De volta

Coerência: tem, mas acabou.

Outra maneira de expressar umas das máximas aqui do Dufas. Fiz um post com o título “Sem mais” e agora volto ao assunto. Tentei não falar sobre o indizível, o inconcebível, o inominável que foi isso que aconteceu aqui no Rio na semana passada. Primeiro porque, como consegui pifiamente concatenar e escrever, nada parecia adequado naquelas primeiras horas e dias, e nesses casos, só o silêncio pode falar. Depois, por  respeito  – e fiquei muito incomodada com análises feitas menos de 24 horas depois daquelas mortes  –  não apenas na imprensa chamada grande, mas também na blogosfera.

Não queria falar, mas necessito. Não, adianto que não trago nenhuma análise inovadora, nem conselho ou consolo. Escrevo porque preciso, apenas, antes de conseguir falar sobre qualquer outra coisa .

O Mal. Era só o que pensava, é motor de todo o medo e tristeza que sinto ao pensar no que aconteceu. O Mal com maiúscula, aterrador, a concentração e potência de algo que vemos no varejo do dia dia, recorrente mas em doses diminutas perto de um ato como esse, que causa uma dor dessas dimensões.

Foi doloroso para mim, que conheço o bairro  e passei perto dali momentos importantes da minha vida; que estudei numa escola igualzinha aquela, pública, de três andares.  Houve também uma inevitável empatia com o sofrimento daqueles pais. Todos que temos filhos em  idade escolar queríamos  correr pra casa e abraçá-los pelo resto do dia  –  ou da vida, se possível fosse.

Mas a tragédia  foi algo que atingiu toda a cidade – talvez venha daí minha necessidade de escrever, como nas chuvas  de abril ou nos ataques criminosos de novembro. O Rio de Janeiro foi  atingido,  como se aquela escola ficasse na esquina de cada um de nós, mesmo de quem nunca cruzou a Avenida Brasil uma vez sequer na vida.

Foram dias difíceis esses últimos, como se estivéssemos todos em suspenso. Tocamos a vida porque, felizmente, não há outra saída. Mas angustiados, sofridos, ansiando por voltar ao normal, à vidinha besta da qual a gente reclama pela bestice, em que a a gente pode esquecer ou apenas não lembrar de uma barbaridade dessas. (Deve ser por isso que a morte tem tantos ritos – o luto, a missa de sete dias, de mês, dispensa do trabalho. É preciso organizar a dor, domar com rotina e método algo tão brutal).

Cada um achou seu jeito de lidar com tudo isso e encontrar o caminho de volta para o cotidiano. Eu comecei a achar o meu quando encontrei a emocionante imagem que postei aqui, da faixa levada a campo pelo time do Flamengo. E, honestamente,  quem fala aqui não é a torcedora, mas sobretudo a carioca amante da música, que viu naquele gesto, em que dois personagens da cidade,  dois versos se encontram e um oferece amparo ao outro, ali eu vi que que poderíamos, e deveríamos, recomeçar a viver.

Aquele Abraço,

Helê

Para sair do luto e voltar à vida, tente esse emocionante post do Alex Castro –  sempre que necessário.

%d bloggers like this: