Escola da vida

Todo mundo falando bem do tal “Clube do Filme“. E eu, que nunca me conformei com a falta de adaptabilidade da instituição escola ao zeitgeist* do terceiro milênio, achei a ideia interessantíssima. Para quem não sabe, um pai que, ao ver seu filho completamente desestimulado pelos estudos, tirando notas baixas e incapaz sequer de trazer suas anotações para casa, propõe que ele pare de frequentar a escola. Em troca, o filho deve concordar em assistir a três filmes por semana, junto com o pai. A seleção não necessariamente passaria pela qualidade da obra, e acabou tendo mais a ver com a sensibilidade do pai que com qualquer critério objetivo.

Em princípio, uma bela fórmula, ainda que totalmente individual e obviamente não aplicável a outras estruturas familiares.

O livro recebeu vários elogios, especialmente pela coragem do pai ao optar por dar atenção ao filho “problemático”, ao invés de desistir, ou jogar a culpa para a escola, ou apelar para rigorosos castigos. E sob esse aspecto, de fato é uma história bonita. O tal clube do filme na verdade é um pretexto para que pai e filho convivam, conversem, troquem experiências passadas e presentes. O pai verdadeiramente guia seu filho através de um difícil fim de adolescência, até que ele encontre um caminho e consiga segui-lo com suas próprias pernas.

Mesmo com tudo isso,  no fim das contas não tenho certeza se gostei tanto assim da experiência. Fiquei com a sensação de que o garoto na verdade estava meio deprimido, e não sei se teria sido o caso de fazer terapia. Sem dúvida o cinema – assim como a literatura, o teatro, a ficção de maneira geral – pode ter um efeito bastante terapêutico.  Mas, sei lá, o livro me deixou um gosto amargo ao final. Uma comentarista do Blowg (da Marina W) definiu bem: o grau de melancolia de ambos é meio assustador, e me espanta que ninguém ainda tenha observado isso (pelo menos não nas resenhas e críticas que li).

-Monix-

* Ando encantada por essa palavra…

Ainda Michael

Quando John Lennon morreu, em dezembro de 1980, eu tinha 10 anos e fiquei muito impressionada. Naquele dia parecia que todas as pessoas do mundo falavam da mesma coisa. Um longínquo sussurro de memória diz que presenciei algo semelhante na morte do Elvis, mas do alto dos meus sete anos eu não tive disponibilidade pra prestar atenção. Três anos depois eu fui capaz de compreender o que significava comoção. Quando entrei numa papelaria do bairro e o velhinho balconista – alguém absolutamente fora da minha idéia de roquenrol – também falava do Lennon, concluí que ele devia ser realmente especial.

Coisa semelhante acontece agora, quase 30 anos depois. Ainda se fala muito sobre Michael Jackson, e eu tenho procurado me manter um pouco à parte, resguardado-me da pieguice e dos exageros. Porque eu quero continuar a ouvir Thriller daqui a alguns meses e anos, e a experiência com John me incapacitou, por exemplo, para ouvir “Imagine” pra sempre: está no rol das músicas que só poderei escutar na próxima encadernação.

Mas queria fazer uma anotação, por assim dizer, sobre a questão racial. A Marjorie escreveu um post interessante sobre o assunto, ao qual eu não tenho muito mais a acrescentar.  Só queria pensar nessa curiosa trajetória do astro negro, talvez o maior deles, que em algum momento deve ter desagragado parte da comunidade afroamericana. Não apenas por clarear a pele e afinar os traços, mas porque para muitos a atitude antirracista passa pela reafirmação da raça, e não pela sua supressão – portanto, it MATTERS if you’re black or white. Hoje a associação imediata é orgulho + gay, mas foram os negros os primeiros a resignificar sua condição tornando-a um atributo: say it out loud, I’m black and I’m proud! E eu suspeito que tenha havido críticas à postura de Michael (a caixa de comentários está disponível para respostas à essa especulação).

