Sentidos

  •  O sabor da tequila
  • Os cheiros de Paris.
  • Sarah Vaughan cantando “You go to my head“.
  • Qualquer tela do Van Gogh ao vivo.
  • A mão que afasta a seda da pele.

Starry_Night_Over_the_Rhone

Helê

(Tomando uma margarita, e porque eu lembrei do tempo em que blogar também era conversar entre blogues e nos comentários, propondo temas e listas. Alguém mais se habillita?).

Não quero mais nada que me machuque

dufas:

Este é um dos posts que eu mais gosto de ter escrito e achei que valia a pena republicar (também queria ver como funciona esta função).

Originally posted on Duas Fridas:

Esta é a campanha em andamento aqui em casa. Conseqüência imediata: menos três pares de sapatos que me apertavam, já havia algum tempo.

Em minha defesa alego que eram sapatos fechados, do tipo que eu uso pouco. Contra mim admito que não há razão lógica para crer que o sapato que incomodou hoje será confortável daqui a seis meses. No entanto esses pares persistiram, de estação em estação, até a atual revolta.

Porque, veja bem, apesar de ilógico, esse comportamento se mostrou quase um padrão. E o pior, um padrão coletivo, se vc entender as Duas Fridas como amostragem suficiente para o adjetivo. Quando contei pra Monix da campanha ela riu de mim e dela, pois confessou agir de modo semelhante. Será o que isso, gente? Culpa cristã? Anti-consumismo desenfreado? Cacoete de gênero, fruto da iniciação precoce das mulheres nos rituais sacrificiais da depilação, retirada de cutícula, chapinha e outras…

View original mais 75 palavras

Grumari

Meu pai é o sujeito da canção do Raul que não acha nada engraçado — macaco, carro, jornal, tobogã, ele acha tudo isso um saco. Exceto praia. Quando ele passou a ter o compromisso de sair comigo e com meu irmão todos os sábados, tinha um problema semanal porque só suportou um programa genuinamente infantil no primeiro fim de semana, quando nos levou ao Tívoli Parque (beijo pra você, velhinho como eu, que entendeu a referência!). Havia o bar, sempre divertido pra ele, mas que a gente achava chato depois de cinco refrigerantes, sete picolés e 20 balas. Vez por outra íamos a Petrópolis, mas desconfio que era um passeio dispendioso, não dava para ser feito sempre. A praia era a melhor alternativa, um lugar que todos adorávamos por diferentes razões: meu pai tomava cerveja, olhava as mulheres, lia o jornal; meu irmão não saia da água e eu alternava entre o mar e ficar torrando à milanesa. O programa também não exigia de meu pai interação constante, que ele não era (continua não sendo) de muita conversa, ainda mais com crianças. Assim, na ilha de edição que é a minha memória há rolos e rolos de filmes de incontáveis sábados passados no Recreio (ou no que era o Recreio há 30 anos) e no que continua sendo a praia mais linda do Rio de Janeiro, o Grumari.

Do Recreio não sobrou quase nada, a não ser a Pedra do Pontal, que deve ter sido mantida por fazer parte de algum condomínio. Mas o Grumari não: permanece impávido que nem Mohamed Ali. Talvez parte do encanto que esse lugar exerce sobre mim tenha ver com este pequeno milagre: a praia à qual cheguei mês passado para uma corrida era virtualmente a mesma que eu deixei décadas atrás, quando ainda disputava com meu irmão quem iria no banco da frente (crianças sentavam no banco da frente, incréus. Cinto de segurança e lei seca também não tinham sido inventados). Sempre sou acometida de um leve pânico ao me aproximar, com medo de que tenham mexido no meu lugar, mas logo respiro aliviada e me delicio com aquela beleza intocada e selvagem. Encontrá-la praticamente intacta preserva algo em mim que não consigo definir em palavras.

Na ilha de edição da memória encurto os momentos de tédio, aborrecimentos ou de insegurança para fixar dias inteiros de sol e cachorro-quente, a amizade com os tiozinhos do único trailer de toda a praia, o prazer de caçar tatuís com meu irmão e depois devolvê-los todos (já éramos conservacionistas, veja você). Pores de sol incríveis de um verão interminável, nós no intrépido fusquinha azul do pai ao som de “Toada”, do Boca Livre, ou “Sultans of Swing”, do Dire Strait, o marzão da Barra crescendo a cada curva. Curvas que eu cruzei no trecho mais difícil da corrida mais desafiadora, uma prova de revezamento de esforço solitário (como todas), mas com celebração coletiva (como poucas). As imagens do passado, que eu achei que me acompanhariam no trajeto, ficaram borradas pelo extremo esforço físico que me obrigou a focar no presente, no próximo passo, na respiração seguinte, só mais um pouco, tem alguém me esperando, preciso continuar. Tive que reforçar a conexão com o presente para conseguir encarar uma escada de pedra e ladeiras diversas depois de 2,5km correndo na areia fofa. O que terminou de maneira apoteótica e ensolarada, cruzando a linha de chegada em grupo e com festa, começou com o dia felizmente nublado quando, sozinha entre muitos, só me acompanhava de perto a dúvida: será que dou conta? Dei, e vivi mais uma experiência memorável no Grumari, esse lugar onde sempre sou feliz.

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Helê

 *Você sabe que está velho quando começa a escrever reminiscências que não têm interesse para ninguém além de você mesmo.
Isso e quando te dão lugar no metrô e você desiste de entender porque – apenas senta.

