Celebração

– Desculpa perguntar, mas que evento é esse que vocês estão indo?,

questionou o motorista do Uber, com respeito e curiosidade.

– Está tendo uma feira de leitura na cidade, e hoje, aqui, vai falar uma escritor da Nigéria,

que mora nos Estados Unidos – respondi, resumindo.

– Porque essa é a terceira corrida que eu pego pra lá!

– Sério? Quem bacana! Quem diria que um evento de literatura ia atrair tanta gente…Que bom!

– É mesmo, existe vida fora do celular, concluiu o motorista.

Esse diálogo peculiar iniciou uma noite idem, em que reencontrei o Maracanãzinho depois de muito tempo. Não era um evento esportivo como os que ele costuma receber; nem um show extraordinário como o do Chico Buarque, décadas atrás, que fez o pobre voltar ao palco muitas e muitas vezes. Estávamos ali para ver Chimamanda Adichie. Éramos muitos, muitos pretos, muito felizes de aglomerar em torno, veja você, de uma escritora. Mesmo levando em conta os TED Talks e a Beyoncé, que conferem à autora e sua obra alcance multiplicado e uma aura pop, estamos falando de milhares de pessoas num sábado à noite enfrentando fila para ver falar uma mulher que escreve livros (excepcionais, mas livros, esse produto desacreditado  e cuja morte já foi tantas vezes decretada). Uma mulher negra, americana, que exibe com evidente orgulho sua ascendência africana.

O “Bonde da Chima” incluiu la Otra, Monix, minha filha e o namorado e a Caetana, amiga querida de muitos anos – justamente aquela que me iniciou nos letramentos sobre raça e gênero, tanto nos lugares em que trabalhamos juntas como no correr da vida, crescendo filhos, amando gentes, fazendo carnaval e molhando a palavra aqui e ali.  Não programamos, mas estar com ela neste momento foi um presente mútuo, uma alegria especial e uma celebração: vivemos para ver isso, juntas.

Além desse grupo seleto e  significativo, ainda encontramos com outras amigas para quem avisei do evento, achando que podia interessar. Todo mundo contente de estar ali pra ver Chimamanda, que a gente acha que já conhece porque escreve como quem sabe de nós. Por tudo isso, estar no Maracanãzinho já me fez feliz antes mesmo de começar o evento.

E então ela subiu ao palco e eu confesso que me arrepiei, emocionada, como se fosse o início  de um show. Uma figura belíssima e radiante, recebendo do público um carinho quase palpável, que ela buscava retribuir sem firulas mas com sorrisos e sinceridade. Elegante da cabeça aos pés, passando pelas palavras, falou sobre o passado que permanece, a importância de contar histórias, e várias outras coisas bacanas. Nada muito diferente do que já vi em outras palestras ou entrevistas; nenhum ponto mais profundo ou crítico. Mas essa não era mesmo a proposta do Ler, que é um salão do Leitor. A ideia principal é promover esse encontro entre os que leem e os que escrevem, materializando de algum modo essa relação mágica, capaz de nos aproximar de distantes e nos reconhecer em diferentes.

Foi uma noite histórica, como pontuou Djamila Ribeiro, em que celebramos, na figura de Chimamanda, o feminismo negro, a luta antirracista, nossa ancestralidade, ideais libertários, a literatura. Mas foi também uma noite de afetos,  em que celebramos igualmente o encontro e a palavra. Foi bonito de ver e de viver.

Helê  

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