Lido por aí

Minhas leituras recentes compõem uma surpreendente sequência de livros tão bons quanto diferentes entre si. Às vezes eu passo semanas sem ler algo relevante e fico com medo de ter emburrecido, ou de ter perdido um dom. Mas aí eu me enamoro de um obra desavisadamente e ufa!, ainda sou uma Leitora, gozando as vantagens que esse passaporte premium me confere.

Nas últimas semanas estive em lugares incríveis com pessoas interessantíssimas, reais e ficcionais. A boa  maré começou com “A visita cruel do tempo“, indicação de R. que aguardou pacientemente o momento de ser finalmente aceita. Não foi na primeira página nem no primeiro capítulo, mas quando eu e o livro entramos no mesmo ritmo, como um galope bem-sucedido, só parei ao fim, arfando com criatividade da narrativa, a honestidade de uma ficção tão realista – por isto mesmo brutal e bela ao mesmo tempo.

imagesEm seguida acatei a sugestão de mi sócia, que também já aguardava sua vez na prateleira, “A vida imortal de Henrietta Lacks“,  um livro que eu não leria espontaneamente. A contracapa falava sobre umas tais células HeLa, importantíssimas para a ciência mas que eu ignorava totalmente. É sobre ciência e ética, mas é também sobre outras tantas questões não enunciadas: relações raciais e racismo os EUA, família, a vida rural americana, a obstinação em cumprir uma missão, antes mesmo de ter consciência completa dela. Ao mesmo tempo em que é uma história muito americana, poderia ser a história de muitas famílias negras da diáspora: onde lê-se Lacks poderíamos ler Silva, sem prejuízo da história. Só lendo para saber como e porque.

downloadPara me recompensar por uma meta alcançada, me dei de presente “Do que falo quando falo sobre corrida”, do Murakami, que é conhecidíssimo por vários outros livros e peças, menos por esse, que é uma espécie de biografia de sua vida nas pistas. Nunca havia lido nada dele, e confesso que temo não gostar tanto do ficcionista quanto gostei do corredor. Leitura saborosa, divertida e companheira, daquelas que você faz balançado a cabeça e concordando com várias ideias e compartilhando passagens – como quando ele diz que “Simpathy for the Devil” é ótima para correr (indeed!). Saber que trata-se de um oriental talvez tenha influenciado minha percepção, mas o fato é que considero  o  livro muito zen e espiritual, embora em nenhum momento se proponha a isso – acho que nem mesmo usa essas palavras. E apesar do apelo óbvio para quem corre, não se trata apenas disso, mas sobre como o autoconhecimento coloca você no caminho e no ritmo certos.

Há ainda mais duas paradas nessas minhas viagens literárias recentes, mas fico por aqui porque me alonguei mais que o recomendado. Se interessar, falo dos dois últimos.

Helê

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