O planalto e a estepe, Pepetela

Atração fulminante, daquelas que não sossegam até que se possa consumir –  ou consumar – totalmente. Deu-se comigo e esse livro de Pepetela, esse importante escritor angolano com nome de apelido infantil. Esbarrei nele segunda ou terça, e só larguei sábado, depois de finda a leitura. Desconsiderei uma cansativa viagem de ônibus para o subúrbio, acolhi com simpatia a insônia, não reparei no enguiço do trem: tudo ia muito bem para mim, tudo oportunidade para percorrer aqueles caminhos e desvendear os destinos daquele personagem por quem a empatia surge logo nas primeiras páginas. No meu caso, no ponto de partida: como resistir a um livro que começa com a frase “A minha vida se resume a uma longa e sinuosa curva para o amor”? E dita por um homem, ainda por cima?

O tempo é um atleta batoteiro, toma drogas proibidas, corre mais que todos. E quanto mais o quisermos agarrar, porque resta pouco, mais ele corre. Por isso são sábios os velhos dos kimbos, nunca querem agarrar o tempo, deixam-no passar por eles, as peles devem ser rugosas  e o tempo entranha-se nelas, deslizando com mais dificuldade.

Fenda da Tundavala, fim do Planalto Central de Angola

Conclui a leitura e tive aquele acesso internético que me acomete quando extasia-me alguma novidade: corri a São Google (embora o padroeiro do dia fosse Jorge) e danei a procurar críticas do livro, notícias do autor, talvez alguns dados da fantástica história de amor que atravessa guerras, fronteiras e o mais implacável dos inimigos, o tempo. E que desde o início se apresenta baseada em fatos reais, o que aumenta a curiosidade. Mas recuei e vim  aqui alinhavar minhas impressões ainda frescas e sem influências.

A juventude merece perdão pela sua incredulidade.


Dos poucos africanos que li até agora,  este livro é o mais próximo do português brasileiro, o menos estranho aos ouvidos (o certo talvez fosse aos olhos, não?). Ainda assim tem sotoque, melodioso e sedutor, como costuma soar o português  lusitano que na África se instalou. Ouvir e ler o português de outros países lusófonos é como conversar com um primo  que não conhecíamos, mas com o qual nos entendemos e vislumbramos semelhanças: ancestrais, atuais, ocultas, óbvias, surpeendentes, inexplicáveis.

Planície da Mongólia


Nunca li uma história de amor que me ensinasse tanto sobre política internacional – ou, ao menos, me incitasse a aprender. Acho que é, na verdade,  um romance histórico que não ousa dizer o nome. Afinal, nosso heroi é um angolano que vai estudar em Moscou na década de 1960 para levar o socialismo a seu país e ao mundo; lá apaixona-se por uma estudante, filha de um alto dirigente da Mongólia, que os separa com a truculência típica dos regimes totalitários. O livro termina em 2008; percorre, portanto, as últimas e turbulentas décadas do século passado em palcos de destaque no cenário mundial. Dependendo da idade de quem lê, pode relembrar fatos vividos e esquecidos, ou parecer uma extensa reportagem sobre um passado recente. Um tempo em que ideologia era mais que uma (boa) canção de Cazuza:

Como constataria mais tarde na minha penosa existência, os fiéis deixavam de o ser ao estudarem marxismo e comunismo e enquanto lhes convinha. Mas tempos depois, desiludidos com a vida, abandonavam o marxismo. E regressavam às religiões. Acontecia por vezes de não ser a religião de origem, mas era de qualquer modo uma religiião. Fraquezas, medos, interesses, sei lá.

Não é fácil viver sem Deus.


Matreiro, o narrador, Júlio, inicia seu relato prometendo não se alongar demais  – e , de fato, teria muito mais ainda a contar da trajetória de um colono pobre do sul de Angola que chega a general depois de lutar pela independência. Porém, ainda que conciso, relata suas memórias desde a infância em Tudavala até os últimos momentos, sendo o amor por Sarangerel o caroço de sua vida e do livro. Nos afeiçoamos a seus amigos, odiamos seus opressores,  e em certa medida amamos aquele amor dolorosamente perene. Junto com ele cremos nas utopias – ou lembramos de quando acreditávamos – e vamos com ele aparando inocências, restando apenas uma raiz de esperança.

É um livro belíssimo, uma aula de história bem ministrada com  reflexões sobre vida, morte, doutrinas, culturas, tudo isso sem deixar de ser uma comovente história de amor. Que seduz o leitor nas primeiras páginas e quando você se dá conta, pronto: também  já caiu de amores.

Ouvi apenas. Porque pensar, reconhecer, perceber, reparar se tinham tornado acções impossíveis: Sarangerel estava à minha frente.

Morri ou renasci? Haverá diferença?

O Planalto e a Estepe, Pepetela, Editora LeYa

(Leia o primeiro capítulo no site do autor )

Helê

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