Explosivo

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Da série “Corações”

Helê

Carlos

“De tudo o que somos ou fomos para os outros, às vezes só resta aquilo que não somos nem nunca fomos para nós. Não faz mal, pensei. Acho que é isso que vai tornando o Amor possível, podermos escolher aquilo de que nós lembramos nos outros.”

respostas a perguntas inexistentes (290) , do blog Não compreendo as mulheres

 

Estas linhas e as ideias que carregam me impressionaram  bastante.  Horas depois de lê-las, ao saber que Carlos Hasenbalg havia morrido, me pus a pensar sobre o que ficou dele. Para muitos ele deixa uma obra indispensável para entender o Brasil (que não se dá a conhecer sem que se trate de relações raciais).  Para mim restaram algumas lembranças: a voz grave, os olhos de um azul profundo, o sotaque quase irresistível, sorrisos e resmungos, bom humor e rabugice combinados, algumas divertidas mesas de bar. Também me lembro dele na festa de trinta anos de uma amiga, tranquilizando a todas nós, pré-balzquianas ansiosas, garantindo que nessa idade começaríamos a ficar realmente interessantes.  Carlos sabia ser galante sem ser cafajeste, habilidade praticamente extinta nos dias de hoje.

Nunca cheguei a ser íntima, nem mesmo próxima; não cheguei a chamá-lo de Carlito, como os amigos. O que torna mais significativo outro episódio guardado no baú das recordações: ele aceitou sem titubear ser fiador do primeiro apartamento que aluguei, assim que passei para o mestrado (curso que ele me incentivou a fazer). Entre sério e brincalhão, mencionou que perdera a conta de quantas vezes havia sido fiador de outras mulheres negras nesta cidade. Era assim o Carlos: alguém que percebia a dimensão política de atos prosaicos, um intelectual coerente na vida pessoal (outra raridade, desde sempre).

Não o via há muitos anos e saber que ele está definitivamente inacessível causa um pesar acanhado, que temo não ter o direito de sentir. Ele morreu em Buenos Aires, só soube alguns dias depois, na ágora virtual do Facebook.  Fazem falta os rituais fúnebres, sobretudo porque a dor, de qualquer tamanho ou natureza, torna-se mais suportável na companhia de outros. As liturgias servem para que a gente organize os sentimentos, se despeça, conte histórias como essas que relembrei aqui, homenageando a pessoa com lágrimas, suspiros e até sorrisos. Permitem que depois a gente siga, tentando esquecer que outras perdas virão e prometendo aproveitar melhor oportunidades, pessoas, a vida, enfim Na falta de outro lugar, acomodo aqui meu pesar, entre carinho e saudade transformados em palavras .

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Helê

Fértil

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(Emeric Chantier – Empty Kingdom – Art Blog via Karen Paul )

Da série “Corações”

Helê

Trânsito

Durante 14 dias fui feliz. O mês era maio, e a cidade, Paris. Encontrei felicidade antes, mas nunca rimou nem durou tanto. Nova York foi uma onda diferente, feito a do Herbert, mas também não senti solidão, mesmo sozinha. De modo que: ou descubro o que me alimenta  e sustenta quando viajo ou viro aeromoça – embora suspeite que esteja um pouco tarde pra isso. Em trânsito a solidão não me alcança;  se ela se aproxima não percebo, estou muito ocupada para isso. Na vida real, oito horas diárias de trabalho (mal) remunerado e mais outras tantas de manutenção da existência – contas/médicos/chatices/etc – e incrivelmente sobra tempo e espaço para se sentir só. Viajar é bem mais preciso: ajusta nossas bússolas, sintoniza frequências seminais,  afina os instrumentos internos. Ou distrai, apenas – é pouco? Tenho sonhado com Portugal e ele me vem em vários sinais, como o livro da Calcanhotto, saga lusa que me arrebatou. Também Minas tem cismado em atravessar meu caminho, seja em canções ou lembranças,  todas inesperadas. Garrei paixão desde a primeira vez que vi aquele mar de montanhas, mesmo sendo menina de beira-mar (modo de dizer, que eu sou do subúrbio, mas ser carioca é se apossar). Minas, o céu mais lindo, a travessia, sempre. Se for ver bem, Minas e Portugal na minha rota faz todo sentido, há mais semelhança entre as montanhas de Ouro Preto e as ladeiras de Lisboa do que um Atlântico pode explicar. Minha mineira amiga Vera, Veríssima – uma pessoa mesmo superlativa,  e também a única que merece usar o feminino de meu Rei – tem toda razão, dias ruins rendem bons textos. Podemos então hoje  nos contentar com um texto meia boca e esperar por um dia assim, mais pro contente? Quero poder escrever desse jeito fluido, esquivando da razão e dando rasteira na ordem, sem embaçar a vista e sem digitar com o coração na mão toda vez. Se não for possível alegria com poesia tô lascada, não abro mão de nenhuma.  Tem também que tristeza cansa, viu? E dá numa rua sem saída, coisa mais sem graça. O ipê não floriu, mas na semana passada teve dois dias lindos, daqueles que dá vergonha sofrer, não fica nem bem. Além do mais eu fiz aniversário , mesmo sem querer, e eu não resisto ao meu aniversário, como observou D., com propriedade. Li e respondi cada um dos meus parabéns, como se cada um deles fosse uma vela, um pedido, uma oração. Sejam fieis.

chinalanternas7

Helê

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