Rio de tristeza

Da série “Análises Políticas em Mesa de Bar”:

– Essa merda desse país acabou.

– E o Rio de Janeiro, que sempre foi vanguarda, acabou primeiro.

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Visitando o Parque Lage, uma das variadas facetas da Floresta da Tijuca, penso: nada pode morrer no entorno dessa floresta magnífica. Ou, por outra, tudo ao seu redor sobrevive, apesar. Talvez o Rio ainda não tenha sucumbindo totalmente, deslizando derrotado pela Baía de Guanabara adentro, porque essa larga formação rochosa, que se esparrama pelas zonas sul, norte e oeste, ainda nos retém, finca no solo uma esperança irracional, mas atávica.  Nessa cadeia de montanhas verde e rocha, o Cristo tem fama mas figura como um adorno,  um piercing delicado; quem reina absoluto,
muito antes do Redentor, é o gigante sisudo da Pedra da Gávea, carranca assombrada com o que fizemos de nós. Na Floresta da Tijuca, desconfio, reside o verdadeiro espírito carioca, ancestral miscigenado dos indígenas daqui e dos africanos trazidos à força do outro lado do Atlântico. Rogo que ele possa nos redimir e refundar a cidade que se formou ao redor da Floresta de maneira selvagem e incivilizada.

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Um dia após a visita ao Lage, num domingo outonal – ou seja, de clima ameno, céu límpido e azul arrebatador – surpreendi o Cristo num ângulo inesperado (inacreditável, mas eles existem) – e senti aquela reincidência de amor, um reapaixonamento fulminante pela cidade. Logo depois eu tive uma triste epifania: constatei que o Rio, meus amigos, é uma miragem. Pense no que há de mais sedutor, desejável, deslumbrante nessa palavra. Pense também em tudo o que ela carrega de ilusório, decepcionante, brutal. O Rio de Janeiro é uma miragem.

Helê

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4 Respostas

  1. Pôxa, estou muito triste por vocês, cariocas da gema, que estão vendo a cidade ruir. Todo mundo ama o Rio, e eu queria ter alguma solução para te animar, mas tá osso.

    Olha, Fefê, não tô vendo a luz no fim desse tonel, não, e isso é o mais desanimador. Mas esse amor pela cidade, essa solidariedade é um carinho, e a gente não tá dispensando. Obrigada, comadre.
    Beijo, ❤
    Helê

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  2. Porra, Helena! Que crônica espetacular essa da Floresta da Tijuca e da Pedra da Gávea! Lindo, poético, redentor (com trocadiliho) da angústia que tomou conta da gente nesses tempos sombrios. O Cristo como um piercing delicado no Morro do Corcovado é uma imagem digna de um Drummond, de um Braga ou de uma Clarice. Fiquei emocionado. Palmas pra você!

    Obrigada, Chris. Emocionar e redimir a angústia, ainda que momentaneamente, são atos de amor pela cidade e, de alguma forma, resistência.
    Beijo,
    Helê

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  3. Ah, Helê! Não sou carioca, mas gosto por demais do Rio, o que me levou a morar aí por um tempo de que recordo com muita saudade! Triste ler o que você escreve, com toda a sua sensibilidade, e que eu compreendo. O que me resta dizer? Que pena…

    Eu agradeço as palavras de carinho, Claudia; como disse acima, nós cariocas estamos precisando. Fico feliz que você guarde daqui boas lembranças.
    Beijo grande,
    Helê

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  4. parabéns, helê, pela delicadeza do seu texto, e por conseguir definir a cidade com uma precisão extraordinária que nunca consegui ;^)

    Obrigada pelas palavras generosas.
    Volte sempre; a casa é nossa 😉
    Helê

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