Dona Memória

Dia desses senti saudades de escutar o acústico do João Bosco e lembrei que foi o primeiro cd que eu comprei na minha vida. Sim, mes amis, num tempo em que  cd não custava menos de dois dígitos.  Passei meses alternando entre o do Bosco e um da Gal (eu decorei de trás pra frente, feito música do demo). Recordo também que  ‘Heal the world’, do Michael Jackson, foi a primeira canção que tocou no meu primeiro bom aparelho de som muuuuitos anos atrás (ui, que antiga, agora não se usa mais ‘som’, é ‘system’).

Bom, lembrar disso tudo faz algum sentido para alguém que gosta tanto de música como eu. Mas porque será que eu lembro de uma canção ou disco mas não da moça simpática que me deixa scraps no orkut, falando de mim com nitidez incrível? Nem mesmo depois que ela enviou fotos em que eu apareço sorridente ao lado dela, nem assim sei de quem se trata. (A pessoa em questão, aliás, gentilíssima, perdoou a minha senilidade e me poupou da constrangedora cobrança  ‘comovocênãolembrademim?!?!’). Como é possível que, sobre pessoas com as quais você conviveu diariamente durante dois, três anos, de repente pum!, sumam os registros? O que orienta essas escolhas, por que lembro do nome de um ator obscuro  e esqueci daquele beijo?

Há recordações que  não foram totalmente perdidas: permanecem em algum lugar, mas meio embaçadas, faltam páginas inteiras, trechos, cenas. Às vezes basta que alguém comece a desenrolar o fio da memória e o baú se abre, tudo começa a sair, ainda que amarelado e roto. Noutras, não; por mais que você bata a porta não abre, simplesmente. Angústia e irritação: quanto mais você se esforça, mais a lembrança foge, apostando uma corrida que você sempre perde. Enquanto, sabe deus o porquê, persiste reluzente e acessível o nome da vizinha da sua avó  – de quem você nem gostava, mas chamava Marinalva, você tem certeza.

Eu realmente não compreendo os mecanismos da memória, quais são os critérios de seleção e arquivo; se ela se desfaz de algumas coisas pra ganhar espaço para outras ou simplesmente esquece documentos caídos no vão da estante. Wally Salomão diz num cd do Rappa que ‘a memória é uma ilha de edição’, mas na minha juro que não sou eu quem faz os cortes – pelo menos não conscientemente. Eu decidi que a minha memória é uma velha hippie, alegre, desorganizada e meio senil, que suja os papeis de manteiga ou café, mas tem por eles um carinho imenso – que não se traduz em cuidado ou eficiência. Essa senhora, a responsável pela bagunça dos meus arquivos sentimentais,  foi descrita com perfeição pelo escritor Austin O’Malley:

A memória é uma senhora velha e louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos

Helê
PS: Ah, a frase eu aprendi com a  Maria João.

PS2, a missão : Reescrito a partir do post publicado originariamente em preto e branco em 13 de março de 2007.

3 Respostas

  1. Prazer em conhecer, eu sou exatamente como a frase! Comigo acontece sempre. E ainda pela minha aparência digamos inesquecível. Sempre aparece uma pessoa simpática que me viu numa apresentação de coral que passou na tv, ou numa apresentação. Ou uma vez na vida numa festa. E pum nunca mais se esquece de mim. Mas eu nem lembro da cara da pessoa muito menos do nome!

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  2. Que lindo, Hele, é bem assim mesmo.

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  3. Genial, Helê!
    Isso tem muito a ver com o nosso reencontro virtual.rsrsr…
    Lembrei de vc no exato instante que te vi em uma comunidade de nosso antigo colégio (PODE DEIXAR QUE NÃO ENTREGAREI NOSSA IDADE, rs)e como vc mesmo me disse (sua memória era como um queijo suíço, cheio de furos) em um determinado momento não se lembrava de mim, mas te perdoo,pois depois se lembrou.rsrsr…Isto o que aconteceu com vc, aconteceu comigo também e é constrangedor, mas o que podemos fazer?
    Bjs e precisamos tomar uns chopps, que tal?

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