Entretanto, com a sua morte, a comunidade negra de certa maneira reivindica o astro para si. Tanto porque a ela pertence, de fato e direito, quanto porque lá a origem conta mais que tudo, one drop rule:  se o sangue é negro a cor realmente não importa. Achei essa foto do histórico teatro Apollo forte e significativa. Soou para mim como um statement,  uma lembrança de que o Rei do Pop universal era um negro americano, parte de uma noblíssima linhagem que tem, entre muitos, Ray Charles, Marvin Gaye, Billy Hollyday, James Brown e outros tantos que passaram pelo Apollo, no início de carreira ou já aclamados. Mesmo branco ao morrer, foi sendo um fabuloso músico americano negro que ele consegiu ser um artista extraordinário, neither black nor white.

Helê

Valor real

“Quanta coisa mudou nesses 15 anos: eu casei, descasei, tive dois filhos, casei de novo, mudei de emprego, mudei de área, mudei de assunto – e não faço a mínima ideia de onde pode estar a minha HP. Mas o Real continua aí. Pra quem cresceu achando que preço não era coisa que podia ficar igual por mais de uma semana, parece um milagre.”

Martha Mendonça

Eu era uma típica adolescente de classe média, ou seja, não sabia o preço de nada, nunca tinha lavado uma peça de roupa na vida e achava que o leite vinha da caixinha (tá, eu não era tão alienada assim, mas vocês me concedam essa “licença poética”). Estava passando na frente do açougue e, pasma, percebi que tinha carne à venda. Não tive dúvidas: entrei na fila e depois de uma hora de torturante espera, cheguei em casa, triunfante, com dois quilos de carne de segunda! Sim, eu sobrevivi ao Plano Cruzado.

Eu não era assalariada, mas lembro de quando meus pais aplicavam o pagamento do mês no overnight.

Eu não era dona de casa, mas já “apostei corrida” com o funcionário do supermercado do bairro, que ia remarcando os preços várias vezes por dia.

Quando entrei na faculdade, as aulas particulares que dei para garantir o cineminha nosso de cada semana eram cobradas em OTN. Imaginem, uma aluna de Comunicação Social, com histórico de reprovação em matemática, calculando preços indexados.

Em resumo, me criei numa cultura inflacionária. Poderia dar muitos outros exemplos de como a inflação estava presente no meu dia-a-dia mesmo antes de eu integrar a chamada população economicamente ativa.

O resultado disso é que minha relação com dinheiro sempre foi, como direi?, bastante casual. Foi muito difícil aprender a me planejar financeiramente, e atribuo isto a diversos motivos (familiares, idiossincráticos), mas dentre eles com certeza destaco o fato de ter crescido lidando com uma moeda que, pelo menos na minha ótica, não tinha muita correspondência com a noção de valor real. (Aliás, minto: uma moeda não; várias.)

Hoje em dia tenho me esforçado para aprender – não sem dificuldade – a comprar só quando tenho dinheiro para pagar; a planejar as despesas fixas de forma consciente; a pesquisar preços. Ainda não atingi o ideal de viver a vida à vista, mas chego lá.

488494_36019311Quinze anos atrás, o noticiário econômico era inteiramente pautado pela cobertura da inflação. Decisões políticas eram tomadas em função da necessidade de controle (ou não) de preços. A estabilidade econômica trouxe, nesse sentido, uma tranquilidade institucional que, na minha opinião, beneficiou muito a consolidação da até então frágil democracia brasileira.

Não tenho conhecimento nem estofo intelectual suficientes para elaborar esse raciocínio. Mas não posso deixar de pensar que o Plano Real foi um marco na nossa história. E, por consequência, na minha.

-Monix-

1º de julho

Semana 27. Lua crescente. 182-183. Meio da travessia. Al otro lado del río. Vou seguindo pela vida. Com a fé no que virá e a certeza de que serei feliz de novo. Every little thing is gonna be all right. Desesperar jamais. With a big help from my friends, me ensinando que a luta é mesmo comigo. Longe do familiar e do conhecido. Com força e com vontade, my tears dry on their own. 15 minutos de intervalo e depois vamos pro jogo pra decidir – quem se desloca recebe, quem pede tem a preferência. Não tenha pressa mas não perca tempo. Tudo vai mudar – depende um pouco do meu próprio esforço e eu vou ser feliz.

Helê

Pinguço profissa

Essa é pro Boêmio e pra Boêmia . Porque beber é coisa séria e a gente tem que se precaver pra qualquer eventualidade, não é mesmo?

Tugo, vendido pela Amazon e postado no Bem legaus.

Participante do festival de Glastonbury flagrado pelo Big Pictures.

Helê

Obama’s pictures

Mais uma da série “fotos inusitadas de um presidente americano”.

Helê

Thriller*

Sei não, vai ver tô ficando velha (alta probabilidade). Mas tenho a impressão que faz tempo que talento, qualidade e  vendagem não se encontram na cena musical. E a última vez aconteceu há exatos 26 anos. A encruzilhada desses três fatores gerou o disco mais vendido da história da indústria fonográfica mundial, produzindo algo que consegue atrair atenção até mesmo dessa geração digital. Refiro-me, claro, ao Thriller de Michael Jackson. Quando chegou lé em casa uma edição especial comemorativa, com o cd e um dvd dos clipes, a casa parou. Eu, a empregada e minha filha ficamos curtindo as canções, as danças, rindo do que hoje soa tosco, admirando o que ainda brilha e encanta. Mesmo tampando os olhos quando Michael vira lobisomem a pequena sempre pede pra rever os clipes, e acho que entendeu a minha primeira explicação, quando o vídeo estava sendo exibido numa loja e eu parei pra ver: “Era o meu High School, filha”.

É, acho que depois disso nada que vendeu tanto foi tão bom, e nada tão bom fez tanto sucesso. Ou não –  corrijam-me, se puderem.

Helê

*Post guardado na seção de rascunhos desde outubro do ano passado, editado pela última vez em 16 de maio e finalmente publicado hoje, ainda sob a incrédula reação à notícia da morte de Michael, que me foi dada por Toni Platão. Mas isso fica pra outro post.

Inveja

Nenhum orgulho em confessar, muito pelo contrário. Mas é fato: eu simplesmente não consigo ver programas de viagem. Nenhum. Os de mulé-modelo-gostosa que vai pra lugar paradisíaco então, nem pensar (era especialidade do Sportv) . Mas mesmo os mais bacanas como “O Brasil é aqui”, que tinha no GNT;  e despojados como o “Vai pra onde?” , do Multishow, eu fico igual a sua vó, incomodada. Vejo um episódio, um trecho e largo de mão.  Depois de muito matutar descobri o motivo : a mais pura e genuína inveja. Pronto, falei.com.br.

 

Helê

Dance around the world

… é mais uma estonteante coleção de (o) Big Pictures. Aqui, uma provinha:

Alvin Ailey American Dance Theater members Antonio Douthit, Glenn Allen Sims and Kirven Boyd

Alvin Ailey American Dance Theater members Antonio Douthit, Glenn Allen Sims and Kirven Boyd

Helê

Tijuca Rules! (E o Lulu também)

Lulu Santos no Tijuca Tênis Clube. Não, não tem décadas, foi sábado passado. Eu, a Vaca e Cláudio, o Elegante (favor não confundir com Cláudio, o Príncipe; títulos e alcunhas são coisas seríssimas neste blogue). A brincadeira era que faríamos um trabalho de campo para descobrir afinal qual seria o público do Lulu: garotada malhação ou tiazinhas (como nosostras, é preciso admitir)? Bom, algumas cervas consumidas na concentração nos fizeram perder um pouco do rigor científico, digamos assim, e nós cantamos e dançamos bem mais do que recomendaria o CNPQ. Mas percebemos que o público era o mais variado possível, mulekes e tiazonas com a cabeça completamente branca, todo mundo muito amarradão, naquela energia que só produzem os shows de estádio. O som e o conforto podem ser questionáveis, mas a animação? Imbatível. Muito interessante esse evento justo agora: bem no meio da viagem retrô aos shows do passado me aparece o Rei do Pop pra cantar vários hits que fizeram e fazem parte da minha trilha sonora. Sim, passou um filminho na cabeça, desde os Tempos modernos até a minha filha me pedindo pra ouvir o Lulu Santo cantando a “a música do se afogá” (Vale de lágrimas) . E valeu por ouvir de uma nova maneira que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.

Não tenho o canhoto do show, mas ele ficará guardado, com certeza.

Helê