Atentos aos reacionários

O tempo, que tem se portado como um estranho neste período pandêmico, não ajuda. Os fatos parecem ora muito recentes, ora distantes, quase nunca estão onde esperamos encontrá-los. Além disso, vivemos nesses tempos que se alimentam de “polêmicas” (com e sem aspas), que se sucedem sem que a gente consiga fixar lição, opinião ou até meme. Tudo vai sendo substituído na pauta digital com rapidez impressionante. Na semana passada ainda tivemos a tristeza de perder Elza Soares: no dia de São Sebastião, a rainha voltou ao Orun, cravando mais uma flecha no peito do nosso padroeiro, deixando o Rio mais triste e o Brasil, definitivamente, mais pobre.

Gui Espíndola – 21.jan.2022/Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro
Izabela Bombo @izabombo

Por tudo isso, eu quis vir aqui subir no meu caixote para deixar registrado que 186 jornalistas da Folha de S.Paulo assinaram uma carta questionando a linha editorial do veículo, apontando “a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal“. Assim que soube considerei algo importante, beirando o histórico. Consultei la Otra, que me respondeu: “Eu não lembro de ter visto nunca uma carta aberta dos jornalistas contra os editores, sobre nenhum tema, em nenhuma época. Posso estar enganada, óbvio, mas acho que é inédito”. Bastou para confirmar a minha (grata) surpresa com a posição dos colegas da Falha (nessa hora dá vontade e prazer em chamar de colega).

O gesto tem um efeito didático, eu diria, expondo para leigos a divisão nem sempre clara entre jornalistas e veículos, que é tensa e muitas vezes indistinta para os próprios comunicadores. No entanto, considero ainda mais surpreendente e alvissareiro que a união dos profissionais tenha se dado em torno do tema racismo que, a despeito de ser um problema da sociedade brasileira, sempre foi uma pauta levantada e sustentada por negras e negros. A menos que haja prova de que a Falha tem 186 jornalistas pretos, considero um avanço sem precedentes que o tema tenha mobilizado trabalhadores contra seus chefes e patrões. Significa que colegas em questão são super conscientizados? Não iria tão longe, mas indica que nosso esforço para pautar e escancarar o racismo brasileiro está redendendo frutos; fala mais da luta negra do que de qualquer outra coisa. Não está sendo em vão.

Precisamos nos manter atentos e fortes, já que em 2022 a Lei de Cotas será revisada pelo Congresso – ou você achou que o tal artigo do risível foi publicado agora por acaso? O movimento identitário branco, como de resto, as forças conservadoras, não brinca em serviço. E, como a Monix alerta aqui faz tempo, trata-se de reação a nossas conquistas. A luta, como sabemos, continua.

Helê

Benett

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