Censura, ditadura e outros nomes feios

As leitoras e os leitores deste blog não devem ser tão jovens a ponto de não saber o que vou dizer aqui. Mesmo assim, vale a pena relembrar: como diz o Ricardo Boechat, não podemos virar uma página da história de um país sem antes lê-la.

Nos últimos anos, a sociedade brasileira tem falado muito em “volta da censura” e em “ditadura”.

Calma, gente. Muita calma nessa hora.

Eu nasci em 1970; portanto, vivi minha infância inteira sob um regime ditatorial. Embora na época toda a nomenclatura oficial tentasse encobrir o fato (usavam-se termos como “Revolução”, “governo militar”, ou, no máximo, “regime de exceção”), bem, crianças, o que existia no Brasil não pode ser definido como nada menos que uma ditadura.

Não quero (pelo menos não agora) me aprofundar nas questões relativas à perseguição, prisão, tortura, execução e desaparecimento de inúmeros opositores do regime – estudantes, intelectuais, militares dissidentes, artistas, todos considerados gravíssimas ameaças à segurança nacional.

Eu quero falar é da vida cotidiana sob um regime ditatorial. Para que quem não sabe, ou não se lembra, entenda que o que existe hoje no Brasil está longe, muito longe, de ser considerado “censura” ou “ditadura”.

Na época da censura, havia um órgão do poder executivo cuja única função era analisar previamente o conteúdo de qualquer mensagem a ser difundida para o público, liberando ou vetando o direito de veiculação. Graças a dona Solange Hernandez e seus asseclas, o Brasil não pode ler incontáveis reportagens – todos os veículos, em algum momento, foram afetados pela impiedosa tesoura do departamento de censura. Entre os casos que ficaram famosos destacam-se a capa do Jornal do Brasil sobre o golpe que depôs o presidente do Chile, Salvador Allende; a proibição da transmissão do Balé Bolshoi, de Moscou, devido à sua origem (a antiga União Soviética, líder do bloco socialista); a novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, cuja veiculação foi negada na noite da estreia, obrigando a TV Globo a tirar da cartola uma nova novela em tempo recorde; diversas peças teatrais, reportagens, letras de música.

Isso significa que as pessoas comuns, que estavam vivendo suas vidas normalmente, deixaram de ter acesso a informações e a bens culturais porque um grupo de cidadãos selecionados decidiu o que poderíamos ou não assistir. Julgaram por nós o que era adequado para nós.

No campo político, não se votava para os cargos executivos: prefeitos e governadores eram nomeados. O presidente da República era escolhido por eleição indireta – os deputados federais votavam em nosso nome. As campanhas para os cargos de vereadores e deputados estaduais e federais seguiam as normas da “Lei Falcão”: a TV veiculava apenas uma foto de cada candidato. Nada de programas bem produzidos, com declarações dos candidatos e imagens bonitas. Comícios, passeatas, carreatas, corpo a corpo, debate na televisão? Nem pensar.

Alguma dessas situações remete, em algum nível, à estrutura que existe hoje no Brasil? É claro que não.

É importante a gente entender o que é, de fato, uma ditadura. Saber do que se trata a censura aos meios de comunicação. E aprender a dar valor à democracia sob a qual vivemos hoje no Brasil. Democracia esta que foi conquistada a duras penas, com muita luta. Não foi entregue de bandeja. Temos que fazer por merecer o país que conseguimos construir. Não foi fácil chegar até aqui.

-Monix-

8 Respostas

  1. Meninos, eu vi. A ditadura foi tudo isso que a Monix
    descreveu e mais, muito mais. É uma tremenda leviandade afirmar que estamos vivendo em regime de exceção.
    Testemunho de uma octogenária revoltada com as
    sandices veiculadas pela imprensa.

    Gostar

  2. Bom, acredito que se tenha que olhar ANTES da ditadura se instalar. Como ela começou a capar a liberdade. O problema é NAO dar passos para tras. NENHUM passo. eh pra frente que se anda.

    Gostar

  3. Ótimo texto, Monix. Ditadura e censura são palavras tiradas da cartola com uma naturalidade perniciosa por todos aqueles que querem posar de indignados. É mesmo uma irresponsabilidade a banalização dessas expressões, disvinculadas do seu real significado, que todo mundo da nossa geração pra trás conheceu de fato.

    Gostar

  4. e todo aquele negocio de hastear bandeira. meu contava q uma vez, houve uma briga no baile de carnaval. dois molecoes e tal. um deles era sobrinho do sargento. o outro foi pra cadeia. meu pai foi nomeado advogado. e NAO conseguia tirar o moleque da cadeia. e ia falar com o juiz e o juiz nao tinha coragem de enfrentar o sargente. meu pai contava isso pra dizer q qualquer sargento de cidadezinha mandava mais que qualquer lei.

    adorei a desembaçada q vc deu. pq começa mesmo a banalizar.

    Gostar

  5. Ótima abordagem do tema, e muito oportuna. Não há censura no Brasil. O que há é uma histeria cínica nos grandes meios de comunicação, que identificam qualquer forma de restrição – democrática e dentro da lei – como censura ou “ataque à liberdade de imprensa”. Ora, toda liberdade é limitada. Até mesmo a liberdade individual é limitada pela lei e pelo respeito ao direito do próximo. A grande mídia esperneia e faz clima de terror porque na verdade quer estar acima da lei, de qualquer lei, seja lei de imprensa ou qualquer outra – nem nos EUA é assim. Isto é privilégio, não é democracia.

    Gostar

  6. O que mais me espanta é qdo ouço alguém dizer que nesse tempo era melhor, e acredite: eu conheço gente assim. Acho que é um gde azar meu.
    Ditadura “never more”. A liberdade não tem preço.
    Seu texto foi muito elucidativo e acho que aqueles que não entendem que o processo democrático é lento, devia lê-lo.
    Parabéns. E bjs

    Gostar

  7. Lindo, Monix, lindo.
    Beijos de alguém da tua geração que também viveu tudo isso e prefere, sem titubear, o Brasil que vivemos hoje.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: