Dos Cadernos da pandemia para o Diário da peste

Foi como silenciar, de uma hora para outra, um turbilhão de ruídos, informações, providências da vida cotidiana, desesperos governamentais para passar a ouvir o próprio corpo com o máximo de atenção e cuidado possíveis. Tudo o que vivemos, discutimos e lidamos há mais de um ano mudou quando senti os primeiros sinais de infecção. Saiu de cena a Pandemia, coletiva, mundialmente disseminada, assustadora porém distante e entrou no meu quarto a Covid-19; sentou na poltrona mais próxima sem ter sido convidada e passou a me olhar nos olhos todos os dias e respirar no meu cangote como se eu fosse uma presa. Tudo o que era real e terrível torna-se hiper-real, um baque. O Medo.

Senti muita febre nos primeiros dias, dores no corpo e um cansaço ancestral. Dormi por horas, alterando estados de consciência seja pela condição febril, seja pelos sonhos sempre intranquilos. Confinada no meu quarto, eu perscrutava atentamente o som da minha respiração para saber estava como deveria, com medo de perder qualquer mínimo indício de que as coisas podiam piorar. Entre muitos e obrigatórios litros d’água – das poucas coisas que sabemos que funcionam, ainda que também não curem. Porque, como se sabe, não há cura, a não ser a que o corpo engendra. Ter uma doença que já matou milhões de pessoas e para qual não há remédio, apenas esse conhecimento, provoca tonturas; eu me senti (e ainda me sinto às vezes) espreitada pelo mal e, por isso, não posso dar nenhum passo em falso.

A gente não quer pegar Covid. Se pega, torce pra ser leve. Se não é, torce pra ser rápida, para não precisar internar, para não precisar intubar, para se recuperar, para não ter sequelas. São muitas coisas que podem dar errado,  e até aqui tive mais sorte que o contrário, mas eu não dispenso nenhuma gota de fé, alto astral, carinho, esperança, good vibes, oração, vibração ou qualquer luzinha miúda na minha direção e agradeço cada uma delas, comovida. Contra o mal que a gente não conhece, só mesmo a força mais poderosa que a gente experimenta: o amor.

Helê, no 11° dia de infecção, tratada em casa 🙏🏾 pela filha mais amorosa e foda❤️. No gerúndio da melhora, um dia de cada vez.

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6 Respostas

  1. […] just like that. B3 e Baile de favela. Covid: sobrevivi. Doses: 3 – and counting; Distanciamento […]

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  2. Desejando melhoras!!! E muitas energias positivas. Cheiro no coração para acalmar!!!

    Muito obrigada, Ana; energias recebidas e convertidas ;-) . Beijos <3
    Helê

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  3. Cuide-se, Helê! É tenso quando está perto da gente, imagino quão tenso quando está dentro da gente. #vaipassar

    Obrigada, Claudia.
    Lidar com a presença de todo o medo e pavor, antes distantes e agora íntimos, é uma experiência muito intensa, que ainda vai levar um tempo para ser digerida. Mas vai passar sim! Beijo <3 ,
    Helê

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  4. Já está nas minhas preces e boas vibrações, Helê! 🙏🌷😘

    Muito obrigada, Claudia! Recebidas e convertidas em força e carinho. <3
    Helê

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  5. Eu que não rezo, peço cada dia um pouquinho e conto as horas com você, minha querida. Contra a peste, o amor. Que lindo isso.

    Lembrei de Gente Humilde, “Eu que não creio peço a Deus por minha gente” :-) . Atravessamos o Bojador, minha amiga; sem você não sei como teria sido. Muito obrigada <3
    Helê

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  6. um abraço, Helê, e todas as energias positivas possíveis.

    Abraço e energias recebidos; muito obrigada! <3
    Helê

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