Na reta

No segundo turno eu tentei vencer minha preguiça paquidérmica algumas vezes para argumentar em favor da minha candidata. E para minha surpresa não ouvi nada realmente consistente – a maioria era ainda mais preguiçosa que eu, e se escondia atrás do primeiro argumento que encontrava pela frente. Coisa tão rasa e superficial que não durava 2 minutos de conversa e evaporava. Segue aqui a derradeira tentativa de botar pra correr uma ou duas justificativas mais esfarrapadas que desculpa de adolescente:

Sei lá, eu não confio na Dilma. Não gosto dela. Nem dele.

Seguinte, pessoa: ela é candidata à presidência, ela não vai passear com seu cachorro, nem guardar a senha da sua conta. E, vem cá, precisa gostar? Você também não vai dar uns amassos nela nem virar BFF. Entenda que votar é algo que nem sempre a gente faz com tesão. Eu já votei com lágrimas nos olhos, filho no colo, emocionada até as orelhas. E já fui lá cumprir meu dever – mas sempre com feliz por ter essa opção. Tem uma geração para a qual essa frase não faz muito sentido, mas olha: poder votar é algo muito recente. E faz parte do aprendizado da democracia perceber que votar pode dar menos ou mais prazer, mas não deve nunca ser “taked for granted”. Gostar eu gosto de cerveja e de praia. Por um presidente eu espero ter menos emoções e mais informações sobre suas habilidades, alianças e projetos.

Eu já não gostava dela, agora que ela é contra o aborto e o casamento gay...

Essa frase então, mon dieu!, é emcimadomurismo muito mal-disfarçado. Sabe o que eu ouço quando me falam isso? Eu já não queria mesmo me meter e agora, oba!,  tenho uma justificativa para não me comprometer com essa história. Foco, gente: quem levou a conversa para esse lado e por que? Qual é o real poder de um presidente nestas questões? Isso orientou o seu voto para o legislativo, onde elas realmente importam? E, seriously, o Serra e o Índio têm a postura que você espera sobre esses pontos?

Cara, campanha não é um troço bacana, sobretudo no 2º turno. Não sei se em algum lugar do mundo inventaram outro jeito, mas aqui é phoda. A Dilma fez concessões durante a campanha. Não é agradável, concordo. Mas, sinto muito, amigo, that’s politics. Também não gostei desse papo de “mãe dos pobres”, por exemplo. Acho péssimo ter que play the mom card para provar o valor de uma mulher. Mas da mesma maneira que o eleito não vai governar só pra mim ou pra minha classe, a campanha é pensada para todos, inclusive para aqueles para quem esse discurso cola. Paciência e foco, para separar o marketing da essência.

Vou anular meu voto.

Olha só, eu já anulei meu voto algumas vezes. Eu tenho respeito enorme por que faz essa escolha que, quando consciente e consistente, é difícil e até dolorosa. Gente que eu admiro muito politicamente, como o meu pai, por exemplo, fez essa opção e eu não tenho vontade de convencê-lo do contrário. Do mesmo modo que não tento modificar um peessedebista convicto e informado.  Mas me incomoda, chega a pinicar a consciência, o voto nulo da preguiça ou do descompromisso.

Votar dá trabalho, gente. Porque pensar é grátis mas ninguém disse que era simples. O discurso que aparece aqui com alguma coerência é fruto de alguma queimação de mufa e muita conversa, leitura, além do acompanhamento das ações do governo ao longo do mandato e não apenas durante a campanha. Eu não sou e nunca fui de partido algum, portanto minha escolha não segue um alinhamento, mas resulta de muito questionamento.

Evite o atalho, revire suas convicções, ouça com a mente aberta. Se depois disso você resolver anular o voto por convicção e não por comodismo, apenas para tirar o seu da reta, beleza. Pior que se arrepender de ter votado errado, é se omitir diante de algo tão importante, pelo qual tanta gente lutou, quanto escolher o presidente da república.

Helê

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