica. Guardadas muitas proporções, me lembra um pouco a história do filme Apollo 13 (e digo do filme pq não sei o quanto Hollywood mexeu na história real). Em ambos os casos, o que tinha tudo para ser um fracasso retumbante conseguiu se transformar em vitória épica.

O comandante Shackleton sabia que o gelo polar imobilizaria o Endurance, mas esperava que depois de algum tempo, o soltasse. No entanto, o gelo foi lentamente esmagando o barco, que acabou afundando. Milagrosamente, os ocupantes do navio sobreviveram no continente gelado e foram todos resgatados, meses depois. Os detalhes do salvamento, com Shackleton e alguns poucos homens enfrentando o furioso mar do sul em botes salva-vidas e depois escalando o território desconhecido das ilhas Geórgia do Sul, são daqueles casos em que o real parece ficção. Também atestam até onde se pode ir quando não há opção de voltar.

E hoje, 100 anos após da morte do comandante Shackleton, a imagem de seu navio vem à tona para o mundo, preservado pelas águas que o retiveram. Se não está completo, parece ainda inteiro e altivo, lembrança para que ninguém esqueça essa história incrível, de um tempo em que, como eu já disse, as pessoas eram célebres, e não celebridades. Para que não se esqueçam que seu nome é resistência.

Helê

Lendo o nosso tempo

A Juliana Cunha está naquele rol de pessoas da web nunca te vi, sempre admirei. Gosto imenso da escita dela, precisa, sensível, muitas vezes instigante como o nome de seu blogue, o “Já matei por menos”. A última newsletter que ela enviou começa com uma frase matadora:

“Me pergunto se algum de nós vai se recuperar da covid. Entre vivos e mortos desses três anos, sequelamos-nos todos.”

Na mesma news, a Juliana anuncia um curso on line que ela e a Isadora Sinay vão ministrar, o “Lendo o nosso tempo”. A proposta é muito sedutora:

“O LNT é um curso de literatura contemporânea que tenta olhar para os livros que escolhe estudar e perguntar para eles: o que você já adianta e que eu ainda não sei? Porque uma das muitas funções da literatura é adiantar as coisas. O poeta é o único vidente da modernidade, dizia Rimbaud. É o artista que pega as coisas difusas de seu tempo e dá pra elas uma forma — uma primeira forma. É a falta de método da arte que permite que ela aprisione na nascente ideias, fenômenos, sentimentos que só vão ganhar nome e definição bem mais pra frente.”

Olhando a seleção de livros e autores, a vontade de fazer o LNT aumenta ainda mais. Eu fiquei muito tentada, mas não dou conta nesse momento. Então, divulgo aqui para minha audiência pequena porém repleta de amantes da literatura, como uma forma de coloborar e e agradecer à Juliana, pelas boas palavras ideias que ela compartilha com a gente nessa internt de meu deus.

Para saber tudo sobre o curso, viste a página.

Helê

Atentos aos reacionários

O tempo, que tem se portado como um estranho neste período pandêmico, não ajuda. Os fatos parecem ora muito recentes, ora distantes, quase nunca estão onde esperamos encontrá-los. Além disso, vivemos nesses tempos que se alimentam de “polêmicas” (com e sem aspas), que se sucedem sem que a gente consiga fixar lição, opinião ou até meme. Tudo vai sendo substituído na pauta digital com rapidez impressionante. Na semana passada ainda tivemos a tristeza de perder Elza Soares: no dia de São Sebastião, a rainha voltou ao Orun, cravando mais uma flecha no peito do nosso padroeiro, deixando o Rio mais triste e o Brasil, definitivamente, mais pobre.

Gui Espíndola – 21.jan.2022/Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
Izabela Bombo @izabombo

Por tudo isso, eu quis vir aqui subir no meu caixote para deixar registrado que 186 jornalistas da Folha de S.Paulo assinaram uma carta questionando a linha editorial do veículo, apontando “a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal“. Assim que soube considerei algo importante, beirando o histórico. Consultei la Otra, que me respondeu: “Eu não lembro de ter visto nunca uma carta aberta dos jornalistas contra os editores, sobre nenhum tema, em nenhuma época. Posso estar enganada, óbvio, mas acho que é inédito”. Bastou para confirmar a minha (grata) surpresa com a posição dos colegas da Falha (nessa hora dá vontade e prazer em chamar de colega).

O gesto tem um efeito didático, eu diria, expondo para leigos a divisão nem sempre clara entre jornalistas e veículos, que é tensa e muitas vezes indistinta para os próprios comunicadores. No entanto, considero ainda mais surpreendente e alvissareiro que a união dos profissionais tenha se dado em torno do tema racismo que, a despeito de ser um problema da sociedade brasileira, sempre foi uma pauta levantada e sustentada por negras e negros. A menos que haja prova de que a Falha tem 186 jornalistas pretos, considero um avanço sem precedentes que o tema tenha mobilizado trabalhadores contra seus chefes e patrões. Significa que colegas em questão são super conscientizados? Não iria tão longe, mas indica que nosso esforço para pautar e escancarar o racismo brasileiro está redendendo frutos; fala mais da luta negra do que de qualquer outra coisa. Não está sendo em vão.

Precisamos nos manter atentos e fortes, já que em 2022 a Lei de Cotas será revisada pelo Congresso – ou você achou que o tal artigo do risível foi publicado agora por acaso? O movimento identitário branco, como de resto, as forças conservadoras, não brinca em serviço. E, como a Monix alerta aqui faz tempo, trata-se de reação a nossas conquistas. A luta, como sabemos, continua.

Helê

Benett
%d bloggers gostam disto: